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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.53 no.6 Campinas Nov./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942003000600015 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Marcapasso cardíaco artificial: considerações pré e per-operatórias *

 

Artificial cardiac pacemaker: pre and intraoperative considerations

 

Marcapaso cardíaco artificial: consideraciones pre y per-operatorias

 

 

Gilson Ramos, TSAI; José Ramos FilhoII; Anis Rassi JúniorIII; Edísio Pereira, TSAIV; Salustiano Gabriel NetoV; Enio ChavesVI

IMestre em Anestesiologia pela UnB; Doutorando da UnB; Co-responsável pelo Serviço de Anestesiologia do Hospital Samaritano de Goiânia; Clínico do Hospital da UNIMED de Goiânia, GO
IIDoutor em Medicina pela Universidade de Zurique/USP; Professor Titular e Responsável pela Disciplina de Cardiologia do Curso de Medicina da Universidade São Francisco, Bragança Paulista, SP
IIICardiologista; Doutor em Medicina pela USP, SP; Diretor do Hospital Anis Rassi, Goiânia, GO
IVProfessor Doutor do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília, UnB
VCirurgião do Aparelho Digestivo; Professor Auxiliar de Técnica Operatória da Faculdade de Medicina da UFG
VICirurgião do Aparelho Digestivo do Pronto Socorro da Faculdade de Medicina da UFG, GO; Doutorando da USP, Ribeirão Preto, SP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O avanço tecnológico da propedêutica médica diagnóstica em cardiologia difundiu grandemente a indicação de marcapasso (MP) cardíaco artificial, definitivo ou temporário. Isso fez com que outros especialistas, além dos cardiologistas, se envolvessem ainda mais no manuseio desses aparelhos. Quando pacientes portadores de MP se apresentam para cirurgia, a participação do anestesiologista pode ser decisiva para o sucesso do procedimento. O objetivo da presente revisão é familiarizar o anestesiologista com as principais indicações clínicas e com o funcionamento desses dispositivos, além dos cuidados pré e per-operatório que se deve ter.
CONTEÚDO: Foram tratadas a classificação, funcionamento e as principais indicações clínicas para o implante de MP. Da mesma forma, procurou-se elucidar os principais cuidados pré e per-operatórios relativos ao uso de MP para lograr êxito no procedimento indicado.
CONCLUSÕES: O principais conhecimentos sobre o funcionamento do MP e suas indicações clínicas devem fazer parte da prática diária do anestesiologista. Assim, o manuseio e a indicação do MP temporário amplia a atuação desses especialistas, além do que pode salvar vidas, inclusive em situações emergenciais dentro do centro cirúrgico. O uso de eletrocautério deveria ser evitado em portadores de MP.

Unitermos: AVALIAÇÃO PRÉ-OPERATÓRIA; EQUIPAMENTOS: marcapasso cardíaco


SUMMARY

BACKGROUND AND OBJECTIVES: Technological medical diagnosis advances in cardiology have markedly increased indications for temporary or permanent artificial cardiac pacemakers (PM). This means that, in addition to cardiologists, other specialists have become involved in the handling of these devices. When PM patients undergo surgery, anesthesiologists’ participation may be decisive for the success of the procedure. This review aimed at familiarizing anesthesiologists with major clinical indications and operation of these devices, as well as with PM-related pre and intraoperative cares.
CONTENTS: Classification, operation, and major clinical indications for PM implants are covered. In addition, primary PM-related pre and intraoperative cares required for success are explained.
CONCLUSIONS: Basic understanding of PM operation and indications should be part of anesthesiologists’ daily practice. Hence, handling and indication of temporary PM broadens these specialists’ scope, in addition to saving lives in emergency situations. Electric cautery should be avoided in artificial cardiac pacemaker patients.

Key Words: EQUIPMENTS: cardiac pacemaker; PREOPERATIVE EVALUATION


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El progreso tecnológico de la propedéutica médica diagnóstica en cardiología difundió grandemente la indicación de marcapaso (MP) cardíaco artificial, definitivo o temporario. Esto hizo con que otros especialistas, además de los cardiologistas, se envolvieran todavía más en el manoseo de eses aparatos. Cuando pacientes portadores de MP se presentan para cirugía, la participación del anestesista puede ser decisiva para el suceso del procedimiento. El objetivo de la actual revisión es familiarizar al anestesista con las principales indicaciones clínicas y con el funcionamiento de eses dispositivos, además de los cuidados pre y per-operatorios que se debe tener.
CONTENIDO: Fueron tratadas la clasificación, funcionamiento y las principales indicaciones clínicas para la implantación de MP. De la misma forma, se pretendió elucidar los principales cuidados pre y per-operatorios relativos al uso de MP para lograr éxito en el procedimiento indicado.
CONCLUSIONES: Los principales conocimientos sobre el funcionamiento del MP y sus indicaciones clínicas deben hacer parte de la práctica diaria del anestesista. De esa forma, el manoseo y la indicación del MP temporario amplia la actuación de eses especialistas, además de que puede salvar vidas, inclusive en situaciones de emergencia dentro del centro quirúrgico. El uso de eletrocauterio debería ser evitado en portadores de MP.


 

 

INTRODUÇÃO

Os Marcapassos Cardíacos Artificiais (MP) são dispositivos eletrônicos de estimulação multiprogramável capazes de substituir impulsos elétricos e/ou ritmos ectópicos, para se obter atividade elétrica cardíaca a mais fisiológica possível. Foram introduzidos na prática médica entre 1958 e 1960, o que marcou o início de nova fase no tratamento dos distúrbios do sistema de condução. Inicialmente, eram indicados no tratamento do bloqueio atrioventricular total (BAVT). Atualmente, contudo, a amplitude de suas indicações alargou-se consideravelmente. Isso se deveu, sobretudo, ao desenvolvimento da tecnologia de sua fabricação, a rápida evolução dos conhecimentos em eletrofisiologia e métodos diagnósticos em cardiologia, associados a novas técnicas, simples e seguras, de implante de MP. Os últimos dados apontam a utilização de 50 a 80 unidades por milhão de habitantes em países subdesenvolvidos, contra 400 a 500 por milhão em países desenvolvidos. No Brasil, no ano de 2000, implantaram-se 13466 unidades, o que passou a conferir a média de 82 aparelhos por milhão de habitantes, dados estatísticos provavelmente subestimados 1.

Os resultados animadores observados nos BAV avultaram o campo de ação dos MP. Assim, em algumas observações, a disfunção sinoatrial excedeu o BAV como causa mais comum de implante 2. Então, atualmente os MP, além das bradicardias (disfunção sinoatrial, BAV congênito e adquirido, fibrilação atrial de baixa freqüência ventricular), são indicados em pacientes com freqüência cardíaca normal (bloqueios bi ou trifasciculares) e na presença de taquicardia (ventriculares e supraventriculares).

Com o advento de MP temporário, em 1957, para tratamento do BAVT e, nos dias de hoje, totalmente incorporado à prática clínica diária, sua utilização passou a ser multidicisplinar, principalmente nos países mais avançados. Além do cardiologista, médicos que lidam com urgência em geral, dentre os quais o anestesiologista, deveriam conhecer o funcionamento de MP como um todo e estarem habilitados para implantar MP temporário. Trata-se de um procedimento de simples execução e que pode salvar vidas. Do ponto de vista técnico é equivalente a introduzir cateter para medir pressão venosa central. O MP é inserido no átrio ou ventrículo direito pela veia jugular interna ou subclávia. Além disso, e não raramente, o anestesiologista pode se deparar, em situações de urgência ou não, com pacientes em uso de MP definitivo ou temporário ou ainda, circunstancialmente, indicar o implante desses geradores para o bom êxito do procedimento anestésico-cirúrgico.

O objetivo do presente estudo é rever a classificação, funcionamento e indicação clínica dos MP e, principalmente, considerar a participação do anestesiologista nos cuidados relativos aos portadores desse dispositivo, candidatos a procedimentos cirúrgicos.

 

CLASSIFICAÇÃO

Os MP são classificados de acordo com os critérios apresentados no quadro I, sendo: a) temporários ou definitivos, segundo a necessidade clínica temporária ou permanente do MP; b) tipo de bateria, sendo a de lítio a mais utilizada e com duração de cinco a dez anos; c) tipo de cabo, endocárdico (implante sob anestesia local) ou epicárdico (sob anestesia geral), segundo o local de implante no coração; d) números de pólos existentes, unipolares ou bipolares, sendo que estes últimos sofrem menos interferências externas; e) câmaras estimuladas, em que a preferência recai sobre o átrio direito e/ou ventrículo direito; contudo, pode-se estimular de uma câmara (monocameral) até quatro (tetracameral). Atualmente os MP definitivos são preferencialmente bicamerais, ficando os temporários mais comumente na modalidade monocameral; f) modo de estimulação, assincrônicos ou competitivos e sincrônicos ou não-competitivos ou de demanda. Nos primeiros, o gerador comanda fixamente o ritmo cardíaco. Já os de demanda são programados para comandar o ritmo a partir de uma certa freqüência cardíaca pré-determinada. Por exemplo, o MP, uma vez programado, passaria a comandar o ritmo em situações de diminuição de freqüência cardíaca, cujo valor reduzisse abaixo do programado, sendo estes os mais usados na prática clínica. Nessa modalidade, o MP gasta menos bateria, motivo pelo qual tem uma vida útil maior que na modalidade assincrônica, cujo gerador funciona ininterruptamente. Como regra geral, em situações emergenciais, o temporário é implantado no modo assincrônico até que se elucide o quadro para, posteriormente, estabelecer o modo de estimulação; g) freqüência de estimulação: fixos e programáveis. Nesses últimos, pode-se alterar suas características e, assim, ajustar a freqüência de estimulação para promover melhor débito cardíaco ou abolir disritmias. De acordo com as variáveis que podem ser modificadas, tem-se MP não-programáveis, programáveis e multiprogramáveis, podendo-se alterar, dentre outras, freqüência de estimulação, sensibilidade, largura e amplitude de pulso.

Marcapasso externo transcutâneo é um tipo especial de MP temporário indicado principalmente em bradiarritmias e ocasionalmente em taquiarritmias. Com seu uso pode-se ganhar tempo em situações emergenciais, uma vez que é de instalação rápida, fácil e não invasiva. As principais desvantagens de sua utilização são falência de captura e a intolerância do paciente devido à estimulação de musculatura esquelética. Outras possibilidades são a adaptação de MP por Swan-Ganz, quando este estiver sendo utilizado e o implante transesofágico de eletrodo bipolar unido a um gerador externo. Trata-se de procedimento rápido, simples e também indicado em bradi e taquiarritmias. Igualmente, eletrocardiograma transesofágico pode ser obtido com a montagem desse sistema.

 

CARACTERÍSTICAS FUNCIONAIS DO MARCAPASSO

Uma vez implantados e através de seus eletrodos, os MP estão aptos para, inicialmente, sentirem a atividade elétrica cardíaca e, posteriormente estimularem o coração, se necessário. Esses aparelhos, no modo assincrônico, somente estimulam. Fazem-no de maneira constante e fixa. Eles não têm capacidade de sentirem qualquer atividade elétrica. Na modalidade de demanda, os geradores estimulam o coração de maneira intermitente, quando a atividade elétrica cardíaca é inexistente ou insuficiente. Nessa situação, o MP não é estimulado. Ele não capta (sente) nenhuma atividade elétrica, momento em que passa a estimular e comandar o ritmo cardíaco. Ao contrário, quando o MP, nessa modalidade, sente atividade elétrica, ele é inibido.

Os MP recebem códigos de cinco letras que dizem respeito às características de funcionamento do aparelho (Quadro II) 3. A primeira refere-se à câmara cardíaca estimulada pelo eletrodo. A segunda, à câmara de onde parte a atividade elétrica sentida pelo MP. A terceira, ao modo de resposta do aparelho depois de captar ou sentir atividade elétrica, se inibido (I), ou ativado (T), ou ambos (D). A letra dessa posição é diretamente atrelada à da Segunda, pois, sem captação do estímulo não é possível obter nenhuma resposta do dispositivo gerador. A quarta refere-se aos parâmetros que podem ser programados: R é relativo a freqüência de resposta; C se o MP é capaz de receber ou transmitir dados; M indica que pode ser programado em mais de três parâmetros; P é limitado a menos de três parâmetros e O, que é raramente encontrada e não-programável para nenhum parâmetro. A quinta é relativa às características antidisrítmicas, sendo que P caracteriza atividade anti-taquicárdica, S aplica-se à função de cardioversão ou de desfibrilação do MP e, finalmente, D, a mais comumente observada, relativa às duas possibilidades.

A presença de letra O na primeira posição fica reservada às situações em que se desliga o MP com finalidade de investigação clínica. Nesses casos, automaticamente, as demais posições passam também a receber a letra O. Resumidamente e com fins práticos, utilizam-se mais comumente as três primeiras letras. Por exemplo, AOO significa que o átrio é a câmara estimulada pelo gerador que, por sua vez, não sente qualquer atividade elétrica, sendo o modo de estimulação assincrônico. Ou seja, trata-se de MP atrial assincrônico. Todos os códigos cujas duas últimas letras (segunda e terceira posições) são OO referem-se à MP assincrônicos. Na modalidade VVI o ventrículo é a câmara estimulada e ao mesmo tempo o local de onde o gerador capta ou sente a atividade elétrica que o inibe, sendo assim, de demanda. Atualmente VVI é uma modalidade cuja única indicação clínica é na fibrilação atrial crônica. Na modalidade DDD, o gerador estimula ambas as câmaras (átrio e ventrículo), capta atividade de ambas e impulsos atriais ou ventriculares sentidos pelo MP o inibirão. Em seguida, um cronômetro acionado estimulará o ventrículo depois de um certo intervalo. Essa modalidade é chamada MP fisiológico.

 

INDICAÇÃO CLÍNICA

A estimulação pode ser temporária ou definitiva.

A temporária é indicada quando 4: a) a causa é temporária. Incluem-se aqui os bloqueios após cirurgia cardíaca, após infarto agudo do miocárdio, tais como BAV de 2º Mobitz I (Wenckebach) com instabilidade hemodinâmica, Mobitz II, BAV de 3º, dissociação AV, bloqueio bifascicular (BRD + HBAE), bloqueio trifascicular, BAV de 1º sintomático com espaço PR aumentando gradativamente e todas as bradiarritmias com freqüência cardíaca inferior a 50 bpm e sem resposta à atropina, intoxicação por fármacos, dentre os quais a digoxina e também em casos de supressão de focos ectópicos em taquiarritmias (overdrive supression); b) a finalidade é resguardar o paciente portador de distúrbios de condução, como nos bloqueios bi ou trifasciculares, contra eventos que possam agravá-los. Relacionam-se nesse item os atos anestésico-cirúrgicos, principalmente sob anestesia geral, procedimentos hemodinâmicos e candidatos a implante de MP definitivo, principalmente com inserção de eletrodo epicárdico; c) o propósito é avaliar o resultado da estimulação artificial, especialmente nos chagásicos, ateroscleróticos e nas ICC. Nos pacientes cirúrgicos, o uso de MP temporário deve ser apreciado nessas mesmas indicações clínicas e nos candidatos a MP definitivo que necessitam ser operados em situação de urgência. Pacientes de alto risco, em uso de amiodarona que submeter-se-ão a procedimentos cirúrgicos longos, de grande porte e sob anestesia geral, devem ser considerados como candidatos ao implante temporário no pré-operatório 5. Indicações per-operatórias, dentre as principais, são nos distúrbios do ritmo freqüentemente observados nas cirurgias cardíacas.

A estimulação definitiva baseia-se no Consenso de 1999. Nele foram preconizadas três classes de indicações 6. Classe I em que existe concordância geral do implante; Classe II, nos casos em que freqüentemente se implanta o MP, mas não há consonância geral e a decisão deve ser individualizada. Classe III, em que definitivamente não é necessário o implante.

A grande maioria dos BAVT ou de 3º estão incluídos na Classe I. Alguns poucos devem ser avaliados individualmente (Classe II): BAVT secundário à cirurgia cardíaca, assintomático, persistente após 15 dias, com QRS estreito ou ritmo de escape nodal e boa resposta cronotrópica; BAVT secundário à cirurgia cardíaca ou IAM, sem perspectiva de reversão; BAVT congênito, com QRS estreito, aceleração adequada ao exercício e sem cardiomegalia, mas com disritmia ou com QT longo. Outros, não necessitam de gerador (Classe III): BAVT congênito, com QRS estreito, aceleração adequada ao exercício e sem cardiomegalia, arritmia ou com QT longo; BAVT transitório por ação medicamentosa ou química, processo inflamatório agudo, cirurgia cardíaca ou outra causa reversível.

Os BAV de 2º grau compreendidos na Classe I são os permanentes ou intermitentes, irreversíveis, com sintomatologia de baixo débito e ou ICC conseqüentes à bradicardia; os de 2o grau, tipo II, com QRS largo, permanente, intermitente ou irreversível e os de 2o grau com flutter ou fibrilação, com períodos de resposta ventricular baixa e com sintomas de baixo fluxo cerebral ou ICC secundários à bradicardia. Outros BAV de 2o grau pertencem à Classe II ou III. Todos BAV de 1o grau pertencem às Classes II ou III.

O bloqueio intraventricular de ramo alternante, com síncope, pré-sincope ou tonturas recorrentes, está contido na Classe I. Todos os outros, nas Classes II ou III.

A disfunção sinoatrial espontânea ou induzida por fármacos necessários e insubstituíveis, com síncope, pré-sincope ou tonturas recorrentes e ou ICC relacionadas à bradicardia e a síndrome bradi-taqui concernem à Classe I. As outras disfunções do nó sinusal estão inclusas nas Classes II ou III.

Outras indicações de implante de MP nas Classes I ou II ou III são as síndromes neuromediadas e as síndromes recorrentes de origem desconhecida. Indicações especiais, tais como, cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva, cardiopatia dilatada, ICC classe funcional III ou IV; estão todas relacionadas à classe II.

 

CONSIDERAÇÕES PRÉ-OPERATÓRIAS

Para o sucesso do procedimento anestésico-cirúrgico o anestesiologista deve atuar em três vertentes: a) um exame clínico e laboratorial, quando necessário, detalhado, à procura de co-morbidade, inclusive cardíaca, que é comumente observada nesses pacientes; b) criteriosa investigação sobre a doença cardíaca de base que motivou o implante de MP, estabelecendo o padrão do ritmo (disritmia) na ausência do dispositivo e; c) conhecer as características de funcionamento do gerador.

Os portadores de MP recebem um cartão que identifica as principais características do gerador. O anestesiologista deve solicitá-lo para ter acesso a dados importantes, tais como data do implante, freqüência cardíaca programada, modalidade de funcionamento e o fabricante. De posse destas informações, quando necessário, pode-se reprogramar o MP. Tal procedimento deve ser realizado pelo cardiologista assistente e utiliza-se para isso o programador externo do MP. Trata-se de um dispositivo que comanda externamente o gerador. O gerador no modo de demanda deve ser convertido para a modalidade assincrônica, o que é possível na maioria dos aparelhos. Nessa modalidade, o MP assume o comando do ritmo cardíaco e isso faz-se necessário em função do estímulo cardiodepressor extra (procedimento anestésico-cirúrgico) e, muitas vezes arritmogênico, que pode comprometer ainda mais uma função cardíaca já prejudicada.

O MP bipolar é blindado e praticamente não sofre interferências de eletrocautério e ruídos externos. Os aparelhos multiprogramáveis, quando unipolares, podem ser modificados para bipolares antes da cirurgia.

É fundamental testar o funcionamento do MP. A avaliação inicial da atividade adequada do MP é clínica. Nos aparelhos que funcionam inadequadamente é comum o paciente se queixar de mal-estar, tontura e/ou perda de consciência. O ECG é o exame mais relevante nessas situações. Suas alterações somadas aos achados clínicos podem revelar a disfunção do MP. O traçado observado, quando o MP comanda o ritmo cardíaco, é de uma espícula, que eqüivale à atividade elétrica do aparelho, seguida de onda P e ou complexo QRS e de discreto supra desnivelamento de ST, principalmente nas derivações precordiais, simulando bloqueio de ramo esquerdo. Espículas de tamanhos diferentes ou mesmo ausência delas de uma derivação para outra são melhores observadas com o uso do aparelho programador externo do MP. Ele detecta a disfunção do gerador e são fundamentais nessa avaliação. A causa mais comum é decorrente do mau posicionamento de eletrodos nos MP temporários. Já nos definitivos, é pelo desgaste de bateria. Nessas circunstâncias, procedimentos anestésico-cirúrgicos eletivos devem ser adiados ou, em situação de urgência, apreciar ou corrigir o implante de MP temporário.

A freqüência cardíaca programada para o MP pode ser verificada no cartão do paciente e gira em torno de 70 bpm. Se a verificação clínica revelar um valor abaixo deste durante o comando do aparelho e o paciente apresentar-se sintomático, deve-se também suspeitar de desgaste de bateria.

 

CONSIDERAÇÕES PER-OPERATÓRIAS

Os três principais riscos associados à presença de MP durante procedimentos em geral são 7,8: a) alteração do limiar de funcionamento do aparelho (fármacos, alteração da potassemia e alteração da impedância torácica por ventilação pulmonar); b) fibrilação ventricular (o eletrodo intra-cardíaco do MP pode conduzir corrente elétrica proveniente do eletrocautério, principalmente nos MP temporários e quando os pacientes não estão adequadamente isolados do ponto de vista elétrico) 9 e c) dano ou inibição ou reprogramação do sistema (gerador ou eletrodos), diretamente pelo eletrocautério, cardioversão ou ressonância nuclear magnética. Por essas causas e, especialmente pelo eletrocautério, antes de se iniciar a cirurgia, poderia se colocar um ímã sobre os MP de demanda, procedimento desnecessário nos casos em que os geradores apresentam-se funcionando assincronicamente. Atualmente, esse procedimento é de uso restrito, mais indicado nas situações de urgência, em que não se tem tempo hábil para avaliar o MP pré-operatoriamente. O magneto eleva discretamente (10 a 15 bpm) a freqüência cardíaca e tem a função de converter aparelhos de demanda para modalidade assincrônica, diminuindo os efeitos do bisturi elétrico sobre os MP 10,11. Os eletrocautérios bifásicos (bipolares) são mais seguros que os monofásicos (unipolares); portanto, e quando possível, os de escolha para portadores de MP. Neles, a corrente elétrica permanece circunscrita entre a região da cirurgia e o eletrocautério, o que reduz o risco de escape. O aterramento está no próprio bisturi elétrico, o que dispensa placa metálica fixada aos pacientes. Nos monofásicos, a corrente elétrica percorre o trajeto entre a incisão cirúrgica e a placa de aterramento, eleva a possibilidade de escape e, conseqüentemente, de interferência nos MP. Os bipolares são menos potentes que os unipolares, têm a função precípua de cauterizar e normalmente são utilizados em cirurgias de tecidos mais delicados e ou de pequenos portes. Eles habitualmente não operam na função corte. Por outro lado, os unipolares são empregados em ambas as funções, são potentes e indicados em procedimentos de maior envergadura. Obrigatoriamente necessitam de placa de aterramento que deve ser lubrificada com gel (funciona como isolante) e bem fixada a mais afastada possível do MP. Assim, se o gerador está implantado em hemitórax direito, a placa terra deveria estar aderida na região posterior da perna esquerda e vice-versa. De qualquer maneira e, sempre que possível, solicitar do cirurgião que limite o uso do eletrocautério.

Nas situações em que se faz necessário o uso de desfibrilador (cardioversão elétrica), as duas pás devem ser situadas de modo que uma fique no hemitórax contralateral ao do MP e a outra mais posteriormente em relação ao hemitórax esquerdo.

ECG é o monitor per-operatório mais importante para os portadores de MP; porém, precisa monitorização de fluxo arterial deve ser implementada, especialmente em procedimentos de grande porte e longa duração. Dessa maneira, através de punção de artéria radial, para aferir pressão arterial média ou, até mesmo, monitores mais sofisticados, como o Doppler (Ecocardiograma Transesofágico), se disponíveis, devem ser considerados. A base fundamental para essa medida é que esses pacientes são de maior risco e normalmente apresentam-se com morbidades associadas. Por outro lado, o eletrocautério afeta temporariamente a exatidão dos resultados eletrocardiográficos e uma assistolia poderia passar despercebida; ademais, a atividade do MP mantém-se no osciloscópio na ausência de contrações miocárdicas.

 

CONCLUSÃO

O conhecimento básico sobre a dinâmica de funcionamento do MP, bem como suas indicações, devem fazer parte da prática clínica do anestesiologista. Assim, o manuseio e a indicação do MP temporário amplia o leque de atuação desses especialistas, o que pode salvar vidas, inclusive em situações emergenciais dentro do centro cirúrgico.

O eletrocautério é o principal fator de risco per-operatório associado ao uso de MP, motivo pelo qual, e sempre que possível, seu uso deve ser desestimulado nesses pacientes.

 

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Endereço para correspondência
Dr. Gilson Ramos
Rua 8, nº 74/402 Setor Oeste
74115-100 Goiânia, GO
E-mail: gilson.ramos@terra.com.br

Apresentado em 06 de janeiro de 2003
Aceito para publicação em 28 de abril de 2003

 

 

* Recebido do Serviço de Anestesiologia do Hospital Samaritano de Goiânia e da Disciplina de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade São Francisco, São Paulo, SP