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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.87 no.1 Porto Alegre Jan./Feb. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572011000100010 

ARTIGO ORIGINAL

 

Comparação de técnicas não invasivas para medir a pressão arterial em recém-nascidos

 

Manoel A. S. RibeiroI; Humberto H. FioriII; Jorge H. LuzIII; Jefferson P. PivaIII; Nilza M. E. RibeiroIV; Renato M. FioriV

IMestre, Pediatria. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), Porto Alegre, RS.
IIProfessor associado, Departamento de Pediatria, PUCRS, Porto Alegre, RS.
IIIProfessor adjunto, Departamento de Pediatria, PUCRS, Porto Alegre, RS.
IVMestre, Saúde da Criança. PUCRS, Porto Alegre, RS.
VProfessor titular, Departamento de Pediatria, Faculdade de Medicina, PUCRS, Porto Alegre, RS. Chefe, Serviço de Neonatologia, Hospital São Lucas, PUCRS, Porto Alegre, RS.

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar a pressão arterial pelos métodos do flush, da oximetria de pulso e da oscilometria utilizando o Doppler em neonatos.
MÉTODOS: Foram realizadas medidas de pressão arterial não invasiva utilizando três métodos distintos (flush, oximetria de pulso e oscilometria automática) em três grupos de recém-nascidos selecionados por sorteio: 15 a termo e normais, 16 prematuros estáveis e 14 doentes. Todas as medidas foram filmadas, editadas separadamente, codificadas e analisadas independentemente por três neonatologistas.
RESULTADOS: Realizaram-se 57 medidas por cada método. Os métodos do flush e da oximetria de pulso mostraram melhor correlação com o Doppler do que a oscilometria (coeficiente de correlação 0,89, 0,85 e 0,71, respectivamente, p < 0,01). A diferença entre as médias das medidas, seus respectivos desvios padrão e o intervalo de confiança de 95% quando comparados com Doppler foram: -5,2±7,9 (-21,1:10,7) mmHg com o método do flush; 0,4±8,9 (-17,5:18,2) mmHg com a oximetria de pulso; e 6,4±16,1 (-25,8:8,6) mmHg com a oscilometria. O método do flush mostrou melhor concordância com o Doppler para diagnóstico de hipotensão do que os métodos da oximetria e da oscilometria.
CONCLUSÕES: Os métodos do flush e da oximetria de pulso mostraram-se úteis para medir a pressão arterial sistólica de recém-nascidos, sendo que o método oscilométrico mostrou-se o menos concordante com o Doppler para detectar hipotensão.

Palavras-chave: Hipotensão, pressão arterial sistólica, recém-nascido.


 

 

Introdução

A monitorização da pressão arterial é um componente essencial no manejo de recém-nascidos, especialmente prematuros. Entretanto, vários fatores dificultam sua aferição e interpretação em neonatos: tamanho variável do braço, variação relacionada à idade gestacional e ao peso e sons de Korotkoff dificilmente audíveis1,2.

A monitorização invasiva constitui a forma mais precisa da medida de pressão arterial, porém, envolve a utilização de cateterismo arterial umbilical ou arterial periférico e está associada a complicações como infecção, vasoespasmo e formação de trombos2-7. Por sua vez, a medida da pressão arterial por técnicas indiretas tem sido considerada confiável e consistente se registrada sob condições padronizadas e com um manômetro em bom funcionamento1.

As principais técnicas de monitorização não invasiva são o método Doppler, a oscilometria automática, o método do flush e a técnica da oximetria de pulso2,4,5,8-10. Já foi demonstrado que a pressão arterial determinada pelo Doppler conectado a um manômetro de mercúrio possui uma boa correlação com a monitorização invasiva em recém-nascidos11.

A oscilometria automática encontra-se amplamente difundida nas unidades de tratamento intensivo neonatal (UTIN) em razão de sua praticidade2,12,13. O monitor infla o manguito automaticamente e, enquanto desinfla o sistema, mede a oscilação e a amplitude do pulso, determinando os valores da pressão arterial sistólica e média e calculando a diastólica a partir desses valores4-6,14. Entretanto, protocolos internacionais que avaliam a acurácia e validam o uso dos instrumentos oscilométricos têm demonstrado resultados conflitantes12,15-17.

O método do flush é uma técnica que se caracteriza pelo retorno visual da circulação sanguínea na extremidade distal durante o esvaziamento do manguito do esfigmomanômetro e é facilmente aplicável a um bebê alerta8,10,18. O último estudo sobre essa técnica foi publicado no Brasil há mais de 25 anos19. As limitações desse método seriam: presença de anemia importante, edema, hipotermia e valores de pressão menores do que 20 mmHg20.

A pressão arterial sistólica determinada pela técnica da oximetria de pulso caracteriza-se pelo desaparecimento e/ou retorno da onda na tela do monitor durante a inflação e/ou esvaziamento do manguito21. Os poucos estudos em recém-nascidos utilizando essas técnicas mostraram boa correlação com a monitorização invasiva5,20-22.

Pesquisando na base de dados MEDLINE, não encontramos estudos cegos comparativos entre a monitorização não invasiva da pressão arterial pelo método do flush e pela oximetria de pulso em recém-nascidos.

O objetivo do presente estudo foi comparar, com cegamento dos observadores, a pressão arterial sistólica pelo método do flush, pela oscilometria automática e pela oximetria de pulso com pressão sistólica obtida pelo Doppler com um manômetro de mercúrio.

 

Pacientes e métodos

Realizou-se um estudo transversal, entre dezembro de 2006 e abril de 2007, na UTIN e alojamento conjunto do Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). A amostra era constituída por três grupos: recém-nascidos normais com peso de nascimento superior a 2.000 g e idade gestacional > 35 semanas (grupo I); recém-nascidos prematuros estáveis com peso atual menor que 1.800 g (grupo II); e recém-nascidos prematuros com quadro clínico instável (grupo III). Os recém-nascidos do grupo III eram selecionados entre aqueles que apresentavam pelo menos um dos seguintes critérios: necessidade de pressão positiva contínua em vias aéreas com fração inspirada de oxigênio maior do que 0,3 ou de ventilação mecânica assistida; choque; presença de cardiopatia congênita sintomática; pós-operatório imediato de cirurgia cardíaca; enterocolite necrosante; sinais de sangramento ativo; insuficiência renal; ou hemorragia intracraniana graus III e IV. Foram excluídos os recém-nascidos que utilizavam acesso venoso ou arterial em ambas as extremidades superiores e aqueles cujos pais ou responsáveis legais negaram-se a assinar o consentimento informado.

Todas as medidas da pressão arterial dos recém-nascidos foram realizadas por um dos autores, em sala iluminada. Os recém-nascidos eram colocados em decúbito dorsal plano, aguardando-se até que estivessem calmos, sem utilização de qualquer sedação medicamentosa, exceto naqueles criticamente doentes que possuíam indicação clínica para essas medicações. A frequência cardíaca e a saturação de oxigênio de cada recém-nascido eram registradas continuamente durante as medições.

A utilização do manguito seguia as recomendações internacionais14. Sua largura correspondia a aproximadamente 40% da circunferência média do braço e cobria de 80 a 100% da referida circunferência. O manguito era colocado no braço direito e conectado a um esfigmomanômetro de coluna de mercúrio de mesa (Premium, Glicomed®, São Paulo, SP)14. Nas medidas realizadas pelos métodos do flush e da oximetria de pulso, foram utilizados manguitos neonatais, isentos de látex, de duas vias (Classic-cuf, Critikon Vital Aswers®, Atlanta, EUA), e nas aferições pela oscilometria, de uma via (Classic-cuf, Datascope®, Nova Jersey, EUA).

A mensuração da pressão arterial pelo Doppler foi obtida simultaneamente com cada método a ser testado e consistia na colocação de um receptor portátil (DV-10, Microem®, Ribeirão Preto, SP) com gel condutor na fossa cubital, na qual foi aplicada mínima pressão para obtenção de som audível. A pressão sistólica foi determinada pelo primeiro som do batimento da artéria braquial.

No método do flush, o examinador gentilmente apertava a mão do recém-nascido, com força apenas o suficiente para empalidecer a pele e inflava o manguito até 90 mmHg, conforme técnica descrita anteriormente10. Caso a pulsação persistisse audível pelo Doppler nessa pressão, continuava-se a encher o manguito até aproximadamente 10 mmHg acima do valor em que se observava o desaparecimento da pulsação. Imediatamente, soltava-se a mão do recém-nascido e a pressão do manguito era reduzida de 4 a 6 mmHg a intervalos de 3 a 5 s, até atingir-se a marca "zero" do manômetro. Durante o esvaziamento, a mão era inspecionada com atenção e, quando surgisse alguma mudança na cor da pele (rubescência), registrava-se a pressão marcada pela coluna de mercúrio.

Para realizar a medida da pressão arterial pela oximetria de pulso, conectava-se o sensor do oxímetro de pulso (DX2515, Dixtal®, Manaus, AM) à mão do recém-nascido e realizava-se o mesmo procedimento de insuflação e desinflação do manguito, descrito no método do flush. No momento do retorno do sinal de pulso no visor do oxímetro, registrava-se a pressão mostrada pela coluna de mercúrio21.

Para medir a pressão arterial pela oscilometria, utilizou-se o equipamento automático de pressão não invasiva Accutorr Plus® (Datascope, Mahwah, EUA), recentemente validado para o uso em pediatria23. Para a mensuração simultânea com o Doppler, conectavam-se o medidor oscilométrico e o esfigmomanômetro em coluna de mercúrio de mesa ao manguito de uma via através de uma torneira de três vias (Luer Lock®, Elcam Medical, Bar'Am, Israel).

As medidas da pressão arterial pelo método Doppler foram tomadas simultaneamente às outras técnicas na seguinte ordem: 1) método do flush; 2) método da oximetria de pulso; 3) oscilometria automática. Foi respeitado um intervalo de pelo menos 2 min entre as mensurações. Adotou-se essa sequência para reduzir o manuseio do recém-nascido e facilitar a obtenção e a filmagem de cada mensuração. Para cada recém-nascido, foi realizada uma medida de pressão arterial com cada método. Em alguns recém-nascidos criticamente doentes, foram realizadas medidas sequenciais com todos os métodos em um intervalo compreendido entre 1 e 2 h.

As variáveis principais foram a pressão arterial, determinada pelo flush, a pressão arterial sistólica, determinada pela oscilometria automática, e a pressão arterial sistólica, determinada pela oximetria de pulso. A variável independente foi a pressão arterial sistólica pelo Doppler. Todas as medidas de pressão arterial foram em mmHg. As variáveis secundárias foram hipotensão arterial e o tempo de aferição por cada método. Definiu-se hipotensão quando a pressão sistólica determinada pelo Doppler era inferior a 2 desvios padrão dos valores médios recomendados para os recém-nascidos a termo1 e inferior ao 10º percentil dos valores determinados para recém-nascidos prematuros11.

Todas as medidas eram filmadas e as imagens editadas, codificadas e gravadas ao acaso, em DVD, para evitar a identificação das medidas realizadas. Em todas as aferições, era realizada a filmagem do manômetro de mercúrio com áudio para possibilitar a identificação do som do Doppler. Para o método do flush, a filmagem focava a mão do recém-nascido que estava sendo avaliada; no método da oximetria de pulso, era filmado o display do oxímetro. Os DVD foram avaliados por três neonatologistas não envolvidos nas mensurações. O valor da pressão sistólica para cada método foi determinado pela média dos valores dos observadores. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa da PUCRS e, previamente à inclusão do paciente no estudo, foi obtida a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido.

O tamanho da amostra, de 45 medidas para cada método (15 em cada grupo de pacientes), foi calculado para obter um poder de 90% para detectar uma diferença de pelo menos 5±4 mmHg entre as técnicas. Valores de p < 0,05 foram considerados como significativos.

Para a análise estatística, utilizou-se o software PASW® 17.0 para Windows. As variáveis contínuas são apresentadas como média e desvio padrão. A correlação entre as pressões pelo Doppler e pelos métodos testados foi determinada pela análise de regressão linear de Pearson. O limite de concordância entre as técnicas testadas e o Doppler foi determinado pelo método de Bland-Altman24. Para detectar diferenças entre as variáveis que não possuíam distribuição normal, aplicou-se o teste de Kruskal-Wallis. Para variáveis categóricas aplicou-se o teste do qui-quadrado. O coeficiente de correlação intraclasse (CCI) foi aplicado para verificar a concordância interobservador.

 

Resultados

Foram realizadas 57 medidas em 44 recém-nascidos, sendo 15 medidas em 15 recém-nascidos normais, 18 em 16 prematuros estáveis e 24 em 14 recém-nascidos criticamente doentes. Um recém-nascido prematuro foi incluído em dois grupos: quando criticamente doente, foi incluído no grupo III, e quando estável, no grupo II. As médias da idade gestacional e do peso de nascimento foram, respectivamente, 38±2 semanas e 2.970±636 g para o grupo I, 31±3 semanas e 1.269±361 g para o grupo II e 30±4 semanas e 1.351±852 g para o grupo III.

A mediana e a amplitude interquartil da idade em que foi realizada a verificação da pressão arterial foi de 2 d (8 h a 4 d) para os recém-nascidos normais, 11 d (5 a 16 d) para os prematuros estáveis e 20 (1,4 a 39 d) para os criticamente doentes. O membro superior esquerdo foi utilizado em 14 (24,6%) aferições da pressão arterial. Valores de hemoglobina menores do que 9 g/dL foram observados em 5 (35,7%) recém-nascidos criticamente doentes, nos quais foram realizadas 13 (54,2%) medidas. Não houve dificuldade em se obter a pressão arterial nesses recém-nascidos. Nenhum recém-nascido apresentou hipotermia ou edema de extremidades durante a aferição.

Todos os métodos testados mostraram boa correlação com o Doppler, tendo os métodos do flush e da oximetria de pulso mostrado melhor correlação (Figura 1). Houve uma boa concordância entre as medidas da pressão arterial sistólica pelo Doppler, da pressão arterial pelo método do flush e da pressão arterial sistólica pela oximetria de pulso, enquanto que a pressão sistólica determinada pela oscilometria mostrou maior dispersão (Figura 2). A média das diferenças entre as medidas realizadas pelo Doppler e comparadas com os outros métodos foram -5,2±7,9 [intervalo de confiança de 95% (IC95%) -21,1:10,7] mmHg para o método do flush, 0,4±8,9 (IC95% -17,5:18,2) mmHg para a oximetria de pulso e 6,4±16,1 (IC95% -25,8:38,6) mmHg para a oscilometria (p < 0,001). Especificamente para o grupo III, os dados mostraram uma diferença de -3±10 (IC95% -17:24) mmHg para o método do flush, 4±10 (IC95% -16:24) mmHg para a oximetria de pulso e 8±17 (IC95% -26:42) mmHg para a oscilometria.

Os pulsos foram determinados pelo Doppler em todos os pacientes. A pressão arterial não conseguiu ser aferida pela oscilometria em 7 (12,3%) pacientes, sendo duas medidas em pacientes normotensos. Em 11 medidas tomadas em recém-nascidos hipotensos, em que a pressão arterial sistólica pelo Doppler era < 45 mmHg, a pressão não foi detectada pela oscilometria em quatro medidas e, em outras quatro medidas, o aparelho mostrou valores superiores a 55 mmHg. Por sua vez, a determinação da pressão arterial pelos métodos do flush e da oximetria de pulso foram obtidas em todos os pacientes.

Observou-se hipotensão arterial pelo Doppler nas 18 mensurações realizadas no grupo III. Todas as 18 mostraram também hipotensão pelo método do flush, 16 (89%) pela oximetria de pulso e somente 9 (50%) pelo método oscilométrico.

A intervariabilidade dos resultados foi similar entre os três observadores para o método do flush (CCI = 0,92; IC95% 0,88:0,95), para a oximetria (CCI = 0,96; IC95% 0,87:0,95) e para o Doppler (CCI = 0,90; IC95% 0,87:0,92) (p < 0,001).

O tempo médio de aferição pela oscilometria (44±28 s) foi menor do que pelo método do flush (73±40 s) e pela oximetria de pulso (61±32 s) (p < 0,01).

 

Discussão

Este é o primeiro estudo cego com utilização de filmagem o qual compara métodos de aferição não invasiva da pressão arterial em recém-nascidos. O método do flush mostrou melhor concordância com o Doppler do que a oscilometria automática e a oximetria de pulso para a monitorização da pressão sistólica em recém-nascidos.

A oscilometria automática tem sido amplamente utilizada em UTIN devido a sua facilidade e rapidez em medir a pressão arterial. Entretanto, nosso estudo mostrou que a pressão sistólica determinada por essa técnica superestimou os valores obtidos pelo Doppler na faixa de pressões mais baixas. Outros autores já haviam observado esse fato em recém-nascidos prematuros e de muito baixo peso3,11,25. Importante também é o fato que a oscilometria automática não conseguiu realizar a mensuração da pressão arterial em 12% de nossos pacientes. Essa técnica mostrou ser pouco confiável devido a sua imprecisão, como observado em outros estudos3,5,11,21,26. Além disso, apenas dois modelos de aparelhos oscilométricos foram validados até o presente momento para seu uso em pediatria, um dos quais foi utilizado nesse estudo23,27. Contudo, nenhum monitor oscilométrico teve sua validação para o uso em neonatologia.

Por outro lado, a pressão obtida pelo método do flush mostrou uma boa correlação e valores muito próximos àqueles obtidos pelo Doppler, sugerindo que a pressão do flush represente a pressão arterial sistólica, como relatado em alguns estudos, e não a pressão arterial média, como relatado em outros9,10,19,20. Essas diferenças podem ocorrer devido a pequenas variações nas técnicas de mensuração da pressão arterial pelo método do flush. Em nosso estudo, a deflação do manguito ocorria a cada 3 a 5 s, enquanto que, nos estudos que mostravam que a pressão do flush representava a pressão arterial média, a deflação era contínua, provavelmente levando a um atraso na leitura.

A alta concordância do método do flush com o Doppler para o reconhecimento de hipotensão, mesmo em valores extremamente baixos, sugere que esta técnica é adequada para a monitorização da pressão arterial. Em nosso estudo, não detectamos as limitações desse método descritas por outros autores, provavelmente porque não incluímos recém-nascidos hipotérmicos ou com edema de extremidades20.

Por sua vez, a oximetria de pulso mostrou pressões muito próximas às pressões arteriais obtidas com o Doppler, como em outros estudos5,11,21. Quando comparada ao método do flush, a variabilidade foi semelhante, mas este último detectou maior percentual de hipotensão do que a oximetria de pulso. Como possível desvantagem dos métodos do flush e da oximetria de pulso, ambos requereram alguns segundos a mais para sua realização do que a oscilometria, mas essa demora parece ser pouco significativa na prática.

Nosso estudo pode ter algumas limitações metodológicas. Para evitar o manuseio excessivo, nós obtivemos apenas uma medida por cada método em cada recém-nascido, o que é usual na prática clínica. Diferenças insignificantes em medidas sucessivas da pressão arterial foram descritas com a oscilometria28. Não foi utilizada a pressão arterial invasiva como padrão-ouro, uma vez que o propósito deste estudo foi comparar técnicas não invasivas para determinação da pressão arterial em recém-nascidos, e não seria ético, devido aos riscos, realizar esse procedimento em recém-nascidos normais ou estáveis clinicamente. Além disso, este estudo não contemplou um número maior de prematuros extremos, sobretudo nas primeiras horas de vida ou com quadro de hipotensão grave.

Pode-se concluir que a determinação da pressão arterial pelo método da oscilometria automática foi menos concordante com o Doppler do que pelo método do flush e da oximetria de pulso para o diagnóstico de hipotensão. O método do flush é um método alternativo simples, de fácil aprendizagem e aplicação, necessitando-se apenas um esfigmomanômetro para sua realização. É prontamente adaptável a uma variedade de condições e lugares, como consultórios, ambulatórios e hospitais com precariedade de equipamentos para tratamento intensivo neonatal. Essa técnica pode ser útil quando a pressão arterial não for detectada pela oscilometria, situação não tão infrequente, especialmente em recém-nascidos hipotensos.

 

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Correspondência:
Manoel Antonio da Silva Ribeiro
UTI Neonatal, Hospital São Lucas
Av. Ipiranga, 6690, 5º andar
CEP 90610-000 – Porto Alegre, RS
Tel.: (51) 3472.1317, (51) 3315.4188
Fax: (51) 3339.6474
E-mail: anraquel@terra.com.br

Artigo submetido em 05.08.10, aceito em 15.10.10.

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Ribeiro MA, Fiori HH, Luz JH, Piva JP, Ribeiro NM, Fiori RM. Comparison of noninvasive techniques to measure blood pressure in newborns. J Pediatr (Rio J). 2011;87(1):57-62.