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Papéis Avulsos de Zoologia

Print version ISSN 0031-1049On-line version ISSN 1807-0205

Pap. Avulsos Zool. (São Paulo) vol.43 no.7 São Paulo  2003

https://doi.org/10.1590/S0031-10492003000700001 

Nova espécie de Bronia Gray, 1845, do Estado do Tocantins, Brasil (Squamata: Amphisbaenidae)

 

 

Carolina Castro-Mello

Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo. Av. Nazaré, 481, CEP 04263-000, São Paulo, SP, Brasil. Caixa Postal 42.494, CEP 04299-970, São Paulo, SP, Brasil. Email: mellocarol@yahoo.com.br

 

 


RESUMO

Bronia saxosa, sp. n., localidade tipo UHE Luis Eduardo Magalhães, Estado do Tocantins, difere das demais espécies de Bronia Gray, 1865, principalmente por possuir nasais pequenas separadas pela rostral. A nova espécie possui 4 poros, 253-272 anéis corporais, 17-21 anéis caudais, 18-24/1621 segmentos em um anel no meio do corpo.

Palavras-chave: Amphisbaenidae, Bronia saxosa, cerrados.


ABSTRACT

Bronia saxosa, sp. n. from the state of Tocantins, Brasil, (Hydroelectric Dam Luis Eduardo Magalhães, 09°45'S, 48°21'W), a cerrado area, differs from the remainining species of the genus mainly by having small nasals scutes separated by the rostral. It has (82 specimens) 4 preanal pores, 253-272 body annuli, 17-21 tail annuli and 18-24/16-21 segments to a midbody annulus.

Keywords: Amphisbaenidae, Bronia saxosa, cerrados.


 

 

INTRODUÇÃO

Este museu recebeu para identificação em outubro de 2000, enviado pelo Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, um exemplar de anfisbenídeo proveniente da região de Lajeado, estado do Tocantins. Verificamos que se tratava de uma espécie nova de Bronia Gray, 1865.

Posteriormente recebemos do Instituto Butantan e do Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da USP, mais 81 exemplares da mesma espécie e localidade, provenientes do resgate de fauna durante o enchimento da represa da Usina Hidrelétrica Luis Eduardo Magalhães.

Todos os exemplares que serviram para esta descrição foram coletados na UHE Luis Eduardo Magalhães, na localidade de Lajeado (09°45'S, 48°21'W) no Rio Tocantins. A região situa-se na área nuclear do domínio morfoclimático dos cerrados (Ab'Saber, 1977; Pinto, 1990), caracterizado principalmente por relevo em chapadões de topografia suave, drenagem dendrítica, solos muito profundos, clima com inverno frio e seco e verão quente e úmido (precipitação 1700-1800 mm).

Bronia saxosa, sp. n.

Holótipo – Brasil: Tocantins: UHE Luis Eduardo Magalhães (09°45'S, 48°21'W), MZUSP 91546, coletado em 17.IX.2001 por R.C.A. Ghilardi et al., número de campo MTR 6640.

Parátipos – Mesma localidade que o holótipo; MZUSP 88876-88892, coletados pelo Instituto Butantan de 1 a 10.X.2001; 91547-91584, coletados pelo Instituto Butantan de 7 a 12.I.2001 e 91534-91545 coletados por R.C.A. Ghilardi et al. de 15 a 20.IX.2001.

Etimologia – o nome específico, um aposto, refere-se à localidade tipo, Lajeado.

Diagnose – Nasais independentes separadas pela rostral; supralabiais 4; 253-272 anéis corporais; 17-21 anéis caudais, 18-24:16-21 segmentos em um anel no meio do corpo, aba anal com 4 escamas alongadas dividindo a fileira de poros em duas áreas distintas, cada uma com dois poros.

Descrição – Cabeça (Figs. 1-3) triangular vista de cima, mais estreita que o corpo, com perfil fortemente curvo; focinho prógnato. Sulco lateral visível a partir do quadragésimo anel corporal; sulcos dorsal e ventral ausentes. Cauda ligeiramente afilada. Rostral bem visível de cima. Nasais pequenas, separadas pela rostral. Pré-frontais ausentes. Frontais grandes, trapezoidais. Parietais grandes, mais largas na frente. Supralabiais 4, a primeira em contato somente com a nasal; a segunda e a terceira grandes, de forma trapezoidal irregular; a segunda em contato com a frontal; a quarta pequena, quadrada. Ocular com formato irregular, em contato com a segunda e a terceira supralabiais, com a frontal, e em contato breve com a parietal. Pós-ocular pentagonal, com lados desiguais; entre ela e a quarta supralabial uma escama trapezoidal. Sinfisal em forma de bigorna. Pós-sinfisal em forma de escudo, com a margem anterior arqueada, recebendo a sinfisal, seguida por uma fileira de 4 escamas entre as terceiras infralabiais. Infralabiais 3, a segunda muito grande, a primeira e a terceira irregulares.

 

 

Segmentos dorsais (20 em um anel do meio do corpo) mais longos que largos, irregularmente alinhados. Segmentos ventrais (22 em um anel no meio do corpo) mais regulares, melhor alinhados que os dorsais; o par mediano é um pouco mais largo do que longo. Aba anal (Fig. 4) com 4 escamas alongadas e 2 menores no mesmo nível que os poros; 2 poros de cada lado, pequenos, bem formados, dispostos na parte anterior da escama; anéis corporais 267, caudais 16.

 

 

Nas contagens de escamas não foram encontradas diferenças sexuais. (Tabela 1)

 

 

Colorido dorsal castanho avermelhado, com numerosas escamas esbranquiçadas; suturas claras; cabeça um pouco mais clara que o dorso. O colorido dorsal estende-se irregularmente por 1-2 segmentos abaixo do sulco lateral. Colorido ventral róseo na parte anterior do ventre, creme no restante.

 

DISCUSSÃO

O gênero Bronia Gray, 1865, até 1951 sinonimizado com Amphisbaena, foi revalidado por Vanzolini (1951), com base na forma da porção rostral do crânio e na redução das escamas nasais. Vanzolini (1971) descreveu B. kraoh, a segunda espécie do gênero, com base em exemplares procedentes de Pedro Afonso, Tocantins (antes Goiás). A terceira espécie, B. bedai, foi descrita por Vanzolini (1991b) com exemplares do Pantanal sul-matogrossense: Anastácio, Aquidauana e Guia Lopes da Laguna (revisão em Vanzolini, 1991b).

Bronia saxosa difere das demais três espécies do gênero por possuir nasais pequenas, separadas pela rostral, e pelas seguintes contagens de escamas:

Duas regressões foram pesquisadas: do comprimento da cauda e da largura da cabeça sobre o comprimento corporal (Tabela 2). Ambas estimam o grau de atenuação do corpo (Vanzolini, 1991a). A regressão do comprimento da cauda sobre o comprimento do corpo mostrou-se excelente no caso das fêmeas (r² = 0.9320), e não tão boa no caso dos machos (r² = 0.5840). Bronia brasiliana e Bronia kraoh concordam essencialmente com Bronia saxosa (Gráfico 1). B. bedai tem cauda relativamente mais longa. A regressão da largura da cabeça sobre o comprimento do corpo mostra diferenças sexuais: os machos têm cabeça mais larga (Gráfico 2). Não há diferenças aparentes com B. bedai, a única espécie que pode ser comparada.

Bronia brasiliana é conhecida de 5 localidades (Mapa 1): Santarém (localidade tipo), Belém, Taperinha, Rio Cupari, e Serra de Carajás (Cunha et al., 1985). Todas estas localidades apresentam mosaicos de formações florestais e abertas. Gans (1971) refere-se a um exemplar (36945) na coleção do Museum of Comparative Zoology, de "Pinari", no Rio Amazonas, localidade que não foi identificada.

B. kraoh, B. bedai e B. saxosa são espécies de formações abertas (Ab'Saber, 1977). Vanzolini (1997), discute uma hipótese sobre especiação de anfisbenídeos em formações abertas, com base na existência de um período durante o qual as florestas pluviais ocupavam grande parte de áreas hoje cobertas por cerrados; estes permaneceriam reduzidos a refúgios, onde se daria a especiação.

O problema de espécies de anfisbenídeos ocorrendo simultaneamente em floresta pluvial e cerrado (possivelmente o caso de B. brasiliana) não está bem resolvido; o assunto é discutido por Vanzolini (2002).

 

AGRADECIMENTOS

Dr. P. E. Vanzolini orientou este trabalho. O Departamento de Zoologia da Universidade de Brasília, o Instituto Butantan e o Departamento de Biologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (Profª Drª Yatiyo Yonenaga-Yassuda) forneceram todos os exemplares da nova espécie. Eleonora Aguiar auxiliou no laboratório. Celso Morato de Carvalho leu o manuscrito. Luciana Moreira Lobo fez os desenhos.

 

LISTA DAS LOCALIDADES

Localidades de Bronia citadas no texto – latitude S e longitude W. Os números entre parênteses correspondem à legenda do Figura 7.

Anastácio, MS 2031, 5548 (6)

Aquidauana, MS 2028, 5548 (6)

Belém, PA 0126, 4829 (2)

Carajás, Serra dos, PA 0600, 5020 (3)

Cupari, Rio, PA, entra no Rio Tapajós (margem direita) em 0341, 5525 (8)

Guia Lopes da Laguna, MS 2126, 5607 (7)

Lajeado, TO, 0945, 4821 (5)

Pedro Afonso, TO 0859, 4812 (4)

Santarém, PA 0225, 5448 (1)

Taperinha, PA 0232, 5418 (1)

 

 

 

 

 

 

REFERÊNCIAS

Ab'Saber A.N. 1977. Os domínios morfoclimáticos na América do Sul. Primeira aproximação. Geomorfologia, São Paulo, 52:121.        [ Links ]

Cunha, O.R.; Nascimento, F.P. & Ávila-Pires, T.C. 1985. Os répteis da área de Carajás, Pará, Brasil (Testudines e Squamata). I. Publicações Avulsas do Museu Paraense Emílio Goeldi, 40:9-92.        [ Links ]

Gans, C. 1971. Redescription of three monotypic genera of amphisbaenians from South America: Aulura Barbour, Bronia Gray, and Mesobaena Mertens. American Museum Novitates, 2475:1-32.        [ Links ]

Pinto, M.N. org. 1990. Cerrado: caracterização, ocupação e perspectivas. Brasília, Editora Universidade de Brasília. 657 p.1 mapa.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 1951. A systematic arragement of the family Amphisbaenidae (Sauria). Herpetologica, 7:113-123.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 1971. New Amphisbaenidae from Brasil (Sauria). Papéis Avulsos de Zoologia, São Paulo, 24(14):191-195.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 1991a. Two new species of Amphisbaena from the semi-arid northeast of Brasil (Reptilia, Amphisbaenia). Papéis Avulsos de Zoologia, São Paulo, 37(23):347-361.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 1991b. A third species of Bronia Gray, 1865 (Reptilia, Amphisbaenia). Papéis Avulsos de Zoologia, São Paulo, 37(25):379-388.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 1997. The silvestrii species group of Amphisbaena, with the description of two new Brasilian species (Reptilia: Amphisbaenia). Papéis Avulsos de Zoologia, São Paulo, 40(3):65-85.        [ Links ]

Vanzolini, P.E. 2002. A second note on the geographical differentiation of Amphisbaena fuliginosa L., 1758 (Squamata, Amphisbaenidae), with a consideration of the forest refuge model of speciation. Anais da Academia Brasileira de Ciências, 74(4):609-648.        [ Links ]

 

 

Recebido em: 14.11.2002
Aceito em: 04.03.2003

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