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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000400015 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sibilância em crianças e adolescentes vizinhos a uma indústria petroquímica no Rio Grande do Norte, Brasil

 

 

Ana Claudia Lopes de MoraesI; Eliane IgnottiII; Paulo Artaxo NettoIII; Ludmilla da Silva Viana JacobsonIV; Hermano CastroV; Sandra de Souza HaconVI

IDoutoranda, Saúde Pública e Meio Ambiente, Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro, RJ
IICo-orientadora, Professora, Epidemiologia, Universidade do Estado de Mato Grosso (UNEMAT), Cáceres, MT, Programa de Mestrado e Doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente, ENSP, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ
IIIInstituto de Física, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP
IVPrograma de Mestrado e Doutorado em Saúde Pública e Meio Ambiente, ENSP, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ
VCentro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, ENSP, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ
VIOrientadora, Pesquisadora titular, Programa de Mestrado e Doutorado, Saúde Pública e Meio Ambiente, ENSP, Fiocruz, Rio de Janeiro, RJ

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a associação entre relato de sibilância em crianças e adolescentes e o local de residência em relação à dispersão dos poluentes atmosféricos emitidos pelo Pólo Petroquímico (PPQ) de Guamaré (RN).
MÉTODOS: Estudo transversal de relato de sibilância em crianças e adolescentes de 0 a 14 anos de idade, residentes no entorno do PPQ de Guamaré, em 2006. Foi utilizado o questionário padronizado do International Study of Asthma and Allergies in Childhood, acrescido de questões relativas ao tabagismo, renda, moradia e escolaridade. Concentrações diárias de PM10, PM2,5, carbono grafítico, SO2, NO2, O3, benzeno, tolueno e xilenos foram medidas em uma estação de monitoramento fixa. As comunidades residentes na área de influência das emissões do PPQ foram classificadas, segundo a direção preferencial dos ventos, em expostas e de referência.
RESULTADOS: Participaram do estudo 209 crianças e adolescentes. As concentrações médias diárias dos poluentes monitorados mantiveram-se abaixo dos limites estabelecidos nos padrões de qualidade do ar. A prevalência de sibilos nos últimos 12 meses foi de 27,3%. Associações estatisticamente significantes com sibilos nos últimos 12 meses foram verificadas mesmo após ajustamentos para comunidades expostas [razão de chances (odds ratio, ORajust) = 2,01; intervalo de confiança de 95% (IC95%) 1,01-4,01], gênero masculino (ORajust = 2,50; IC95% 1,21-5,18) e idade de 0 a 6 anos (ORajust = 5,00; IC95% 2,41-10,39).
CONCLUSÃO: Mesmo em baixas concentrações de poluentes atmosféricos, a ocorrência de sintomas respiratórios em crianças e adolescentes nas comunidades no entorno de um PPQ esteve associada a residência na direção preferencial dos ventos, mostrando-se mais vulnerável o grupo de pré-escolares do gênero masculino.

Palavras-chave: Sibilância, crianças, adolescentes, poluição atmosférica, petróleo.


 

 

Introdução

Os principais poluentes atmosféricos liberados pelas refinarias de petróleo são óxidos de enxofre e nitrogênio (SOx e NOx), monóxido de carbono (CO), materiais particulados (particulate matters, PM) e hidrocarbonetos1. Esses poluentes têm sido associados a efeitos à saúde, especialmente efeitos respiratórios, em grupos mais vulneráveis, como crianças2-5 e asmáticos6.

Estudos têm reportado associações entre a proximidade de residências a rodovias e indústrias e desfechos respiratórios em crianças, incluindo sintomas como sibilância e exacerbação de asma7-9. Smargiassi et al.8 relataram episódios de elevação dos níveis de dióxido de enxofre (SO2) liberados por uma refinaria no Canadá, associados com o aumento de episódios de asma em crianças residentes no entorno. Wichmann et al.9 reportaram que crianças vizinhas a uma planta petroquímica na Argentina apresentavam maior prevalência de asma, sintomas respiratórios e redução da função pulmonar do que crianças de outras localidades.

A identificação precoce de sibilância recorrente é importante pela redução da função pulmonar e da gravidade da expressão da doença na infância, que pode permanecer na idade adulta10-12. Para menores de 5 anos de idade, o diagnóstico da asma é complexo, e a abordagem é feita por meio de sintomas de sibilância13. Sibilos nos últimos 12 meses e fatores de risco associados têm sido utilizados para a avaliação de prevalência de asma em estudos epidemiológicos14,15. Dentre os fatores ambientais associados, a exposição a poluentes atmosféricos tem sido discutida6,15,16.

Pouco se conhece a respeito dos impactos à saúde de crianças brasileiras residentes no entorno de unidades da indústria petroquímica, tornando relevante o desenvolvimento deste estudo. Trata-se de um produto do projeto de pesquisa "Avaliação do impacto socioambiental das emissões atmosféricas e seus reflexos na saúde da comunidade no entorno", realizado através de uma parceria entre o Pólo Petroquímico (PPQ) de Guamaré (RN), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rio de Janeiro (RJ), e a Universidade de São Paulo (USP), São Paulo (SP).

O objetivo deste estudo foi verificar a associação entre relato de sibilância em crianças e adolescentes e o local de residência em relação à pluma de dispersão dos poluentes atmosféricos emitida pelo PPQ de Guamaré.

 

Métodos

Desenho de estudo

Estudo transversal de relato de sibilância em crianças e adolescentes residentes no entorno do PPQ de Guamaré, no estado do Rio Grande do Norte, em 2006.

População e área de estudo

Foram incluídas no estudo todas as crianças e adolescentes de 0 até 14 anos, 11 meses e 29 dias de idade, residentes há no mínimo 1 ano dentro de um raio de 5 km do PPQ, no ano de 2006. Em razão de todos os participantes serem menores de idade, foi necessário o preenchimento do termo de esclarecimento livre e esclarecido pelos responsáveis, concordando em participar do estudo. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fiocruz (protocolo nº 153/06).

O raio de influência foi definido a partir de estudos similares levantados na literatura1,17. A área de estudo compreendeu as cinco comunidades localizadas no entorno do PPQ, que produz gás de cozinha, gás industrial, óleo diesel, querosene de aviação, nafta e gasolina. Fez parte do universo de análise um total de 209 crianças residentes nas comunidades de Lagoa Doce (A), Mangue Seco I (B), Mangue Seco II (C), Ponta de Salina (D) e Salina da Cruz (E).

O município de Guamaré, com 259 km2, localiza-se no litoral norte do Rio Grande do Norte, a 180 km de Natal, capital do estado, latitude 5° 06' 27" sul e longitude 36° 19' 13" oeste, 3 m acima do nível do mar. Limita-se ao norte com o Oceano Atlântico18.

A população estimada em 2006 foi de 9.678 habitantes, sendo 49% do gênero feminino e 51% masculino. Destes, 56% vivem na área rural. O índice de desenvolvimento humano (IDH) em 2000 era de 0,64519.

O clima do município é quente e semi-árido, com estação chuvosa de fevereiro a maio, com médias anuais de umidade relativa de 68%, precipitação pluviométrica de 711 mm e temperatura de 27,2 °C18.

Dados ambientais

Foi instalada uma estação de monitoramento da qualidade do ar com medidas contínuas em tempo real e uma estação meteorológica de 27 de março a 18 de julho de 2006, incluindo períodos de chuvas e estiagem. Foram monitoradas as concentrações dos poluentes atmosféricos PM10, PM2,5, carbono grafítico (black carbon, BC), SO2, dióxido de nitrogênio (NO2), ozônio (O3), benzeno, tolueno e xilenos (BTX). A estação foi instalada distando aproximadamente 4 km do PPQ, com a direção predominante do vento no sentido do PPQ para a estação. O local de instalação da estação baseou-se em dados históricos dos últimos 5 anos da estação meteorológica fixa implementada pela direção do PPQ e em características topográficas do local (plano e sem obstáculos).

Considerando que o número de veículos na área é pequeno e não há outra indústria na região, as medidas de contaminantes na estação de monitoramento foram atribuídas ao PPQ.

Dados de saúde

Foi utilizado o módulo de asma do questionário escrito (QE) da Fase I do International Study of Asthma and Allergies in Childhood (ISAAC)20, padronizado internacionalmente para a identificação de asma em escolares e adolescentes e validado no Brasil21,22. Recomenda-se a utilização do questionário desenvolvido para o Estudo Internacional de Sibilâncias em Lactentes (EISL)23 para crianças menores de 3 anos de idade. No entanto, em razão do pequeno número populacional na faixa etária de interesse, optou-se pelo questionário ISAAC, que valoriza principalmente informações relativas à sibilância.

Foram acrescentadas questões sobre renda familiar e individual, tipo de domicílio, escolaridade do responsável, exposição na agricultura, uso de outra fonte de energia e exposição domiciliar ao tabaco.

Foram consideradas questões sobre sintomas respiratórios, gravidade e diagnóstico médico de asma. O QE foi aplicado nos domicílios por entrevistadores selecionados entre os agentes de saúde locais, sendo respondido pelos pais ou responsáveis. O controle da qualidade dos dados foi feito pelo treinamento, supervisão, revisão dos questionários e dupla digitação.

Variáveis em estudo

Foram investigados sibilos, asma diagnosticada ou asma alguma vez na vida, tosse seca noturna na ausência de infecção respiratória, frequência de crises de sibilos nos últimos 12 meses e a frequência de sibilos impedindo o sono, bem como variáveis demográficas, socioeconômicas, condições de moradia, saneamento e exposição domiciliar a fontes de energia e tabagismo.

Para a análise multivariada, a idade foi categorizada em crianças de 0 a 6 anos (pré-escolares) e de 7 a 14 anos (escolares e adolescentes). A única criança negra foi incluída no grupo dos pardos, dentre as categorias definidas para raça em parda e branca. O nível socioeconômico foi definido pela renda total da família, categorizada em tercis de salários mínimos, e pela renda per capita (até R$ 45,00; de R$ 45,00 a R$ 100,00; e R$ 100,00 ou mais por pessoa); a escolaridade do responsável foi estratificada em não alfabetizado/alfabetizado e ensino fundamental/médio.

As condições de exposição domiciliar e situação de moradia foram analisadas pelas variáveis relacionadas ao ambiente doméstico (número de cômodos e quantas pessoas residem na casa), saneamento básico (água e destino do lixo doméstico) e produção agrícola. As variáveis relacionadas ao ambiente doméstico incluíram a variável número de moradores por cômodo, estratificada em até 2 ou 2 e mais moradores por cômodo. As variáveis de saneamento foram estratificadas em função de as moradias possuírem ou não atendimento pela rede pública de distribuição de água e coleta de lixo.

Foi investigado tabagismo no domicílio e na gestação, assim como o uso de outra fonte de energia para iluminação. O uso de lenha para cozinhar não foi investigado em razão das comunidades receberem o vale-gás.

Em relação à exposição ambiental, as comunidades foram classificadas de acordo com sua localização em relação ao PPQ e com a direção predominante dos ventos. Aquelas na direção predominante dos ventos e sujeitas a maior influência da pluma de origem do PPQ (A, B, C) foram classificadas como comunidades expostas (CE), e aquelas fora da direção predominante dos ventos, com menor influência da pluma do PPQ (D, E), como comunidades de referência (CR). Os resultados do monitoramento de poluentes representam os níveis aproximados de exposição das CE.

Como proxy de exposição foi utilizada a comunidade de residência categorizada segundo a direção preferencial dos ventos. Para avaliação dos desfechos de saúde, foi utilizado um período recordatório de 12 meses, para diminuir o viés de memória e por independer da sazonalidade15.

Análise dos dados

Foram considerados os valores médios diários dos contaminantes ambientais monitorados no período do estudo e comparados com padrões de qualidade do ar estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS)2, porque estes são mais rígidos do que os padrões da Resolução 003/1990 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA)24.

Utilizou-se o teste do qui-quadrado para comparar as diferenças de proporções da prevalência de sintomas de asma segundo gênero, ao nível de significância de 5%. A resposta afirmativa à questão sobre a presença de sibilos nos últimos 12 meses foi utilizada como variável dependente nas análises bivariada e multivariada. Para tanto, foram criadas duas categorias de estudo, a saber: com sibilo no último ano (CSA) e sem sibilo no último ano (SSA). Foram estimados valores de razão de chances (odds ratio, OR) bruta na análise da associação do sintoma de asma com as variáveis em estudo. Na análise multivariada, através de regressão logística, foram incluídas as variáveis que atingiram o nível de significância de até 20%, e foram considerados estatisticamente significantes os modelos com intervalo de confiança de 95% (IC95%). Os dados foram analisados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) versão 16.0.

 

Resultados

Verificaram-se valores médios de concentração de PM, BC e gases abaixo dos níveis dos padrões de qualidade do ar estabelecidos pela OMS (Tabela 1). As concentrações médias diárias de PM2,5 na área do estudo foram de 4,9 (±2,5) µg/m3, e de PM10, 9,8 (±7,7) µg/m3. As concentrações médias de BC foram de 0,18 (±0,20) µg/m3. Em relação aos gases, as concentrações médias de O3 foram 10,13 (±4,99 ppb), de SO2 foram menores que 2,5 µg/m3, e de NO2, 5,48 (±4,75 ppb). Os valores médios de BTX foram, respectivamente, 32,4 (±9,9) µg/m3, 18,8 (±20,1) µg/m3 e 18,1 (±10,7) µg/m3.

Foram avaliadas 209 crianças e adolescentes, sendo 56% do gênero masculino; 15,6% tinham idade de 0 a 1 ano, 33,5% de 2 a 6 anos, 17,2% de 7 a 9 anos e 34,0% de 10 a 14 anos. A Tabela 2 reúne as frequências de respostas afirmativas às questões do ISAAC, estratificadas por gênero. A prevalência de sibilos alguma vez na vida foi 39,9% mais elevada entre os meninos (42,2 e 37,0%; IC95% 33,2-46,9). A prevalência de sibilos no último ano foi de 27,3%, também mais elevada entre os meninos (33,3 e 19,6%; IC95% 21,4-33,8). O diagnóstico médico de asma (asma alguma vez na vida) foi apontado em 21,1% da população de estudo, com predomínio entre os meninos (23,1 e 18,5%; IC95% 15,7-27,2). Foram verificadas diferenças estatisticamente significantes entre os gêneros no que se refere à presença de sibilos nos últimos 12 meses (qui-quadrado = 6,51; p = 0,011) e ao relato de 1 a 3 crises nos últimos 12 meses (qui-quadrado = 7,28; p = 0,007).

A Tabela 3 apresenta os resultados das análises bivariadas entre a variável dependente (sibilos nos últimos 12 meses) e variáveis relacionadas às características demográficas, exposições domésticas e ambientais, renda, escolaridade do responsável, saneamento e características do domicílio. A probabilidade de ocorrência de sibilo no último ano nas CE foi 81% maior que nas CR, com IC95% 0,94-3,50.

Os indivíduos do gênero masculino tiveram probabilidade duas vezes maior de apresentar sibilos no último ano quando comparados ao feminino (ORbruta = 2,06; IC95% 1,03-4,12). A probabilidade de apresentar sibilos decresceu com o aumento da idade. Em relação à raça, os brancos tiveram 43% menor probabilidade de apresentar sibilos, embora sem significância estatística (p = 0,100). Quanto às variáveis relacionadas à exposição ao tabagismo domiciliar e na gestação, não foram verificadas associações estatísticas (ORbruta = 0,98; IC95% 0,48-2,0 e ORbruta = 0,68; IC95% 0,25-1,78, respectivamente).

As variáveis relacionadas à utilização de outra fonte de energia para cozinhar ou iluminar a residência não apresentaram significância estatística, assim como a renda familiar, a renda per capita e escolaridade do responsável e o saneamento.

Aqueles que residem em imóvel com 2 e mais cômodos apresentaram probabilidade 86% menor de apresentar sibilos nos últimos 12 meses do que aqueles que residem em construções de até 2 cômodos (p = 0,000).

Mesmo após ajustamento por idade e gênero, indivíduos residentes nas CE apresentaram probabilidade duas vezes maior de ocorrência de sibilos nos últimos 12 meses do que aqueles residentes nas CR (ORajust = 2,01; IC95% 1,01-4,01).

O gênero esteve associado com sibilos nos últimos 12 meses, tendo os meninos apresentado 2,5 vezes mais sintomas de sibilância do que as meninas (ORajust = 2,5; IC95% 1,21-5,18), ajustado por idade e comunidade de residência.

Quanto à variável idade, após ajustamento por comunidade e gênero, a associação se mostrou significativa (p < 0,000). A probabilidade de apresentar sibilos nos últimos 12 meses foi 5 vezes maior entre as crianças de até 6 anos de idade (pré-escolar) do que entre os escolares e adolescentes (ORajust = 5,00; IC95% 2,41-10,39) (Tabela 4).

 

Discussão

A dispersão da pluma dos poluentes atmosféricos emitidos pelo PPQ de Guamaré permitiu identificar um conjunto de comunidades consideradas expostas a poluentes atmosféricos. Embora os níveis ambientais dos poluentes monitorados durante todo o período do estudo tenham se apresentado abaixo dos limites estabelecidos como padrões de qualidade do ar, sintomas respiratórios em crianças e adolescentes foram mais frequentes no grupo residente nas comunidades aqui classificadas como expostas. Além da localização da comunidade de residência, pertencer ao gênero masculino e ter menos de 7 anos de idade são também fatores de risco para sintomas de sibilância na região do PPQ de Guamaré.

As variações das concentrações médias estiveram dentro dos limites estabelecidos de qualidade do ar, com pequenos e raros picos de concentração que não foram suficientes para ultrapassar esses limites. Tendo em vista que as medidas de efeito à saúde foram coletadas em um único momento, não foi possível estabelecer relação entre esses pequenos picos e efeitos à saúde.

Em relação à utilização de outras fontes de energia, não foi encontrada relação com o desfecho estudado, diferente do estudo de Prietsch et al.11, que reportou um risco 2,6 vezes maior de sibilância recorrente entre aqueles que utilizavam outros combustíveis no ambiente doméstico. Da mesma forma, a aglomeração de moradores no domicílio não se mostrou associada à sibilância, ainda que outros autores tenham verificado probabilidade 59% maior da ocorrência do desfecho em domicílios com duas ou mais pessoas por cômodo11.

A prevalência de sibilância foi maior no gênero masculino, consistente com dados de literatura, provavelmente devido a diferenças na fisiologia das vias aéreas e a maiores limiares de resposta à metacolina12.

Os resultados das medidas de poluentes atmosféricos observados neste estudo mostram valores baixos de exposição, como o estudo de Kalabokas et al.1, que verificou níveis de BTX com concentrações de menor magnitude no entorno da refinaria do que nos centros urbanos gregos. As variações em torno das médias diárias verificadas nos níveis de tolueno chamam atenção, embora em níveis menores que os encontrados em centros urbanos1,25. Entretanto, na atmosfera, os poluentes se apresentam como misturas complexas, devendo ser considerada a possibilidade de efeitos aditivos, sinergistas ou antagonistas4,9.

A localização das comunidades em relação às unidades industriais e à direção dos ventos tem sido utilizada como parâmetro de exposição17. A pluma de dispersão dos poluentes e a localização da comunidade de residência podem explicar a maior prevalência de sibilos no último ano, relato de sibilo alguma vez, e tosse seca noturna maior nas CE do que nas CR. Esses resultados estão de acordo com outros estudos que têm mostrado efeitos respiratórios em crianças, mesmo com variações dentro dos níveis aceitáveis de poluição atmosférica5,26.

Os limites de exposição aos poluentes atmosféricos têm sido discutidos, especialmente em relação à proteção de grupos mais vulneráveis, levando a OMS a estabelecer limites mais restritivos de exposição humana, em 20052. As prevalências de sintomas de sibilância determinadas neste estudo são consistentes com dados de outros estudos, que mostram elevadas prevalências na América Latina, especialmente no Brasil, e ainda maiores nas Regiões Norte e Nordeste27-29.

Wichmann et al.9 utilizaram o QE na determinação de efeitos respiratórios da exposição à poluição petroquímica em 1.212 crianças de 6 a 12 anos, na Argentina. Observaram maiores prevalências no entorno da planta petroquímica do que em áreas urbanas, mesmo quando os níveis de exposição foram similares, sugerindo que, além das concentrações, a fonte e a composição do MP poderiam estar relacionadas à determinação dos efeitos. Solé et al.6 aplicaram o QE em cidades brasileiras para avaliar a relação entre exposição aos poluentes gasosos (O3, CO, NO2 e SO2), condições socioeconômicas e prevalência de sintomas de asma, rinite e eczema em 16.209 adolescentes de 13 a 14 anos. Os resultados foram sugestivos de relação entre mais altas concentrações desses poluentes e prevalência de asma, rinite e eczema, sendo o estado socioeconômico similar entre as cidades. No presente estudo, as condições socioeconômicas das comunidades também foram muito similares, podendo justificar a não associação dessa variável com a prevalência de sibilância, como encontrado em outros estudos27,30.

As comunidades estudadas são homogêneas em relação aos hábitos alimentares, estilo de vida e condições socioeconômicas. Apresentam baixa escolaridade, elevados índices de analfabetismo, precárias condições de saneamento e moradia, carência de serviços públicos e de empregos e baixa renda familiar, por vezes complementada por programas sociais. Essa homogeneidade dificulta a distinção de fatores de associação dos sintomas de sibilância na região do PPQ.

Assume-se, enquanto limitação do estudo, o uso do QE do ISAAC para identificação do grupo dos sintomáticos para sibilância em idades não validadas para a aplicação do mesmo. Entretanto, o QE do ISAAC foi anteriormente utilizado na avaliação de efeitos à saúde da poluição atmosférica em faixas etárias e amostragem diferentes daquelas validadas no país5,9,15.

O presente estudo buscou identificar sintomas que configurem vulnerabilidade (especialmente sibilância) e não estabelecer o diagnóstico de asma. Sabe-se que o QE do EISL inclui maior detalhamento da abordagem de sintomas e agravos respiratórios, como sibilância e bronquite. Sendo assim, é provável que no grupo de menores de 3 anos de idade, parte dos sintomáticos não tenha sido detectada pelo instrumento utilizado. Entretanto, baseado nos resultados de Dela Bianca et al.23, e em razão da ocorrência de perdas prováveis em todas as comunidades, não há invalidação dos achados.

Os achados deste estudo reforçam a relevância do monitoramento da qualidade do ar e da saúde de grupos mais suscetíveis aos efeitos da poluição atmosférica no entorno de unidades industriais, tanto no âmbito da gestão de saúde pública, quanto da gestão de risco e responsabilidade socioambiental da indústria.

Conclui-se que mesmo em baixas concentrações de poluentes atmosféricos, a ocorrência de sintomas respiratórios em crianças e adolescentes nas comunidades no entorno de um PPQ esteve associada às comunidades de residência na direção preferencial dos ventos, mostrando-se mais vulnerável o grupo de pré-escolares do gênero masculino.

 

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Correspondência:
Ana Claudia Lopes de Moraes
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Artigo submetido em 18.01.2010, aceito em 02.06.2010.

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.