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Revista Brasileira de Anestesiologia

versão impressa ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.51 no.3 Campinas maio/jun. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942001000300001 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Fatores associados com a ocorrência de hipoxemia no período pós-anestésico imediato*

 

Factors associated to hypoxemia in the immediate postoperative period

 

Factores asociados con la ocurrencia de hipoxemia en el período pós-anestésico inmediato

 

Getúlio Rodrigues de Oliveira Filho, TSAI; Jorge Hamilton Soares Garcia, TSAIII; Márcia Regina Ghellar, TSAII; Marcos Antônio Nicolodi, TSAIII; Asmir Luiz Boso, TSA II; Adilson José Dal Mago, TSAIII

IResponsável pelo CET/SBA
IIInstrutor do CET/SBA
IIIAnestesiologista do Hospital Governador Celso Ramos

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A hipoxemia pós-anestésica é um evento respiratório crítico que aumenta a morbidade pós-operatória. Este estudo visou identificar fatores relacionados à ocorrência de hipoxemia no período pós-operatório imediato.
MÉTODO: Foram incluídos 204 pacientes admitidos à sala de recuperação pós-anestésica respirando ar ambiente. A saturação periférica da oxi-hemoglobina (SpO2), as pressões arteriais sistólica (PAS) e diastólica (PAD) e a freqüência cardíaca (FC) foram medidas a intervalos de 5 minutos desde a admissão do paciente até 20 minutos após. Escores de sedação, de dor e de adequação da ventilação foram atribuídos nos mesmos momentos. SpO2 menor que 92% foi definida como hipoxemia e indicação para oxigenioterapia. Foram registrados: idade, sexo, peso, altura, história de fumo, de DPOC e de diabete melito, SpO2 na chegada à sala de cirurgia, tipo de anestesia, região operada, duração da anestesia, uso de opióides neuro-axiais e drogas utilizadas no período peri-operatório e respectivas doses. A associação destes fatores com hipoxemia foi definida por regressão logística.
RESULTADOS: Quarenta e nove pacientes (24,01%) apresentaram SpO2 menor que 92% durante o período de observação. Foram indicadores de hipoxemia [relação de chances (limites de 95% de confiança)]: idade maior que 55 anos [4,32 (1,70; 10,95)], SpO2 pré-operatória menor que 95% [7,47 (1,50;37,11)], anestesia geral com enflurano [14,53 (2,54;82,93)], hipoventilação detectada clinicamente [34,82 (11,46;105,84)]. A PAS e a FC foram significativamente mais elevadas nos pacientes hipoxêmicos.
CONCLUSÕES: Existem fatores significativamente associados à ocorrência de hipoxemia pós-operatória, enquanto o uso do oxímetro de pulso permite a utilização seletiva de oxigenioterapia no período pós-anestésico imediato.

Unitermos: COMPLICAÇÕES: hipoxemia


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Postanesthetic hypoxemia is a critical respiratory event which increases postoperative morbidity. This study aimed to identify hypoxemia-related factors in the immediate postoperative period.
METHODS: Participated in this study 204 patients admitted to the recovery room while breathing room air. Peripheral oxy-hemoglobin saturation (SpO2), systolic (SBP) and diastolic (DBP) blood pressure, and heart rate (HR) were measured at 5-minute intervals since admission to the recovery room until 20 minutes later. Sedation, pain and ventilation adequacy scores were attributed to patients at the same moments. Hypoxemia was defined as a SpO2 below 92% and recommended oxygen therapy. The following data were recorded for each patient: age, gender, weight, height, smoking, history of diabetes and chronic obstructive pulmonary disease (COPD), preanesthetic SpO2 at arrival in the operating room, type and duration of anesthesia, surgery site, use of neuro-axial opioids and perioperative drugs. The association of those factors to postoperative hypoxemia was defined by logistic regression.
RESULTS: Forty-nine patients (24.01%) had SpO2 below 92% during the observation period. The following factors [odds ratio (95% confidence limits)] were considered hypoxemia predictors: more than 55 years old [4.32 (1.70; 10.95)], preanesthetic SpO2 lower than 95% [7.47 (1.50; 37.11)], general anesthesia with enflurane [14.53 (2.54; 82.93)], and clinically detectable hypoventilation [34.82 (11.46; 105.84)]. SBP and HR were significantly higher in hypoxemic patients.
CONCLUSIONS: There are factors closely related to the incidence of postoperative hypoxemia and the use of pulse oximetry allows for selective oxygen therapy during the immediate postanesthetic period.

Key Words: COMPLICATIONS: hypoxemia


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La hipoxemia pós-anestésica es un evento respiratorio crítico que aumenta la morbidad pós-operatoria. Este estudio busca identificar factores relacionados a la ocurrencia de hipoxemia en el período pós-operatorio inmediato.
MÉTODO: Fueron incluidos 204 pacientes admitidos a la sala de recuperación pós-anestésica respirando aire ambiente. La saturación periférica de la oxi-hemoglobina (SpO2), las presiones arteriales sistólica (PAS) y diastólica (PAD) y la frecuencia cardíaca (FC) fueron medidas a intervalos de 5 minutos desde la admisión del paciente hasta 20 minutos después. Escores de sedación, de dolor y de adecuación de la ventilación fueron atribuidos en los mismos momentos. SpO2 menor que 92% fue definida como hipoxemia e indicación para oxigenioterapia. Fueron registrados: edad, sexo, peso, altura, historia de fumo, de DPOC y de diabetes melito, SpO2 en la llegada a la sala de cirugía, tipo de anestesia, región operada, duración da anestesia, uso de opioides neuro-axiales y drogas utilizadas en el período peri-operatorio y respectivas dosis. La asociación de estos factores con hipoxemia fue definida por regresión logística.
RESULTADOS: Cuarenta y nueve pacientes (24,01%) presentaron SpO2 menor que 92% durante el período de observación. Fueron indicadores de hipoxemia [relación de veces (limites de 95% de confianza)]: edad mayor que 55 años [4,32 (1,70; 10,95)], SpO2 pré-operatoria menor que 95% [7,47 (1,50;37,11)], anestesia general con enflurano [14,53 (2,54;82,93)], hipoventilación detectada clínicamente [34,82 (11,46;105,84)]. La PAS y la FC fueron significativamente mas elevadas en los pacientes hipoxémicos.
CONCLUSIONES: Existen factores significativamente asociados a la ocurrencia de hipoxemia pós-operatoria, en cuanto el uso del oxímetro de pulso permite la utilización selectiva de oxigenioterapia en el período pós-anestésico inmediato.


 

 

INTRODUÇÃO

A administração de oxigênio como rotina, durante o período pós-operatório imediato, fundamenta-se em estudos que demonstraram alta prevalência de hipoxemia neste período 1,2 ou que notaram menor prevalência de hipoxemia entre pacientes que receberam oxigênio 3,4. Entretanto, existem evidências de que a administração de oxigênio não é necessária em até 63% dos pacientes durante o período pós-operatório imediato 5,6.

A hipoxemia ocorre a despeito de administração de oxigênio 2,7,8 e episódios hipoxêmicos não são diagnosticados na maioria das vezes, pelo pessoal da Sala de Recuperação Pós-Anestésica (SRPA) 2. Entretanto, a utilização de oxímetro de pulso na SRPA permite identificar pacientes hipoxêmicos e indicar oxigenioterapia de forma seletiva 5,9.

Diversos fatores dependentes do paciente, da técnica anestésica e da cirurgia associam-se com maiores chances de hipoxemia no período pós-operatório imediato 7,8. Estes fatores podem facilitar a identificação de pacientes com maior probabilidade de desenvolver hipoxemia, que deverão ser, portanto, alvo de maior atenção do pessoal da SRPA e candidatos ao uso profilático e seletivo de oxigenioterapia.

Assim, este estudo teve como objetivo detectar os fatores dependentes dos pacientes, das cirurgias e das anestesias associados à ocorrência de hipoxemia no período pós-anestésico imediato.

 

MÉTODO

Com a aprovação da Comissão de Ética Médica do Hospital Governador Celso Ramos, foram incluídos 216 pacientes com idades entre 15 e 87 anos, de ambos os sexos, submetidos a cirurgias eletivas sob anestesia geral ou regional, admitidos seqüencialmente à SRPA. Foram excluídos os pacientes que estivessem sob oxigenioterapia ou ventilação mecânica. Imediatamente após a admissão, os pacientes foram monitorizados com oxímetro de pulso e monitor não invasivo, oscilométrico, de pressão arterial. A saturação periférica da oxi-hemoglobina (SpO2), a freqüência cardíaca (FC), as pressões arteriais sistólica (PAS) e diastólica (PAD) foram registradas durante a admissão (M0) e a intervalos de 5 minutos (M5, M10, M15) até o vigésimo minuto (M20). Nos mesmos momentos, foi atribuído a cada paciente um escore de sedação (0 = agitado, 1 = calmo, alerta, 2 = sonolento, desperta a comando verbal, 3 = sonolento, desperta à estimulação tátil e 4 = comatoso), um escore de adequação da respiração (0 = apnéia, 1 = incursões respiratórias limitadas, obstrução respiratória, broncoespasmo ou FR menor que 8 irpm e 2 = respiração livre), um escore de força muscular (1 = mantém aperto de mão por tempo 3 15 segundos ou 0 = não mantém aperto de mão ou o faz por menos de 15 segundos) e um escore verbal de intensidade dolorosa (0 = sem dor ou não responde, 1 = dor leve, 2 = dor moderada e 3 = dor forte). Durante o período de estudo, os pacientes somente receberam oxigênio, por cateter nasal (3 L.min-1), caso tenham apresentado SpO2 menor que 92%. Foram coletados os seguintes dados: idade, sexo, peso, altura, história de fumo, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) ou diabete melito, SpO2 na chegada à sala de cirurgia, tipo de anestesia, região operada, duração da anestesia, uso neuro-axial de opióides e drogas utilizadas no período peri-operatório, com as respectivas doses. Hipoventilação detectada clinicamente foi definida como um escore de adequação da respiração igual a 1. Os pacientes foram divididos em hipoxêmicos, caso tenham apresentado, em qualquer momento do período de observação, SpO2 menor que 92% por mais de 30 segundos e em normoxêmicos, caso não tenham apresentado SpO2 menor que 92%, sem oxigenioterapia, durante todo o período de estudo.

Os dados demográficos, a distribuição dos pacientes segundo a técnica anestésica, a região operada, a história de diabete melito, de DPOC e de tabagismo, o estado físico, os escores de adequação da ventilação, de sedação, de dor e de força muscular, a ocorrência de hipoventilação, a freqüência de SpO2 menor que 95% na chegada à sala de cirurgia, a idade maior que 55 anos e a freqüência da utilização de cada fármaco no período peri-operatório foram comparados, entre os pacientes que apresentaram e os que não apresentaram hipoxemia, pelos testes t de Student para amostras independentes (as variáveis contínuas) ou qui-quadrado (as variáveis categóricas), a partir do qual foram calculadas as respectivas relações de chances e seus limites de 95% de confiança. As variáveis que diferiram significativamente entre os subgrupos pelo teste t de Student ou que apresentaram associação significativa com hipoxemia pelo teste do qui-quadrado, foram utilizadas como variáveis independentes em análise de regressão logística retrógrada, na qual a presença ou não de hipoxemia (SpO2 menor que 92%) foi a variável dependente.

Os dados hemodinâmicos foram comparados, entre os pacientes hipoxêmicos e os normoxêmicos, por análise de co-variância bi-fatorial para medidas repetidas, sendo a co-variável, a SpO2 em cada momento do estudo, seguida pelo teste post hoc de Spjotvoll-Stolline.

A SpO2 foi comparada pelos testes de Friedman, Wilcoxon pareado (comparações intra-grupos) e Mann-Whitney (comparações momento a momento, entre os grupos).

O nível de significância aceito foi de 5%.

 

RESULTADOS

Foram excluídos da análise 12 pacientes que receberam oxigenioterapia na SRPA por motivos outros que o previsto no protocolo deste estudo, como anemia (2 pacientes), calafrios (2 pacientes), broncoespasmo (1 paciente), hipotensão arterial (4 pacientes) e motivo desconhecido (2 pacientes).

As características demográficas dos 204 pacientes cujos dados foram analisados estão resumidas na tabela I. Destes, 49 (23,14%) apresentaram SpO2 menor que 92% por mais de 30 segundos, durante o período de observação, e receberam oxigenioterapia. Os pacientes hipoxêmicos apresentaram idade significativamente maior do que os normoxêmicos (Tabela II).

As seguintes variáveis obtiveram significância estatística na análise individual pelo teste do qui-quadrado: o estado físico (ASA) III, a idade maior que 55 anos, a SpO2 pré-operatória menor que 95%, a história de DPOC e de diabete, a sedação profunda (paciente desperta somente ao toque ou não desperta), a força muscular inadequada (paciente não consegue manter aperto de mão por 15 segundos), a hipoventilação detectada clinicamente, o uso de diazepam e das associações de fentanil com diazepam ou com midazolam para sedação durante anestesias regionais, a associação de fentanil com morfina, o uso do vecurônio, do enflurano, do isoflurano e do N2O, a anestesia geral e a anestesia regional (Tabela III e Tabela IV). O modelo de regressão logística que melhor se adaptou à amostra incluiu anestesia geral com enflurano, hipoventilação detectada clinicamente, idade acima de 55 anos e a SpO2 de chegada na sala de cirurgia menor que 95% (Tabela V). Com este modelo, 96,12% dos pacientes normoxêmicos e 65,30% dos hipoxêmicos foram corretamente classificados, utilizando-se o limite de 0,5 para o logit.

Não atingiram significância estatística em nenhuma das análises: o peso, o sexo, o índice de massa corporal, o estado físico, a história de fumo, o volume de cristalóides administrados durante a cirurgia, a duração e o local da cirurgia, os escores de dor, o uso de tiopental, de propofol, de midazolam, de fentanil, de alfentanil, de morfina, de atracúrio, de sevoflurano ou de opióides neuro-axiais (Tabela VI).

A pressão arterial sistólica, a freqüência cardíaca e a saturação periférica da hemoglobina estão apresentadas nas figura 1, figura 2 e figura 3, respectivamente.

 

DISCUSSÃO

A hipoxemia pós-operatória tem como causas o controle inadequado da ventilação ou da patência das vias aéreas, resultante do efeito residual de anestésicos e/ou bloqueadores neuromusculares e a inadequação da relação ventilação/perfusão causada, principalmente, por zonas de atelectasia nas regiões dependentes dos pulmões 10-12. Outras causas incluem estados de baixo débito cardíaco, anemia, calafrios termogênicos, dor e agitação 13. A maior parte dos eventos hipoxêmicos ocorrem durante os 15 minutos subseqüentes à admissão dos pacientes na SRPA 1,4.

A hipoxemia pós-anestésica associa-se à maior incidência de eventos cardiovasculares no período pós-operatório imediato, permanência mais longa de pacientes na SRPA e aumento do número de admissões não planejadas na UTI 7.

A introdução do oxímetro de pulso na monitorização de pacientes durante o período pós-anestésico imediato contribuiu para o aumento da identificação de episódios hipoxêmicos, de eventos cardíacos, como bradicardia, diminuição da ocorrência de isquemia miocárdica, utilização de maiores fluxos de oxigênio e maior utilização de oxigenioterapia após a alta da SRPA, sem, entretanto modificar a taxa de complicações ou a mortalidade pós-operatória 9.

Define-se hipoxemia como a saturação arterial da oxi-hemoglobina (SaO2) inferior a 90%, que corresponde a uma PaO2 aproximadamente igual a 60 mmHg. Esta saturação encontra-se na porção inclinada da curva de dissociação da hemoglobina, implicando em que pequenas variações de SaO2 resultem em reduções acentuadas da PaO2 13. Entretanto, a SpO2 superestima a SaO2 em 2 a 5% 14,15, justificando os limites inferiores de SpO2, entre 92 e 96%, utilizados em diversos estudos 5,8,16,17.

Nos estudos que utilizaram o limite de SpO2 em 90%, hipoxemia ocorreu em 0,9% 7, 4% 6, 8,24% 18, 20% 4, 55% 2 e 80% 1 dos pacientes estudados. O limite de SpO2 em 94% associou-se com prevalência de hipoxemia em 15% 17 e 37% 5 dos pacientes. Utilizando o mesmo limite de SpO2, pacientes que receberam anestesia geral e respiraram ar ambiente na SRPA tiveram prevalência maior (44,7%) do que pacientes submetidos a anestesias regionais (24%) ou que foram submetidos à anestesia geral e receberam oxigenioterapia pós-operatória (26,1%) 3. Nos estudos em que o limite da SpO2 foi de 92%, hipoxemia ocorreu em 7% 16 e em 15% 8 dos pacientes, enquanto no presente estudo, hipoxemia ocorreu em 23,14% dos pacientes.

Em estudos precedentes, as variáveis associadas a maiores probabilidades de ocorrência de hipoxemia pós-anestésica imediata foram: sexo masculino, diabete melito, cirurgias de urgência, medicação pré-anestésica com opióides e sedativos, fentanil em doses acima de 2 µg.kg-1.h-1, associação de fentanil com morfina, tiopental comparado ao propofol 7, obesidade 1,7,8,18, idade acima de 60 anos 2,7,8,17,18, duração da anestesia acima de 4 horas 2,7, infusão de mais de 1500 ml de cristalóides 8, estado físico (ASA) 8 e anestesia geral 8.

Neste estudo, a análise isolada das variáveis mostrou que se associaram significativamente com a ocorrência de hipoxemia no período pós-operatório imediato o estado físico ASA III, a idade acima de 55 anos, a história de DPOC ou de diabete melito, a SpO2 pré-operatória menor que 95%, a anestesia geral, a associação de fentanil per-operatório com morfina pós-operatória, a utilização de vecurônio, de enflurano, de isoflurano e de N2O, os estados de sedação pós-anestésica profunda, a incapacidade de manter um aperto de mão por 15 segundos e os sinais clínicos de ventilação inadequada.

Por outro lado, a anestesia regional, acompanhada ou não de sedação per-operatória com diazepam e associações de fentanil e diazepam ou midazolam, associou-se a chances significativamente menores de ocorrência de hipoxemia no período pós-anestésico imediato.

A análise isolada de variáveis tem o inconveniente de não levar em consideração o efeito de outros fatores que podem influenciar possíveis associações entre cada variável e um determinado evento. Por outro lado, a regressão logística tem por vantagem controlar todos os fatores incluídos no modelo, ao calcular a influência de cada uma das variáveis, independentemente, sobre a variável dependente dicótoma. Por esta razão, após a identificação das variáveis potencialmente associadas à ocorrência de hipoxemia pós-operatória, por análise isolada, foi aplicada a técnica de regressão logística, que apontou como indicadores independentes de hipoxemia pós-operatória apenas a idade maior que 55 anos, a SpO2 pré-operatória menor que 95%, a anestesia geral com enflurano e a hipoventilação detectada clinicamente. As demais variáveis, significativas nas análises isoladas, não adicionaram robustez ao modelo logístico, razão pela qual foram rejeitadas.

Pacientes idosos possuem diminuição da reserva respiratória, por fatores como a diminuição do controle nervoso da respiração, manifestado principalmente pelo aumento de episódios apnéicos durante o sono, alterações mecânicas da parede torácica (aumento da cifose dorsal, calcificação de cartilagens costais e diminuição da massa muscular respiratória) e alterações nos volumes e capacidades pulmonares (diminuição das capacidades respiratória máxima, pulmonar total e vital e aumento do volume de fechamento das vias aéreas) 19. Além disto, os pacientes idosos são mais sensíveis aos efeitos depressores dos anestésicos inalatórios, sedativos e opióides. Por estas razões, estão mais expostos a hipoxemia pós-operatória, como demonstrado neste e em outros estudos 2,7,8,16,18.

Em voluntários sadios, SpO2 menor que 94% foi observada em apenas 13,3% 3. É provável que pacientes que apresentem SpO2 menor que 95% no período pré-operatório exibam alguma anormalidade da ventilação, seja hipoventilação causada, por exemplo, por medicação pré-anestésica ou anormalidades da relação ventilação/perfusão dos pulmões.

Pacientes submetidos à anestesia geral têm chances maiores de desenvolver hipoxemia pós-operatória 3,8. Entretanto, neste estudo, somente a anestesia geral com enflurano associou-se significativamente à hipoxemia, no modelo logístico, embora a anestesia geral, o isoflurano e o N2O tenham se mostrado significativos nas análises isoladas. O enflurano é um potente depressor da ventilação e causa mais hipoxemia no período pós-operatório imediato e tardio 20. Embora sua concentração no gás expirado não tenha sido medida, é possível que o efeito residual do enflurano possa contribuir para a ocorrência de hipoxemia no período pós-anestésico imediato.

A hipoventilação detectada clinicamente foi o fator mais fortemente associado à ocorrência de hipoxemia. Os parâmetros para definir hipoventilação foram a freqüência respiratória, a inspeção das incursões diafragmáticas e a detecção de anormalidades da ventilação, como a obstrução respiratória alta e o broncoespasmo. Desta forma, este resultado confirma o valor do exame clínico na detecção de fatores de risco para a ocorrência de hipoxemia pós-operatória precoce.

Assim como em outros estudos 3,8, a anestesia regional associou-se a menores chances de ocorrência de hipoxemia pós-operatória, ainda que sob sedação com diazepam ou midazolam associados ou não ao fentanil.

Entre as variáveis estudadas, não obtiveram significância nem nas análises isoladas, nem na regressão logística o peso, o sexo, o índice de massa corporal, a história de tabagismo, o volume de cristalóides administrados durante a cirurgia, a duração e o local da cirurgia, o uso de tiopental, de propofol, de midazolam, de fentanil, de alfentanil, de morfina, de atracúrio, de sevoflurano ou de opióides neuro-axiais. Os pacientes hipoxêmicos não diferiram dos normoxêmicos quanto a estas variáveis, exceto pela duração da anestesia. Em estudo precedente 2,7, a duração da anestesia somente se mostrou indicador de hipoxemia, quando superior a 4 horas. É possível que este estudo tenha falhado em identificar a duração dos procedimentos como fator significativamente associado com a ocorrência de hipoxemia pós-operatória pelo fato da duração média dos procedimentos ter sido inferior a 4 horas. O tabagismo se mostrou indicador significativo de hipoxemia em um estudo 2, enquanto em outros 6,17, assim como neste, não obteve significância. A utilização de morfina para analgesia pós-operatória não se associou significativamente à ocorrência de hipoxemia repetindo o achado de outros autores 7. Assim, o risco de hipoxemia não justifica limitar o uso de morfina para analgesia pós-operatória. As cirurgias cavitárias não apresentaram maior associação com hipoxemia do que as superficiais, concordando com os achados de outros autores 2,7. Entretanto, em um estudo, as cirurgias cavitárias associaram-se a maiores percentuais de hipoxemia pós-operatória 22.

Os pacientes deste estudo que apresentaram SpO2 menor que 92% apresentaram valores mais elevados de pressão arterial e de freqüência cardíaca. A hipoxemia aumenta os níveis de catecolaminas circulantes e predispõe à isquemia miocárdica 13, enquanto a administração de oxigênio reduz a freqüência cardíaca pós-operatória 23.

A incorporação do oxímetro de pulso na monitorização pós-anestésica permite a utilização seletiva de oxigenioterapia, ou seja, oxigênio é administrado apenas para pacientes que apresentem dessaturação da oxi-hemoglobina. Por exemplo, na SRPA de um hospital geral, oxigênio foi administrado apenas a pacientes que apresentaram SpO2 menor que 94%, o que correspondeu a 37% dos pacientes estudados, resultando em substancial redução dos custos 5. Em pacientes submetidas a laparoscopias ginecológicas, utilizando o mesmo critério, oxigênio foi administrado a 15% dos casos 17. Neste estudo, oxigenioterapia foi administrada a apenas 23,14% dos pacientes.

Considerando que, em pacientes monitorizados com oxímetro de pulso, a prevalência de episódios hipoxêmicos depende do grau de motivação do pessoal da SRPA em detectá-los 21, é possível que o reconhecimento de fatores associados à ocorrência de hipoxemia possa ser utilizado para incentivo do pessoal da SRPA, com a finalidade de aumentar a vigilância, monitorizar mais cuidadosamente os pacientes e, desta forma, detectar episódios hipoxêmicos e administrar precocemente o tratamento.

Concluindo, este estudo identificou fatores associados a maiores chances de ocorrência de hipoxemia no período pós-operatório imediato, que podem identificar pacientes que deverão receber monitorização mais intensiva na SRPA. Conclui-se, também, que a monitorização da SpO2, durante o período pós-anestésico imediato permite a utilização seletiva de oxigenioterapia.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Getúlio Rodrigues de Oliveira Filho
Rua José Cãndido Silva 179/402
88075-250 Florianópolis, SC
E-mail: grof@th.com.br

Apresentado em 12 de julho de 2000
Aceito para publicação em 17 de outubro de 2000

 

 

* Recebido do Hospital Governador Celso Ramos, CET/SBA Integrado de Anestesiologia da SESSC, Florianópolis, SC