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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.53 no.1 Campinas Jan./Feb. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942003000100015 

ARTIGO ESPECIAL

 

As nove premissas anestesiológicas da bíblia

 

Nine biblical anesthetic premises

 

Las nueve premisas anestesiológicas de la biblia

 

 

Nilton Bezerra do Vale, TSAI; José Delfino, TSAII

IProfessor Adjunto de Farmacologia e Anestesiologia da UFRN
IIProfessor de Anestesiologia da UFRN

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Os autores fazem uma análise histórica de nove premissas inerentes à prática anestésica que já estão referenciadas na Bíblia há mais de 3.000 anos (Velho Testamento). Drogas anestésicas e adjuvantes, pacientes, atitudes e técnicas do anestesiologista são discutidas à luz da Bíblia e da ciência moderna.
CONTEÚDO: Para facilitar a compreensão, as nove premissas estudadas estão correlacionadas com o livro citado da Bíblia: I - Jeová, o pioneiro da anestesia inalatória - Gên 2; II- Efeito hipnótico e amnéstico do álcool - Prov. 20, Gên. 19, Marc. 15; III - O Caos e a Cronobiologia relacionados à Anestesia - Gên. 1, Ecles. 3; IV - A Estereoisomeria dos anestésicos - Ecles. 42, Gên. 1; V - A ressuscitação cardiorrespiratória realizada por Elias e Eliseu - Gên. 2; Reis III 17, Reis IV 4; VI - A tocoanalgesia - Gên. 3, Apoc. 12, Gên. 35 e morte materna pós-parto de Raquel - Êx. 1; VII - A “proibição de comer” ou transfundir sangue na testemunha de Jeová - Lev. 7,17; VIII - A acidose no tratamento de convulsão epiléptica - Mat. 17; IX - Da morte na cruz por choque hipovolêmico - Marc. 15, João 19.
CONCLUSÕES: De acordo com as premissas anestésicas discutidas, a leitura da Bíblia sem a ótica fundamentalista mostra não haver incompatibilidade entre religião, ciência e anestesia, exceto a interpretação da testemunha de Jeová sobre o Levítico, acreditando na perda da vida eterna porque o sangue transfundido é uma comida impura proibida por Jeová.

Unitermos: ANESTESIOLOGIA: história


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES:The authors produced a historical analysis of nine anesthesia-related premises described in the Bible more than 3,500 years ago (Old Testament). Anesthetic drugs and adjuvants, patients, anesthesiologists attitudes and techniques are discussed in the light of Biblical and modern science.
CONTENTS: To help understanding, the nine premises evaluated are correlated to the book of Bible citation: I - Jehovah, the pioneer of inhalational anesthesia - Gen 2; II - Alcoholic hypnosis and anesthesia - Prov 20, Gen 19, Marc 15; III - Anesthesia-related Chaos and Chronobiology - Gen 1, Ecles 3; IV - Anesthetic drugs Stereoisomerism - Ecle 42, Gen 1; V - Elijah´s and Elisha´s cardiopulmonary resuscitation - Gen 2, Kings III 17, Kings IV 4; VI - Tocoanalgesia - Gen 3, Rev 12, Gen 35 and Rachel’s post-partum death - Ex 1; VII - Jehovah´s witnesses interpretation of blood transfusion forbiddance - Lev 7,17; VIII - Acidosis for epileptic seizure treatment - Math 17; IX - Death on the cross by hypovolemic shock - Marc 15, John 19.
CONCLUSIONS: According to the anesthetic premises discussed, Holy Bible reading without fundamentalism shows no incompatibility between religion, science and anesthesia, except for Jehovah,s witnesses interpretation of Leviticus VII-XVII, by which they would lose eternal life because transfused blood is an impure food forbidden by Jehovah.

Key Words: ANESTHESIOLOGY: history


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Los autores hacen una análisis histórica de nueve premisas inherentes a la práctica anestésica que ya están referenciadas en la Biblia hace más de 3.000 años (Viejo Testamento). Drogas anestésicas y adyuvantes, pacientes, actitudes y técnicas del anestesista son discutidas a la luz de la Biblia y de la ciencia moderna.
CONTENIDO: Para facilitar la comprensión, las nueve premisas estudiadas están correlacionadas con el libro citado de la Biblia: I - Jehová, el pionero de la anestesia inhalatoria - Gén 2; II - Efecto hipnótico y amnéstico del alcohol - Prov. 20; Gén 19, Marc. 15; III - El Caos y la Cronobiologia relacionados a la Anestesia - Gén, 1, Ecles 3; IV - La Estereoisomeria de los anestésicos - Ecles, 42; Gén,1; V - La resucitación cardiorrespiratoria realizada por Elias y Eliseo - Gén 2; Reyes III 17, Reyes IV 4; VI - La tocoanalgesia - Gén 3; Apoc, 12; Gén, 35; y muerte materna pós-parto de Raquel - Ex 1; VII - La “prohibición de comer” o transfundir sangre en el testimonio de Jehová - Lev 7, 17; VIII - La acidosis en el tratamiento de convulsión epiléptica - Mat. 17; IX - De la muerte en la cruz por choque hipovolémico - Marc. 15, Juan 19.
CONCLUSIONES: De acuerdo con las premisas anestésicas discutidas, la lectura de la Biblia sin la óptica fundamentalista muestra que no hay incompatibilidad entre religión, ciencia y anestesia, excepto la interpretación del testimonio de Jehová sobre el Levítico, acreditando en la pérdida de la vida eterna porque la sangre transfundida es una comida impura prohibida por Jehová.


 

 

INTRODUÇÃO

Nos setenta e três livros sagrados da Bíblia encontramos as bases históricas do Povo de Deus e a tradição judáico-cristã que ainda norteiam a caminhada do Homo sapiens sapiens no planeta Terra até o encontro do Ser Supremo no final dos tempos (Parusia) 1. Trinta mil anos após a última glaciação, inicia-se entre os rios Tigre e Eufrates na Mesopotâmia a era agrícola, encerrando a vida nômade para muitos povos. A disponibilidade de animais domesticáveis e de plantas cultiváveis para fornecimento periódico de alimento permitiu a certos grupos étnicos fixarem-se à margem de rios, garantindo sua sobrevivência. Gradativamente, pessoas da clã eram liberadas para outras tarefas como a burocracia da comunidade familial, a tecnologia de novas ferramentas ou armas (madeira, pedra, bronze etc.) e a religião para compreender a si mesmo e/ou as forças da Natureza. Do século VIII ao VI a.C., o êxito da Era Agrícola na previsibilidade do fornecimento de alimento, vestuário, habitação e a posse da terra deu ao Homem tempo extra para dedicar-se à contemplação e buscar seu eixo existencial, através de uma espiritualidade crescente ou na deificação simplista das forças da Natureza. Curiosamente, essas características não só ocorreram no paganismo pré-bíblico, mas também estão se repetindo entre os partidários da ecologia “verde” ambientalista com a deificação da Mãe Natureza através das lutas preservacionistas contra a poluição ou a extinção de animais 2. O resultado desses últimos cinco mil anos de existência do Homo Sapiens foi o aparecimento das religiões mais importantes do homem contemporâneo, como o Judaísmo que gerou o Cristianismo e Islamismo, o Budismo e o Taoísmo.

Na civilização ocidental, a narração bíblica constitui a pedra angular teosófica de três religiões monoteístas historicamente centradas em Jerusalém: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo. Alguns pilares teológicos do Livro Sagrado podem ser destacados, como a criação do Homem à Sua Imagem e Semelhança, senhor dos seres animados e inanimados; a aliança Criador-criatura, simbolizada nas cores geofísicas do arco-íris sempre em um firmamento com a luz do sol e os cristais de gotas da chuva; a liberdade de usar sua imaginação e de ter conhecimento do bem e do mal a Sua revelia; provação e amadurecimento profético do povo judeu pelos exílios forçados da Terra prometida; o enaltecimento do Amor como bem maior para a paz social universal e cósmica através do nascimento e morte de Cristo no planeta Terra 1,2.

A narrativa inspirada dos agiógrafos sobre fatos que remontam a 1.500 anos da era Cristã (Velho Testamento) ou do 1º século do Cristianismo (Novo Testamento), não apenas retrata argumentos e idéias para o homem hebraico analfabeto e recém-egresso do cativeiro no Egito, mas também uma mensagem transcendental para as futuras gerações judaicas, cristãs e islâmicas. A leitura bíblica também revela premissas sociais, culturais e científicas, biomédicas e, também, algumas relacionadas ao ato anestésico. Na condição de batizados no Catolicismo por nossos pais e, conseqüentemente, moldados no cadinho da cultura ocidental cristã, nossa visão médica sobre o Livro Sagrado está sempre tocada pelo “vírus” da religião cristã. Julgamos, pois, pertinente a busca de uma releitura, a mais neutra possível, do Novo e Velho Testamentos, buscando subsídios para análise das narrativas sob a luz de eventuais conhecimentos científicos e tecnológicos deste terceiro milênio 1.

Nesta revisão procuramos analisar os nove eventos bíblicos mais marcantes que estariam diretamente relacionadas com o ato anestésico nos seus principais componentes: analgesia somático-visceral e inconsciência pelo uso de drogas, bem como a interação dinâmica entre pacientes, cirurgiões, obstetras, neonatologistas, intensivistas e anestesiologistas.

I - Da 1ª Anestesia Inalatória

Gênesis 2,21Mandou o Senhor Deus um profundo sono a Adão e tirou uma de suas costelas, enquanto estava dormindo”.

O controle da alta intensidade dolorosa da cirurgia torácica exige um plano anestésico adequado para assegurar analgesia, amnésia e controle autonômico eficazes, pois permitiu a remoção de uma costela de Adão para a modelagem de Eva. A dor torácica pós-operatória sempre ultrapassa mais de 8 na escala analógica visual. Desta forma, Jeová pode ser considerado o primeiro anestesiologista nos Jardins do Éden, conforme argumento levantado pelo médico real, epidemiologista e anestesiologista John Snow na sua polêmica londrina (UK) de 1853 a favor da tocoanalgesia 3,4.

II - Do Efeito Hipnótico e Amnéstico do Álcool

Provérbios 20,1 O vinho é uma fonte de luxúria e a embriaguez é cheia de desordens.

Gênesis 19,32 Vem, embriaguemo-lo com vinho e durmamos com ele...33 a filha mais velha dormiu com o pai; ele porém não sentiu nem quando ela deitou, nem quando ela se levantou; 36 e as duas filhas de Lot conceberam de seu pai”.

Por acaso, algumas uvas deixadas em algum buraco na rocha há 6.000 anos, sob ação do sol e criaturas invisíveis (fermentos) formou uma massa pastosa que saciou a sede de algum homem primitivo esfomeado... estava descoberto o efeito estimulante-depressor do álcool. O etanol foi a primeira substância usada intencionalmente para permitir o ato cirúrgico, inclusive foi o único anestésico (vinho) usado pelos cirurgiões-barbeiros do exército napoleônico na invasão da Rússia, no século XIX. O baixo índice terapêutico e o difícil despertar determinaram a interrupção do seu emprego já nas primeiras décadas do século XX. O efeito inebriante e amnéstico do etanol permitiu o primeiro incesto descrito entre o sobrinho de Abraão, Lot, recém-egresso de Sodoma destruída pelo incêndio da fúria divina, com as duas filhas, cujos filhos deram origem as tribos dos Moabitas e Amanitas. Atualmente, este efeito luxuriante do álcool como facilitador de estupro foi substituído pelo benzodiazepínico flunitrazepam, razão pela qual a sua comercialização está judicialmente proibida em muitos países.

Marcos 15,23 E davam-lhe a beber vinho misturado com mirra; mas não o tomou

A oferta de vinho com incenso de mirra (Commiphora myrrha) era um ato de misericórdia, pois o efeito inebriante e anestésico do álcool misturado no incenso poderia atordoar o condenado à cruel morte na cruz, mitigando-lhe o sofrimento; Jesus afastou a bebida e suportou conscientemente de 9h00 as 15h00, no monte Gólgota, as dores da crucificação 1,4,5.

III - Do Caos e da Cronobiologia

Gênesis 1,3 - E Deus disse:” Faça-se a luz; e a luz foi feita “5 chamou à luz, dia, e às trevas, noite.

Eclesiastes 3,1-8 Todas as coisas têm seu tempo, e todas elas passam debaixo do céu, segundo o tempo que a cada um foi prescrito: nascer-morrer; plantar-colher; matar-sarar; chorar-rir; calar-falar; amor-ódio; guerra-paz.

A ciência do século XX será lembrada pela relatividade do espaço-tempo absoluto; a mecânica quântica com novos níveis de mensuração; o caos eliminando a previsibilidade determinística linear; a energia atômica provocando o medo coletivo e arquetipal sobre o fim da humanidade; o plástico e os chips facilitando a vida das pessoas; a cronobiologia demonstrando ser a ritmicidade temporal uma propriedade intrínseca da matéria viva.

Os processos de mutação e seleção natural são fenômenos complexos e intrínsecos à vida no planeta Terra desde a origem da vida há 3,5 bilhões de anos. Nosso “biologismo” e o universo têm comportamento caótico aperiódico, sendo extremamente sensível às condições iniciais: clima; fluxo de água em canos ou em vasos sangüíneos; população; epidemias; comportamento; sinais vitais (ritmo cardíaco, pressão arterial, temperatura, respiração, dor); potencial de ação, entre outros. O tempo (segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano, século) funciona como um atrator de Lorenz para onde convergem a maioria das linhas representativas do evento em foco. Entretanto, para sua organização interna e social, o homem necessita de estudar didaticamente os fenômenos biológicos como se não fossem caóticos e, sim, periódicos, isto é, passíveis de análises lineares e estatísticas. Os parâmetros biológicos mostram que variações circadianas, mensais e anuais são indispensáveis à manutenção de uma homeostase antecipativa às variações ambientais horárias e/ou sazonais. O relógio biológico hipotalâmico (25,2h) é diariamente atrasado pelo relógio solar (24h) - zeitgeber - o que torna o Homem moderno dependente de relógio, horários, calendário, fluxogramas e cronogramas em todas as suas atividades domésticas e profissionais. Assim, há maior risco na anestesia matinal de paciente cardíaco ou hipertireoideo, bem como na anestesia noturna de paciente alérgico ou asmático. A potência analgésica (acrofase) do opióide, do anestésico local e dos halogenados é maior no período matutino, vespertino e noturno, respectivamente.

Adorar o sol como Deus é o achado mais comum nas religiões primitivas, segundo estudo paleontológico de estátuas, vasos de cerâmica, tótens e inscrições rupestres. Na busca de si mesmo e no amadurecimento com o passar dos anos, o homem percebe que a virtude maior está na busca do meio, ou seja, no equilíbrio em usar o tempo de cada dia para a vivência cotidiana dos opostos, pois o mal e o bem estão dentro de cada um.

Se o mecanicismo filosófico do século XVIII separou o Estado da Religião, a Ciência da Fé através de uma ética e uma moral humanistas, o determinismo religioso creacionista não deve ser fonte de litígio com a teoria evolucionista sobre a origem do Universo e das criaturas sobreviventes mais adaptáveis ao ambiente. A energia cósmica primordial do Big Bang continua a atuar nos seres vivos na Natureza, pois a imaginação humana, à medida que tem se afastado de nosso instinto básico de sobrevivência (fome, sede, sexo), mais tem aumentado sua habilidade tecnológica de transformar matéria em energia e vice-versa. Afinal, “não há relógio sem relojoeiro”, segundo afirmativa de Einstein 2,6-9.

IV - Da Estereoisomeria

Eclesiástico 42,19 “Por que o Senhor conhece toda a ciência e contempla o mais remoto futuro e manifesta o passado;25 todas as coisas se acham aos pares, e uma oposta a outra, a nada Êle fez que fosse incompleto“.

Gênesis 1,5 “Chamou à luz, dia, e às trevas, noite; 7,2 Toma de todos os animais aos pares, macho e fêmea; 7,9 entraram na arca com Noé, dois a dois, macho e fêmea.

O processo de criação se efetua por meio de separação entre opostos, particularmente entre a luz e as trevas, a mais primitiva polarização de nossa realidade. Esta complementaridade dinâmica entre os opostos surge da necessidade de ambos existirem no mesmo Universo (macrocosmo) e serem indispensáveis ao funcionamento “normal” de nosso cérebro (microcosmo) na sua permanente adaptação ambiental (mesocosmo). Segundo Heráclito (séc VI a.C.), o equilíbrio é atingido através da necessária complementaridade entre os opostos. Bem ou mal, vida ou morte, anjo ou demônio, claro ou escuro, punição ou reforço, ou seja, a vivência binária dos opostos é o cadinho de amadurecimento de nossas emoções e enriquecimento de nossa inteligência para uma vivência social harmônica.

Segundo Einstein, a luz está sempre em movimento e na mesma velocidade desde a origem do Universo. A radiação cósmica originária do Big Bang no caos primordial continua a se propagar por todas as galáxias, assumindo a forma espiralada com giro à esquerda (anti-horário). O impacto da radiação sobre moléculas de gordura no mar primitivo da Terra ainda desprovida de atmosfera protetora destruiu todas as ligações de carbono dos ácidos graxos tipo trans, restando apenas as do tipo cis, situadas abaixo da superfície líquida. Somente os amino-ácidos capazes de girar a luz polarizada para a esquerda (levógiros) não foram destruídos pelo choque da movimentação espiralada da radiação cósmica. Assim, na composição da matéria viva no mar primitivo, as gorduras biológicas mais estáveis apresentam isomeria geométrica tipo cis; todos os amino-ácidos orgânicos com o carbono assimétrico na estrutura molecular que são componentes fundamentais de tecidos, enzimas, ionóforos e receptores celulares são levógiros, com exceção da aquirálica glicina. Como a prioridade atual da indústria farmacêutica é por medicamentos mais seletivos e mais seguros em detrimento da potência, dá-se prioridade à síntese de medicamentos levógiros, quando forem quirálicos. A complementaridade entre os amino-ácidos levógiros e os radicais cis do medicamento em relação a diversas estruturas do organismo garante uma melhor relação risco/benefício e maior seletividade, quando comparado ao medicamento racemado ou às misturas cis-trans. Assim, isômeros puros, como cisatracúrio e ropivacaína, têm mostrado maior grau de segurança em relação ao atracúrio (mistura isomérica) e bupivacaína racêmica, respectivamente. Todos os vasopressores usados na anestesia espinhal (efedrina, metaraminol, paretrinol, noradrenalina etc.) são levógiros, com exceção da dopamina, que não tem carbono assimétrico. O equilíbrio da energia cósmica nos seres vivos se dá pela fonte calórica do metabolismo basal, pois todos os glicídios (oses) são dextrógiros, o que assegura maior e mais duradoura ligação às membranas biológicas 2,10-12. Curiosamente, a natureza quirálica das coisas animadas e inanimadas externada via convivência dos opostos, pode se revelar ainda hoje pela predominância do sentido anti-horário do movimento da radiação cósmica primordial. No cosmo, movimentam-se para esquerda “levógiro” as espirais da Via Láctea, a Terra na sua rotação diária e na translação anual, o buraco negro; na Terra (Hemisfério Norte), o vento do tornado, a força coriólis da água ao entrar no ralo; o Homem gira à esquerda nas danças de salão, nas corridas olímpicas e até na caminhada matinal. O maior atestado da predominância da força levógira está na predominância dos destros sobre os canhotos na população mundial, possivelmente a compensação motora do hemisfério cerebral esquerdo dominante. No êxodo do Egito, Moisés conduziu seu povo à Terra prometida numa caminhada de quarenta anos pelo deserto do Sinai, mas no sentido anti-horário (levógiro), preterindo uma caminhada “dextrógira” de algumas semanas até a Palestina 1,2.

V - Da Ressuscitação Cardiorrespiratória (RCR)

Gênesis 2,7 “Deus formou o homem do barro da terra e insuflou-lhe nas narinas um sopro de vida” .

Jeová dá o sopro da vida ao primeiro Homem:

3º livro dos Reis 17,21 ”Inclinou-se 3 vezes sobre o menino e gritou ao Senhor e disse: Senhor, meu Deus, faze, te rogo, que a alma deste menino volta as suas entranhas. 22 E o Senhor ouviu a voz de Elias e a alma do menino voltou a ele: e ele recuperou a vida.”

O profeta Elias ressuscita o filho da viúva Sarepta:

4º livro dos Reis 4,34 “pôs a boca sobre a boca dele; encurvou-se sobre ele e a carne do menino aqueceu-se; 35 o menino bocejou sete vezes e abriu o olhos”

O profeta Eliseu ressuscita o filho da Sunamita.

No Velho Testamento estão os primeiros exemplos de ventilação boca-a-boca ou boca-a-nariz e compressão torácica como terapêutica de emergência para ressuscitação cardiorrespiratória. (Gen 2,7; Reis III, 17,21; Reis IV 4,34). A avaliação e as manobras de ressuscitação cardiopulmonar são importantes elos no algoritmo de sobrevivência básica para minimizar os efeitos deletérios do intervalo sem ventilação e circulação artificiais no paciente vítima de parada cardiopulmonar, da neonatologia até a geriatria. Embora o recém-nascido seja mais resistente à hipóxia do que o adulto, o sistema nervoso central é o locus mais vulnerável ao processo isquêmico, pois o O2 se exaure em segundos, a glicose já no 1º minuto e o ATP em 6 minutos. O ar exalado pelo reanimador na boca e pulmões do paciente é suficiente para a reanimação, pois contém de 15% a 18% de O2 e 4% de CO2 3,13. Além da fé em Deus manifestada pelos profetas, fica implícita outra importante lição: a necessidade de se acreditar em si mesmo como um reanimador qualificado e a de “ter fé” na performance de suas manobras básicas de suporte de vida (BLS).

VI - Da Tocoanalgesia

Gênesis 3,16Darás à luz com dor os filhos” .

Apocalipse 12,1 “Apareceu no céu uma mulher vestida de sol e a lua abaixo de seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça; 2 estando grávida, clamava com dores de parto, e sofria tormentos para dar à luz”.

Punição bíblica de parto com dor.

Gênesis 35,17 “Raquel teve as dores de parto, e sendo parto difícil, começou a estar em perigo de vida. E disse-lhe a parteira: Não temas, porque ainda terás este filho. 18 E, estando prestes a render o espírito sob a violência da dor, e estando iminente a morte, pôs no seu filho o nome de Benomi, isto é, filho da minha dor.

A mulher de Jacó morre de parto do caçula Benjamin ou Benomi

Êxodo 1,15,19 ... as parteiras (meyaledet) Séfora (beleza) e Fuá (esplendor) responderam ao rei do Egito: “as mulheres hebréias não são como as egípcias; pois, sabem assistir-se no seu parto, e antes de chegarmos dão à luz”.

O parto da mulher hebréia era um ato solitário sem assistência médica.

Até o século XIX, a dor do parto foi considerada como punição às mulheres pela opção de Eva em comer o fruto da árvore da verdade no Jardim do Paraíso. Parto com dor representava o tabu da milenar punição bíblica à maternidade e ao povoamento do planeta. Na pré-história, à semelhança do que ocorria entre os animais, parto era um ato feminino solitário em que a parturiente, isolada da clã, paria de cócoras, cortava o cordão umbilical e comia a placenta. O início da grande mudança para a necessidade de uma evolução de parto mais “humanizado” deveu-se à demonstração cirúrgica (1847) de JY Simpson, professor de obstetrícia de Edinburgo (Escócia), com a administração inalatória de éter para a realização da primeira tocoanalgesia. John Snow (1853) responsável pela administração de clorofórmio à rainha Vitória “à la Reine” para o nascimento do 8º filho (Leopoldo) no palácio de Buckinghan, foi o grande vencedor nos debates contra a oposição teológica manifestada pela igreja anglicana ao parto sem dor em função da maldição bíblica do Gênesis, numa época em que pouco se sabia sobre contração uterina, transferência placentar do anestésico e a repercussão materno-fetal. Afinal, na retirada cruenta da costela de Adão para o nascimento de Eva nos jardins do Éden, Jeová teria sido o pioneiro no uso da anestesia geral para abolir a dor cirúrgica 1,14-17.

VII - Da Transfusão de Sangue

Levítico 7,27 Toda a pessoa que comer sangue, perecerá do meio do povo. 17,10 Qualquer homem que comer sangue, voltarei meu rosto contra sua alma e, exterminá-lo-ei do meio do seu povo”. 13 Por isso, disse aos filhos de Israel: “Nenhum de vós comerá sangue, porque a vida da carne está no sangue”.

A seita cristã Testemunha de Jeová foi fundada em 1870 por Charles Russel em Pittsburgh (Pen-USA). Na abordagem anestésico-cirúrgica, os seguidores não aceitam a transfusão sangüínea baseados em trechos do Antigo Testamento, interpretando a transfusão como similar ao ato de comer sangue (Lev, 7,2; 17,10). Nem a transfusão de sangue autólogo é permitida, pois acreditam que a saída do sangue do corpo, torna-o impuro. Não havendo autorização judicial para a transfusão per-operatória para controle de hipovolemia, as medidas corretivas são todas de elevado custo e nem sempre satisfatórias. Na urgência, pode-se empregar a hemodiluição isovolêmica com autotransfusão (sangue coletado no campo cirúrgico e reinfundido em condições assépticas) ou uso de emulsões fluorocarbonatadas (FluosolÒ) dispendiosas, de vida curta e com reduzida capacidade de carrear O2. Nas cirurgias eletivas, pode-se usar previamente eritropoietina, sais de Fe++, vitamina B12 e folato para aumentar a taxa de hemoglobina e corrigir a anemia sem necessidade de transfusão. Havendo risco para a vida do paciente, os juizes brasileiros têm dado parecer favorável à equipe cirúrgica e ao hospital para transfundir sangue e derivados no paciente protestante e familiares no per-operatório 1,18.

VIII - Do Tratamento de Convulsão Epiléptica

Mateus 17,14 ”meu filho muitas vezes cai no fogo e na água” . 15 Apresentei-o aos teus discípulos e não o puderam curar. 17 E Jesus ameaçou o demônio, e este saiu do jovem que, desde aquele momento, ficou curado. 20 E Jesus disse: “Esta casta de demônio não se expulsa, senão mediante a oração e o jejum”.

Ao contrário da convulsão por anestésicos locais em que a acidose é fator de agravamento em função do aprisionamento iôntico do anestésico no cérebro, a redução do pH é uma atitude terapêutica anticonvulsivante, sobretudo no tratamento do pequeno mal epiléptico. A acidose provoca hipercalemia com redução do Na+ e Ca++ intraneuronal no foco epiléptico, elevando o limiar convulsígeno com redução potencial da descarga focal. Jejum e dieta cetogênica provocam redução do pH tissular, aumentando a proteção contra a atividade convulsiva epileptógena. Desde a década de vinte, a dieta cetogênica é um tratamento adicional do pequeno mal. Não é incomum maior incidência de convulsão em crianças epilépticas durante comemoração em festas de aniversário após corridas (hipocapnia) e/ou ingestão de alimentos ricos em carbohidratos (alcalinizantes), pois a alcalose é pró-convulsivante. Vale lembrar que a ventilação é fundamental na intoxicação central por anestésico local por corrigir a hipóxia e acidose respiratória da apnéia; a alcalose facilitaria a saída (redistribuição) do anestésico do sistema nervoso central para tecidos periféricos, fazendo cessar a convulsão química iatrogênica (1,19).

IX - Da Morte na Cruz por Choque Hipovolêmico

Marcos 15,25 Era hora tércia (9h00) quando o crucificaram, 34,37 à hora nona (15h00), Jesus, dando um grande brado, expirou.

João 19,32 quando os soldados chegaram a Jesus, tendo visto que já estava morto, não lhe quebraram as pernas (Crurifragium), 34 mas um dos soldados abriu-lhe o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.

O condenado hipovolêmico pendurado pelos punhos na cruz tem o sangue estagnado na parte inferior do corpo com drástica redução do retorno venoso ao coração. Na dolorosa posição ortostática forçada, o baixo débito de um coração taquicárdico torna insuficiente a irrigação cerebral e coronariana, levando ao colapso cardiovascular e conseqüente morte na cruz. O jejum prolongado, o esgotamento na caminhada ao calvário e a perda sangüínea na flagelação, na coroa de espinhos, na colocação dos cravos provocaram a instalação paulatina do choque hemorrágico, inconsciência, colapso circulatório e morte do crucificado. O crurifragium (quebrar os ossos da perna com golpes de bastão) encurtava o sofrimento do crucificado, pois, não podendo apoiar-se nos pés, morreria mais rapidamente de insuficiência cardíaca 1,3,20.

 

DA CIÊNCIA E DA FÉ

A natureza jamais vai deixar de nos surpreender, pois a teoria ou a hipótese científica mais brilhante de hoje pode ser não mais do que uma infantilidade para futuras gerações. A única certeza é que a Ciência do futuro sempre necessitará de rever os trabalhos executados em nosso milênio e nos anteriores. O método de análise da visão quadrimensional do passado cósmico (anos-luz) de nebulosas, galáxias, estrelas, planetas e cometas obtida através de telescópio Hubble, deve exigir maior esforço de imaginação do que a leitura pela Bíblia do passado religioso de quase 6.000 anos, envolvendo a religiosidade de cristãos, judeus e muçulmanos.

Nossas únicas verdades são a certeza da morte e que o sol vai nascer no horizonte amanhã e nos próximos milênios 1,2,6,7. Toda religião é boa, pois facilita o controle do biologismo selvagem e arquetipal, responsável por nosso comportamento intrinsecamente agressivo que tem como premissa básica a transmissão do DNA (gene) às gerações futuras. O estudo teológico nos facilita a convivência social e o nosso auto-conhecimento, pois a onda hedonista atual apenas reflete a insatisfação do homem e da mulher urbanos pela cultura racionalista, competitiva e desencantada da tecnologia moderna. A Ciência e a Religião podem ser complementares à medida que elas expressam nossa reverência e fascínio pela Natureza e pelo Cosmo, ajudando a nos conhecer “a nós mesmos” ao manter o equilíbrio possível entre o bem e o mal. O que a história hodierna demonstra de fato é o risco do fundamentalismo religioso em não aceitar a priori os princípios da religião do outro e, principalmente, obrigá-lo a aceitar incontinenti os dogmas de sua religião sob risco de tirar-lhe a vida, seu bem mais precioso, ou provocando banhos de sangue coletivos.

O homem atual é originário do pó de nebulosas formadas no início dos tempos, seja por intervenção divina, mutação, evolução ou geração espontânea. Em lugar de discussão e polêmicas estéreis, seria mais produtivo o Homem preservar a Natureza que lhe foi entregue nos primórdios. Para sua sobrevivência e do planeta Terra, cada gesto deve ser compromissado e compartilhado com a preservação da Natureza. Pode-se considerar que a criação não ocorreu de uma só vez no início dos tempos, mas que o mundo real continua a ser criado ou destruído a cada momento de nossas vidas, como filhos do planeta Terra 1,2,6. Devemos preservar, a todo custo, a capacidade de poder nos maravilharmos com a beleza do Cosmo e a felicidade de se viver bem e em paz em um mundo tão heterogêneo e desafiador. Se Deus quiser.

 

REFERÊNCIAS

01. Bíblia Sagrada. Edições Paulinas, São Paulo, 1955.        [ Links ]

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Endereço para correspondência
Dr. Nilton Bezerra do Vale
Av. Getúlio Vargas, 558/702 Petrópolis
59012-360 Natal, RN

Apresentado em 22 de março de 2002
Aceito para publicação em 21 de maio de 2002
Recebido do Departamento de Biofísica e Farmacologia, Centro de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Natal, RN