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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.53 no.5 Campinas Sept./Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942003000500015 

ARTIGO DIVERSO

 

Soroprevalência do vírus de hepatite B em anestesiologistas*

 

Serum prevalence of hepatitis B virus in anesthesiologists

 

Soroprevalecimiento del virus de la hepatitis B en anestesiologistas

 

 

Antônio Fernando Carneiro, TSAI; Roberto Ruhaman DaherII

IAssistente Estrangeiro de Anestesiologia da Universidade Louis Pasteur, França; Responsável pelo CET/SBA Drs. Juca Ludovico e Eduardo Bufaiçal, Goiânia, GO
IIProfessor Titular em Medicina Tropical da UFG

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Os anestesiologistas estão particularmente expostos ao contato com sangue e secreções. A infecção pelo vírus da hepatite B constitui o maior risco ocupacional para os profissionais da área da saúde. O objetivo deste estudo foi avaliar a soroprevalência do Ag-HBs, anti-HBs e anti-HBc, assim como a situação vacinal dos anestesiologistas da cidade de Goiânia.
MÉTODO: Participaram da pesquisa 90 dos 200 anestesiologistas da cidade de Goiânia. As amostras foram colhidas pelo autor. Foram retirados 10 ml de sangue de uma veia periférica, identificadas no momento da coleta. O material foi analisado nas primeiras 24 horas, sob condições ideais de conservação. Realizou-se, através do ensaio imunoenzimático, a detecção dos seguintes marcadores: anti-HBc, anti-HBs e Ag-HBs. Os participantes da pesquisa foram pessoalmente contatados pelo autor, e consentiram por escrito com a realização do estudo. Assegurado sigilo absoluto, tanto dos resultados, como das informações contidas em questionário aplicado.
RESULTADOS: Os dados analisados mostraram que 65/90 (72,2%) foram reagentes para o anti-HBs e 25/90 (27,8%) não reagentes. Quanto ao anti-HBc, 76/10 (90,5%) foram não reagentes e 09/90 (10%) mostraram-se reagentes. Nenhum dos participantes mostrou positividade para Ag-HBs.
CONCLUSÕES: Este estudo mostrou uma soroprevalência para o anti-HBs de 72,2% (65/90). A prevalência da infecção pelo vírus B entre os anestesiologistas foi de 8,9% representados pelo 8 anti-HBc + / anti-HBs +. Com base nos resultados, campanhas de vacinação e implantação de medidas profiláticas devem ser intensificadas.

Unitermos: ANESTESIOLOGISTA; DOENÇAS: hepatite B; RISCO, Profissional


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Anesthesiologists are especially exposed to blood and secretions. Hepatitis B virus infection is the major occupational risk for health care professionals. This study aimed at evaluating the prevalence of Ag-HBs, anti-HBs and anti-HBc among anesthesiologists of the city of Goiânia, as well as their vaccination status.
METHODS: Participated in this study 90 out of 200 anesthesiologists of the city of Goiânia. Samples were collected by the author and consisted of 10 ml blood of a peripheral vein identified at collection. Blood was analyzed in the first 24 hours, under optimal conservation conditions. The following markers were detected by immunoenzymatic essay: anti-HBc, anti-HBs and Ag-HBs. Participants were personally contacted by the author and gave their written consent to participate in the study. Absolute secrecy of results and questionnaire information was assured.
RESULTS: Analyzed material showed that 65 out of 90 (72.2%) were anti-HBs positive, as compared to 25 out of 90 (27.8%) who were negative. As to anti-HBc, 76 out of 10 (90.5%) were negative and 9 out of 90 (10%) were positive. No participant was Ag-HBs-positive.
CONCLUSIONS: This study has shown 72.2% serum prevalence for anti-HBs. The prevalence of Hepatitis-B infection among anesthesiologists was 8.9%, represented by 8 anti-HBc + / anti-HBs +. Based on these results, vaccination campaigns and successful prevention should be intensified.

Key Words: ANESTHESIOLOGIST; DISEASES: hepatitis B; RISK, Professional


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Los anestesiologistas están particularmente expuestos al contacto con sangre y secreciones. La infección por el virus de la hepatitis B constituye el mayor riesgo ocupacional para los profesionales de la área de la salud. El objetivo de este estudio fue evaluar el soroprevalecimiento del Ag-HBs, anti-HBs y anti-HBc, así como a situación de vacunas de los anestesiologistas de la ciudad de Goiania.
MÉTODO: Participaron de la pesquisa 90 de los 200 anestesiologistas de la ciudad de Goiania. Las muestras fueron cogidas por el autor. Fueron retirados 10 ml de sangre de una vena periférica, identificadas en el momento de la colecta. El material fue analizado en las primeras 24 horas, bajo condiciones ideales de conservación. Se realizó, a través del ensayo inmunoenzimático, la detección de los siguientes marcadores: anti-HBc, anti-HBs y Ag-HBs. Los participantes de la pesquisa fueron personalmente contactados por el autor, y por escrito consintieron con la realización del estudio. Garantizado el sigilo absoluto, tanto de los resultados, como las informaciones contenidas en el cuestionario aplicado.
RESULTADOS: Los datos analizados mostraron que 65/90 (72,2%) fueron reagentes para el anti-HBs y 25/90 (27,8%) no reagentes. Cuanto al anti-HBc, 76/10 (90,5%) fueron no reagentes y 09/90 (10%) se mostraron reagentes. Ninguno de los participantes mostró positividad para Ag-HBs.
CONCLUSIONES: Este estudio mostró una soroprevalencia para el anti-HBs de 72,2% (65/90). La prevalencia de la infección por el virus B entre los anestesiologistas fue de 8,9% representados por el 8 anti-HBc + / anti-HBs +. Con base en los resultados, campañas de vacunación y planteamiento de medidas profilácticas deben ser intensificadas.


 

 

INTRODUÇÃO

As hepatites virais são designadas por letras do alfabeto: hepatite A (VHA), hepatite B (VHB), hepatite C (VHC), hepatite D (VHD) e hepatite E (VHE). Existem outras viroses hepatotrópicas, hepatites Não A - Não E (ÑA - ÑE) ainda não identificadas 1. Os vírus F e G, inicialmente identificados como hepatotrópicos, não são reconhecidos atualmente como causadores de hepatopatias. Várias outras viroses podem acometer o fígado, produzindo quadros de hepatites de difícil diagnóstico diferencial com as supracitadas. Entre elas, as infecções por citomegalovírus, rubéola, febre amarela, herpes vírus e varicela 2.

A hepatite B (VHB) é uma doença causada por um vírus que agride o fígado. O vírus da hepatite B (VHB), além do quadro agudo, pode causar infecção crônica, cirrose hepática, hepatocarcinoma, insuficiência hepática e morte 3. Atinge milhões de pessoas anualmente, sendo um grande problema de saúde pública em todo o mundo. A hepatite B (VHB) é responsável por cerca de 4.000 a 5.000 óbitos a cada ano nos Estados Unidos, por cirrose ou câncer de fígado.

Nas áreas onde se tem realizado a vacinação, o número de novos casos de VHB apresenta um declínio desde 1980 (de 450.000 para 80.000, em 1991), segundo dados do Center for Disease Control and Prevention. Mais de vinte e dois mil recém-nascidos a cada ano nos Estados Unidos nascem de mães Ag-HBs positivo 4.

O fígado é o alvo preferencial desses agentes patogênicos, sendo eventual a sistematização da doença. Apesar das semelhanças clínicas dessas hepatites virais, há diferenças fundamentais quanto à etiologia, epidemiologia e fisiopatogenia 5.

O objetivo deste estudo foi avaliar na população dos anestesiologistas da cidade de Goiânia, a soroprevalência do Ag-HBs, anti-HBc e anti-HBs (quantitativo), e a situação quanto à profilaxia com vacina.

 

MÉTODO

A pesquisa foi realizada no período de janeiro de 1999 a janeiro de 2000, na cidade de Goiânia, capital do Estado de Goiás.

A pesquisa foi feita em 90 dos 200 anestesiologistas cadastrados na data do estudo na Sociedade de Anestesiologistas do Estados de Goiás (SAEGO).

Após aprovação pela Comissão de Ética da instituição, todos os participantes da pesquisa foram pessoalmente contatados pelo autor e consentiram, por escrito, com a realização do estudo. Nessa ocasião, foram informados dos objetivos da pesquisa, da importância para a categoria profissional e foi-lhes assegurado sigilo absoluto, quanto aos resultados, e às informações contidas em questionário (Anexo I).

As amostras foram colhidas pessoalmente pelo autor. Retiraram-se 10 ml de sangue de uma veia periférica, na região anterior do antebraço, no período da manhã, sem jejum prévio. Os tubos foram identificados, no momento da coleta, com etiquetas contendo nome do profissional, um número de registro e, posteriormente, encaminhados ao laboratório, onde receberam um código de barra. O material foi analisado dentro das primeiras 24 horas, sob condições ideais de conservação.

Todas as amostras foram testadas para a detecção dos seguintes marcadores virais: anti-HBc, anti-HBs, e Ag-HBs, através do ensaio imunoenzimático, totalmente automatizado.

 

RESULTADOS

A tabela I mostra as características dos anestesiologistas estudados na cidade de Goiânia, no período de 1999 a 2000. Com relação à faixa etária, a média foi de 37,6 anos, com idades limites entre 26 e 60 anos. Houve nítida predominância do sexo masculino (88,9%) sobre o feminino (11,1%).

Quanto ao tempo de exercício na especialidade, foi feita distribuição por décadas de 1 a 40 anos de atividade (sendo apenas um com mais de 30 anos de exercício na especialidade).

A tabela II mostra que 65/90 (72,2%) dos analisados foram reagentes para o anti-HBs. Quanto ao anti-HBc, 81/90 (90%) foram não reagentes, e 09/90 (10%) mostraram-se reagentes. Nenhum dos participantes do estudo mostrou positividade para o Ag-HBs.

No estudo desenvolvido, observou-se que a grande maioria dos anestesiologistas foi vacinada (93,3%), e apenas 6 (6,7%) nunca receberam a vacina (Tabela III). A imunogênese (anti-HBs+) completou-se em 65 (72,2%) dos vacinados, inclusive em 1 (1,2%) que recebeu apenas uma dose da vacina.

Dos 9 reagentes para o anti-HBc, 8 (88,9%) também eram anti-HBs positivos, demonstrando imunidade adquirida naturalmente, após contato com o VHB.

 

DISCUSSÃO

Este estudo constitui a primeira avaliação da soroprevalência do anti-HBs de forma quantitativa nos anestesiologistas da cidade de Goiânia. Além das dificuldades encontradas para a realização deste trabalho, nossos resultados contribuem para oferecer uma avaliação da pouca importância dispensada às medidas de segurança e proteção no exercício diário da especialidade 6. É indubitável, pela analise dos resultados obtidos, que o anestesiologista pertence a grupo de risco para a infecção pelo VHB e não se protege de forma adequada. Estimamos que esta realidade que demonstramos contribua para a mudança de hábitos e a adoção das medidas necessárias para modificar este perfil.

Apenas um participante do sexo feminino não se vacinou, e das 8 que se vacinaram 7 completaram o esquema de vacinação, o que nos deixa a impressão de que as mulheres se cuidam melhor, apesar do pequeno número de observações.

Quando se analisaram aspectos relativos ao tempo da especialidade, constatou-se diminuição quanto à proteção da positividade do anti-HBs de 79% entre 1 e 5 anos, para 50% entre 21 e 30 anos. Estes achados podem ser concordantes com a literatura mundial, em que, ao envelhecer existe uma resposta com títulos do anti-HBs de entre 40% e 70% após a vacinação, quando comparados aos títulos superiores de 90% em pessoas mais jovens e sem fatores de imunossupressão 7. Outro fato relevante deve-se ao período de aplicabilidade da vacina, sendo que a literatura mostra proteção de até 15 anos, sem necessitar de reforço 8.

Neste estudo, observamos que mais de um terço dos anestesiologistas (31) não realizou o esquema completo da vacinação para o VHB, justificando a baixa resposta imunogênica obtida entre os vacinados.

A imunização ativa contra o vírus da hepatite B promove o aparecimento de anticorpos em níveis protetores em cerca de 95% dos indivíduos vacinados com três doses do antígeno 9. Neste estudo, dos 84 vacinados apenas 65 (77,3%) desenvolveram o anti-HBs em níveis protetores. Mesmo entre os que receberam as 3 doses, observamos que 16% (9/48) não desenvolveram anticorpos protetores, índice bastante elevado.

Vários estudos vêm mostrando o aumento da prevalência de infecção pelo vírus da hepatite B entre os profissionais da área da saúde, através de seus marcadores sorológicos Ag-HBs e o anti-HBs. Na experiência internacional, os anestesiologistas apresentam um percentual razoável (6%) de ferimentos nas mãos, produzidos por fragmentos de vidro, durante abertura de ampolas de medicamentos 10.

As precauções universais contra a contaminação de médicos e paramédicos com o vírus da hepatite B e C e outros patógenos existentes em fluidos e secreções de pacientes incluem a utilização de luvas de proteção 11. O uso de luvas diminui a prevalência de feridas causadas por instrumentos pérfuro-cortantes 12.

Em um estudo realizado em quinhentos pacientes clínicos e cirúrgicos, na cidade de Goiânia, quanto à soroprevalência para o vírus da hepatite B e vírus C em receptores potenciais de sangue e hemoderivados, foram encontrados respectivamente: anti-HBc (28%), Ag-HBs (4%) e para o vírus C (2%) 13. O mesmo autor analisando 112 pacientes internados na unidade de terapia intensiva do hospital do câncer de Goiânia, onde os médicos responsáveis desta unidade são anestesiologistas, encontrou prevalência de marcadores sorológicos para o vírus da hepatite B de: anti-Ag-HBs (3%), mostrando que as Unidades Intensivas Oncológicas representam um local de grande rotatividade e alto índice de infecciosidade 14.

O presente estudo permite concluir que:

a) A prevalência da infecção pelo VHB entre os anestesiologistas estudados foi de 8,9% representados pelo 8 anti-HBc+, e que nenhum dos participantes da pesquisa foi reagente ao Ag-HBs;

b) Existe soroprevalência para o anti-HBs de 72,2% (65/90), sendo que 55 (86,2%) eram anti-HBc não reagentes, portanto de imunogenicidade determinada pela vacina;

c) Os anestesiologistas estudados constituem grupo de risco para infecções que se transmitem a partir do sangue por via percutânea ou permucosa, e que a grande maioria, 72,2% (65/90), trabalha com urgências médico-cirúrgicas;

d) Os acidentes pérfuro-cortantes são freqüentes 73,3% (66/90), assim como a exposição ao sangue do paciente 91,1% (81/90) e que de 82,2% (74/90) não se protegem com luvas;

e) Existe relutância quanto à proteção contra o VHB, pois 27,8% (25/90) dos anestesiologistas são susceptíveis à infecção por esse vírus, por não serem vacinados (67%) ou não terem completado o esquema da vacinação (11,1%), ou não apresentarem resposta imune à vacina (10%);

f) Com base nos resultados deste estudo, campanhas para a VHB devem ser reavaliadas, questionando sua eficácia entre os profissionais da área de saúde, assim como maior conscientização de outras medidas de proteção no exercício profissional.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Antônio Fernando Carneiro
Av. 136, 540/202 Setor Marista
74180-040 Goiânia, GO

Apresentado em 07 de novembro de 2002
Aceito para publicação em 10 de março de 2003

 

 

* Recebido do CET/SBA Drs. Juca Ludovico e Eduardo Bufaiçal de Goiânia, GO