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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.52 no.5 Campinas Sept./ Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942002000500009 

INFORMAÇÃO CLÍNICA

 

Obstrução de vias aéreas superiores após drenagem de abscesso periamigdaliano. Relato de caso

 

Upper airway obstruction after peritonsillar abscess drainage. Case report

 

Obstrucción de vías aéreas superiores después de drenaje de absceso periamigdaliano. Relato de caso

 

 

Deoclécio Tonelli, TSAI; Fernando Wilhelm de CarvalhoII; Paula de Camargo Neves Sacco, TSAIII; Vanessa HeinkeIV; Raquel Vasconcelos de SouzaIV

ICoordenador do Serviço de Anestesiologia do CET Integrado da Faculdade de Medicina ABC
IIAssistente do Serviço de Anestesiologia do CET Integrado da Faculdade de Medicina ABC
IIIInstrutora do CET Integrado da Faculdade de Medicina ABC
IVEx-ME de CET Integrado da Faculdade de Medicina ABC

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O abscesso periamigdaliano é uma complicação incomum, porém predispõe a comprometimento grave das vias aéreas superiores. O objetivo deste relato é apresentar um caso de obstrução de vias aéreas após drenagem cirúrgica de abscesso periamigdaliano numa paciente jovem sem outras doenças de base.
RELATO DO CASO: Trata-se de uma paciente de 26 anos com grave abscesso periamigdaliano que submeteu-se à anestesia geral para drenagem e após a extubação apresentou grave insuficiência respiratória, necessitando de reintubação traqueal e ventilação controlada mecânica por 24 horas.
CONCLUSÕES: O planejamento anestésico e a adequada indicação cirúrgica são fundamentais para a prevenção de complicações em cirurgia otorrinolaringológica.

Unitermos: CIRURGIA, Otorrinolaringológica; COMPLICAÇÕES, Respiratória: obstrução de vias aéreas


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Peritonsillar abscess is an unusual complication, but predisposes to severe upper airway complications. This report aimed at presenting a case of upper airway obstruction after surgical drainage of a peritonsillar abscess in a healthy young female patient.
CASE REPORT: Young female patient, 26 years old, with severe peritonsillar abscess and submitted to general anesthesia for drainage. After extubation, she presented a severe respiratory failure requiring reintubation and controlled ventilation for 24 hours.
CONCLUSIONS: The anesthetic strategy and the adequate surgical indication are fundamental in preventing complications during ENT surgeries.

Key Words: COMPLICATIONS, Respiratory: airway obstruction; SURGERY, Otorhinolaryngologic


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El absceso periamigdaliano es una complicación incomún, sin embargo predisponen al comprometimiento grave de las vías aéreas superiores. El objetivo de este relato es presentar un caso de obstrucción de las vías aéreas después de drenaje quirúrgico de absceso periamigdaliano en una paciente joven sin otras enfermedades de base.
RELATO DE CASO: Se trata de una paciente de 26 años con grave absceso periamigdaliano que se sometió a anestesia general para drenaje y después de la extubación presentó grave insuficiencia respiratoria, necesitando de reintubación traqueal y ventilación controlada mecánica por 24 horas.
CONCLUSIONES: El planeamiento anestésico y la adecuada indicación quirúrgica son fundamentales para la prevención de complicaciones en cirugía otorrinolaringológica.


 

 

INTRODUÇÃO

O abscesso periamigdaliano é uma complicação incomum, porém predispõe a comprometimento grave das vias aéreas superiores 1.

Quando se estende até o palato mole, pode causar trismo, obstrução respiratória e intubação orotraqueal difícil, podendo tornar-se um problema ao anestesiologista, se houver indicação cirúrgica 2.

A própria manipulação da glândula pode causar complicações hemorrágicas 3,4 ou obstrutivas 1,2,5, sendo seu manuseio dependente da gravidade de cada caso 4,6.

O objetivo deste relato é apresentar um caso de obstrução de vias aéreas após drenagem cirúrgica de abscesso periamigdaliano numa paciente jovem sem outras doenças de base.

 

RELATO DO CASO

Paciente com 26 anos, do sexo feminino, branca, procurou o pronto socorro com queixa de febre, dor de garganta e dificuldade para deglutir há 3 dias, tendo feito uso de penicilina cristalina sem melhora do quadro. O exame físico foi impossibilitado pela dificuldade e intensa dor à abertura da boca. Os exames laboratoriais revelaram leucocitose (20.100) sem desvio à esquerda ou outras alterações.

Foi estabelecido o diagnóstico de abscesso periamigdaliano, sendo a paciente encaminhada ao centro cirúrgico para realização de drenagem. A paciente foi monitorizada com cardioscópio, oximetria de pulso e pressão arterial não invasiva, sendo induzida em seqüência rápida, optando-se por anestesia geral balanceada com propofol (200 mg), alfentanil (200 µg), rocurônio (40 mg), sevoflurano e óxido nitroso. A paciente foi intubada sem dificuldade.

Após o procedimento anestésico-cirúrgico, realizado sem intercorrências, a paciente foi extubada, evoluindo imediatamente com obstrução de vias aéreas superiores sendo necessária a reintubação.

Encaminhada à unidade de terapia intensiva, a paciente foi mantida sedada com midazolam e fentanil em infusão contínua e sob ventilação mecânica, sendo avaliada pela infectologia que estabeleceu como hipótese diagnóstica: síndrome monolike, com infecção bacteriana secundária, sendo tratada com ampicilina por via venosa. Foram colhidas sorologias para HIV, toxoplasmose, mononucleose e citomegalovírus, tendo sido todas negativas.

Após instituído o tratamento, a paciente evoluiu com melhora do quadro, sendo extubada e tendo alta da UTI após 24 horas do procedimento cirúrgico e alta hospitalar após 72 horas, sem sinais de obstrução ou sangramento.

A paciente aguarda remissão completa do quadro infeccioso para programar sua amigdalectomia.

 

DISCUSSÃO

O abscesso periamigdaliano é uma complicação infecciosa que exige interação entre o otorrinolaringologista e o anestesiologista para o melhor planejamento da conduta 2.

Há estudos que recomendam a amigdalectomia primária 6,7, enquanto outros recomendam tratamento conservador, deixando a amigdalectomia para casos recorrentes 8-10. A maioria, no entanto, concorda com a punção amigdaliana para esvaziar o abscesso antes da conduta cirúrgica propriamente dita 2, evitando dessa forma a aspiração de pus, hemorragia ou obstrução das vias aéreas por manipulação cirúrgica excessiva.

A indicação anestésica é outro ponto de controvérsia, que depende da conduta cirúrgica. A punção com esvaziamento pode ser feita sob anestesia local 2. Entretanto, a drenagem cirúrgica sob anestesia geral é a melhor forma de assegurar a patência das vias aéreas, fato bem discutido na literatura 4-6.

Deste caso podemos concluir que o planejamento anestésico bem como uma adequada indicação cirúrgica são fundamentais para prevenção de complicações após drenagem de abscesso periamigdaliano.

 

AGRADECIMENTOS

Agradecemos ao Dr. Mário Casemiro Júnior, anestesiologista assistente do CET Integrado da Faculdade de Medicina ABC.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dr. Deoclécio Tonelli
Rua Marina Jacomini, 60/63
09541-360 São Caetano do Sul, SP

Apresentado (Submitted) em 23 de julho de 2001
Aceito (Accepted) para publicação em 05 de março de 2002
Recebido do (Received from) Hospital Beneficente São Caetano, CET Integrado de Medicina ABC