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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.87 no.4 Porto Alegre July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0021-75572011000400015 

ARTIGO ORIGINAL

 

Resultado de pesquisa sobre a frequência de aleitamento materno exclusivo varia de acordo com a forma de abordagem na entrevista

 

 

Marcela M. BeloI; Gabriel B. ServaII; Vilneide B. ServaIII; Malaquias Batista FilhoIV; José N. FigueiroaV; Maria de Fátima C. CaminhaIV

IEnfermeira residente, Saúde da Criança, Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), Recife, PE
IIAcadêmico, Departamento de Medicina, Faculdade Pernambucana de Saúde (FPS), Recife, PE
IIIMestre. Coordenadora, Banco de Leite Humano, IMIP, Recife, PE
IVDoutor(a). Diretoria de Pesquisa, IMIP, Recife, PE
VMestre. Diretoria de Pesquisa, IMIP, Recife, PE

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Comparar a frequência do aleitamento materno exclusivo segundo duas metodologias de abordagem na entrevista.
MÉTODOS: Estudo transversal em amostra de 309 mães de crianças de 0 a 6 meses, com idade mediana de 11 dias, atendidas no Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira entre novembro e dezembro de 2009. Foram testadas duas abordagens na entrevista: na primeira, questionou-se se a mãe ofereceu outros alimentos nas 24 horas anteriores à entrevista; em seguida, se em algum momento da vida da criança foram oferecidos outros alimentos. Utilizou-se o teste de homogeneidade marginal, adotando nível de significância de 5%.
RESULTADOS: De acordo com o recordatório de 24 horas, a frequência do aleitamento materno exclusivo correspondeu a 78,0%. Em relação ao recordatório mais abrangente, foi de 59,2% (p < 0,001).
CONCLUSÕES: A frequência do aleitamento materno exclusivo é superestimada no recordatório de 24 horas, quando comparada à obtida com recordatório mais abrangente.

Palavras-chave: Aleitamento materno, métodos, avaliação.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To compare the frequency of exclusive breastfeeding using two different interview approaches.
METHODS: This was a cross-sectional study of 309 mothers of children aged 0 to 6 months, with a median age of 11 days. Mothers were interviewed at the Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira during November and December of 2009. Two approaches to the interview were tested: firstly, the mother was asked if complementary foods had been given during the preceding 24 hours. Secondly, they were asked if at any point during the child's life any other foods had been given. The marginal homogeneity test was applied and the significance level was 5%.
RESULTS: According to the 24-hour recall, the frequency of exclusive breastfeeding was 78.0%. According to the wider-ranging recall period, the frequency was 59.2% (p < 0.001).
CONCLUSIONS: The frequency of the exclusive breastfeeding is overestimated using the 24-hour recall compared with the whole-life recall.

Keywords: Breastfeeding, methods, evaluation.


 

 

Introdução

Como fonte única de energia e nutrientes, o leite materno assegura o crescimento e desenvolvimento adequados nos primeiros 6 meses de vida1, conferindo, ademais, proteção contra várias doenças e causas de morte, tais como infecções respiratórias, diarreias e doenças carenciais, principalmente nos países mais pobres2-4. Os efeitos benéficos da amamentação estendem-se a todo ciclo vital, reduzindo o risco e a gravidade de ocorrência de problemas que se manifestam tardiamente, como as doenças crônicas não transmissíveis5.

Tendo em vista a importância primordial do aleitamento materno exclusivo (AME) e a grande discrepância dos resultados referentes à sua avaliação, a Organização Mundial de Saúde (OMS) propôs, em 1991, um conjunto de critérios e indicadores para analisar as práticas de alimentação infantil, objetivando padronizar a coleta e a análise de dados e permitir a comparação entre diferentes estudos nacionais e internacionais6. Entre as recomendações, consta a utilização do inquérito recordatório de 24 horas para obter dados sobre as categorias de aleitamento materno6. Contudo, em 2007, a própria OMS ressaltou que o uso do dia anterior como período recordatório poderia superestimar a proporção de crianças amamentadas exclusivamente7, produzindo, assim, um viés na avaliação da frequência da amamentação exclusiva. Nessa perspectiva, o método poderia atuar como uma fonte de variação dos resultados sobre a duração e tipologias do aleitamento materno.

Considerando esses aspectos conflitivos e suas implicações conceituais, normativas e pragmáticas, o presente estudo objetivou a realização de análise comparativa de dois métodos de abordagem para obtenção da informação sobre o aleitamento materno, utilizando a experiência de um centro regional de referência do Ministério da Saúde para a assistência materno-infantil.

 

Métodos

Estudo transversal realizado no ambulatório de puericultura do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (IMIP), Recife (PE), onde são atendidas crianças, em sua maioria, egressas da maternidade do próprio hospital.

O tamanho da amostra foi calculado no módulo StatCalc do Epi-Info 6.04, adotando-se intervalo de confiança de 95% (IC95%) e erro de 4%, admitindo-se prevalência de 15% de AME com duração mínima de 4 meses, conforme dados da III Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher8, resultando em uma estimativa amostral de 306 crianças. No final, a amostra foi de 309 mães de crianças de 0 a 6 meses, incluídas consecutivamente no estudo no período de novembro a dezembro de 2009, após concordarem em participar, assinando o termo de consentimento livre e esclarecido. Não foram incluídas mães de crianças que não chegaram a ser amamentadas exclusivamente nem as que tiveram parto gemelar.

Os dados foram coletados por dois pesquisadores através de entrevistas estruturadas em um formulário contendo variáveis sociodemográficas, compondo o perfil materno, complementado por perguntas sobre condições de gestação e parto, bem como sobre características da própria criança e sua alimentação. Para descrever a situação em relação ao AME, variável dependente de interesse central, foi indagado se a mãe ofereceu alimentos que não fossem o leite materno no dia anterior ao da coleta de dados. Entre esses alimentos, incluem-se água, água com açúcar, chás, sucos de frutas, fórmulas infantis, mingau (preparado de consistência semilíquida à base de leite, acrescido de farinhas, amido e/ou cereal), papas (preparação de consistência pastosa à base de legumes ou frutas ou preparação de consistência pastosa à base de leite, acrescido de farinhas, amido e/ou cereal), sopa, comida de panela, frutas e outros alimentos. Para a segunda forma de abordagem, foi perguntado à mãe se em algum momento da vida da criança foram usados outros alimentos, com exceção do leite materno, referindo-se à idade (meses e dias) da criança investigada no modelo recordatório mais abrangente.

As tipologias do aleitamento materno foram classificadas de acordo com as seguintes categorias propostas pela OMS6:

- Aleitamento materno exclusivo: criança alimentada apenas de leite humano diretamente do peito ou ordenhado, com exceção de medicamentos, vitaminas e minerais prescritos por médicos. Não inclui o uso de água ou de chás como bebida eventual ou rotineira.

- Aleitamento materno predominante: criança alimentada com leite materno complementado apenas com água (adoçada ou não), chás, outras infusões e sucos de frutas.

- Aleitamento materno misto e/ou complementado: criança em aleitamento materno não exclusivo e não predominante, ou seja, criança alimentada com leite materno associado a qualquer tipo de complemento semissólido ou sólido ou outros leites.

A análise estatística foi realizada através do software SPSS para Windows, versão 13.1. Os dados categóricos foram resumidos e agrupados através de distribuição de frequência simples e apresentados em tabelas. Os dados numéricos foram representados através de medidas de tendência central (média e mediana) e de variabilidade [desvio padrão (DP) e intervalo interquartil]. A comparação da frequência das três categorias de aleitamento materno a partir das últimas 24 horas anteriores ao dia da entrevista e do período recordatório mais abrangente foi realizada pelo teste de homogeneidade marginal (Stuart-Maxwell). Para a comparação da frequência da introdução de outros alimentos na dieta das crianças pesquisadas a partir das duas abordagens maternas, utilizou-se o teste de McNemar. Adotou-se nível de significância de 5%.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do IMIP (protocolo nº 1492, 12 de agosto de 2009).

 

Resultados

A idade das crianças variou entre 2 e 180 dias, com mediana de 11 dias (1º quartil = 7 dias e 3º quartil = 39,5 dias); 51,5% eram do sexo masculino. Quanto às características maternas, 75,4% estavam na faixa de 20 a 34 anos, com média de idade de 26,4 anos (DP = 6,3 anos). Viviam sob união consensual, 49,8% das mães. A maioria (73,2%) tinha nove séries ou mais de estudo. A renda per capita familiar foi inferior a meio salário mínimo em 57,7%. As características amostrais acham-se na Tabela 1.

Em relação à frequência do AME, 78,0% estavam em amamentação exclusiva, segundo o recordatório de 24 horas preconizado pela OMS6. Quando se considerou a segunda forma de abordagem (período recordatório mais abrangente), a frequência de AME (59,2%) foi significativamente menor (p < 0,001).

Na Tabela 2, figura a distribuição das tipologias de aleitamento materno avaliadas segundo duas formas de abordagem, bem como os usos alimentares em casos de exclusão de AME. Água, chás, sucos e fórmulas infantis foram as referências mais frequentes, com ocorrências estatísticas diferenciadas nas duas formas de abordagem avaliadas.

 

Discussão

Os resultados da pesquisa ilustram bem a pertinência da questão levantada pela OMS7 sobre o possível viés de superestimação derivado de sua proposta6 de avaliação do aleitamento materno, notadamente em relação ao AME, quando se utiliza recordatório de 24 horas. De fato, ao se aplicar esse instrumento de avaliação, a prevalência de AME (78,0%) difere significativamente dos resultados obtidos na mesma amostra com o método retrospectivo mais abrangente (59,2%), cobrindo todo o histórico anterior à data da entrevista. Quando relativizada (18,9 x 100÷59,2), essa diferença de 18,9% eleva-se para 31,9%, o que representaria uma margem de superestimação bastante elevada. Esse grande diferencial, evidentemente, não pode ser tomado de forma apriorística, uma vez que o método recordatório mais abrangente estaria sujeito a um viés de memória, com risco potencial de subestimação. Essas questões não resolvidas podem responder pela grande variação de resultados das avaliações, em função da variedade de métodos utilizados por diferentes autores8-10.

Ressalta-se que é muito provável que as frequências elevadas de AME aqui relatadas estejam relacionadas ao fato de a amostra ter sido composta predominantemente por crianças com idade muito baixa (percentil 75 de 39,5 dias), uma vez que, na cidade do Recife, dados recentes apontam para uma frequência de 18,6% de AME aos 4 meses e de 6,1% aos 6 meses de vida11.

Embora a questão básica que justifica o estudo esteja centrada nas possíveis distorções de resultados comparativos das duas formas de abordagem da situação do AME, parece pertinente e relevante testar, nos dois modelos, a possível interferência de eventos que implicam nos resultados das duas avaliações, ou seja, as alternativas de uso de produtos que modificam a condição mais ortodoxa do AME, produzindo outras classificações ou tipologias. Nesse sentido, o estudo revela que, de fato, quatro itens são estatisticamente relevantes para a determinação de desfechos alternativos: o uso de água, chás, sucos e fórmulas infantis. Muitos desses registros são aleatórios, circunstanciais, de curta duração, daí o dissenso que se estabelece na visão de muitos autores sobre sua efetiva validade para caracterizar formas de amamentação e, particularmente, para descaracterizar a condição de AME12,13. Não seria apropriado aprofundar essa discussão, mas apenas resgatar sua ocorrência frequente como fator de diferenciação de resultados nos dois métodos de abordagem. No entanto, mais do que diferenças das duas metodologias, com implicações conceituais, em relação à saúde da criança, deve-se considerar o contexto de cada caso. Seria muito diferente, por exemplo, as consequências do uso de água em ambientes de más condições de higiene em relação à situação em que cuidados de limpeza estão assegurados.

Conclusivamente, observa-se que as duas abordagens implicam em diferenças muito significativas na avaliação do AME, e que a incorporação de água, chás, sucos e fórmulas infantis são itens que mais frequentemente interrompem o exclusivismo do leite materno na alimentação das crianças.

 

Agradecimentos

À Fundação de Apoio à Pesquisa (FAPE) do IMIP e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento da pesquisa.

 

Referências

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Correspondência:
Maria de Fátima Costa Caminha
Diretoria de Pesquisa, IMIP
Rua dos Coelhos, 300 – Boa Vista
CEP 50070-550 – Recife, PE
Tel.: (81) 2122.4702
Fax: (81) 2122.4722
E-mail: fatimacaminha@imip.org.br

Artigo submetido em 25.10.10, aceito em 21.03.11.

 

 

Apoio financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundo de Apoio à Pesquisa do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (FAPE/IMIP).
Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Belo MM, Serva GB, Serva VB, Batista Filho M, Figueiroa JN, Caminha MF. Results of research into the frequency of exclusive breastfeeding vary depending on the approach taken in the interview. J Pediatr (Rio J). 2011;87(4):364-8.