SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.51 issue4Controlled pressure mechanical ventilation with anesthesia closed system for low weight patients: experimental studyThromboprophilaxis and neuraxial blockade author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.51 no.4 Campinas  2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942001000400011 

ARTIGO DIVERSO

 

Betanecol no tratamento da retenção urinária provocada pela morfina subaracnóidea*

 

Betanecol en el tratamiento de la retención urinaria provocada por la morfina subaracnóidea

 

 

Clóvis José da Silva BorgesI; Sávio José Romuando de AraújoII

IAnestesiologista do Hospital Universitário Lauro Wanderley da UFPB
IIME2 do CET/SBA Hospital Universitário Lauro Wanderley da UFPB

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A morfina tem sido utilizada nos bloqueios subaracnóideos para analgesia pós-operatória graças ao seu potencial analgésico prolongado e intenso. Porém, seus efeitos colaterais muitas vezes restringem seu uso. A retenção urinária é um deles. O objetivo deste estudo foi avaliar o emprego do betanecol para tratamento da retenção urinária causada pela morfina subaracnóidea, evitando assim a cateterização vesical do paciente.
MÉTODO: De quarenta e sete pacientes que foram submetidos a procedimentos cirúrgicos com técnica anestésica de bloqueios subaracnóideos nas clínicas cirúrgicas e obstétricas com administração de morfina na dose de 0,1 mg, 26 pacientes apresentaram retenção urinária (55,3%). Quando o tratamento clássico (estimulação miccional e compressas locais) não evoluiu com sucesso, foram utilizadas doses fracionadas de 12,5 mg de betanecol, por via oral a cada hora, totalizando 50 mg em 4 horas. Após esse período sem resposta adequada ou se o paciente apresentasse incômodo vesical intenso antes de completar a última dose da medicação, seria feita cateterização vesical ou o uso de naloxona, classificando o método como ineficaz nesses casos.
RESULTADOS: Nos pacientes que apresentaram retenção urinária, o tratamento conservador não obteve sucesso. Porém administrando-se betanecol de acordo com a padronização das doses nesse estudo, o mesmo foi eficaz em 14 pacientes (53,8%).
CONCLUSÕES: O betanecol pode ser um bom coadjuvante no tratamento da retenção urinária provocada pela morfina subaracnóidea.

Unitermos: ANALGÉSICOS, Opióides: morfina; COMPLICAÇÕES: retenção urinária; DROGAS: betanecol; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: subaracnóidea


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La morfina ha sido utilizada en los bloqueos subaracnóideos para analgesia pós-operatoria gracias a su potencial analgésico prolongado e intenso. Más, sus efectos colaterales muchas veces restringen su uso. La retención urinaria es un deles. El objetivo de este estudio fue evaluar el empleo del betanecol para tratamiento de la retención urinaria causada por la morfina subaracnóidea, evitando así la cateterización vesical del paciente.
MÉTODO: De cuarenta y siete pacientes que fueron sometidos a procedimientos quirúrgicos con técnica anestésica de bloqueos subaracnóideos en las clínicas quirúrgicas y obstétricas con administración de morfina en la dosis de 0,1 mg, 26 pacientes presentaron retención urinaria (55,3%). Cuando el tratamiento clásico (estimulación miccional y compresas locales) no evolucionó con suceso, fueron utilizadas dosis fraccionadas de 12,5 mg de betanecol, por vía oral a cada hora, totalizando 50 mg en 4 horas. Después de ese período sin respuesta adecuada o si el paciente presentase incomodo vejical intenso antes de completar la última dosis de la medicación, seria hecha cateterización vejical o el uso de naloxona, clasificando el método como ineficaz en esos casos.
RESULTADOS: En los pacientes que presentaron retención urinaria, el tratamiento conservador no obtuvo suceso. Sin embargo administrándose betanecol de acuerdo con los padrones de las dosis en ese estudio, el mismo fue eficaz en 14 pacientes (53,8%).
CONCLUSIONES: El betanecol puede ser un buen coadyuvante en el tratamiento de la retención urinaria provocada por la morfina subaracnóidea.


 

 

INTRODUÇÃO

Atualmente o uso da morfina nos bloqueios subaracnóideos é freqüente. A principal vantagem da morfina nos bloqueios é o seu grande potencial analgésico pós-operatório prolongado, em torno de 18 a 24 horas, devido a sua característica hidrofílica; porém, como qualquer outra droga utilizada na clínica, a mesma não é isenta de efeitos colaterais. A retenção urinária é resultado da sua atuação nos receptores µ e k no corno dorsal da medula, mais especificamente na substância gelatinosa inibindo o reflexo da micção, elevando o tônus do esfíncter externo da uretra e relaxando o trígono vesical dos ureteres 1-3.

O tratamento atual da retenção urinária provocada pela morfina no bloqueio subaracnóideo é a utilização de um antagonista opióide específico ou cateterismo vesical 1; porém esses métodos apresentam desvantagens, pois no primeiro ocorre a antagonização (dose-dependente) do efeito analgésico da morfina e no segundo existe o risco de infecção do trato urinário 4.

O betanecol, agonista muscarínico, estimula o trato urinário, aumenta o peristaltismo ureteral, contrai o músculo detrusor da bexiga, eleva a pressão miccional voluntária máxima e reduz a capacidade vesical, além de contrair o trígono vesical e relaxar o esfíncter externo da uretra 2.

O objetivo deste estudo foi verificar a eficácia do betanecol no tratamento da retenção urinária causada pela morfina subaracnóidea, o que evitaria a antagonização do efeito analgésico da morfina e a cateterização vesical do paciente.

 

MÉTODO

O trabalho foi submetido à análise da Comissão de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Lauro Wanderley, com posterior aprovação. Os pacientes foram devidamente informados e orientados quanto à sua participação voluntária nesse estudo e deram consentimento por escrito.

Participaram do estudo 47 pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos exclusivamente com técnicas anestésicas de bloqueio subaracnóideo (hérnias inguinais, cesarianas, hemorroidectomias e cistos pilomidais), os quais foram avaliados nas primeiras 24 horas pós-operatórias e orientados quanto à importância de estimular a micção.

A amostra foi constituída por pacientes estado físico ASA I, II e III, com idades entre 15 e 65 anos, de ambos os sexos. Foram excluídos os pacientes com história pregressa de hipertireoidismo ou hipotensão, instabilidade vasomotora, epilepsia e parkinsonismo, bem como aqueles com sondagem vesical prévia.

A medicação pré-anestésica foi diazepam (0,1 a 0,15 mg.kg-1), por via oral, 60 a 90 minutos antes do início previsto para o procedimento. Na sala de cirurgia, a monitorização constou de cardioscópio, pressão arterial não invasiva e oximetria de pulso e instalação da linha venosa com cateter 18 ou 20G em um dos membros superiores, para infusão de soluções cristalóides e drogas. A hidratação foi feita com 5 a 15 ml.kg-1 de solução cristalóide dependendo do tipo e porte da cirurgia. A padronização da dose da morfina para o bloqueio subaracnóideo foi 0,1 mg e o anestésico local foi bupivacaína hiperbárica na dose de 15 a 20 mg, sendo utilizada agulha tipo Quinke 25G ou 27G, e a punção realizada nos espaços L2-L3 ou L3-L4. Nos pacientes que desenvolveram retenção urinária foi instituído o tratamento clássico que consistiu em estimulação miccional e compressas locais. Quando o mesmo não evoluiu com sucesso, foram utilizadas doses fracionadas de 12,5 mg de betanecol, por via oral a cada hora, totalizando 50 mg em 4 horas. Após esse período sem resposta adequada, ou seja, sem micção espontânea ou se o paciente apresentasse incômodo vesical intenso antes de completar a última dose da medicação empregada, o mesmo era submetido à cateterização vesical ou uso de naloxona classificando o método como ineficaz. Foram analisados também os efeitos adversos com administração da droga em estudo.

Os dados foram submetidos à análise descritiva.

 

RESULTADOS

Dos 47 pacientes submetidos a bloqueios subaracnóideos, 26 apresentaram retenção urinária representando 55,3% (Tabela I).

Quanto ao intervalo pós-operatório, o período de 06 a 12 horas foi o período no qual os pacientes mais apresentaram retenção urinária correspondente a 17 pacientes (65,4%), seguidos dos intervalos de 12 a 18 horas com 06 pacientes (23,1%) e de 0 a 6 horas com o número de 3 pacientes (11,5%) enquanto que a partir da 18ª hora não foram identificados pacientes com retenção urinária (Tabela II).

Nos pacientes que apresentaram retenção urinária, o tratamento conservador não obteve sucesso. Porém administrando-se betanecol de acordo com a padronização das doses nesse estudo, o mesmo foi eficaz em 14 pacientes, ou seja, 53, 8% (Tabela III).

Com relação ao tratamento com betanecol e o período pós-operatório, no intervalo de 0 a 6 horas, este foi eficaz em 3 pacientes, tendo melhor resposta a partir da 6ª hora (Tabela IV).

A eficácia da droga foi avaliada em relação ao tempo que a mesma levaria para que o paciente apresentasse diurese espontânea de acordo com a dose empregada. A dose mínima utilizada do betanecol para se obter resposta positiva ao tratamento foi de 25 mg e a maior dose eficaz foi a partir de 37,5 mg (Tabela V).

 

DISCUSSÃO

Sempre foi procurada uma forma de se obter analgesia pós-operatório com qualidade e poucos efeitos colaterais. A morfina surgiu como uma droga que, quando administrada por via subaracnóidea, proporciona analgesia adequada; porém, os efeitos colaterais limitam sua indicação.

Atualmente, com a diminuição da dose preconizada e principalmente com os antagonistas existentes, o seu uso tornou-se mais seguro e com menos efeitos indesejáveis.

Este trabalho teve como finalidade encontrar uma forma segura de diminuir a retenção urinária provocada pela morfina, sem o comprometimento da analgesia pós-operatória. Assim resolveu-se administrar o betanecol para tratar a retenção urinária provocada pela morfina, pois o betanecol é um agente colinomimético muscarínico que atua nos receptores colinérgicos das células efetoras autônomas do músculo liso da bexiga urinária e do trato gastrointestinal 4. O betanecol aumenta o tônus do músculo detrusor urinário e trígono vesical, estimulando o peristaltismo ureteral, provocando o relaxamento do esfíncter externo da uretra, produzindo contração suficientemente forte para iniciar a micção e esvaziar a bexiga, sem no entanto alterar os níveis de analgesia 3,5.

O betanecol foi administrado em 26 pacientes que tiveram retenção urinária após anestesia subaracnóidea com uso de morfina e que não obtiveram resposta adequada ao tratamento convencional para estimulação miccional. Os resultados foram satisfatórios em 14 pacientes. Só a partir de 25 mg é que a dose foi se tornando eficaz, tendo-se obtido melhores resultados com a dose de 50 mg, e no intervalo de 6 a 12 horas do pós-operatório. Não foi evidenciada nenhuma reação adversa da droga nas doses utilizadas neste trabalho.

Analisando-se os resultados obtidos nesta pesquisa, verifica-se que o betanecol parece ser um bom coadjuvante no tratamento da retenção urinária provocada pela morfina subaracnóidea. Entretanto, faz-se necessário um estudo com maior número de pacientes, nos quais se pesquisariam outras doses para obter uma dose efetiva, sem efeitos colaterais, e que promovesse o esvaziamento da bexiga no menor tempo possível.

 

REFERÊNCIAS

01. Manica J - Anestesiologia Princípios e Técnicas. 2ª Ed, São Paulo, Artes Médicas, 1997;288-293.         [ Links ]

02. O’Reilly PH - Postoperative urinary retencion in men, B M J, 1991;302:864.         [ Links ]

03. Goodman e Gilman - As Bases da Farmacologia Terapêutica, 9ª Ed, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1995;103-108.         [ Links ]

04. Riella MC - Princípios de Nefrologia e Distúrbios Hidroelétricos, 2ª Ed, Rio de Janeiro, Guanabara Koogan, 1988;438-439.         [ Links ]

 

 

Correspondência para:
Dr. Clóvis José da Silva Borges
Av. Oceano Pacífico, 702/302/B Intermares
58036-310 Cabedelo, PB

Apresentado em 27 de setembro de 2000
Aceito para publicação em 31 de janeiro de 2001

 

 

* Recebido do Hospital Universitário Lauro Wanderley da Universidade Federal da Paraúba UFPB), João Pessoa, PB