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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.86 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572010000400016 

COMUNICAÇÃO BREVE

 

Vitamina E no soro e colostro humanos em condições de jejum e pós-prandial

 

 

Roberto DimensteinI; Ana C. P. MedeirosII; Lahyana R. F. CunhaIII; Katherine F. AraújoIV; Juliana C. O. DantasV; Thamizy M. S. MacedoV; Tânia L. M. StamfordVI

IDoutor, Bioquímica, Professor adjunto IV, Departamento de Bioquímica, Centro de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN
IIFarmacêutica, Mestranda, Curso de Pós-Graduação, Bioquímica, Centro de Biociências, Departamento de Bioquímica, UFRN, Natal, RN
IIIBióloga, mestranda, Curso de Pós-Graduação, Bioquímica, Centro de Biociências, Departamento de Bioquímica, UFRN, Natal, RN
IVNutricionista, Bolsista de apoio técnico, Laboratório de Bioquímica da Nutrição, UFRN, Natal, RN
VAcadêmica, Nutrição, UFRN, Natal, RN
VIDoutora, Nutrição, Professora associada, Departamento de Nutrição, Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Recife, PE

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a concentração de alfa-tocoferol no soro e colostro maternos, seja em condições de jejum ou pós-prandial.
MÉTODOS: Trinta parturientes saudáveis atendidas em uma maternidade pública foram recrutadas para o estudo, e amostras de sangue, colostro em jejum e colostro pós-prandial foram coletadas até 12 horas pós-parto.
RESULTADOS: A concentração sérica de alfa-tocoferol foi de 1.939,8±766,0 μg/dL. O alfa-tocoferol no colostro em jejum, 1.603,4±911,0 μg/dL, e após a refeição, 1.515,0±890,9 μg/dL, não apresentaram diferença significativa (p > 0,05). Houve correlação entre o alfa-tocoferol do colostro na condição de jejum e no pós-prandial (p < 0,05), mas não entre o soro e o colostro.
CONCLUSÃO: A falta de correlação entre o alfa-tocoferol no plasma e no colostro e a correlação entre o alfa-tocoferol no colostro em jejum e no pós-prandial reforçam a hipótese de um mecanismo de controle na passagem desse micronutriente, independente do aporte dietético.

Palavras-chave: Alfa-tocoferol, soro, colostro.


 

 

Introdução

A vitamina E é um termo genérico utilizado para designar oito compostos naturais, sendo o alfa-tocoferol o que possui maior atividade biológica1. Estudos epidemiológicos têm indicado um provável envolvimento da deficiência de vitamina E na patogênese da aterosclerose, diabetes e alguns tipos de câncer, bem como na modulação da inflamação e resposta imune2.

Durante a gestação, a transferência placentária do alfa-tocoferol é limitada, e o feto apresenta baixa concentração circulante dessa vitamina. Após o parto, o leite é de extrema importância para o abastecimento do alfa-tocoferol ao recém-nascido, pois é essencial na defesa contra a toxicidade do oxigênio e auxilia a estimular o desenvolvimento de seu sistema imunológico1.

Crianças recém-nascidas, especialmente as prematuras, podem ser vulneráveis a desenvolver sintomas clínicos tais como anemia hemolítica, hemorragia intraventricular e displasia broncopulmonar em consequência da deficiência do alfa-tocoferol3. Uma boa oferta dessa vitamina para os neonatos é crítica, especialmente para aqueles de baixa renda ou cuja amamentação não esteja garantida4.

O colostro possui uma alta concentração de alfa-tocoferol, atingindo valores seis a sete vezes maiores quando comparado ao leite maduro5; entretanto, o mecanismo de transferência do alfa-tocoferol para a glândula mamária não está completamente entendido.

Existem evidências de que a secreção diária de alfa-tocoferol é limitada em quantidade e independente do volume e teor de gordura do leite produzido6. Assim, devido à importância da vitamina E para o desenvolvimento do lactente, nosso objetivo foi investigar a relação entre o alfa-tocoferol do soro e o presente no colostro, bem como avaliar a influência do momento da refeição (jejum e pós-prandial) sobre a concentração dessa vitamina no colostro.

 

Métodos

O estudo foi do tipo transversal, e a amostragem foi obtida por conveniência, composta por parturientes voluntárias, atendidas na Maternidade Escola Januário Cicco, Natal (RN). O tamanho da amostra foi calculado usando o software Statcalc (Epi-Info, versão 3.5.1), considerando uma média de 250 partos por mês, e para um nível de confiança de 95% (IC95%), estimou-se a amostra mínima de 30 sujeitos como representativa da maternidade. O estudo obteve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal (RN) (Protocolo nº 284/09).

Foram incluídas no estudo, apenas mulheres sem patologias – como diabetes, neoplasias, doenças do trato gastrointestinal e hepáticas, cardiopatias, doenças infecciosas, sífilis e vírus da imunodeficiência humana (human immunodeficiency virus – HIV) positivo –, que tiveram partos a termo e concepto único sem má-formação. As mães informaram não ter feito uso de suplementos vitamínicos contendo vitamina E durante a gestação.

As primeiras amostras de sangue foram coletadas em jejum, sempre no período da manhã, seguindo-se da coleta de 2 mL de colostro também em jejum. Nova coleta de colostro ocorreu 3 horas após o desjejum. Dessa forma, foram realizadas duas coletas de colostro por dia de cada paciente. Essas coletas foram realizadas até 12 horas pós-parto. O colostro foi obtido por expressão manual de uma única mama, no início e no final da mamada, para evitar flutuações no teor de gordura.

Foram coletados 3 mL de sangue em jejum e armazenados em tubo de polipropileno protegido da luz. As amostras de leite e sangue foram transportadas sob refrigeração ao laboratório de pesquisa em Bioquímica da Nutrição, Departamento de Bioquímica, Centro de Biociências, UFRN, Natal. As alíquotas de sangue foram centrifugadas por 10 minutos (500 xg) para separação e remoção do soro. O leite e o soro foram armazenados a -20 ºC até o momento das análises.

As amostras de leite e soro foram extraídas segundo adaptação do método de Ortega et al.7. Para o colostro e o soro, foram utilizadas alíquotas diferenciadas de 2 e 3 mL da fase hexânica, respectivamente. Os extratos foram redissolvidos em 500 μL de etanol (Merck, São Paulo, Brasil), em grau de pureza para cromatografia líquida de alta eficiência, e aplicados 20 μL no cromatógrafo de marca Shimadzu, com bomba LC-20 AT Shimadzu, acoplado a um Detector SPD-20A Shimadzu UV-VIS e Coluna Shim-Pack CLC-ODS (M) 4,6 mm x 15 cm. Os dados foram processados pelo programa LC Solution (Shimadzu Corporation). Para o colostro, a fase móvel utilizada foi metanol: água (97:3), em sistema isocrático com fluxo de 1,5 mL/minuto e comprimento de onda de 292 nm. Para o soro, a fase móvel foi metanol 100%.

A identificação e quantificação do alfa-tocoferol nas amostras foram estabelecidas por comparação da respectiva área do pico obtido no cromatograma com a área do padrão de alfa-tocoferol (SIGMA, St. Louis, EUA). A concentração do padrão foi confirmada pelo coeficiente de extinção específico para alfa-tocoferol (E 1%, 1 cm = 75,8, a 292 nm) em etanol absoluto (Vetec)8.

A concentração de alfa-tocoferol no soro foi expressa em μg/dL. Para alfa-tocoferol no soro: < 499,6 (nível deficiente), 499,6 a 697,7 (nível baixo) e > 697,7 (nível aceitável)9.

Análise estatística

Os valores de alfa-tocoferol foram expressos em média e desvio padrão. Para testar as diferenças entre as médias dos dados numéricos paramétricos, foi utilizado o teste t de Student em amostras pareadas. As diferenças foram consideradas significativas quando p < 0,05. A associação entre variáveis contínuas (concentração de nutrientes no leite e soro) foi determinada pela análise de correlação de Pearson.

 

Resultados

Foram coletadas amostras de 30 mulheres e divididas em três grupos: o soro, o colostro em jejum e o colostro pós-prandial.

A concentração média de alfa-tocoferol encontrada no soro das mulheres foi de 1.939,8±766,0 μg/dL, considerada adequada de acordo com os valores de referência. O alfa-tocoferol no colostro em jejum, 1.603,4±911,0 μg/dL, e após a refeição, 1.515,0±890,9 μg/dL, não apresentaram diferença estatisticamente significativa (p = 0,55).

Nenhuma correlação foi observada entre o alfa-tocoferol no plasma e no colostro, seja na condição de jejum ou pós-prandial. Entretanto, foi observada uma forte correlação entre o alfa-tocoferol do colostro em jejum e o pós-prandial (p = 0,001; r = 0,596). Essa situação foi corroborada quando simulamos a correlação entre o grupo de parturientes, ao dividi-las em função da concentração de alfa-tocoferol presente no soro. Quatorze mulheres possuíam concentração sérica de alfa-tocoferol menor que 2.000 μg/dL, e 16 mulheres, maior que 2.000 μg/dL (Tabela 1). Foi observado que a correlação entre o alfa-tocoferol do colostro em jejum e o pós-prandial era mais forte (p = 0,017, r = 0,621) no grupo com menor alfa-tocoferol no soro do que no grupo de maior concentração (p = 0,029, r = 0,544).

 

Discussão

A idade média das participantes foi de 24 anos, onde 46,3% tiveram parto cesárea, 53,6% tiveram partos normais, e 66,6% possuíam um ou dois filhos.

Os níveis de alfa-tocoferol no soro indicam um bom estado nutricional em vitamina E, refletindo uma alimentação apropriada durante a gestação. Quando a concentração de alfa-tocoferol foi comparada com a de outros estudos, apresentaram médias (1.938,1±766,6 μg/dL) superiores às encontradas em mulheres americanas (1.128,4 μg/dL)10 e de Cuba (1.029,4 μg/dL)11. Uma explicação para os níveis mais altos de alfa-tocoferol sérico encontrado em nosso estudo pode ser devido ao fato de que a dieta americana contém uma maior proporção de gama tocoferol em relação ao alfa-tocoferol12.

No colostro, a concentração de alfa-tocoferol no leite do grupo em jejum (1.603,4±911,0 μg/dL) foi semelhante ao encontrado em Cuba13 e inferior ao encontrado na Alemanha14.

Foi observado que o alfa-tocoferol do colostro na condição pós-prandial não foi significativamente diferente da condição em jejum, ou seja, não ocorreu aumento nos níveis de alfa-tocoferol após o desjejum, indicando que a passagem dessa vitamina é limitada7, ou a quantidade presente na dieta foi insuficiente para provocar o aumento.

A ausência de correlação entre o alfa-tocoferol do soro e o do colostro, seja em jejum ou no pós-prandial, exclui a existência de mecanismos de transferência passiva durante a passagem da vitamina E da glândula mamária para o leite. Provavelmente, devem existir mecanismos de transporte distintos dessa vitamina para a glândula mamária que independem da concentração plasmática15. De fato, a redução de quase 10 vezes na concentração do alfa-tocoferol presente no colostro, em comparação aos níveis presentes no leite de transição e maduro, evidenciam outros mecanismos de transferência1.

A correlação significativa entre o alfa-tocoferol do colostro em jejum e o pós-prandial demonstra que, uma vez ultrapassada a barreira de transporte da glândula mamária e sua consequente secreção láctea, não existirá restrição para essa vitamina nos diferentes momentos da alimentação materna. A correlação mais forte encontrada no grupo com menores níveis de alfa-tocoferol séricos são compatíveis com o achado de Jensen et al.6, que demonstrou, em vacas, que a secreção do alfa-tocoferol do sangue para o leite segue a cinética de Michaelis-Menten para transporte ativo através de membranas. Assim, diante de níveis séricos de alfa-tocoferol mais baixos, os receptores para lipoproteínas não estão totalmente saturados, e todo alfa-tocoferol que chega aos receptores passa ao leite.

As evidências encontradas em condição pós-prandial apontam para uma limitação no transporte de alfa-tocoferol do soro materno para o colostro, levantando a questão da validade de se suplementar a mãe nesse momento pós-parto como estratégia para melhorar o estado nutricional do recém-nascido.

 

Agradecimentos

À Maternidade Escola Januário Cicco, por permitir a coleta de amostras biológicas.

Os dados deste artigo fazem parte do projeto de Pós-Doutorado do primeiro autor.

Apoio financeiro: CNPq edital/Chamada: Pós-Doutorado Sênior - Processo 151899/2008-8.

 

Referências

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Correspondência:
Roberto Dimenstein
Departamento de Bioquímica, Centro de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Av. Senador Salgado Filho, 3000
CEP 59072-970 - Natal, RN
Tel.: (84) 3215.3416, ramal 205
Fax: (84) 3211.9208
E-mail: robertod@ufrnet.br

Artigo submetido em 23.07.09, aceito em 11.12.09.

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Apoio financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) edital/Chamada: Pós-doutorado Sênior. Processo 151899/2008-8.
Este trabalho foi desenvolvido no Departamento de Bioquímica, Centro de Biociências, Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN.