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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.52 no.5 Campinas Sept./ Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942002000500005 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Analgesia pós-toracotomia com associação de morfina por via peridural e venosa

 

Comparison of intravenous and epidural morphine analgesia after thoracotomy

 

Analgesia pós-toracotomia con asociación de morfina por vía peridural y venosa

 

 

Neuber Martins Fonseca, TSAI; Beatriz Lemos da S. Mandim, TSAII; Célio Gomes de AmorimIII

IProfessor Adjunto da Disciplina de Anestesiologia e Responsável pelo CET/SBA da FM-UFU e Membro da Comissão de Normas Técnicas da SBA
IIProfessor da Disciplina de Anestesiologia e Co-Responsável pelo CET/SBA da FM-UFU
IIIAnestesiologista do Hospital de Clínicas da FM-UFU

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Analgesia após cirurgia de tórax é feita por diferentes métodos. O objetivo do estudo foi avaliar a analgesia pós-operatória com associação de morfina por via venosa e peridural, comparada ao uso por via isolada.
MÉTODO: Foram estudados 20 pacientes submetidos à cirurgia de tórax, ambos os sexos, estado físico ASA I a III. Foi feita medicação pré-anestésica com midazolam por via venosa (3 a 3,5 mg) na SO. A monitorização constou de ECG contínuo, pressão arterial invasiva, oximetria de pulso, capnografia, PVC, diurese e temperatura. Primeiramente foi realizada anestesia peridural contínua, T7-T8 com 10 ml de bupivacaína a 0,25% e, em seguida, indução com fentanil (5 µg.kg-1), etomidato (0,2 a 0,3 mg.kg-1) e succinilcolina (1 mg.kg-1). Foi feita IOT com tubo de duplo lume, complementação com pancurônio (0,08 a 0,1 mg.kg-1) e ventilação controlada mecânica. Os pacientes foram então distribuídos aleatoriamente em três grupos. Ao Grupo I, administrou-se pelo cateter peridural, 2 mg de morfina 0,1% na indução da anestesia (M1), após 12 horas (M2) e 24 horas (M3) do final da cirurgia, ao Grupo II, morfina por via venosa em bomba de infusão (15 µg.kg.h-1) precedida de bolus de 50 µg.kg-1, durante 30 horas e ao Grupo III, morfina por via peridural na dose de 0,5 mg em M1, M2 e M3, associada com morfina venosa em bomba de infusão (8 µg.kg.h-1) precedida de bolus de 25 µg.kg-1, por 30 horas. Análise de gases arteriais, freqüências cardíaca e respiratória, presença de prurido, náuseas, vômitos e analgesia pós-operatória foram avaliados a cada 6 horas, até um total de 30 horas do pós-operatório. A analgesia foi avaliada por escala de graduação numérica (EGN) de 0 a 10.
RESULTADOS: A EGN apresentou redução no grupo I apenas no momento M2 não ocorrendo nos demais intervalos. Nos grupos II e III ocorreu redução da dor a partir de 18 horas em relação aos valores iniciais e em relação ao grupo I. Houve maior necessidade de analgesia complementar no grupo I do que nos outros grupos.
CONCLUSÕES: Observou-se melhor efeito analgésico com morfina venosa ou com a associação de vias venosa e peridural utilizando-se menores doses de morfina. Esta diferença foi expressiva quando menores quantidades de analgésicos complementares foram utilizados nestes grupos, oferecendo um efetivo método de analgesia para o pós-operatório de cirurgia de tórax com menores efeitos depressores respiratórios e emetogênicos.

Unitermos: ANALGESIA, Pós-operatória; CIRURGIA, Torácica; DOR, Aguda; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: peridural


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Patients undergoing thoracotomy experience severe postoperative pain. This study aimed at evaluating postoperative analgesia with the association of intravenous and epidural morphine as compared to a single route.
METHODS: Participated in this study 20 patients of both genders, physical status ASA I, II or III, scheduled for thoracotomy. Patients were premedicated with intravenous midazolam (3 to 3.5 mg) in the OR. Monitoring consisted of continuous ECG, invasive blood pressure, pulse oximetry, capnography, CVP, diuresis and temperature. Continuous epidural anesthesia was induced in T7-T8 with 10 ml of 0.25% bupivacaine followed by fentanyl (5 µg.kg-1), etomidate (0.2 to 0.3 mg.kg-1) and succinylcholine (1 mg.kg-1). Tracheal intubation was performed with a double lumen tube and complemented with pancuronium (0.08 to 0.1 mg.kg-1) and mechanically controlled ventilation. Patients were then randomly distributed in three groups. Group I received 2 mg of 0.1% morphine by epidural catheter at anesthetic induction (M1), 12 h (M2) and 24 h (M3) after surgery. Group II received intravenous morphine by infusion pump (15 µg.kg.h-1) preceded by a 50 µg.kg-1 bolus, for 30 hours. Group III received 0.5 mg epidural morphine in M1, M2 and M3, associated to intravenous morphine by infusion pump (8 µg.kg.h-1), preceded by a 25 µg.kg-1 bolus, for 30 hours. Blood gas analysis, heart and respiratory rate, incidence of pruritus, nausea, vomiting and postoperative analgesia were evaluated at 6-hour intervals for 30 postoperative hours. Analgesia was evaluated by a numeric gradual scale (NGS) from 0 to 10.
RESULTS: NGS was lower in Group I in M2, without differences in remaining intervals. Pain decreased in Groups II and III as from 18 hours as compared to baseline and to Group I. Group I needed more additional analgesia as compared to other groups.
CONCLUSIONS: There has been a better analgesic effect with intravenous morphine or the association of intravenous and epidural morphine, with lower drug doses. This difference was significant when lower analgesic doses were used in these groups and represented an effective postoperative analgesic method for thoracotomy, with lower respiratory depression and emetic effects.

Key Words: ANALGESIA, Postoperative; ANESTHETIC TECNIQUES, Regional: epidural; PAIN, Acute; SURGERY, Thoracic


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Analgesia después de la cirugía de tórax es realizada por diferentes métodos. El objetivo del estudio fue evaluar la analgesia pós-operatoria con asociación de morfina por vía venosa y peridural, comparada al uso por vía aislada.
MÉTODO: Fueron estudiados 20 pacientes de cirugía de tórax, de ambos sexos, estado físico ASA I a III. Fue hecha medicación pré-anestésica con midazolan por vía venosa (3 a 3,5 mg) en la SO. La monitorización constó de ECG continuado, presión arterial invadida, oximetria de pulso, capnografia, PVC, diuresis y temperatura. Primero fue realizada anestesia peridural continua, T7-T8 con 10 ml de bupivacaína a 0,25% y, enseguida, inducción con fentanil (5 µg.kg-1), etomidato (0,2 a 0,3 mg.kg-1) y succinilcolina (1 mg.kg1). Fue hecha IOT con tubo de duplo lumbre, complementado con pancurónio (0,08 a 0,1 mg.kg-1) y ventilación mecánica controlada. Los pacientes fueron entonces distribuidos aleatoriamente en tres grupos. Al Grupo I, se administró por el catéter peridural, 2 mg de morfina 0,1% en la inducción de la anestesia (M1), después de 12 horas (M2) y 24 horas (M3) del final de la cirugía, al Grupo II, morfina por vía venosa en bomba de infusión (15 µg.kg.h-1) precedida de bolus de 50 µg.kg-1, durante 30 horas y al Grupo III, morfina por vía peridural en la dosis de 0,5 mg en M1, M2 7 y M3, asociada con morfina venosa en bomba de infusión (8 µg.kg.h-1) precedida de bolus de 25 µg.kg-1, por 30 horas. Análisis de gases arteriales, frecuencias cardíaca y respiratoria, presencia de prurito, náuseas y vómitos y analgesia pós-operatoria fueron evaluados a cada 6 horas, hasta un total de 30 horas del pós-operatorio. La analgesia fue evaluada por escala de graduación numérica (EGN) de 0 a 10.
RESULTADOS: A EGN presentó reducción en el grupo I apenas en el momento M2 no ocurriendo en los demás intervalos. Nos grupos II y III ocurrieron reducción del dolor a partir de 18 horas en relación a los valores iniciales y en relación al grupo I. Hubo mayor necesidad de analgesia complementar en el grupo I de que en los otros grupos.
CONCLUSIONES: Se observó mejor efecto analgésico con morfina venosa o con la asociación de vías venosa y peridural utilizando menos dosis de morfina. Esta diferencia fue expresiva cuando menos cantidades de analgésicos complementares fueron utilizados en estos grupos, ofreciendo un efectivo método de analgesia para el pós-operatorio de cirugía de tórax con menores efectos depresivos respiratorios e emetogénicos.


 

 

INTRODUÇÃO

A dor que se seque a toracotomia é das mais intensas no período pós-operatório, sendo de longa duração, com conseqüente redução da ventilação e limitação da tosse. Representa importante problema na recuperação pós-operatória de cirurgias de tórax, contribuindo para formação de atelectasias, conduzindo a hipóxia, infecção e comprometimento permanente da função pulmonar 1-8.

Analgesia pós-operatória para cirurgia torácica tem sido administrada por diferentes vias 5-9, métodos e medicamentos com resultados conflitantes e às vezes confusos 10, pela divergência dos métodos adotados e diminuta participação multidisciplinar nas muitas variáveis envolvidas 4,5. A analgesia pós-cirurgia de tórax tem sido feita com técnicas sistêmicas ou regionais, administrando antiinflamatórios não hormonais, anestésicos locais, opióides e outros 9.

Estudos demonstram o efeito analgésico prolongado da morfina por via peridural, com baixos índices de efeitos colaterais em relação ao estado de vigília, à função neuromuscular e ao sistema nervoso simpático 10-14. Contudo, evidências obtidas de estudos para analgesia são conflitantes em afirmar maior benefício da analgesia com morfina por via peridural em relação à venosa 15-18, sendo também questionável a associação de opióides com outros medicamentos para otimizar a qualidade analgésica com menores efeitos colaterais 9,18.

O objetivo do estudo foi avaliar a ação analgésica pós-operatória da associação de morfina por via venosa e peridural comparada ao uso de via venosa ou peridural isolada, em cirurgia de tórax.

 

MÉTODO

Após a aprovação do método pelo Comitê de Ética Médica do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia e do consentimento por escrito, foram estudados 20 pacientes escalados para cirurgia de tórax, de ambos os sexos, classificados quanto ao estado físico ASA I a III, distribuídos aleatoriamente em três grupos. Foram excluídos os pacientes que recusaram o bloqueio peridural ou a participação no estudo, portadores de doenças neurológicas, cardiopulmonares, hepato-renais, psiquiátricas, abuso de drogas, acentuada deficiência visual e aqueles com peso inferior a 45 ou superior a 100 quilos.

Na visita pré-anestésica não foi prescrita medicação sedativa. Quando o paciente chegou ao centro cirúrgico, foi feita hidratação venosa pela inserção de um cateter 14G em veia do antebraço cerca de 30 minutos antes de encaminhar o paciente à sala de operação. Esta via venosa foi utilizada para que a todos os pacientes fosse administrada medicação pré-anestésica com midazolam na dose de 3 a 3,5 mg.

Na sala de cirurgia a monitorização per-operatória constou de cardioscópio na derivação DII ou CM5, esfigmomanômetro para controle da pressão arterial pelo método de Riva-Rocci com freqüência de aferição a cada 3 minutos e/ou invasiva pela inserção de cateter 20G na artéria radial distal de membro superior, realizada somente após o teste de Allen, para verificar adequada perfusão da mão pela artéria ulnar. Oxímetro de pulso para leitura contínua da SpO2, capnografia para aferição contínua da PETCO2, pressão venosa central por introdução de cateter em veia subclávia. A diurese foi controlada por sondagem vesical e a temperatura por sensor esofágico.

Foi realizada anestesia peridural contínua antes da indução da anestesia, com paciente na posição de decúbito lateral e com infiltração prévia da pele e subcutâneo com lidocaína a 1% no local da punção, realizada em T7-T8 por via mediana, com agulha tipo Tuohy 16G com bisel cefálico, e após a identificação do espaço peridural com teste da perda da resistência com ar, introduziu-se o cateter até 5 cm da parte distal da agulha.

Após a instalação do cateter peridural, foi feita a indução da anestesia com fentanil (5 µg.kg-1), etomidato (0,2 a 0,3 mg.kg-1) e relaxamento muscular com succinilcolina (1 mg.kg-1), seguida de intubação traqueal com tubo de duplo lúmen de PVC tipo Carlens, com balonete de baixo volume e alta pressão. O posicionamento do tubo traqueal foi confirmado pela ausculta pulmonar e presença de onda no capnógrafo. Relaxamento muscular complementar foi obtido com pancurônio (0,08 a 0,1 mg.kg-1), sendo a dose ajustada com auxílio de estimulador de nervo periférico.

A ventilação adotada foi a controlada mecanicamente, em sistema com absorvedor de CO2, com ventilador volumétrico. O volume corrente (VC) foi mantido constante em 7 ml.kg-1 para pressão intratraqueal (PIT) máxima entre 10 e 20 cmH2O em ventilação bipulmonar, e a fração inspirada de oxigênio (FiO2) em 100%. A freqüência ventilatória (FV) ajustada para manter a PETCO2 entre 34 a 38 mmHg.

Os 20 pacientes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos para controle da analgesia após a cirurgia torácica. Ao grupo I, administrou-se pelo cateter peridural 2 mg de morfina a 0,1% na indução da anestesia (M1), após 12 horas (M2) e 24 horas (M3) do final da cirurgia, ao grupo II, morfina por via venosa em bomba de infusão contínua (15 µg.kg.h-1) durante 30 horas, precedida de bolus de 50 µg.kg-1 na indução da anestesia e ao grupo III, morfina por via peridural na dose de 0,5 mg em M1, M2 e M3, associada com morfina venosa contínua em bomba de infusão (8 µg.kg.h-1) por 30 horas, precedida de bolus de 25 µg.kg-1 na indução. Todos os pacientes receberam 10 ml de bupivacaína a 0,25% no momento M1.

A analgesia pós-operatória foi avaliada por escala de graduação numérica (EGN) de 10 unidades, em que 0 significava ausência de dor e 10 dor insuportável. Analgesia complementar foi feita com dipirona (30 mg.kg-1) a pedido espontâneo do paciente ou caso a dor fosse superior a 5 pela escala EGN, e, quando persistisse após 15 minutos, dose auxiliar de alfentanil (10 a 15 µg.kg-1) foi utilizada. O tratamento do prurido foi feito a pedido espontâneo do paciente com prometazina (0,5 a 1 mg.kg-1) por via muscular, e a presença de náuseas foi tratada também a pedido do paciente com 8 mg de ondansetron até de 12 em 12 horas por via muscular ou utilizada na presença de vômitos .

A avaliação da analgesia pela EGN foi feita a cada 6 horas, até um total de 30 horas do pós-operatório. Foram também verificados nestes períodos os gases arteriais, freqüências cardíaca e respiratória, presença de prurido, náuseas e vômitos.

Todos os pacientes foram encaminhados à unidade de tratamento intensivo (UTI) ao final da cirurgia, e avaliados pelo anestesiologista que desconhecia o grupo de estudo.

O estudo estatístico foi feito por análise de variância por postos de Friedman 19,20, com o propósito de estudar os resultados da pressão arterial sistólica e pressão arterial diastólica nos grupos, análise dos gases arteriais do grupo nos períodos M1, M2 e M3 quanto à diferença de bases, pH, PaO2, PaCO2, HCO3 total, HCO3 padrão, CO2 total e avaliação da dor pela EGN. Quando mostrou diferença significativa, esta análise foi complementada pelo teste de comparações múltiplas 19. Análise de variância para grupos não independentes 21 com o intuito de estudar os instantes considerados com referência às freqüências cardíaca e respiratória. Quando esta análise mostrou diferença significante foi complementada pelo teste de contrastes de Tukey 21. Com o intuito de verificar a existência ou não de diferença significante entre os grupos, foi aplicado o teste de Kruskal-Wallis 19,20, comparando-se os dados em cada intervalo de tempo em que as medidas foram tomadas. O teste t de Student foi utilizado para análise de dados relativos a duas amostras que se apresentavam com escala intervalar ou de razão, e quando existiam mais de duas amostras foi utilizada a análise de variância. As medidas relativas a náuseas, vômitos, prurido, tabagismo dispensaram análise, porque os dados foram apresentados em escala nominal. Em todos os testes fixou-se em 5% o nível para rejeição da hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

Um paciente do grupo I foi a óbito durante o procedimento cirúrgico devido a invasão tumoral no átrio esquerdo, que rompeu durante tentativa de ressecção, sendo portanto, considerados os resultados de 6 pacientes neste grupo. Tabagismo foi observado em 70%, 66% e 71% dos pacientes, respectivamente, nos grupos I, II e III.

A tabela I mostra os valores antropométricos dos pacientes estudados quanto a idade (anos), peso (kg), altura (cm), sexo e estado físico segundo a ASA. Não foram observadas diferenças significantes entre os grupos estudados. As cirurgias realizadas constam da tabela II.

A tabela III apresenta a duração da cirurgia em minutos e o número de pacientes que necessitaram de tratamento com antieméticos no pós-operatório. Observamos que a incidência de náuseas e/ou vômitos foi maior no grupo I relacionada com a necessidade de tratamento.

A ocorrência de prurido no pós-operatório exigiu tratamento com anti-histamínico em 23,3%, 23,3% e 28% dos pacientes respectivamente nos grupos I, II e III.

A tabela IV mostra que pela escala de graduação numérica ocorreu redução da dor no grupo I, momento observado de 12 horas; porém, persistindo semelhante ao final da cirurgia nos demais momentos observados. Nos grupos II e III mostrou diminuição significante da dor a partir de 18 horas em relação aos valores iniciais e em relação ao grupo I.

A tabela V mostra o uso de analgesia complementar com dipirona no pós-operatório nos grupos estudados, observando-se maior necessidade do medicamento no período de 0-6 h e em todos os intervalos do grupo I, mostrando que os pacientes apresentaram uma menor analgesia em relação aos demais grupos, confirmado pela maior necessidade de analgésicos em função do tempo. Nenhum paciente necessitou de medicação analgésica complementar, além da técnica específica para o grupo.

Pela figura 1 observa-se uniformidade entre os grupos quanto à freqüência cardíaca nos diversos momentos estudados. Verifica-se comportamento diferente quanto à freqüência respiratória, conforme mostra a figura 2, em que houve elevação significante no grupo II, nas primeiras 12 horas em relação aos demais valores, bem como a manutenção de valores elevados em relação ao pré-operatório em todos os grupos.

Observa-se queda do hematócrito e da hemoglobina em todos os pacientes no período do pós-operatório conforme demonstram as figura 3 e figura 4.

Análise dos gases arteriais nos pacientes estudados mostra um pH significantemente baixo no grupo I no momento do início da cirurgia (Figura 5). O estado de ventilação pulmonar mostra uma hipocapnia no grupo II no pré-operatório e diminuição da saturação arterial de oxigênio (hipóxia) no grupo I após 18 horas do final da cirurgia, conforme mostram respectivamente as figura 6 e figura 7.

A EGN apresentou redução no grupo I apenas no momento M2, não ocorrendo nos demais intervalos. Nos grupos II e III ocorreu redução da dor a partir de 18 horas em relação aos valores iniciais e em relação ao grupo I (Figura 8). Houve maior necessidade de analgesia complementar no grupo I.

Nenhuma seqüela neurológica imediata causada pela inserção do cateter de peridural foi observada nos pacientes estudados.

 

DISCUSSÃO

A dor que se segue aos procedimentos de cirurgia torácica tem etiologia múltipla, sendo uma das mais intensas referidas no período pós-operatório 1-5. Como em geral são cirurgias de grande porte, a gênese dolorosa associa-se a outros fatores como o local da incisão, lesão de arcos costais e de nervos intercostais, traumatismo de estruturas adjacentes, compressão de parênquima pulmonar, distensão das pleuras, inserção de drenos, bem como comprometimento da dinâmica respiratória 3-5.

No pós-operatório de cirurgia torácica, a despeito da conhecida variação individual, a intensidade da dor é forte nas primeiras 48 a 72 horas, dependendo da permanência dos drenos tubulares torácicos 5,8, conforme observamos em nosso estudo. O alívio da dor nos pacientes submetidos à cirurgia de tórax permite o retorno precoce da fisiologia respiratória, fundamental para uma boa evolução terapêutica da intervenção cirúrgica 3,4.

Diversos métodos são utilizados para reduzir a dor pós-operatória em pacientes submetidos à cirurgia de tórax. As técnicas incluem métodos sistêmicos ou regionais 1,4. A analgesia conferida pelas técnicas regionais são tidas como superiores às sistêmicas, apesar de opiniões divergentes 9, porém, pode haver necessidade do uso concomitante de drogas adjuvantes para se implementar a analgesia provida por uma determinada técnica utilizada, apesar de ser proscrita por alguns autores a associação de técnicas e drogas 16.

As técnicas sistêmicas são sempre aplicáveis, podendo ser usadas várias drogas, como antiinflamatórios não-esteroidais e opióides, que permanecem como esteio do tratamento da dor de forte intensidade 4,10. Porém, as técnicas mais conhecidas para o tratamento da dor após a cirurgia de tórax são a peridural simples ou contínua 13,14,16,22 , bloqueio intercostal 23 ou bloqueio intrapleural 24-28. A analgesia peridural pode ser feita com a administração isolada de anestésico local, opióide, incluindo os agonistas-antagonistas, agonistas adrenérgicos e por associação entre anestésicos locais e opióides 9,16,17. O implante de cateter no espaço peridural torácico precisa ser posicionado em local apropriado para atingir as vias da dor, considerando-se os dermátomos comprometidos pela toracotomia e pela drenagem pleural 1,4,5,10. Além da analgesia promovida através de cateter peridural, pode associar-se outros analgésicos, caso não haja restrições clínicas, como a dipirona (30 mg.kg-1.dose-1) 1, conforme foi adotado no presente estudo com resultados satisfatórios.

Todas as técnicas utilizadas para o alívio da dor após cirurgia de tórax apresentam benefícios e limitações. O bloqueio intercostal é desconfortável para o paciente e de tempo limitado 4,5; por este motivo não foi estudado entre os pacientes. O bloqueio peridural com anestésicos locais pode causar hipotensão arterial e bloqueio motor 1,3, não sendo observado no estudo, possivelmente pela dose e volume utilizados.

Analgesia pós-operatória utilizando peridural torácica contínua com morfina tem sido descrita com vantagens ao uso venoso incluindo as funções respiratórias nas primeiras 24 horas 28, embora exista ausência de diferença significante entre o uso parenteral e peridural da morfina 29. Nosso estudo mostrou divergências respiratórias entre os grupos. O uso parenteral de morfina apresentou diminuição tardia (após 18 horas) da concentração arterial de oxigênio, provavelmente por efeito depressor central devido à dose cumulativa. Este efeito não foi observado no grupo III, pois a dose total do opióide foi menor. A insuficiência de ventilação alveolar foi observada com elevação arterial do dióxido de carbono nos momentos observados no pós-operatório, indicando insuficiência respiratória tipo II ou ventilatória 30. Benefícios semelhantes com a associação de técnicas utilizando menores quantidades de morfina corroboram nossos resultados 16.

A elevação da freqüência respiratória observada no presente estudo provavelmente ocorreu como resposta ao estímulo doloroso 2, efeito este que não foi suficiente para melhorar a ventilação alveolar, certamente devido à limitação causada pela intervenção cirúrgica 22.

Foi avaliado o efeito analgésico da morfina nos pacientes estudados até 30 horas, tanto por via peridural quanto parenteral, já que estudos mostraram que o benefício analgésico da morfina peridural não tem sido satisfatório para analgesia prolongada no pós-operatório de toracotomia.

O presente estudo mostrou melhor efeito analgésico da morfina venosa ou associação de vias venosa e peridural utilizando menores doses de morfina, conforme estudos prévios 17-19, apesar do nível doloroso apresentado pelos pacientes ser baixo em relação à agressividade cirúrgica, extremamente dolorosa 1,5,8,22. Esta diferença se torna mais evidente quando observam-se menores necessidades de analgésicos complementares nestes grupos.

As complicações pós-operatórias associadas à anestesia são de etiologia diversa. Provavelmente as mais desagradáveis para o paciente sejam náuseas e vômitos que, relacionadas à anestesia, podem apresentar etiologia multifatorial. Fatores desencadeantes comuns em procedimentos anestésicos, como hipotensão arterial, hipóxia, hipovolemia e dor devem ser combatidos para eliminar os sintomas eméticos 32-34.

Aspectos relacionados à técnica anestésica devem merecer atenção especial, visto que alguns medicamentos podem contribuir substancialmente para aumentar a incidência de vômitos 32,33. Algumas drogas apresentam importante potencial emetogênico, tais como agentes opióides, inalatórios e venosos (etomidato) 33,35 e isto foi fator importante no presente estudo observado pelo o uso de maior dose de opióide no grupo I, relacionado à maior incidência de vômitos em relação aos outros grupos que utilizaram doses menores.

Alguns autores observaram que o cloridrato de ondansetron apresenta melhor eficácia na terapia antiemética em relação a metoclopramida 36-39, enquanto outros afirmam o contrário 35,40. Apesar da controvérsia, o resultado observado mostrou tratamento satisfatório com o ondansetron. A maior necessidade de antiemético no grupo I pode estar associado à maior intensidade de dor referido pelo mesmo do que propriamente ao efeito emetogênico conferido pela morfina.

Este estudo mostrou que a morfina administrada em associação de vias (venosa e peridural), com metade da dose utilizada por via venosa ou peridural, oferece um efetivo método de analgesia para o pós-operatório de cirurgia de tórax com menores efeitos depressores respiratórios e emetogênicos.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Neuber Martins Fonseca
Rua Antonio Luis Bastos, 300, Altamira II
38411-116 Uberlândia, MG
E-mail: neuber@triang.com.br

Apresentado (Submitted) em 01 de novembro de 2001
Aceito (Accepted) para publicação em 25 de janeiro de 2002
Recebido do (Received from) Serviço de Anestesiologia da Universidade Federal de Uberlândia (UFU)