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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.52 no.4 Campinas July/Aug. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942002000400007 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Efeitos da efedrina sobre as funções cardiovascular e renal de cães sob anestesia com pentobarbital sódico

Effects of rphedrine on cardiovascular and renal function of dogs anesthetized with sodium pentobarbital

 

Efectos de la efedrina sobre las funciones cardiovascular y renal de perros bajo anestesia con pentobarbital sódico

 

 

Rosa Beatriz AmorimI; José Reinaldo Cerqueira Braz TSAII; Yara Marcondes Machado Castiglia, TSAII; Pedro Thadeu Galvão Vianna, TSAII; Norma Sueli Pinheiro Módolo, TSAIII

IProfessora Assistente do CET/SBA da FMB, UNESP
IIProfessor(a) Titular do CET/SBA da FMB, UNESP
IIIProfessora Assistente Doutora do CET/SBA da FMB, UNESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Com a perspectiva criada por algumas pesquisas de ações diferenciadas da efedrina sobre a função renal, dependendo da dose utilizada, e considerando-se as controvérsias ainda existentes a respeito dos seus efeitos sobre a função renal, esta pesquisa experimental tem como objetivo verificar se doses diferentes de efedrina determinam efeitos hemodinâmicos e renais diferenciados.
MÉTODO: Em 32 cães anestesiados com pentobarbital sódico (PS), submetidos a preparação cirúrgica, cateterismo, monitorização, expansão do volume do fluido extracelular e respiração controlada, foi estudada a hemodinâmica cardiovascular e renal e a função renal. Os cães foram distribuídos aleatoriamente em quatro grupos: G controle (n = 8), com os cães permanecendo apenas sob o efeito do PS, G ef. 2 µg (n = 8), G ef. 10 µg (n = 8) e G ef. 100 µg (n = 8), com os cães recebendo efedrina nas doses respectivas de 2, 10 e 100 µg.kg-1.min-1. Os atributos cardiovasculares e renais foram estudados em 5 momentos: controle (M1 e M2), durante a infusão de efedrina (M3 e M4) e após a suspensão da infusão de efedrina (M5).
RESULTADOS: Não houve diferença significante entre os grupos em relação aos atributos estudados. Em G ef. 2 µg houve aumento significante de freqüência cardíaca, fluxo sangüíneo aórtico, débito urinário e excreção fracionária de sódio. Em G ef. 10 µg houve aumento apenas da freqüência cardíaca e fração de filtração, enquanto em G ef. 100 µg ocorreu aumento de freqüência cardíaca, pressão arterial média, pressão venosa central, fluxo sangüíneo aórtico e hematócrito; por outro lado, ocorreu diminuição dos fluxos plasmático e sangüíneo renais e aumento da resistência vascular renal.
CONCLUSÕES: A efedrina, dependendo da dose utilizada, apresenta ações hemodinâmicas e renais diferenciadas.

Unitermos: ANIMAL: cão; DROGAS: efedrina; HIPNÓTICOS: pentobarbital; RIM: função


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Some studies have shown differentiated dose-dependent effects of ephedrine on cardiovascular and renal functions. This study aimed at verifying whether different ephedrine doses determine differentiated hemodynamic and renal effects.
METHODS: Cardiovascular and renal hemodynamics and renal function were evaluated in 32 dogs anesthetized with sodium pentobarbital (SP) for surgical preparation, catheterization, extracellular fluid volume expansion and mechanical ventilation. Dogs were randomly distributed in four groups: G control (n = 8), in which dogs remained only under the effect of SP; G ephedrine 2 µg (n = 8); G ephedrine 10 µg (n = 8); and G ephedrine 100 µg (n = 8), in which dogs received 2, 10, and 100 µg.kg-1.min-1 ephedrine, respectively. Cardiovascular and renal parameters were studied at control (M1 and M2), during ephedrine infusion (M3 and M4) and after ephedrine infusion withdrawal (M5).
RESULTS: There were no significant differences among groups. There has been a significant increase in heart rate, aortic blood flow, urinary output and fractional sodium excretion in G ephedrine 2 µg. There has been a significant increase in heart rate and filtration fraction in G ephedrine 10 µg while in G ephedrine 100 µg there has been a significant increase in heart rate, mean blood pressure, aortic blood flow, central venous pressure, renal vascular resistance and hematocrit, and a significant decrease in renal plasma and blood flow.
CONCLUSIONS: Our study has shown that ephedrine has differentiated dose-dependent hemodynamic and renal effects.

Key Words: ANIMAL: dog; DRUGS: ephedrine; HYPNOTICS: pentobarbital; KIDNEY: function


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Con la perspectiva creada por algunas pesquisas de acciones diferenciadas de la efedrina sobre la función renal, dependiendo de la dosis utilizada, y considerando las controversias aun existentes a respecto de sus efectos sobre la función renal, esta pesquisa experimental tiene como objetivo verificar si dosis diferentes de efedrina determinan efectos hemodinámicos y renales diferenciados.
MÉTODO: En 32 perros anestesiados con pentobarbital sódico (PS), sometidos a preparación quirúrgica, cateterismo, monitorización, expansión del volumen del fluido extracelular y respiración controlada, fue estudiada la hemodinámica cardiovascular y renal y la función renal. Los perros fueron distribuidos aleatoriamente en cuatro grupos: G control (n=8), con los perros permaneciendo apenas sobre el efecto del PS, G ef. 2 µg (n=8), G ef. 10 µg (n=8) y G ef. 100 µg (n=8), con los perros recibiendo efedrina en las dosis respectivas de 2, 10 y 100 µg.kg-1.min-1. Los atributos cardiovasculares y renales fueron estudiados en 5 momentos: control (M1 y M2), durante la infusión de efedrina (M3 y M4) y después la suspensión de la infusión de efedrina (M5).
RESULTADOS: No hubo diferencia significante entre los grupos en relación a los atributos estudiados. En G ef. 2 µg hubo aumento significante de frecuencia cardíaca, flujo sanguíneo aórtico, débito urinario y excreción fraccionaria de sodio. En G ef. 10 µg hubo aumento apenas de la frecuencia cardíaca y fracción de filtración, en cuanto en G ef. 100 µg ocurrió aumento de frecuencia cardíaca, presión arterial media, presión venosa central, flujo sanguíneo aórtico y hematócrito; por otro lado, ocurrió diminución de los flujos plasmático y sanguíneo renales y aumento de la resistencia vascular renal.
CONCLUSIONES:
La efedrina, dependiendo de la dosis utilizada, presenta acciones hemodinámicas y renales diferenciadas.


 

 

INTRODUÇÃO

A efedrina é uma amina simpaticomimética não catecolaminérgica. Sua utilização mais freqüente, em Anestesiologia, tem sido no tratamento da hipotensão arterial e da bradicardia após anestesia geral 1,2 e bloqueio peridural ou subaracnóideo, principalmente em Obstetrícia 3, embora ultimamente tenham sido descritos efeitos deletérios da efedrina sobre o recém-nascido 4.

A efedrina apresenta ações agonistas direta e indireta sobre os receptores a e b, com predomínio da ação indireta, que determina a liberação de noradrenalina pré-sináptica das terminações nervosas periféricas para o líquido extracelular 5.

Os efeitos hemodinâmicos da efedrina são resultantes da ativação dos receptores adrenérgicos a1, b1 e b2, aumentando o débito cardíaco e a pressão arterial, mas com efeitos variáveis sobre a resistência vascular sistêmica 6,7.

Em relação aos efeitos da efedrina sobre a função renal, os trabalhos de pesquisa têm sido em pequeno número e muitas vezes com resultados contraditórios. Vários autores não observaram alterações da função renal 8,9, outros observaram importante diminuição da função renal 10, enquanto outros autores observaram melhora da função renal após o emprego de efedrina 11,12.

Ao se administrar a efedrina no pós-operatório imediato a pacientes submetidos à cirurgia eletiva de aneurisma aórtico, em doses suficientes para manter a pressão arterial 20% acima dos valores basais, ou seja, de 2 a 6 µg.kg-1.min-1, após a injeção inicial de 5 mg por via venosa, os autores 12 observaram aumento significante da pressão arterial, da freqüência cardíaca e do débito cardíaco, que se acompanhou de aumento do fluxo plasmático renal, do débito urinário e da excreção fracionária de sódio. Quando os autores aumentaram a dose de efedrina para 4 a 12 µg.kg-1.min-1, observaram as mesmas alterações cardiovasculares anteriores, mas menores alterações renais, com pequeno, mas significante, aumento do fluxo plasmático renal e da excreção fracionária de sódio, sem que ocorresse alteração do débito urinário. Segundo os autores, os resultados obtidos em relação à função renal devem-se, parcialmente, ao aumento da pressão de perfusão, mas sem que seja descartada a possibilidade de efeito adicional direto vasodilatador renal de efedrina, semelhante ao da dopamina.

Com a perspectiva criada pela pesquisa anterior 12, de ações diferenciadas da efedrina sobre a função renal, dependendo da dose utilizada, e considerando-se as controvérsias ainda existentes a respeito dos efeitos dessa droga sobre a função renal, parece-nos oportuno o estudo dos efeitos de administração contínua de efedrina em diferentes doses, sobre a hemodinâmica cardiovascular e a função renal de cães, utilizando-se como anestésico o pentobarbital sódico.

 

MÉTODO

Foram utilizados 32 cães adultos, machos, sem raça definida, com peso entre 10 e 15 kg. Foram criados quatro grupos de estudo, com duas fases experimentais. Na primeira, foi feita indução anestésica com pentobarbital sódico, instalação de ventilação mecânica, monitorização da ventilação, oxigenação, hemodinâmica e função renal, seguida de toracotomia esquerda para instalação de sonda fluxométrica na aorta ascendente para medida do fluxo sangüíneo aórtico. Na segunda fase, os animais foram distribuídos aleatoriamente em quatro grupos experimentais, de acordo com o emprego ou não de efedrina em diferentes doses, como segue:

G controle (n=8): sem efedrina;
G ef 2 µg (n=8): efedrina na dose de 2 µg.kg-1.min-1;
G ef 10 µg (n=8): efedrina na dose de 10 µg.kg-1.min-1;
G ef 100 µg (n=8):efedrina na dose de 100 µg.kg-1.min-1.

Seqüência Experimental

Após jejum alimentar de 14 horas, mas com livre acesso à água, os animais, após indução anestésica com pentobarbital sódico (30 mg.kg-1), foram colocados em goteira de Claude Bernard, realizando-se a seguir:

  1. Intubação orotraqueal e instalação de ventilação controlada a volume, empregando-se circuito sem reinalação, através do respirador mod. 674 do Aparelho de Anestesia K. Takaoka mod. 2.600 Nikkei (Brasil). O volume corrente, através de fluxo de gases frescos com 3 L.min-1 de ar e 2 L.min-1 de O2, foi padronizado em 20 ml.kg-1 e a freqüência respiratória em 10 a 12 mov.min-1 para manter a pressão expiratória final de CO2 (PETCO2) entre 30 a 35 mmHg;
  2. Manutenção de temperatura ambiente entre 22 e 24 ºC com auxílio de condicionamento de ar quente/frio;
  3. Instalação do biomotor AS3 da Datex-Ohmeda (Finlândia) para leitura e registro dos parâmetros ventilatórios, hemodinâmicos, de oxigenação e de temperatura;
  4. Instalação do eletrocardiógrafo de 3 canais (derivação DII), do captador da amostra de gases inspirados e expirados junto à válvula em Y do circuito respiratório para análise da PETCO2, do sensor do oxímetro de pulso (SpO2) colocado na língua do animal e do sensor de temperatura colocado no esôfago inferior;
  5. Dissecção e cateterismo da veia femoral esquerda para infusão contínua de solução de Ringer (18 ml.kg-1.h-1) durante 30 minutos e administração da dose inicial do bloqueador neuromuscular cloreto de alcurônio (0,2 mg.kg-1). Após 30 minutos foi feito o "prime" de solução de creatinina (3%) e para-aminohipurato de sódio (PAH) (0,4%), sendo utilizado 1 ml.kg-1 da solução. A seguir, colocou-se solução de Ringer com PAH (0,08 g%) e creatinina (0,2 g%), administrando-se por minuto, até o final do experimento, 0,6 mg.kg-1 de creatinina e 0,24 mg.kg-1 de PAH, através de bomba de infusão de dois canais;
  6. Dissecção e cateterismo da artéria femoral direita para medida da pressão arterial média;
  7. Dissecção e cateterismo da veia jugular externa esquerda para medida da pressão venosa central, coleta de sangue e reinjeções de pentobarbital sódico (10 mg.kg-1) e alcurônio (0,06 mg.kg-1) a cada 45 minutos;
  8. Dissecção e cateterismo da veia radial esquerda para administração contínua de solução de glicose a 5% (0,1 ml.kg-1.min-1), a qual continha ou não efedrina, de acordo com o grupo estudado, com controle através do 2º canal da bomba de infusão;
  9. Cateterismo vesical para coleta de urina e medida do débito urinário;
  10. Colocação do animal em decúbito lateral direito. Toracotomia no 4º espaço intercostal esquerdo e instalação de sonda fluxométrica na aorta ascendente para medida do fluxo sangüíneo aórtico, através de aparelho de fluxometria sangüínea;
  11. Medida da distância entre a extremidade do focinho e o ânus, pela superfície ventral, para determinação do comprimento do animal;
  12. Período de estabilização de 15 minutos;
  13. Medida dos atributos e coleta de sangue e urina em dois momentos seguidos (M1 e M2);
  14. Início da infusão de efedrina na solução de glicose nos grupos G2, G3 e G4;
  15. Após 15 minutos da infusão de efedrina, medida dos atributos e coleta de sangue e urina em dois momentos seguidos (M3 e M4);
  16. Suspensão da infusão de efedrina;
  17. Após 15 minutos da suspensão da efedrina, medida dos atributos e coleta de sangue e urina (M5);
  18. Eutanásia do animal com injeção venosa de formalina a 40% (20 ml).

Atributos Estudados

Para atender às finalidades do experimento, os atributos foram classificados em dois grupos.

  1. Para controle da homogeneidade do experimento: peso do animal (kg), superfície corporal (SC - m2), volume corrente (ml.kg-1), SpO2 (%), PETCO2 (mmHg) e temperatura ambiente e retal (ºC).
  2. Para atender as finalidades de pesquisa - hemodinâmicos: freqüência cardíaca (FC), pressão arterial média (mmHg), índice cardíaco (IC), pressão venosa central (PVC), índice de resistência vascular sistêmica de função renal: fluxo IC plasmático renal (FPR) medido pela depuração de PAH (DPAH), ritmo de filtração glomerular (RFG) medido pela depuração de creatinina (DCr), fluxo sangüíneo renal (FSR = FPR / 1 - Ht), débito urinário (DU), resistência vascular renal (RVR = PAM x 80 / FSR.10-3); excreção urinária de sódio (EUNa = DU x UNa), depuração de Na (DNa), excreção fracionária de sódio (EFNa = DNa / DCr x 100), depuração osmolar (DOsm) e depuração de água livre (DH2O = DU - DOsm); sangüíneos: hematócrito (Ht), sódio plasmático (PNa); osmolaridade plasmática (Posm).

Os dados relativos aos atributos foram obtidos nos seguintes momentos: M1 e M2 - controles obtidos, respectivamente, após 15 e 30 minutos do período de estabilização hemodinâmica e renal, M3 e M4 - obtidos, respectivamente, após 15 e 30 minutos do início da infusão de efedrina e M5 - obtido após 15 minutos da suspensão de infusão de efedrina.

Análise Estatística

Os dados obtidos foram submetidos à Análise de Perfil 13. Para o peso e superfície corporal, utilizou-se ANOVA. As estatísticas foram considerados significantes quando p < 0,05, onde p é o nível de significância associado à estatística calculada.

 

RESULTADOS

Os grupos mostraram-se homogêneos em relação aos atributos de controle do experimento (p > 0,05).

Os resultados obtidos da hemodinâmica e da função renal são vistos nas tabela I e tabela II e figura 1, figura 2, figura 3 e figura 4.

Com a maior dose de efedrina (100 µg.kg-1.min-1) houve aumento dos valores da freqüência cardíaca (Figura 1), pressão arterial média (Figura 2), pressão venosa central, do índice cardíaco e hematócrito, sem que ocorresse alteração significante do índice de resistência vascular sistêmica (Tabela I). Com a dose intermediária (10 µg.kg-1.min-1), houve aumento significante apenas da freqüência cardíaca, o mesmo ocorrendo com a menor dose da droga (2 µg.kg-1.min-1), que determinou também aumento significante do índice cardíaco (Tabela I). Em relação ao aparelho renal, a maior dose da efedrina aumentou a resistência vascular renal (Figura 4), com diminuição dos fluxos plasmáticos (Figura 3) e sangüíneo renais (Tabela II). Com a dose intermediária da droga, houve apenas alteração significante da fração de filtração, com aumento de seus valores, enquanto com a menor dose de efedrina, houve aumento significante do débito urinário e da excreção fracionária de sódio (Tabela II).

 

DISCUSSÃO

As menores doses de efedrina (2 e 10 µg.kg-1.min-1) na pesquisa foram determinadas após a leitura de dados da literatura 12, em que foram utilizadas doses de 2 a 6 e de 4 a 12 µg.kg-1, para o estudo de função hemodinâmica e renal no pós-operatório de pacientes submetidos à cirurgia vascular de grande porte. A dose de efedrina de 100 µg.kg-1.min-1 foi escolhida por se aproximar das doses empregadas na prática clínica, quando se utiliza bolus de 10 a 20 mg por via venosa.

Sempre que se realiza estudo com a administração contínua de efedrina, existe a possibilidade de ocorrência da taquifilaxia, pois o seu mecanismo de ação indireto está relacionado à liberação de noradrenalina nas terminações nervosas, podendo ocasionar depleção da mesma. No entanto, o tempo de observação com o uso da efedrina, no presente experimento, foi pequeno (45 minutos), insuficiente para que ocorresse taquifilaxia. Também, durante o estudo, não se perceberam, nos grupos estudados, evidências de ocorrência da mesma, como por exemplo, diminuição das alterações hemodinâmicas.

Os efeitos cardiovasculares da efedrina, resultantes da ativação dos receptores adrenérgicos b1, b2 e a1, já são bem conhecidos, tanto em animais de experimentação, como a ovelha e o cão 11, como no homem 12,14. Com a efedrina, em pequenas doses, ou seja 2 e 10 µg.kg-1.min-1, houve ação b1-adrenérgica importante, com predomínio do efeito cronotrópico sobre o inotrópico. Este, apesar de menos importante, também deve ter ocorrido, pois não se observou, nesses grupos, diminuição da pressão arterial média, como ocorreu no grupo controle que recebeu apenas pentobarbital sódico. Provavelmente, a ação inotrópica da efedrina se opôs à ação depressora do miocárdio que é típica do pentobarbital sódico 15,16.

Em relação ao pentobarbital sódico, seus efeitos hemodinâmicos cardiovasculares, caracterizados pelo aumento da freqüência cardíaca e diminuição da pressão arterial média, como observamos na pesquisa, são considerados como devidos à ação depressora do anestésico sobre o miocárdio seguido de efeito reflexo taquicardizante pela ativação dos barorreceptores arteriais 16.

Com a maior dose de efedrina (100 µg.kg-1.min-1), além do efeito cronotrópico, houve importante efeito inotrópico sobre o miocárdio, com aumento significante da pressão arterial média e do índice cardíaco. Por outro lado, o aumento significativo dos valores da pressão venosa central pode ser conseqüente ao aumento do número de células vermelhas circulantes. Também, não se pode descartar que tenha ocorrido importante ação alfa constritora do sistema de capacitância, que parece predominar sobre o sistema de resistência quando se utiliza a efedrina 12,17. Confirmando essa possibilidade, não houve alteração do índice de resistência vascular sistêmica nos grupos em que se utilizou a efedrina. Provavelmente, a ação a-adrenérgica de efedrina tenha levado à constrição do baço, com conseqüente liberação de células vermelhas para a corrente sangüínea, determinando aumento do hematócrito 18.

O pentobarbital sódico apresenta pequenos efeitos, geralmente transitórios, sobre a função renal 19. Apenas se tomou o cuidado de não se realizar o estudo da função renal nos primeiros quinze minutos seqüentes à administração da droga, pois nesse período podem ocorrer alterações importantes da função renal.

As primeiras pesquisas que estudaram a ação da efedrina na função renal do homem encontraram algumas alterações. Assim, observou-se, no homem, que a efedrina, em doses de 50 a 75 mg por via muscular, diminui o fluxo plasmático renal e não altera o ritmo de filtração glomerular 10. Já em pesquisas seguintes, não foram observadas alterações renais importantes com o uso da efedrina, na dose de 35 a 75 mg por via muscular ou 35 mg por via venosa 8, ou ainda em administração venosa contínua de 2 mg.min-1 durante 30 minutos 9.

Pesquisas posteriores observaram que a efedrina, ao contrário, pode melhorar a função renal. Assim, verificou-se no pós-operatório de pacientes submetidos a cirurgias vasculares de grande porte, que a efedrina, na dose de 2 a 6 µg.kg-1.min-1, após bolus inicial de 5 mg venoso, suficiente para manter a pressão 20% acima dos valores basais, aumenta o débito cardíaco e eleva o fluxo plasmático renal, o ritmo de filtração glomerular e o débito urinário. Quando se aumentou a dose de efedrina para 4 a 12 µg.kg-1.min-1, foi observado, apesar do aumento ainda maior da pressão arterial e do débito cardíaco, que ocorreu pequeno aumento do fluxo plasmático renal, sem alterações do débito urinário e do ritmo de filtração glomerular. Não se observou alteração significativa nas catecolaminas plasmáticas, mas houve diminuição significativa da atividade da renina plasmática, principalmente com a menor dose de efedrina. Segundo os autores, o aumento da função renal deveu-se ao aumento da pressão de perfusão, mas não descartaram a possibilidade de ter ocorrido efeito vasodilatador direto adicional da efedrina nas arteríolas aferentes e eferentes, semelhante ao da dopamina 12.

Em cães anestesiados com pentobarbital sódico e sob bloqueio peridural (T1 a L3), os autores verificaram que a efedrina, em infusão contínua de 2,5 µg.kg-1.min-1, normalizou a pressão arterial e as resistências vascular sistêmica e renal, diminuídas após a instalação do bloqueio peridural; observou-se também que o débito cardíaco e o fluxo sangüíneo renal, medido por fluxometria eletromagnética, não se alteraram após o bloqueio e a administração de efedrina. A freqüência cardíaca, que havia diminuído após o bloqueio, aumentou com a efedrina, mas sem atingir os níveis iniciais do controle. Já o volume sistólico, que aumentou em 50% após o bloqueio, normalizou-se após a efedrina 11.

Certamente a pesquisa de Westman e col. (1988) 12 foi a primeira a relacionar os efeitos da efedrina na função renal com a dose da droga e a primeira a admitir a possibilidade de a mesma apresentar efeito vasodilatador renal direto, semelhante ao induzido pela dopamina, com aumento de fluxo sangüíneo renal, débito cardíaco, débito urinário e excreção urinária de sódio, com diminuição da resistência vascular renal 20. Há que se considerar ainda que a efedrina apresenta ações dopaminérgicas centrais em animais de experimentação 21, mas ação dopaminérgica periférica da droga ainda não foi demonstrada.

Entretanto, os resultados encontrados em nossa experimentação não estão de acordo com uma possível ação do tipo dopaminérgico da efedrina nos rins. Assim, no grupo que recebeu a menor dose de efedrina, (2 µg.kg-1.min-1), não houve alteração importante na hemodinâmica renal, apesar de ter ocorrido alteração da função renal, com aumento do débito urinário e da excreção fracionário de sódio, com a depuração de sódio suplantando o ritmo de filtração glomerular e provocando maior eliminação de sódio. Já com dose intermediária de efedrina (10 µg.kg-1.min-1), houve apenas aumento da fração de filtração. Assim parece ter ocorrido efeito maior da efedrina sobre a resistência das arteríolas eferentes, aumentando o tônus das mesmas, pois o fluxo plasmático renal, medido pela depuração de PAH, apresentou tendência à diminuição e o ritmo de filtração glomerular, medido pela depuração de creatinina, não se alterou. No entanto, no grupo tratado com a maior dose de efedrina (100 µg.kg-1.min-1), houve aumento da resistência vascular renal, com diminuição significante dos fluxos plasmático e sangüíneo renais.

Assim, a efedrina, na menor dose, não apresentou efeito vasodilatador renal, o mesmo acontecendo quando foi utilizada em dose intermediária, com a qual, pelo contrário, houve evidências de efeito vasoconstritor renal, com aumento de fração de filtração. Já na maior dose, a efedrina, apesar de aumentar o índice cardíaco e a pressão arterial, apresentou ações na hemodinâmica renal semelhantes às relatadas para as aminas com atividade a-constritora importante.

A possibilidade de liberação de hormônios vasoconstritores renais, como a renina, com as maiores doses de efedrina, deve ser menos considerada, pois o maior estímulo para que isto aconteça é a diminuição da pressão arterial, o que é justamente o oposto do que ocorreu. Também, há que se considerar que os autores obtiveram, após a infusão de efedrina, diminuição da atividade da renina plasmática 12.

Não pode ser descartada a possibilidade de que as alterações renais observadas com as menores doses de efedrina tenham decorrido do aumento de pressão de perfusão, em razão do aumento do índice cardíaco e, portanto, do débito cardíaco, com inibição conseqüente do eixo hipotálamo-hipófise-rins, ou da expansão do volume extracelular.

Um efeito direto da efedrina na reabsorção de sódio não pode ser excluído 12. O possível local de ação para a diminuição da reabsorção de sódio ainda é controverso, mesmo para drogas como a dopamina, que parece apresentar efeitos renais tubulares diretos, com diminuição da reabsorção de sódio pelos túbulos renais proximais 20.

Acreditamos serem necessárias maiores investigações para esclarecer eventual efeito dopaminérgico da efedrina, assim como seu possível local de ação.

Em conclusão, a efedrina, dependendo da dose utilizada, apresenta ações hemodinâmicas e renais diferenciadas.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dra. Rosa Beatriz Amorim
Deptº de Anestesiologia da FMB, UNESP
Distrito de Rubião Junior
18618-970 Botucatu, SP

Apresentado (Submitted) em 09 de outubro de 2001
Aceito (Accepted) para publicação em 12 de dezembro de 2001
Recebido do (Received from) Laboratório Experimental do CET/SBA do Departamento de Anestesiologia da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), UNESP. Trabalho apresentado como Dissertação de Mestrado no Curso de Pós-Graduação em Cirurgia da FMB - UNESP