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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.3 Porto Alegre May/June 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000300015 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Impacto do método canguru nas taxas de aleitamento materno exclusivo em recém-nascidos de baixo peso

 

 

Honorina de AlmeidaI; Sonia I. VenancioI; Maria Teresa C. SanchesI; Daisuke OnukiII

IDoutora, Pesquisadora, Instituto de Saúde - Instituto de Pesquisa, Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo (SES-SP)
IIProfessor, Relações Internacionais, Universidade Tokai, Tóquio, Japão

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar o impacto do método canguru sobre o aleitamento materno exclusivo nos 6 primeiros meses de vida em recém-nascidos de baixo peso.
MÉTODOS: Estudo prospectivo realizado com 43 bebês (23 do grupo canguru e 20 do grupo-controle) com peso < 2.000 g e permanência na unidade neonatal por pelo menos 7 dias. Os grupos foram comparados quanto à frequência da amamentação exclusiva até o sexto mês de vida, utilizando-se o teste do qui-quadrado, adotando-se nível de significância de 0,05.
RESULTADOS: A amamentação exclusiva foi superior no grupo canguru à alta (82,6 versus 0%; p = 0,00), às 40 semanas de idade gestacional (73,9 versus 31,6%; p = 0,01), aos 3 meses (43,5 versus 5,0%; p = 0,005) e aos 6 meses (22,7 versus 5,9%; p = 0,20) de vida.
CONCLUSÃO: O método canguru foi facilitador da amamentação exclusiva para bebês de baixo peso até o sexto mês de vida.

Palavras-chave: Método canguru, aleitamento materno exclusivo, baixo peso ao nascer.


 

 

Introdução

Recém-nascidos de baixo peso ao nascer frequentemente necessitam de cuidados especiais no período neonatal1, além de apresentarem maior risco de mortalidade e morbidade no primeiro ano de vida2,3. No entanto, apesar dos conhecidos efeitos benéficos do aleitamento materno (AM)4, sua prevalência nesse grupo é muito baixa quando comparada à de bebês de termo, nascidos com peso adequado5,6. Essa situação pode ser, em parte, explicada pelas rotinas neonatais centradas no cuidado técnico, que desestimulam a permanência da mãe na unidade neonatal e dificultam a amamentação.

O método canguru (MC) mostrou ser efetivo no aumento das taxas de AM em recém-nascidos de baixo peso em diferentes estudos7-10. Entretanto, como existem poucos dados sobre a manutenção do aleitamento materno exclusivo (AME) após a alta hospitalar, a proposta deste estudo foi avaliar o impacto do MC sobre as taxas de aleitamento materno exclusivo nos primeiros 6 meses de vida em recém-nascidos de baixo peso ao nascer.

 

Métodos

Este estudo integrou o projeto "Diagnóstico da evolução de recém-nascidos de baixo peso no Hospital do Campo Limpo antes a após a implantação do Método Canguru", realizado pelo Instituto de Saúde, Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo (SES/SP), com apoio da Agência de Cooperação Internacional do Japão (Japan International Cooperation Agency, JICA), em 2004/2005.

Trata-se de um estudo observacional prospectivo do tipo antes e depois, com recém-nascidos de baixo peso acompanhados até os 6 meses de idade, antes e após a implantação do MC. Foi realizado em um hospital público municipal situado na região sul de São Paulo (SP), referência para gestações de risco, com cerca de 350 partos/mês, dos quais 12% são de recém-nascidos de baixo peso. Antes da implantação do MC, o hospital já contava com banco de leite humano (BLH) e adotava condutas facilitadoras para o aleitamento materno visando à obtenção do título de Hospital Amigo da Criança. O MC foi implantado conforme as diretrizes do Ministério da Saúde11.

Os critérios de inclusão foram: peso de nascimento < 2.000 g (ou peso < 2.000 g durante a internação na unidade neonatal), permanência na unidade por no mínimo 7 dias e aceitação das mães em participar do estudo. Entre 1º de janeiro e 31 de março de 2004, previamente à capacitação da equipe para a implantação do MC, foram incluídos no grupo-controle (G1) 20 dos 21 bebês (95,2%) elegíveis. Após a implantação, entre 1º de agosto e 31 de outubro, foram incluídos 23 dos 39 bebês elegíveis (59%) para o grupo canguru (G2). No G1 houve uma perda por recusa da mãe em participar do estudo. No G2, dos 39 bebês elegíveis, 23 foram incluídos: duas mães se recusaram a participar do estudo e 14 bebês não puderam ser incluídos no MC devido à superlotação da unidade neonatal.

A coleta de dados sobre antecedentes gestacionais e situação socioeconômica da família foi realizada mediante utilização de questionário semiestruturado aplicado às mães. As informações sobre alimentação e peso dos bebês durante a internação foram coletadas dos prontuários, e os dados após alta, nas avaliações ambulatoriais na idade de 40 semanas de idade gestacional, 3 e 6 meses de idade cronológica. Durante a internação e após a alta, todas as mães receberam suporte da equipe do BLH, prática já adotada no hospital. Foram considerados em AME os bebês que receberam somente leite materno, segundo a definição da Organização Mundial da Saúde (OMS)12. A definição de AME à alta levou em consideração a dieta nos 3 dias imediatamente anteriores.

Procedeu-se à análise comparativa dos grupos em relação às características materno/familiares dos bebês e ao tipo de aleitamento. As variáveis quantitativas foram analisadas segundo o teste t de diferença de médias para amostras independentes, e as variáveis categóricas, segundo o teste de qui-quadrado. Em ambos os casos, o nível de significância estatística de 0,05 foi adotado. Os dados foram digitados no programa Epi Data e, após análise de consistência, analisados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 10.0.

O estudo foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa do Hospital do Campo Limpo e do SES/SP. Os bebês foram incluídos no estudo após a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido pelas mães/responsáveis.

 

Resultados

Dos 43 bebês que iniciaram a pesquisa, 36 foram acompanhados até os 6 meses de vida, 16 do G1 e 20 do G2. Um bebê do G1 faleceu de pneumonia antes do primeiro retorno ao ambulatório, e as demais perdas foram devidas ao não comparecimento das mães às consultas. Uma análise comparativa dos grupos foi realizada conforme se apresenta na Tabela 1.

Observa-se que a maioria das mulheres mantinha relação estável, renda familiar média de 2,5 salários-mínimos por mês e que 2/3 receberam orientação sobre AM no pré-natal, de forma semelhante nos dois grupos. Em relação às condições de nascimento dos bebês e início do AM não houve diferença significativa. No entanto, no G2 houve predominância de mães com maior escolaridade, primigestas e que não trabalhavam fora. Os bebês do grupo canguru iniciaram a sucção no peito em média 3 dias antes que os bebês do G1.

Na Figura 1, observa-se que, enquanto no G1 nenhum bebê recebeu alta em AME, no G2 isso ocorreu em 82,6% dos casos. Houve maior prevalência de AME no G2 às 40 semanas, 3 meses e 6 meses, sendo as diferenças estatisticamente significantes à alta hospitalar, às 40 semanas e aos 3 meses de vida.

 

 

Discussão

Verificou-se, neste estudo, maior frequência de AME nos bebês cujas mães participaram do MC quando comparados àqueles que receberam atenção neonatal convencional.

Algumas limitações, no entanto, devem ser consideradas. A primeira refere-se à não randomização dos bebês devido à opção pelo desenho de avaliação antes e após a implantação do MC para evitar problemas de ordem ética (oferecer assistência diferenciada para uma parte da população do mesmo serviço) e operacional (dificuldades da equipe e mães quanto à existência de dois tipos de assistência simultaneamente). Outra se refere ao tamanho da amostra, restrita ao período estabelecido pelos gestores para a realização do projeto. Apesar de não terem sido detectadas diferenças significativas entre os grupos, os dados mostraram tendência das mães do G2 a apresentarem maior escolaridade, não trabalharem fora, serem primigestas e os bebês terem iniciado sucção no peito antes dos bebês do G1, o que poderia influir no melhores índices de AME12. Somam-se a isso as perdas de seguimento (16%).

Os dados de AME à alta hospitalar corroboram os resultados de Lamy et al.13 em estudo prospectivo multicêntrico com 985 bebês com peso de nascimento entre 500 e 1.749 g envolvendo oito centros de referência para o MC e oito hospitais com assistência convencional de excelência. Os bebês que participaram do método apresentaram chance 2,34 vezes maior de serem amamentados exclusivamente no momento da alta hospitalar. Brito14 também verificou, em estudo comparativo, que à alta hospitalar os bebês que realizaram o método apresentaram uma chance 37 vezes maior de AME. Com 2 meses, a chance era de 15 vezes e, aos 3 meses, 4 vezes maior.

Com 40 semanas de idade gestacional, 70% dos bebês do G2 estavam em AME. Aos 3 meses, os resultados mostraram que, enquanto o AME nos bebês do G1 tinha diminuído drasticamente, chegando a 5%, nos bebês do G2 se mantinha acima de 40%. Lima et al.10 e Penalva & Schwartzman9 mostraram prevalências em torno de 60% de AME aos 3 meses de idade nos bebês submetidos ao método.

Com 6 meses de vida, embora não tenha sido observada diferença estatisticamente significativa entre os grupos, notou-se tendência consistente à maior prevalência do AME no grupo canguru.

As melhores taxas de AM encontradas neste e outros estudos sobre o MC8 poderiam ser explicadas pelo estímulo ao AM, um dos pilares do método. O efeito desse modelo de assistência humanizada, que preconiza a presença da mãe junto ao bebê, valorização do cuidado materno e o contato pele a pele, mostrou ser fundamental para esse desfecho7. Em unidades com cuidados convencionais, tentativas de incentivar o AM, por si sós, não se mostraram efetivas para aumentar a prevalência do AM a longo prazo15. Também, o acolhimento da família, isoladamente, melhorou as taxas de aleitamento16, mas o MC se mostrou mais efetivo para aumentar a prevalência do AME a curto e médio prazo8,17.

Apesar das limitações do estudo, conclui-se que o MC foi fator facilitador do AME para recém-nascidos de baixo peso tanto na maternidade quanto ao longo dos primeiros 6 meses de vida. Tendo em vista o potencial impacto do AME sobre a morbidade e mortalidade nesse grupo populacional, espera-se que esses resultados incentivem outros pesquisadores a realizar estudos com amostras mais robustas, bem como gestores e profissionais de saúde, quanto à adoção do MC em nosso meio.

 

Agradecimentos

Agradecemos à Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, à JICA, e principalmente à equipe do Hospital Municipal do Campo Limpo, que participou intensamente no processo de implantação do MC na unidade neonatal.

 

Referências

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Correspondência:
Honorina de Almeida
Rua Caropá, 536 - Vila Beatriz
CEP 05447-000 - São Paulo, SP
Tel.: (11) 3031.6751, (11) 3031.8439, (11) 9945.1842
E-mail: honorina.almeida@terra.com.br

Artigo submetido em 03.07.09, aceito em 11.12.09.

 

 

Este trabalho foi realizado no Instituto de Saúde - Instituto de Pesquisa, Secretaria Estadual de Saúde do Estado de São Paulo (SES/SP).
Financiamento: Agência de Cooperação Internacional do Japão (Japan International Cooperation Agency, JICA).
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: de Almeida H, Venancio SI, Sanches MT, Onuki D. The impact of kangaroo care on exclusive breastfeeding in low birth weight newborns. J Pediatr (Rio J). 2010;86(3):250-253.