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Papéis Avulsos de Zoologia

Print version ISSN 0031-1049On-line version ISSN 1807-0205

Pap. Avulsos Zool. (São Paulo) vol.48 no.10 São Paulo  2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0031-10492008001000001 

Notas e novos táxons em Acanthoderini (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae). III. Gêneros semelhantes a Anoreina

 

 

Ubirajara R. MartinsI,III; Maria Helena M. GalileoII,III

IMuseu de Zoologia, Universidade de São Paulo, Caixa Postal 42.494, 04218-970, São Paulo, SP, Brasil. E-mail: urmsouza@usp.br
IIMuseu de Ciências Naturais, Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul. Caixa Postal 1188, 90001-970 Porto Alegre, RS, Brasil. E-mail: galileo@fzb.rs.gov.br
IIIPesquisador do CNPq

 

 


RESUMO

São discriminados em chave os gêneros semelhantes a Anoreina Bates, 1861, Trichoanoreina Julio & Monné, 2005 e Pyrianoreina gen. nov. Espécies novas descritas: Pyrianoreina piranga sp. nov. do Equador; P. hovorei sp. nov. da Bolívia; do Brasil Anoreina piara sp. nov. (Pará) e A. pinimaiuba sp. nov. (Amazonas); A. ayri sp. nov. do Equador.

Palavras-chave: Anoreina, Neotropical, Pyrianoreina, taxonomia, Trichoanoreina.


ABSTRACT

Notes and new taxa in Acanthoderini (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae). III. Genera similar to Anoreina. The genera related to Anoreina Bates, 1861 are Trichoanoreina Julio & Monné, 2005 and Pyrianoreina gen. nov. wich are keyed. New species described: Pyrianoreina piranga sp. nov. from Ecuador; P. hovorei sp. nov. from Bolívia; from Brazil Anoreina piara sp. nov. (Pará) and A. pinimaiuba sp. nov. (Amazonas); A. ayri sp. nov. from Ecuador.

Keywords: Anoreina, Neotropical, Pyrianoreina, taxonomy, Trichoanoreina.


 

 

INTRODUÇÃO

Anoreina foi criado por Bates (1861:149) como subgênero de Oreodera Audinet-Serville, 1835 para única espécie Oreodera (Anoreina) nana do Brasil, Pará: Santarém e Belém. Bates utilizou poucos caracteres para definir Anoreina: ausência de tubérculos no pronoto e élitros convexos e truncados no ápice. Em 1866, Bates estabeleceu a segunda espécie: Oreodera (Anoreina) biannulata também procedente da Amazônia: São Paulo de Olivença, Amazonas, Brasil.

Monné & Giesbert (1993), em catálogo, elevaram Anoreina a status genérico.

Martins & Galileo (2005) descreveram Xenofrea triangularis da Colômbia, Amazonas, que Néouze & Tavakilian (2005) transferiram para Anoreina.

O gênero ficou constituído por três espécies, todas ocorrentes na região Amazônica. Estabelecemos agora mais três espécies, A. piara sp. nov. do Brasil (Pará), A. pinimaiuba sp. nov. do Brasil (Amazonas) e A. ayri sp. nov. do Equador.

Trichoanoreina Julio & Monné (2005) foi fundamentado em T. albomaculata e considerado semelhante a Anoreina, mas diferindo principalmente pela presença de longos pêlos em todo corpo, pelas antenas dos machos que atingem as pontas dos élitros no ápice do antenômero VII, pela presença de fileira de pontos grossos e profundos junto às margens anterior e posterior do pronoto e pelo processo intercoxal do metasterno com depressão em forma de " U" .

Pyrianoreina gen. nov., que estabelecemos, assemelha-se a Anoreina e Trichoanoreina e distingue-se desses gêneros pela chave a seguir.

As siglas arroladas no texto correspondem a Florida State Collection of Arthropods (FSCA); Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia, Manaus (INPA); Museu de História Natural Noel Kempff Mercado, Santa Cruz (MNKM); Museu Nacional, Rio de Janeiro (MNRJ); Museu de Zoologia, Universidade de São Paulo, São Paulo (MZSP).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Chave para os gêneros de Acanthoderini relacionados com Anoreina

1. Fêmures e tíbias sem pêlos longos, apenas com pubescência deitada....Anoreina Bates, 1861
Fêmures e tíbias com pêlos longos, além da pubescência deitada...................................2
2(1). Élitros com pêlos longos; processo intercoxal anterior do metasterno com depressão em forma de " U" ........................................................ Trichoanoreina Julio & Monné, 2005
Élitros sem pêlos longos; processo intercoxal anterior do metasterno sem depressão ..........................................Pyrianoreina gen. nov.

Pyrianoreina gen. nov.

Etimologia: Tupi, pyri = perto de.

Espécie-tipo: Pyrianoreina piranga sp. nov.

Fronte quadrangular. Olhos grosseiramente granulados, não divididos. Lobos oculares inferiores com o dobro do comprimento das genas. Antenômeros III a XI com comprimentos gradualmente decrescentes. Lado interno do antenômero III com pêlos abundantes. Protórax com gibosidade lateral arredondada no topo. Pronoto sem tubérculos. Processo prosternal tão largo quanto uma mesocoxa e regularmente curvo. Processo mesosternal com largura igual ao dobro de uma mesocoxa e sem tubérculos. Élitros sem crista centro-basal; sem carenas dorsais, sem setas no dorso e com extremidades arredondadas. Fêmures clavados com pedúnculo curto. Profêmures mais robustos que os meso- e metafêmures. Mesotíbias com sulco externo no quarto apical. Fêmures e tíbias com pêlos longos.

Pyrianoreina piranga sp. nov.

(Fig. 1)

 

 

Etimologia: Tupi, piranga = vermelho.

Tegumento avermelhado. Cabeça revestida por pubescência amarelada. Lobos oculares superiores com oito fileiras de omatídios; tão distantes entre si quanto cerca do dobro da largura de um lobo. Antenas atingem o ápice dos élitros aproximadamente no meio do antenômero IX. Flagelômeros unicolores, avermelhados.

Protórax revestido por pubescência amarelada, relativamente esparsa; fileiras transversais de pontos grandes próximas das margens anterior e posterior; disco com pontos mais espaçados entre si.

Élitros revestidos por pubescência amarelada, quase uniforme; pontuação profunda na metade anterior. Pernas avermelhadas.

Dimensões, mm, holótipo macho: Comprimento total, 7,6; comprimento do protórax, 1,5; maior largura do protórax, 2,5; comprimento do élitro, 5,5; largura umeral, 3,4.

Material-tipo: Holótipo macho, EQUADOR, Sucumbios: Rio Napo-Rio Aguarico (76-77°W), IX-X.1977, L. Peña col. (MZSP).

Pyrianoreina hovorei sp. nov.

(Fig. 5)

Etimologia: Homenagem póstuma a Frank T. Hovore, ativo pesquisador norte-americano em Cerambycidae.

Tegumento castanho-avermelhado. Cabeça revestida por pubescência amarelada. Lobos oculares superiores com seis fileiras de omatídios, tão distantes entre si quanto cerca do dobro da largura de um lobo. Antenas atingem o ápice dos élitros na base do antenômero VIII. Flagelômeros pretos, revestidos por anel de pubescência amarelada na base, gradualmente mais estreita em direção aos flagelômeros apicais.

Protórax com pubescência amarelada, pouco mais concentrada nos lados. Lados do protórax com gibosidade pronunciada, mediana. Pronoto grosseiramente pontuado.

Cada élitro com mancha triangular de pubescência branca atrás do meio; à frente desta, com áreas irregulares de pubescência amarelada entremeadas por áreas de pubescência esparsa que exibem o tegumento escuro; região sutural, da mancha triangular até a base, estreitamente recoberta por pubescência esbranquiçada; terço apical com padrão semelhante ao da metade basal. Pontuação elitral profunda na metade anterior.

Processo prosternal tão largo quanto uma procoxa. Processo mesosternal com o dobro da largura de uma mesocoxa. Metasterno algo encurtado. Mesepimeros, metepisternos e lados do metasterno revestidos por pubescência amarelada. Metasterno com pontos contrastantes, nos lados. Parte centro-ventral do tórax e dos urosternitos revestida por pubescência esbranquiçada.

Profêmures mais intumescidos que os meso- e metafêmures, especialmente nos machos. Face dorsal dos fêmures coberta por pubescência amarelada. Tíbias com pubescência amarelada na base e preta nos ápices. Tarsos pretos.

Dimensões, mm, holótipo macho/parátipo fêmea: Comprimento total, 5,7/5,8; comprimento do protórax, 1,0/1,0; maior largura do protórax, 1,8/1,8; comprimento do élitro, 4,5/4,5; largura umeral, 2,2/2,5.

Material-tipo: Holótipo macho, BOLÍVIA, Santa Cruz: Potrerillo del Guendá (40 km NW Santa Cruz, 400 m), 18.XII.2004, G. Nearns col. " burn area" (MNKM). Parátipo fêmea, Santa Cruz: Buena Vista (3,7 km SSE, Hotel Flora & Fauna, 17°29,949’S, 63°33,152’W, 450 m), 5-15.XI.2001, M.C. Thomas & B.K. Dozier col., " tropical transition forest" (FSCA).

Discussão: Pyrianoreina hovorei sp. nov. distingue-se de P. piranga sp. nov. pelos antenômeros enegrecidos nos ápices, pelos lobos oculares superiores com seis fileiras de omatídios e pelos élitros com grande mancha triangular de pubescência branca no meio.

Anoreina piara sp. nov.

(Fig. 3)

Etimologia: Tupi, pîara = caminho, alusivo à localidade-tipo, rodovia transamazônica.

Tegumento do corpo e dos apêndices avermelhado. Cabeça revestida por pubescência branco-amarelada. Lobos oculares superiores com seis fileiras de omatídios; tão distantes entre si quanto a largura de um lobo. Lobos oculares inferiores com mais do que o dobro do comprimento das genas. Escapo finamente pubescente. Flagelômeros basais com pêlos em número moderado.

Protórax revestido por pubescência amarelada; tubérculo lateral arredondado no topo. Pronoto sem tubérculos com a fileira de pontos basais demarcada.

Élitros com pubescência amarelada no terço anterior; essa área delimitada posteriormente por faixa estreita de pubescência avermelhada do quarto anterior à sutura; atrás da faixa, no meio, mancha de pubescência branca que não alcança a sutura e emite posteriormente dois ramos estreitos unidos antes do ápice elitral.

Fêmures com tegumento avermelhado e escurecido nas clavas. Profêmures fusiformes, mais robustos do que os meso- e metafêmures; estes pedunculados e clavados. Sulco das mesotíbias no terço apical. Face ventral do corpo revestida por pubescência amarelada.

Dimensões, mm, holótipo macho: Comprimento total, 8,5; comprimento do protórax, 1,5; maior largura do protórax, 2,7; comprimento do élitro, 6,1; largura umeral, 3,5.

Material-tipo: Holótipo macho, BRASIL, Pará: Rodovia Transamazônica (km 97), 4.VII.1980, Bicelli col. (MNRJ).

Discussão: Anoreina piara sp. nov. distingue-se de A. nana (Bates, 1861) e de A. triangularis (Martins & Galileo, 2005) pela faixa de pubescência branca, oblíqua, no meio dos élitros que nas duas espécies é contínua da margem à sutura. De A. biannulata (Bates, 1866), além do padrão de colorido dos élitros, pelas antenas não aneladas.

Anoreina pinimaiuba sp. nov.

(Fig. 4)

Etimologia: Tupi, pinima = pintado e iuba = amarelo; alusivo ao padrão de colorido dos élitros.

Tegumento avermelhado. Cabeça revestida por pubescência amarelada. Lobos oculares superiores com sete fileiras de omatídios; mais próximos entre si do que a largura de um lobo. Lobos oculares inferiores pelo menos com três vezes o comprimento das genas. Antenas revestidas por pubescência amarelada; atingem o ápice dos élitros na ponta do antenômero VI.

Protórax com tegumento castanho-avermelhado, revestido por pubescência amarelada, com tubérculo lateral arredondado no topo. Pronoto sem tubérculos com as fileiras de pontos junto às margens anterior e posterior e alguns pontos esparsos atrás das gibosidades laterais e, na base, a cada lado do meio.

Élitros com pubescência amarelada, mais concentrada em manchas pequenas, distribuídas em cada élitro: na base, ao lado do escutelo; numa fileira transversal no quinto anterior (quatro manchas); uma fileira bem irregular no meio (quatro manchas); no sexto apical (duas manchas).

Face ventral e pernas revestidas por pubescência amarelada. Profêmures mais desenvolvidos que os meso- e metafêmures.

Dimensões, mm, holótipo macho: Comprimento total, 9,1; comprimento do protórax, 1,7; maior largura do protórax, 2,8; comprimento do élitro, 6,5; largura umeral, 3,6.

Material-tipo: Holótipo macho, BRASIL: Amazonas, Manaus (Reserva Ducke, AM 010, km 26), 25.VII.1978, armadilha de Malaise (MZSP). Parátipo macho, mesma procedência do holótipo, 18.IV.1978, J. Arias & M. Penny col., armadilha de Malaise (INPA).

Discussão: Anoreina pinimaiuba sp. nov. caracteriza-se pelo padrão de colorido dos élitros. No parátipo as manchas amarelas do centro dos élitros estão fundidas e constituem uma faixa de limites muito irregulares.

Anoreina ayri sp. nov.

(Fig. 2)

Etimologia: Tupi, ayri = miúda.

Tegumento corporal avermelhado. Cabeça revestida por pubescência esbranquiçada. Lobos oculares superiores com seis fileiras de omatídios; tão distantes entre si quanto a largura de um lobo. Lobos oculares inferiores tão longos quanto o dobro do comprimento das genas. Antenas atingem a ponta dos élitros na base do antenômero VI.

Protórax com pubescência amarelada; tubérculo lateral arredondado no topo. Pronoto sem tubérculos; com fileira transversal de pontos demarcada junto à margem posterior.

Élitros com pubescência esbranquiçada em larga área central; região circum-escutelar e metade apical avermelhadas; uma área de tegumento escuro na base entre o úmero e o escutelo; metade anterior pontuada e a metade apical praticamente sem pontos.

Face ventral lisa, revestida por pubescência esbranquiçada. Pernas como em A. piara sp. nov.

Dimensões, mm, parátipo e holótipo macho, respectivamente: Comprimento total, 5,5-4,8; comprimento do protórax, 1,0-0,8; maior largura do protórax, 1,7-1,5; comprimento do élitro, 4,0-3,3; largura umeral, 2,0-1,7.

Material-tipo: Holótipo macho e parátipo macho, EQUADOR: Sucumbios: Rio Napo-Rio Aguarico (76-77°W), IX-X.1977, L. Peña col. (MZSP).

Discussão: O padrão de colorido elitral com pubescência esbranquiçada em larga área central e faixas curtas e basais de tegumento preto caracterizam Anoreina ayri sp. nov.

 

AGRADECIMENTOS

Aos curadores de coleções que nos enviaram material para estudo: James Wapes (MNKM, FSCA) e Miguel A. Moné (MNRJ). A Eleandro Moysés (Museu de Ciências Naturais, Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul) pela execução das fotografias e tratamento das imagens.

 

REFERÊNCIAS

BATES, H.W. 1861. Contributions to an insect fauna of the Amazon Valley. Coleoptera: Longicornes. Annals and Magazine of Natural History, Series 3, 8:147-152.        [ Links ]

BATES, H.W. 1866. Contributions to an insect fauna of the Amazon Valley. Coleoptera: Longicornes. Annals and Magazine of Natural History, Series 3, 17:425-435.        [ Links ]

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MARTINS, U. R. & GALILEO, M. H. M. 2005. Cerambycidae (Coleoptera) da Colômbia. VII. Novos táxons, novos registros, nova sinonímia, nova combinação e novo nome. Revista Brasileira de Zoologia, 22(1):5-18.        [ Links ]

MONNÉ, M.A. & GIESBERT, E.F. 1993. Checklist of the Cerambycidae and Disteniidae (Coleoptera) of the Western Hemisphere. Burkank, Wolfsgarden, 410 p.        [ Links ]

NÉOUZE, G.L. & TAVAKILIAN, G.L. 2005. Matériaux pour une révision des Xenofreini – I. Espéces nouvelles de Guyane (Coleoptera, Cerambycidae, Lamiinae). Coléoptères, 11(13):129-164.        [ Links ]

 

 

Recebido em: 07.12.2007
Aceito em: 26.02.2008
Impresso em: 24.03.2008

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