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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.52 no.3 Campinas May/June 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942002000300011 

ARTIGO DIVERSO

 

Bases anatômicas para o bloqueio anestésico do plexo braquial por via infraclavicular *

 

Bases anatómicas para el bloqueo anestésico del plexo braquial por vía infraclavicular

 

 

Luiz Carlos Buarque de GusmãoI; Jacqueline Silva Brito LimaII; José Carlos PratesIII

IProfessor Adjunto IV do Departamento de Morfologia da Universidade Federal de Alagoas. Mestre e Doutor em Anatomia. Membro Titular do Colégio Brasileiro de Cirurgiões
IIProfessora Auxiliar de Ensino da Universidade Federal de Alagoas
IIIProfessor Titular da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica da Escola Paulista de Medicina. Mestre e Doutor em Anatomia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Procuramos demonstrar neste estudo a presença constante da fossa infraclavicular, com a finalidade de sua utilização como via de acesso para o bloqueio anestésico do plexo braquial por via infraclavicular. Visando solucionar o ponto onde os fascículos do plexo braquial podem ser localizados no interior da fossa, propusemos medidas a partir da face anterior da clavícula e do ângulo formado pelo encontro do músculo deltóide com a clavícula (ângulo deltoclavicular). A primeira medida permite localizar em profundidade o local onde passa o plexo braquial. Já a segunda, determina a projeção dos fascículos dentro da fossa, o que corresponde ao ponto de entrada da agulha na superfície cutânea.
MÉTODO: Foram efetuadas medidas entre a face anterior da clavícula e os fascículos do plexo braquial, e do ângulo deltoclavicular até a projeção superficial dos fascículos. Com base nos achados anatômicos foi proposta uma técnica de abordagem do plexo braquial por via infraclavicular.
RESULTADOS: Foram analisadas 100 regiões infraclaviculares de cadáveres fixados. A fossa infraclavicular foi detectada em 96 casos. Nessas os fascículos do plexo braquial localiza-se totalmente ou parcialmente em 97,9%. A medida aferida entre a face anterior da clavícula e os fascículos do plexo, foi de 2,49 cm e do ângulo deltoclavicular até a projeção superficial dos fascículos estava em 2,21 cm.
CONCLUSÕES: Os dados obtidos permitem a determinação precisa do ponto de introdução da agulha, a qual, dirigida perpendicular à pele, atinge o plexo braquial sem perigo de provocar pneumotórax ou lesão vascular, possibilitando uma segurança maior aos anestesiologistas, e permitindo a volta da prática do bloqueio do plexo abaixo da clavícula.

Unitermos: ANATOMIA: plexo braquial; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: bloqueio do plexo braquial


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Buscamos demostrar en este estudio la presencia constante de la fosa infraclavicular, con la finalidad de su utilización como vía de acceso para el bloqueo anestésico del plexo braquial por via infraclavicular. Con la idea de solucionar el punto donde los fascículos del plexo braquial pueden ser localizados en el interior de la fosa, propusimos medidas a partir de la face anterior de la clavícula y del ángulo formado por el encuentro del músculo deltóide con la clavícula (ángulo deltoclavicular). La primera medida permite localizar en profundidad el local donde pasa el plexo braquial. Ya la segunda, determina la proyección de los fascículos dentro de la fosa, lo que corresponde al punto de entrada de la aguja en la superficie cutánea.
MÉTODO: Fueron efectuadas medidas entre la face anterior de la clavícula y los fascículos del plexo braquial, y del ángulo deltoclavicular hasta la proyección superficial de los fascículos. Con base en los encuentros anatómicos fue propuesta una técnica de abordaje del plexo braquial por via infraclavicular.
RESULTADOS: Fueron analizadas 100 regiones infraclaviculares de cadáveres fijados. La fosa infraclavicular fue detectada en 96 casos. En ésas, los fascículos del plexo braquial se localizan totalmente o parcialmente en 97,9%. La medida comparada entre la face anterior de la clavícula y los fascículos del plexo, fue de 2,49 cm y del ángulo deltoclavicular hasta la proyección superficial de los fascículos estaba en 2,21 cm.
CONCLUSIONES: Los datos obtenidos permiten la determinación exacta del punto de introducción de la aguja, la cual, dirigida perpendicular a la piel, alcanza el plexo braquial sin peligro de provocar pneumotórax o lesión vascular, posibilitando una mayor seguridad a los anestesiologistas, y permitiendo la vuelta de la práctica del bloqueo del plexo abajo de la clavícula.


 

 

INTRODUÇÃO

O bloqueio anestésico do plexo braquial apresenta uma série de complicações e bloqueios incompletos quando são utilizadas as vias axilar 1,2, supraclavicular 3,4 e interescalênica 4-6. Como alternativa, alguns anestesiologistas 7-9, voltaram a utilizar a via infraclavicular, tendo relativo sucesso, além de um menor número de complicações. Todavia, as descrições de punções vasculares e da parede torácica com conseqüente pneumotórax, eram ainda relatadas.

Revisando as várias técnicas das vias infraclavicular, verificamos o seguinte:

Hirschel 10 (1913) foi o primeiro a utilizar a via infraclavicular, sendo que, na verdade introduzia a agulha por via axilar e depositava o anestésico acima da primeira costela.

Bazy 11 (1917) localizava o processo coracóide e o tubérculo anterior da sexta vértebra cervical, e traçava uma “linha anestésica” entre os dois pontos. Uma agulha de 9 cm era introduzida abaixo da clavícula e dirigida ao tubérculo da vértebra. O anestésico era depositado após a agulha ultrapassar a margem posterior da clavícula.

Babitsky 12 (1918) introduzia uma agulha entre o ângulo formado pela 2ª costela com a clavícula, sendo o anestésico depositado neste local.

Labat 13 (1922) utilizava a mesma “linha anestésica” de Bazy, porém o anestésico era injetado com uma agulha de 8 cm e em duas etapas. Na primeira etapa o anestésico era depositado no mesmo ponto preconizado por Bazy. Posteriormente flexiona-se o braço em direção ao tórax e realiza-se outra injeção da mesma solução sem mexer a agulha.

Balog 14 (1924) modificou a técnica de Bazy, utilizando o mesmo ponto, porém a agulha era introduzida no sentido do gradil costal até chocar-se com a segunda costela, recuava um pouco a agulha e depositava o anestésico.

Raj e col. 7 (1973) determinaram que a agulha deveria ser introduzida em um ponto médio da clavícula. A agulha longa era dirigida lateralmente, evitando a punção da parede torácica.

Sims 8 (1977) modificou a técnica de RAJ e col., que a classificou “como uma técnica difícil de dominar, por causa de pontos de referências não muito claros e da espessura dos músculos peitorais”. Em sua técnica, utiliza uma agulha padrão de 3,8 cm que, dirigida para baixo, para fora e para trás, atingindo o plexo braquial 2 a 3 cm após ter ultrapassado a pele.

Whiffler 10 (1981) propõe a marcação da artéria subclávia e da artéria axilar. Os dois pontos são unidos por uma linha. A partir do processo coracóide traça-se uma linha perpendicular à primeira. No encontro das duas é realizada a punção. Relata punção arterial em 50% dos casos.

Imbelloni e col. 15 (2001) determinam que seja marcado um ponto 1,5 cm abaixo do ponto de união entre o terço lateral e os dois terços mediais da clavícula, sendo este ponto 1,5 a 2 cm medial ao processo coracóide. Utiliza o neuroestimulador e faz a injeção de 50 ml de lidocaína com epinefrina à 1,6%.

Verificando que o plexo se encontra, na maioria das vezes, no interior da fossa infraclavicular, nos propusemos provar que a fossa é um espaço encontrado na maioria dos indivíduos, bem como verificar a relação topográfica dos fascículos com os vasos axilares a este nível. Finalmente, baseados nestes dados, propor uma nova via infraclavicular para bloqueio anestésico, baseada em preceitos anatômicos bens definidos e pontos de reparos facilmente identificáveis, possibilitando que esta via possa novamente ser utilizada com segurança e com um mínimo de falhas e de complicações.

 

MÉTODO

Cumprindo o que determina a Lei Federal nº 8.501, de 30 de novembro de 1992, e após aprovação institucional, foram utilizadas 100 regiões infraclaviculares, de cadáveres fixados, de ambos os sexos e pertencentes aos Departamentos de Morfologia da Escola Paulista de Medicina e da Universidade Federal de Alagoas.

Após a identificação da fossa infraclavicular, que ocorreu em 96% dos casos, foi feita a dissecção e identificação dos fascículos do plexo braquial em seu interior. A seguir foi medida a distância da face anterior da clavícula até o encontro dos fascículos do plexo braquial e do ângulo formado pelo músculo deltóide com a clavícula até atingir a projeção dos fascículos sobre a pele. Foi verificada a posição dos vasos axilares em relação ao assoalho da fossa.

Com base nos achados anatômicos foi proposta uma técnica de abordagem do plexo braquial por via infraclavicular, que poderá servir como uma alternativa de técnica ao anestesiologista.

 

RESULTADOS

Nas 100 regiões analisadas a fossa infraclavicular estava presente em 96 delas (Figura 1). Os 4 casos restantes, em que não havia fossa, pertenciam a indivíduos que apresentavam a musculatura hipertrofiada, só existindo nestes casos um sulco deltopeitoral que se estendia superiormente até a clavícula.

Posição do Plexo Braquial na Fossa Infraclavicular

Identificamos a presença dos fascículos do plexo braquial no interior da fossa infraclavicular, sendo computados para o estudo os 96 casos, que eram os possuidores de fossa infraclavicular, pois a proposta de nosso trabalho se baseia no bloqueio anestésico através dela.

Em 41 casos (42,7%) os fascículos do plexo braquial se encontravam totalmente no assoalho da fossa infraclavicular.

Em 53 casos (55,2%) os fascículos estavam situados parte na fossa infraclavicular e parte encobertos pela porção clavicular do músculo peitoral maior.

Em apenas 2 casos (2,1%) todos os fascículos ficavam ocultos pelo músculo peitoral maior.

Posição da Artéria Axilar

Como a artéria axilar é o vaso mais lateral, a posição da veia é irrelevante para o presente trabalho. Em 79 casos (82,3%), a artéria axilar encontrava-se totalmente encoberta pelo feixe clavicular do músculo peitoral maior. Em 13 casos (13,5%), a artéria apresentava-se em parte na fossa infraclavicular. Apenas em quatro casos (4,2%), a artéria situava-se totalmente na fossa.

Via Anestésica pela Fossa Infraclavicular

Procuramos determinar com exatidão o local de acesso ao plexo braquial que tenha como ponto de entrada a fossa infraclavicular. Neste acesso os pontos de referência são de fácil localização (face anterior da clavícula e ângulo deltoclavicular), permitindo determinar com precisão o local por onde passam os fascículos do plexo braquial no interior da fossa infraclavicular e a que profundidade se encontram. A média das medidas realizadas nas 96 fossas, a partir do ângulo deltoclavicular, em direção ao centro da fossa, até alcançar a projeção superficial do plexo foi de 2,21 cm. Por outro lado, a média das aferições tomadas, no sentido ântero-posterior, a partir da face anterior da clavícula, até o encontro dos fascículos do plexo braquial, foi de 2,49 cm.

Técnica Proposta

Inicialmente deve-se localizar o ângulo formado pela junção da margem anterior do músculo deltóide com a clavícula, a seguir, traça-se uma bissetriz do ângulo para o centro da fossa medindo em torno de 2,21 cm. Este ponto corresponde à projeção superficial do plexo braquial, e no qual deverá ser introduzida a agulha, perpendicular à pele (Figura 2). Para evitar tração sobre o plexo braquial, o membro superior deverá ficar pendente ao lado do corpo ou em discreta abdução. A cabeça não precisa ser rodada para o lado oposto, pois não interfere na posição dos fascículos do plexo. Por outro lado, a profundidade com que a agulha deverá ser introduzida perpendicular à pele até alcançar os fascículos do plexo é avaliada a partir da face anterior da clavícula até a agulha alcançar a profundidade de 2,5 cm (valor aproximado) (Figura 3). Como esta profundidade foi obtida até a agulha atingir a primeiro fascículo do plexo, aconselhamos que a agulha seja introduzida na profundidade de 3 a 3,5 cm, pois corre-se o risco da injeção não atingir a bainha axilar ou atingir apenas o fascículo lateral, que neste local é o que se encontra mais anterior.

 

DISCUSSÃO

As técnicas citadas na literatura utilizam vários pontos abaixo da clavícula, que ora são sobre a musculatura do peitoral maior, ora ao lado do processo coracóide ou ainda sobre a fossa infraclavicular, sendo que neste caso, a mesma raramente era citada. Apenas Imbelloni e col. fazem referências à importância da fossa infraclavicular para o bloqueio anestésico do plexo braquial. Porém, a união do terço lateral com os dois terços mediais da clavícula, citada em sua técnica, nem sempre corresponde à fossa infraclavicular e, quando corresponde, esta técnica não especifica o local na fossa por onde transitam os fascículos do plexo. Por outro lado, esta técnica utiliza o estimulador elétrico, nem sempre disponível em nossos serviços de anestesia

Neste trabalho, interessa-nos apenas a via de acesso a ser utilizada, bem como os dados para a localização dos fascículos do plexo braquial. Manobras anestésicas, tipo de anestésico, bem como sua quantidade e concentração não são assuntos a serem discutidos nesta pesquisa.

Foi demonstrado que na parte alta da axila, os fascículos do plexo braquial encontram-se, na grande maioria dos casos, no interior da fossa infraclavicular e lateralmente aos vasos axilares, sendo que estes últimos estão normalmente situados posteriormente ao músculo peitoral maior e, portanto, fora da fossa infraclavicular.

Para que haja segurança na execução do bloqueio, é necessário que ao anestesiologista seja dada a informação não só da profundidade onde se encontra o plexo braquial, mas também de sua localização no interior da fossa infraclavicular. O ângulo deltoclavicular é de fácil localização e sua bissetriz de 2,21 cm traçada até o centro da fossa representa, quase sem erros, o local exato da projeção superficial do plexo braquial. A profundidade é mais bem aferida a partir de uma estrutura fixa e estável, que neste caso é a clavícula. Temos, desta maneira, informações sobre o ponto de punção, e a profundidade em que o anestésico deve ser depositado. A agulha dirigida perpendicularmente neste ponto e orientada de anterior para posterior possibilita não só atingir os fascículos do plexo braquial, mas também evita a punção da artéria axilar e da parede torácica.

Acreditamos que trabalhos posteriores dever-se-ão realizar, utilizando os conhecimentos obtidos com nossas observações, para que se procedam a comparações entre este acesso e os já existentes, contribuindo desta maneira para a evolução e o aprimoramento do bloqueio anestésico do plexo braquial.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dr. Luiz Carlos Buarque de Gusmão
R. das Orquídeas, 8  Tabuleiro dos Martins
Condomínio Aldebaram, ALFA Quadra F
57080-900 Maceió, AL

Apresentado em 10 de julho de 2001
Aceito para publicação em 23 de novembro de 2001

 

 

* Recebido da Disciplina de Anatomia Descritiva e Topográfica do Departamento de Morfologia da Escola Paulista de Medicina (UNIFESP)