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Jornal de Pediatria

Print version ISSN 0021-7557

J. Pediatr. (Rio J.) vol.89 no.5 Porto Alegre Sept./Oct. 2013

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2013.01.006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Tendências seculares das proporções de nascimentos entre gêneros na América do Sul durante a segunda metade do século XX

 

 

Victor Grech*

Doutor, Pediatra Consultor, Departamento de Pediatria, Mater Dei Hospital, Msida, Malta

 

 


RESUMO

OBJETIVOS: Analisar as tendências seculares e gradientes de latitude na proporção masculino-feminina ao nascimento (M/F: masculinos divididos por total de nascidos vivos) no Continente Sul Americano.
MÉTODOS: Os dados sobre nascidos vivos masculinos e femininos em âmbito nacional, durante um ano por país, foram obtidos da Organização Mundial da Saúde e analisados com tabelas de contingência. O continente foi arbitrariamente dividido em duas regiões: a primeira: de 10º acima da linha do Equador até 20º abaixo da linha Equador (10º N-20º S), e uma segunda abaixo de 20º da linha do Equador (> 20ºS).
RESULTADOS: O estudo analisou 147.773.689 nascidos vivos. Encontrou-se uma tendência crescente M/F na maioria dos países próximos ao Equador (10º N-20º S) (p = 0,004). A análise do período entre 1950 e 1974 não mostrou diferença, porém após este período (1974-1996) encontrou-se um aumento M/F (p = 0,03). Um aumento na proporção M/F foi encontrado em todo o período na região > 20ºS (p < 0,0001). Também foi observado um gradiente de latitude, nascendo mais lactentes masculinos em latitudes mais frias (mais ao sul, > 20ºS) (p < 0,0001).
CONCLUSÃO: A proporção M/F está crescendo na América do Sul, diferentemente do presente declínio na Europa e na América do Norte. Este estudo também mostra que os gradientes de latitude para a proporção M/F são semelhantes àqueles anteriormente publicados na América do Norte, nascendo mais bebês masculinos nas latitudes mais frias, ao contrário das tendências publicadas na Europa. É provável o inter-relacionamento de vários fatores ainda pouco entendidos.

Palavras-chave: Taxa de nascimentos; Lactente, recém-nascido; Proporção entre os gêneros; América do Sul; Nascidos vivos; Taxa de nascimentos/tendências


 

 

Introdução

Em mamíferos, o gênero é determinado na concepção e existe um pequeno excesso de recém-nascidos masculinos,1 A proporção de nascidos vivos masculinos para femininos, em geral, é expressa como a proporção de nascidos vivos masculinos dividida pelo total de nascidos vivos. Embora isso fosse mais precisamente abreviado como M/T (nascimentos de indivíduos masculinos divididos pelos nascimentos totais), aceita-se amplamente (embora seja tecnicamente incorreto) a abreviatura M/F, e assim será usada em todo o trabalho. Para os seres humanos, antecipa-se que a proporção M/F seja de 0,515.2 Não se tem certeza sobre a razão para essa discrepância, mas foram propostos diversos fatores.3

Mostrou-se que a M/F varia no espaço geográfico, exibindo um gradiente de latitude,4 e que esse gradiente é diferente na Europa e na América do Norte, nascendo mais meninos no sul da Europa, diferentemente do continente norte-americano, onde nascem mais meninos no norte.2

Vários estudos também têm mostrado que M/F varia de maneira temporal. Os achados mais impressionantes foram um declínio da M/F ao longo da segunda metade do século XX em vários países industrializados.5

Este estudo identifica tendências seculares da razão M/F na América do Sul, retiradas do conjunto de dados da Organização Mundial da Saúde para a segunda metade do século XX. Também são analisadas as tendências por latitude geográfica. A hipótese nula é de que não houve diferenças geográficas ou temporais significativas para a M/F.

 

Métodos

Fontes de dados

Em 2000, foram obtidos diretamente da OMS os nascidos vivos masculinos e femininos. Foi feito contato com as fontes originais (Drs. Galea e Inoue - comunicação interpessoal), e os dados foram disponibilizados como arquivo delimitado por vírgulas diretamente da OMS. Tal arquivo foi importado para Microsoft Excel, sendo então usado para conferência e análise.

Os dados estão disponíveis para países sul-americanos como na tabela 1. Não houve acesso aos dados para a Guiana e a Guiana Francesa.

A América do Sul foi dividida em uma área que abrangeu 10º acima do Equador, a 20º abaixo do Equador; e uma segunda área mais de 20º abaixo do Equador, ou seja, mais ao sul (tabela 1). Desse modo, somente pequenas partes da Bolívia e do Brasil se estendem ao sul, e apenas pequenas partes do Chile e do Paraguai se estendem ao norte entre a divisão arbitrária.

Estatística

Foi usado o programa Excel para entrada dos dados, análise global, correlações de Pearson e gráficos. Foram usadas as equações quadráticas de Fleiss para o cálculo exato dos intervalos de confiança de 95% para as proporções.6 Em todo o trabalho, foram usados testes Qui-quadrado para tendências a nascidos masculinos e femininos. Foram aplicados o add-in Biom-Med-Stat Excel para tabelas de contingência. Esse add-in se baseia no trabalho original sobre esse tema, o que levou ao desenvolvimento do Cochran-Armitage (Dr. Peter Slezák, Instituto de Fisiologia Normal e Patológica, Academia Eslovaca de Ciências, comunicação pessoal). Foram considerados estatisticamente significativo valores com p < 0,05.

 

Resultados

Este estudo analisou 147.773.689 nascidos vivos. Tem havido aumentos significativos e também diminuições da M/F em diferentes países (tabela 1). Tendências significativas foram encontradas principalmente nos países mais próximos do Equador. Não se observou nenhum padrão discernível, pois tais tendências, algumas vezes, eram opostas em países vizinhos. As tendências de cinco anos para os nascidos vivos são mostradas na tabela 2.

Para a região 10ºN-20ºS (parte superior da tabela), foram disponibilizados dados para alguns países até 1995 e, por isso, os valores absolutos para nascidos masculinos, femininos e o total são menores para as três últimas colunas para essa região na tabela 2. Para a região > 20ºS, só foram disponibilizados dados para alguns países até 1996. Por isso, as duas últimas colunas estão em branco e, para a última coluna com dados, os nascidos masculinos, femininos e o total têm números menores do que para a última coluna para essa região na tabela 2.

Encontrou-se uma tendência crescente de M/F para a região > 20º (r = 0,3, qui = 24, p < 0,0001) para todo o período. Na análise do continente inteiro, verificou-se uma diminuição significativa para o período 1950-74 (r = -0,3, qui = 5,9, p = 0,01), seguida por um aumento significativo após este período (r = 0,5, qui = 60, p < 0,001).

Uma comparação de totais para as duas áreas também mostrou um gradiente de latitude, nascendo mais meninos naquelas mais frias (mais ao sul, > 20ºS) (p < 0,0001 - tabela 3).

 

 

Foram calculados os nascimentos de meninos que excederam o que seria antecipado com base em uma M/F de 0,515 (usando proporção simples) em 3.765.648 (tabela 3).

 

Discussão

Estudos que analisaram dados de antes de 1950 observaram, em geral, tendências crescentes para M/F. Por exemplo, na Escandinávia, antes de 1950, mostrou-se que M/F estava se elevando e que diminuiu dali em diante.7 Provavelmente, foi o que ocorreu na Finlândia, com uma elevação da M/F de 1751 a 1948, e também na Dinamarca.8,9

Foi observado um declínio da M/F em muitos países industrializados desde 1950, já que o feto masculino mais frágil pode ser abortado espontaneamente em uma taxa mais alta do que o feminino mais robusto, quando exposto a hipotético(s) fator(es) ambiental(ais) deletério(s).10

Tem-se mostrado que fatores ambientais adversos ou experiências traumáticas que afetem populações inteiras reduzem a M/F. Por exemplo, a M/F declina depois de guerras,11 terremotos12 e múltiplos desastres ambientais.13 Parece que tais eventos produzem mulheres grávidas estressadas que abortam espontaneamente fetos masculinos em maior escala do que os femininos.14 Foi proposto, portanto, como sentinela substituta em potencial como indicador de saúde.15

Apesar desses fatores adversos, os meninos nascem invariavelmente em maior número que as meninas,16 implicando em uma taxa de concepção ainda mais alta destes.

Um estudo abrangendo a Europa mostrou uma incidência mais alta de nascimentos de meninos na parte mais quente da Europa, ao sul, do que no norte.4 No entanto, um estudo realizado por um período de tempo mais longo, e que também incorporou o continente norte-americano, não apenas confirmou a tendência europeia, mas também mostrou o inverso, ou seja, que mais meninos nascem em latitudes mais altas e mais frias deste continente do que nas partes do sul.2

Os dados sul-americanos deste trabalho estão de acordo com o gradiente de latitude descrito na América do Norte, e o contrário do gradiente de latitude observado na Europa.2 Além disso, diferentemente da América do Norte e da Europa, na América do Sul, a M/F está aumentando, e não diminuindo.5 Um cálculo simples mostra que, durante os anos disponíveis, existe uma taxa de nascimentos masculinos que excede a M/F antecipada de 0,515, resultando em um déficit de nascimentos femininos de, pelo menos, 3.765.648.

Foram lançadas várias hipóteses para explicar as tendências observadas da M/F, mas com os dados disponíveis, não é possível averiguar qual/quais fator(es) contribuiu (contribuíram) para os achados. Eles incluem, por um lado, diferentes tendências seculares da M/F ao comparar Europa e América do Norte com a América do Sul e, por outro lado, as diferenças dos gradientes de latitude na M/F são concordantes nas Américas, mas mostram uma tendência oposta à da Europa. Neste caso, vários fatores pouco entendidos podem estar interagindo.

 

Conflitos de interesse

O autor declara não haver conflitos de interesse.

 

Agradecimentos

Mie Inoue e Gauden Galea, da Organização Mundial da Saúde.

 

Referências

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4. Grech V, Vassallo-Agius P, Savona-Ventura C. Declining male births with increasing geographical latitude in Europe. J Epidemiol Community Health. 2000;54:244-6.         [ Links ]

5. Grech V, Vassallo-Agius P, Savona-Ventura C. Secular trends in sex ratios at birth in North America and Europe over the second half of the 20th century. J Epidemiol Community Health. 2003;57:612-5.         [ Links ]

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Recebido em 1 de novembro de 2012; aceito em 9 de janeiro de 2013

 

 

* Autor para correspondência. E-mail: victor.e.grech@gov.mt (V. Grech).

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