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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.88 no.3 Porto Alegre May/June 2012

http://dx.doi.org/10.2223/JPED.2173 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aleitamento materno em crianças menores de 2 anos e situação domiciliar quanto à segurança alimentar e nutricional

 

 

Gisele P. GomesI; Muriel B. GubertII

INutricionista. Universidade de Brasília (UnB), Brasília, DF
IINutricionista, Doutora em Ciências da Saúde. Professora adjunta, Departamento de Nutrição, UnB, Brasília, DF

Correspondência

 

 


RESUMO

OBJETIVO: Verificar a associação entre situação domiciliar quanto à segurança alimentar e nutricional e a prática do aleitamento materno em crianças menores de 2 anos.
MÉTODOS: Foram utilizadas as informações de 1.635 crianças menores de 2 anos que participaram da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde de 2006. O desfecho (aleitamento materno) foi avaliado por meio da informação do consumo alimentar da criança no dia anterior à entrevista e da insegurança alimentar pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar.
RESULTADOS: Aproximadamente 58% das crianças estavam sendo amamentadas e 47% residiam em domicílio com insegurança alimentar. Foi constatada associação entre prática do aleitamento materno e condição de insegurança alimentar domiciliar apenas em crianças maiores de 12 meses. Nessa faixa etária, a prevalência de aleitamento materno foi maior entre as crianças residindo em domicílios com insegurança alimentar e nutricional (41%) quando comparadas às que residiam em domicílios considerados seguros (29%). Não houve associação entre insegurança alimentar e prática do aleitamento materno no primeiro ano de vida ou introdução precoce de alimentos diferentes do leite materno.
CONCLUSÃO: A insegurança alimentar está associada com maior prevalência de aleitamento materno no segundo ano de vida.

Palavras-chave: Aleitamento materno, insegurança alimentar, alimentação infantil.


ABSTRACT

OBJECTIVE: To investigate the association between household food and nutrition security status and breastfeeding among children under 2 years old.
METHODS: Data were analyzed from 1,635 children under 2 years old who had participated in the Brazilian National Demographic and Health Census in 2006. The outcome (breastfeeding) was evaluated according to data on the children's food intake on the day before the interview and food insecurity was assessed using the Brazilian Food Insecurity Scale.
RESULTS: Approximately 58% of children were breastfeeding and 47% were living in households with food insecurity. There was an association between breastfeeding and households in a state of food insecurity, but only for children older than 12 months. In this age group, breastfeeding prevalence was higher (41%) among children living in households with food and nutrition insecurity than those who lived in households considered secure (29%). There were no associations between food insecurity and breastfeeding in the first year of life or early introduction of foods other than breastmilk.
CONCLUSION: Food insecurity is associated with a higher prevalence of breastfeeding in the second year of life.

Keywords: Breastfeeding, food insecurity, infant feeding.


 

 

Introdução

A prática do aleitamento materno, de acordo com as recomendações para cada idade, possui impacto positivo no estado nutricional, na saúde e no desenvolvimento de crianças1-3. Essa prática pode, ainda, proteger lactentes que vivem em domicílios inseguros em relação à alimentação e nutrição; em condições de dificuldade de acesso aos alimentos em quantidade e qualidade suficientes4, o leite materno (como alimento exclusivo ou juntamente com alimentação complementar) é de baixo custo financeiro ao domicílio3.

O Brasil apresenta elevação das prevalências de aleitamento materno5; entretanto, estudos que analisam diretamente a relação entre situação de insegurança alimentar e nutricional domiciliar e amamentação são inexistentes no país. Considerando a hipótese de que entre crianças em insegurança alimentar domiciliar a amamentação pode ser prática mais prevalente, por seu caráter protetor nessa situação, este estudo teve como objetivo verificar a associação entre prática do aleitamento materno entre crianças menores de 2 anos e situação de segurança alimentar e nutricional dos domicílios em que elas residem.

 

Metodologia

Os dados deste estudo são oriundos da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS), realizada em 2006. A pesquisa, transversal de base domiciliar, possui amostragem probabilística complexa, representatividade nacional e abrangeu a população feminina que reside em domicílios particulares localizados em setores comuns de áreas urbanas e rurais das macrorregiões brasileiras6.

O número amostral da PNDS foi de 14.617 mulheres elegíveis, na faixa etária de 15 a 49 anos6. No presente estudo foram utilizadas as informações referentes aos filhos dessas mulheres, menores de 2 anos de idade, correspondendo a 1.635 crianças. Por tratar-se de uma pesquisa domiciliar de amostragem probabilística complexa, para garantia da representatividade nacional foram utilizados fatores de expansão, que fornecem um peso amostral diferente para cada criança. Essa estratégia recupera na amostra as proporcionalidades da população.

Foram analisadas as informações sociodemográficas e o consumo alimentar da criança no dia anterior à entrevista, incluindo o consumo de leite materno. Foram consideradas em aleitamento materno as crianças que estavam recebendo leite materno no momento do estudo. Outros alimentos referem-se a qualquer alimento (sólido ou líquido, incluindo água, chás e outros leites) diferente do leite materno. Foi considerada introdução precoce desses alimentos quando consumidos antes dos 6 meses de idade.

A condição de insegurança alimentar domiciliar foi aferida pela Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA)7. A EBIA é composta de 15 itens que avaliam vários graus da experiência de insegurança alimentar e fome e, de acordo com o número de respostas afirmativas, originam um escore de insegurança alimentar domiciliar. As três categorias originais (insegurança leve, moderada e grave) foram reagrupadas em uma única, sendo todas consideradas insegurança alimentar. Desta forma, os domicílios foram caracterizados de forma dicotômica: em segurança ou insegurança alimentar.

A análise estatística foi realizada utilizando-se o pacote estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) para amostra expandida. As prevalências foram descritas e a tendência linear das associações entre as variáveis foi calculada pelo teste do qui-quadrado, considerando o nível de significância de 5% (p < 0,05) para os resultados obtidos.

A PNDS foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do Centro de Referência e Treinamento DST/AIDS da Secretaria de Estado da Saúde, São Paulo, com o número de protocolo 029/8.

 

Resultados

A Tabela 1 apresenta a descrição das características da amostra. Observa-se que apenas 57,5% das crianças de até 2 anos de idade estavam em aleitamento materno no país. Além disso, 47,2% das crianças investigadas residiam em domicílio sob condição de insegurança alimentar e nutricional.

Foi constatada associação entre prática do aleitamento materno e condição de insegurança alimentar domiciliar apenas em crianças maiores de 12 meses (Tabela 2). Nessa faixa etária, a prevalência de aleitamento materno foi maior entre as crianças residindo em domicílios com insegurança alimentar e nutricional (41,3%) quando comparadas às que residiam em domicílios considerados seguros (29,2%). Não houve associação entre insegurança alimentar e prática do aleitamento materno no primeiro ano de vida ou introdução precoce de outros alimentos. Destaca-se que 70,3% dos lactentes menores de 6 meses em insegurança alimentar domiciliar já estavam recebendo outros alimentos que não o leite materno.

 

Discussão

Entre as crianças estudadas, 47,2% vivenciavam situação de insegurança alimentar em seus domicílios. Tal situação é grave, uma vez que a insegurança alimentar na infância pode gerar déficits de crescimento e desenvolvimento, bem como maior suscetibilidade a doenças e infecções9,10. Neste caso, a prática do aleitamento materno seria crucial para a manutenção de um aporte mínimo de nutrientes necessários e para a proteção contra doenças nessa fase da vida.

Neste estudo, verificou-se que a prática do aleitamento materno foi mais prevalente entre as crianças na faixa etária de 12-24 meses que residiam nos domicílios considerados inseguros sob o ponto de vista alimentar e nutricional se comparadas às residindo em domicílios seguros (p < 0,05). Tal dado  pode indicar que essa é uma estratégia de proteção aos lactentes em condição adversa. Essa mesma situação foi evidenciada, em menor grau e de forma estatisticamente insignificante, entre os menores de 12 meses na situação de insegurança alimentar. Para as crianças em insegurança alimentar domiciliar, o aleitamento materno torna-se especialmente relevante; em condições de dificuldade de acesso aos alimentos, o leite materno, por suas características nutricionais e imunológicas, pode proteger a criança de uma alimentação inadequada ou das consequências de uma privação alimentar contínua11.

A associação entre aleitamento materno e melhorias das condições adversas geradas por uma situação de insegurança alimentar domiciliar foi evidenciada em estudo estadunidense, realizado com mães imigrantes de outros países. Os pesquisadores observaram associação entre prática do aleitamento materno e melhores condições de saúde infantil em domicílios com insegurança alimentar11. Porém, não verificaram associação entre essa prática e condição de segurança alimentar do domicílio11, divergindo dos achados do presente estudo.

A despeito de a prática da amamentação ser incentivada em situação de insegurança alimentar domiciliar, salienta-se que a manutenção da amamentação exclusiva após os 6 meses de idade, ocasionalmente encontrada nesta situação devido à escassez de alimentos, pode gerar impactos negativos na saúde infantil12.

Apesar de no presente estudo a introdução precoce de alimentos diferentes do leite materno (antes dos 6 meses de vida) não ter sido significativamente maior nos domicílios com insegurança alimentar, tal prática caracteriza-se como um risco à alimentação e à saúde dos lactentes1,3,13. O consumo desses alimentos pode prejudicar a amamentação, trazer riscos microbiológicos e/ou aumentar a suscetibilidade às consequências da privação alimentar da condição em que as crianças vivem3,4,10. Um estudo anterior mostra que a introdução precoce de outros alimentos na dieta de lactentes é mais frequente em famílias moradoras de bolsões de pobreza, o que gera risco maior à criança pela falta de condições de obter alimentos adequados14.

Concluindo, o presente estudo permitiu verificar que o aleitamento materno foi prática mais prevalente no segundo ano de vida em crianças que vivem em domicílios sob condição de insegurança alimentar, o que pode indicar ser essa uma estratégia utilizada como proteção à condição adversa de restrição e/ou privação alimentar vivenciada por essas crianças. A condição de insegurança alimentar não determinou diferenças na introdução precoce de outros alimentos.

 

Referências

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Correspondência:
Gisele Pereira Gomes
QSA 16 casa 28
CEP 72015-160 - Taguatinga, Distrito Federal
Tel.: (61) 3352.9472, (61) 9666.2445
E-mail: gisele.gpg@gmail.com

Artigo submetido em 31.03.11, aceito em 09.12.11.

 

 

Não foram declarados conflitos de interesse associados à publicação deste artigo.
Como citar este artigo: Gomes GP, Gubert MB. Breastfeeding in children under 2 years old and household food and nutrition security status. J Pediatr (Rio J). 2012;88(3):279-82.

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