SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.54 issue1Residual gastric volume and risk for pulmonary aspiration in children with gastroesophageal reflux: comparative studyCorrelation between CSF concentration and side effects after spinal morphine injection in rats author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.54 no.1 Campinas Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942004000100006 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Monitores automáticos de pressão arterial. Avaliação de três modelos em voluntárias*

 

Monitores automáticos de presión arterial. Evaluación de tres modelos en voluntarias

 

 

Luiz Eduardo Imbelloni, TSAI; Lúcia Beato, TSAII; Ana Paula TolentinoIII; Dulcimar Donizete de SouzaIV; José Antônio CordeiroV

IDiretor do Instituto de Anestesia Regional, Hospital de Base da FAMERP; Anestesiologista da Clínica São Bernardo, Rio de Janeiro, RJ
IIAnestesiologista da Clínica São Bernardo, Rio de Janeiro, RJ
IIIAnestesiologista do Hospital de Base da FAMERP
IVChefe do Departamento de Especialidades Cirúrgicas da FAMERP
VCoordenador de Ensino na FAMERP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Desde 1903 a monitorização da pressão arterial tem sido realizada por método não invasivo, com esfigmomanômetro ou aparelhos automáticos não invasivos. Um dos problemas da medida da pressão arterial não invasiva é considerar a variação da pressão arterial com o método utilizado. O método oscilométrico de medida da pressão arterial avalia a pressão arterial durante a deflação do manguito. Dificuldades da medida da pressão arterial pelo método oscilométrico podem acontecer por: tamanho inadequado do manguito, incorreta aplicação do manguito, faltas não detectadas pelo manguito e conectores, movimento do braço, estado de choque e compressão vascular proximal ao manguito. Este estudo avaliou a confiabilidade dos aparelhos nas medidas da pressão arterial pelo método não invasivo em cinco medidas com três aparelhos diferentes.
MÉTODO: Foi avaliada a pressão arterial em 60 voluntárias com idades entre 20 e 40 anos no período das 7 às 11 horas da manhã, na posição sentada de um dia normal de trabalho. A medida da pressão arterial constou de cinco aferições com intervalo de 2 minutos. Foram estudados três aparelhos automáticos de medida da pressão arterial. Nenhuma paciente era obesa, hipertensa ou sofria de doença cardíaca ou disritmias cardíacas. A medida indireta da pressão arterial era feita de acordo com as instruções dos fabricantes.
RESULTADOS: Não há diferença entre os três grupos estudados em relação aos parâmetros demográficos. A variação média intrapessoal na PAS, de uma medida para outra, foi de até 6,7 mmHg, na PAM de até 4,9 mmHg e na PAD de até 3,3 mmHg, todas com intervalo de confiança de 95%. A diferença máxima entre as medidas na mesma voluntária foi de 49 mmHg na PAS, 46 mmHg na PAM e 28 mmHg na PAD.
CONCLUSÕES: Este trabalho mostrou que há variação significativa entre as medidas das PAS, PAM e PAD e que a PAD é o parâmetro mais fidedigno para verificar alterações da pressão arterial em voluntárias.

Unitermos: MONITORIZAÇÃO: pressão arterial; TÉCNICA DE MEDIÇÃO: pressão arterial não invasiva, oscilometria


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Desde 1903 la monitorización de la presión arterial ha sido realizada por método no invasor, con esfigmomanómetro o aparatos automáticos no invasores. Uno de los problemas de la medida de la presión arterial no invasora es considerar la variación de la presión arterial con el método utilizado. El método oscilométrico de medida de la presión arterial evalúa la presión arterial durante la deflación del manguito. Dificultades de la medida de la presión arterial por el método oscilométrico pueden acontecer por: tamaño inadecuado del manguito, incorrecta aplicación del manguito, faltas no detectadas por el manguito y conectores, movimiento del brazo, estado de choque y compresión vascular proximal al manguito. Este estudio evaluó la confianza de los aparatos en las medidas de la presión arterial por el método no invasor en cinco medidas con tres aparatos diferentes.
MÉTODO: Fue evaluada la presión arterial en 60 voluntarias con edades entre 20 y 40 años en el período de las 7 a las 11 horas de la mañana, en la posición sentada de un día normal de trabajo. La medida de la presión arterial constató de cinco afericiones con intervalo de 2 minutos. Fueron estudiados tres aparatos automáticos de medida de la presión arterial. Ninguna paciente era obesa, hipertensa o sofría de enfermedad cardíaca o disritmias cardíacas. La medida indirecta de la presión arterial era hecha de acuerdo con las instrucciones de los fabricantes.
RESULTADOS: No hay diferencia entre los tres grupos estudiados en relación a los parámetros demográficos. La variación media intrapersonal en la PAS, de una medida para otra, fue de hasta 6,7 mmHg, en la PAM de hasta 4,9 mmHg y en la PAD de hasta 3,3 mmHg, todas con intervalo de confianza 95%. La diferencia máxima entre las medidas en la misma voluntaria fue de 49 mmHg en la PAS, 46 mmHg en la PAM y 28 mmHg en la PAD.
CONCLUSIONES: Este trabajo mostró que hay variación significativa entre as medidas de las PAS, PAM y PAD y que la PAD es el parámetro más fidedigno para verificar alteraciones de la presión arterial en voluntarias.


 

 

INTRODUÇÃO

A primeira referência da diferença da pressão sangüínea entre os vasos deve-se ao pintor renascentista Giovanni Di Paolo, ao representar a decapitação de São João Batista, que mostrou vasos jorrando sangue (artérias) e outros gotejando sangue (veias) 1. Em 1896, Riva-Rocci descreveu em duas publicações sucessivas um novo esfigmomanômetro de coluna de mercúrio, que pesquisava a variação da pressão arterial sangüínea 2,3.

É importante a uniformização dos procedimentos técnicos em estudos epidemiológicos, envolvendo diferentes observadores, cujos erros sistemáticos podem comprometer os resultados, e mais ainda, erros introduzidos pelo observador, principalmente em relação à pressão arterial que possui uma variabilidade intrínseca. A determinação rotineira da pressão arterial ainda é feita de maneira não padronizada, quase sempre sem observação das recomendações básicas para evitar erros nas aferições 4,5. Vários fatores relacionados aos equipamentos, ao observador, ao ambiente, à paciente e à técnica propriamente dita podem interferir na precisão da medida da pressão arterial. Os critérios a serem seguidos na medida da pressão arterial são claramente explicitados em nosso meio 6. A rígida observância do correto procedimento de medida da pressão arterial deve ser seguida não só na prática clínica, mas principalmente no campo da investigação clínica, nos experimentos que usam a medida da pressão arterial em seu método. Ao se avaliar a medida da pressão arterial por meio da produção científica, verificou-se que, de uma listagem de 19 itens a serem seguidos, apenas 20% atenderam a 12 deles 5. Em outro estudo, analisando 223 artigos, pertencentes a 18 periódicos nacionais relacionados à prática clínica médica, no período de 1989 a 1994, resultaram em que metade dos artigos não especificou o tipo de esfigmomanômetro utilizado 7. Nos trabalhos em que os tipos de aparelhos foram citados, 29% foram de coluna de mercúrio, 16% aneróides e 4% eletrônicos 7. Além disso, a verificação da calibração não foi citada em 82%, somente 18% expressaram preocupação em verificar a acurácia do sistema e 25% dos artigos citaram a posição da medida 7. De 1999 a 2002 foram publicados 274 trabalhos na Revista Brasileira de Anestesiologia, dos quais 118 estudaram a pressão arterial e em nenhum desses foi citado o aparelho empregado nem houve qualquer relato sobre sua acurácia. Desses 274 trabalhos, em 15 foram estudadas as alterações hemodinâmicas na raquianestesia. Estudando a eficácia da efedrina na prevenção da hipotensão arterial em cesariana, também os aparelhos utilizados não foram citados 8,9. A identificação de pacientes com maior risco de desenvolver hipotensão arterial durante raquianestesia já foi objeto de estudo do qual foram identificados como fatores de previsão a idade acima de 45 anos, o sexo feminino e o nível de bloqueio sensitivo acima de T7 10.

O presente estudo avaliou três aparelhos de medidas de pressão arterial pelo método não invasivo, comumente utilizados em salas de cirurgia e aparelhos de anestesia, em um projeto de investigação em voluntárias de 20 a 40 anos, sem história de hipertensão arterial ou uso de qualquer medicação, com objetivo de verificar a confiabilidade das medidas intermitentes da pressão arterial.

 

MÉTODO

Foram avaliadas 60 voluntárias com idades entre 20 e 40 anos (auxiliares de enfermagem, enfermeiras, instrumentadoras e médicas) que trabalhavam em centros cirúrgicos da Clínica São Bernardo e do Hospital Barra D'Or no Rio de Janeiro e do Hospital de Base de São José do Rio Preto, no período das 7 às 11 horas da manhã de um dia normal de trabalho. Todas as voluntárias apresentavam pressão arterial dentro da normalidade e não faziam uso de nenhuma medicação anti-hipertensiva, não eram obesas nem tinham história de disritmias. As voluntárias que apresentaram hipertensão arterial durante a gestação foram automaticamente excluídas do estudo. A medida da pressão arterial constou de cinco aferições com intervalo de dois minutos, efetuadas em salas dos centros cirúrgicos e de acordo com recomendações do Consenso Brasileiro para tratamento da hipertensão arterial 6. Todas as medidas das voluntárias foram realizadas na posição sentada e o membro superior direito mantido na altura do coração. Foi perguntado se o intervalo utilizado de dois em dois minutos trazia algum desconforto.

Para o estudo foram utilizados três aparelhos das seguintes marcas: Anamed-Vital Line AM 78100B, Hewlett-Packard modelo Viridia 24 C e Dixtal DX 2010. A medida indireta da pressão arterial era feita de acordo com as instruções dos fabricantes.

Os efeitos do tempo, aparelho (profissão) e a interação entre tempo e aparelho (tempo e profissão) foram analisados pelo método análise de medidas repetidas. Idade, peso, variação da 1ª à 5ª medidas e estatura foram comparadas segundo aparelho (profissão) por Análise de Variância. As variações gerais entre as medidas foram comparadas pelo teste t Pareado e os intervalos de confiança para as variações médias foram determinados utilizando a distribuição normal, uma vez que todas passaram no teste de normalidade.

 

RESULTADOS

Não há evidência de diferença entres as médias em relação aos grupos por idade, peso e altura, nem segundo o aparelho ou profissão.

Comparação de Aparelho e Tempo

Pressão arterial sistólica (PAS): há evidência de efeito de tempo (p = 0,017) com a média intrapessoal caindo com o tempo; não há evidência de efeito de aparelho, nem de interação entre tempo e aparelho (p = 0,36 e p = 0,84, respectivamente) (Figura 1).

Pressão arterial diastólica (PAD): há evidência de efeito de aparelho (HP dando valores médios menores que as outras duas marcas) (p = 0,000); não há evidência de efeito de tempo, nem de interação entre tempo e aparelho (p = 0,12 e p = 0,68, respectivamente) (Figura 2).

Pressão arterial média (PAM): há evidência de efeito de aparelho (p = 0,000), HP dando valores médios menores que as outras duas marcas, e há evidência de efeito de tempo (p = 0,041) com a média intrapessoal diminuindo com o tempo, não há evidência de interação entre tempo e aparelho (p = 0,82) (Figura 3).

Comparação de Profissão e Tempo

Pressão arterial sistólica (PAS): há evidência de efeito de profissão (p = 0,000), com instrumentadora dando valores médios menores que as outras, e há evidência de efeito de tempo (p = 0,014) com a média intrapessoal diminuindo com o tempo; não há evidência de interação entre tempo e profissão (p = 0,47) (Figura 4).

Pressão arterial diastólica (PAD): há evidência de efeito de profissão (p = 0,000) com instrumentadora dando valores médios menores que auxiliar e médica; não há evidência de efeito de tempo (p = 0,14) nem de interação entre tempo e profissão (p = 0,98) (Figura 5).

Pressão arterial média (PAM): há evidência de efeito de profissão (p = 0,000) com instrumentadora dando valores médios menores que auxiliar e médica e há evidência de efeito de tempo (p = 0,041) com média intrapessoal diminuindo, não há evidência de interação entre tempo e profissão (p = 0,71) (Figura 6).

Comparação da Variação Intrapessoal ao Longo do Tempo

A variação intrapessoal média (para baixo) na PAS, de uma medida para outra, foi de até 6,7 mmHg, com intervalo de confiança 95% de 4,3 a 9 mmHg, de até 4,9 mmHg na PAM, com intervalo de confiança 95% de 3,1 a 6,7 mmHg, e na PAD de até 3,3 mmHg com intervalo de confiança 95% de 1,7 a 4,8 mmHg, sendo significantes todas as diminuições médias entre a 1ª e a 5ª medidas. Essas variações não dependem do aparelho (valores-p > 0,25 para todas as pressões), mas pode depender da profissão. A diminuição média entre a 1ª e a 5ª medidas, em PAS, foi maior (17 mmHg) em instrumentadora que nas outras categorias, estas não se diferenciando entre si (p = 0,000), em PAM foi menor em médicas (aumento de 2,6 mmHg) que nas outras categorias, com estas tendo quedas médias não diferentes entre si (p = 0,009). Com PAD a diminuição da 1ª para a 5ª medidas não teve efeito significante de profissão (p = 0,46).

A diferença máxima entre as medidas numa mesma voluntária foi de 49 mmHg na PAS, 46 mmHg na PAM e 28 mmHg na PAD. Todas estas variações máximas ocorreram do 6º para o 8º minutos. Em nenhuma voluntária obteve-se o mesmo valor durante as cinco medidas, mostrando uma variação intrínseca pessoal.

A verificação de dois em dois minutos cursou com uma ampla variabilidade entre as medidas e 25% queixaram do garroteamento.

 

DISCUSSÃO

Este trabalho mostrou que existe variação entre as medidas da PAS, da PAM e da PAD em voluntárias saudáveis e sem história de hipertensão arterial. A média máxima da variação intrapessoal de uma medida para outra foi de até 6,7 mmHg na PAS, de até 4,9 mmHg na PAM e de até 3,3 mmHg na PAD, mostrando que a PAD é a que apresentou menor variação entre as medidas. A diferença máxima entre as medidas intrapessoais foi de 49 mmHg na PAS, de 46 mmHg na PAM e de 28 mmHg na PAD, todas entre a penúltima e última medida. Desta forma, as quedas das PAS e a PAM não são os melhores parâmetros para avaliação da pressão arterial em voluntárias, assim como há uma grande variação entre as primeiras e as últimas medidas, levando ao erro intrapessoal.

A técnica da medida indireta da pressão arterial usando a oclusão arterial e um estetoscópio de acordo com Riva-Rocci 2,3 e Korotkoff 11 permanece até nossos dias. Embora a medida indireta da pressão arterial com este método seja fácil de ensinar e rápida de realizar, uma medida automática é desejável, principalmente na sala de cirurgia e unidade de terapia intensiva, quando verificações repetidas são necessárias. Uma das grandes vantagens para a adoção de aparelhos automáticos é a possibilidade de afastar a influência do observador na medida da pressão arterial. A determinação da pressão arterial é necessária para o manuseio do paciente anestesiado. Métodos não invasivos são rotineiramente empregados pelo baixo risco e por sua simplicidade. O interesse das técnicas não invasivas que avaliam a pressão arterial média tem aumentado, porque esta pressão é freqüentemente avaliada com técnicas invasivas. O desenvolvimento dos aparelhos que avaliam a pressão arterial por método oscilométrico começou em 1973 e colocados na sala de operações em 1976 12. Desde sua introdução, diversos estudos descreveram a acurácia dos aparelhos que avaliam a pressão arterial média por método indireto em recém-nascidos, crianças e adultos 13-17. Embora haja exceção, muitos desses estudos mostraram que a acurácia desses aparelhos é menor de 5 mmHg de erro médio com desvio padrão de menos de 8 mmHg quando comparados com colocação de cateter na artéria central. Foi observada uma variabilidade intrapessoal de uma medida para outra de 4,3 a 9 mmHg na PAS, de 3,1 a 6,7 mmHg na PAM e de 1,7 a 4,8 mmHg na PAD, independentemente do aparelho utilizado, mostrando que a PAS e a PAM não são um bom parâmetro para avaliação de pequenas diminuições em voluntárias em dia normal de trabalho. Em uma mesma voluntária, a diminuição da PAS de uma medida para outra chegou a 49 mmHg, da PAM a 46 mmHg e da PAD a 28 mmHg, revelando uma grande variabilidade intrapessoal durante a aferição da pressão arterial.

Durante a anestesia, várias decisões de tratamento da pressão arterial são baseadas nas medidas das pressões arteriais sistólica e diastólica. Em pacientes graves, valores da pressão arterial média são obtidos através de punção da artéria radial. Já foi sugerido que monitores não invasivos podem perfeitamente substituir os métodos invasivos de medidas da pressão arterial 18. Foi demonstrado que existe uma variação de 14 mmHg com um intervalo de confiança de 95% para a medida da PAM em 19 pacientes 13. Neste trabalho, encontramos uma variação de 4,9 mmHg na PAM com intervalo de confiança de 95%. O valor limite de 80 mmHg no monitor oscilométrico mostrou uma tendência de superestimar a avaliação da pressão arterial acima deste limite e de subestimar a avaliação abaixo deste limite 19. E com hipotensão arterial deliberada foi mostrado que o monitor oscilométrico superestima a pressão arterial 19. Os coeficientes de correlação entre o método invasivo e não invasivo apresentam uma boa, mas ampla variabilidade entre os indivíduos 20. Este estudo mostrou uma ampla variabilidade entre os indivíduos. As possíveis variações entre os sujeitos podem ser explicadas pela largura do manguito utilizado na avaliação pelo método oscilométrico, pois largura equivalente a um terço ou metade da circunferência do braço não produz um erro maior do que ± 5 mmHg 21. Este fator sozinho não explica as variações entre os indivíduos. Os manguitos utilizados neste estudo estavam dentro da padronização dos fabricantes para pacientes adultos, e, portanto, não contribuíram para a ampla variação nas medidas.

A hipotensão arterial e a bradicardia são os efeitos colaterais mais temidos da raquianestesia 22,23, principalmente em obstetrícia, pois o tratamento pronto e eficaz é considerado fundamental para prevenir o sofrimento fetal. O critério de hipotensão arterial usado na maioria dos trabalhos de raquianestesia na Revista Brasileira de Anestesiologia de 1999 a 2003 é a diminuição de 20% 8-10,24-26 a 30% 27-35 da PAS de controle ou PAS menor que 90 mmHg 10. Tradicionalmente, o critério de hipotensão arterial em obstetrícia é definido como sendo diminuição da PAS igual ou superior a 20% em relação ao controle, ou ainda, PAS inferior a 100 mmHg, devendo ser aferida a cada três minutos 36. Atualmente, a pressão arterial é monitorizada em intervalos mais freqüentes (a cada minuto até o nascimento) e a terapêutica com vasopressor é iniciada precocemente, sendo que quedas de 10% da pressão arterial de controle são corrigidas 36. Aparelhos de medidas de pressão arterial não invasiva levam em torno de 45 segundos para a insuflação, deflação e leitura. Com o método oscilométrico (em contraste com o método manual auscultatório) há pequeno efeito na acurácia da medida quando não se permite baixar a engorgitação venosa. Deve-se permitir o fluxo venoso, pelo menos um pouco, ao final de cada medida, para evitar desconforto e possível edema ou petéquia. No modo automático normal, quando o tempo de medida é regulado para um minuto, o menor intervalo entre as medidas é de 25 segundos, aproximadamente 25. No modo imediato, o tempo entre as medidas é de apenas uns poucos segundos, mas, porque estas determinações imediatas levam apenas uns 15 segundos, normalmente não há desconforto nem grande engorgitamento venoso na parte distal do membro. Contudo, para prevenir qualquer possibilidade de complicações com o engorgitamento venoso, o modo imediato não deve ser usado com freqüência maior que a necessária 37. Neste estudo, 25% das voluntárias queixaram-se do garroteamento durante a verificação de dois em dois minutos.

O critério de se esperar uma redução de 20% da pressão arterial sistólica para se administrar doses terapêuticas de efedrina em raquianestesia para cesariana, freqüentemente recomendada na literatura e empregada na clínica, é igualmente inadequado 8. Assim, alguns autores propõem 38 e outros concordam 8 que a melhor forma de tratar a hipotensão arterial é o uso terapêutico de vasopressor em bolus a qualquer diminuição da pressão arterial. O uso de doses em bolus 15 mg ou maiores do que 2 mg.min-1 determinou alta incidência de hipertensão arterial e o uso profilático da efedrina desenvolveu hipertensão arterial em 15% a 17,5% 9 ou mesmo hipertensão inaceitável 8. Doses iguais ou maiores que 15 mg em bolus, ou iguais ou maiores de 4 mg.min-1, em infusão prolongada, não devem ser utilizadas, uma vez que podem induzir à alta incidência de hipertensão arterial materna ou prejudicar o bem estar fetal 8. A avaliação da pressão arterial em voluntárias de dois em dois minutos mostrou que devemos ser mais prudentes no tratamento de qualquer diminuição da pressão arterial sistólica, pois pode resultar em hipertensão arterial, tão indesejável quanto a hipotensão. Em nenhuma voluntária obteve-se o mesmo valor durante as cinco medidas, mostrando uma variação intrínseca pessoal.

A pressão arterial média é menos afetada pelas mudanças do tônus vascular que a pressão diastólica, porque é obtida quando as oscilações atingem sua maior amplitude durante a deflação do manguito 25. Esta propriedade permite que a pressão arterial média seja usada com confiança, mesmo em casos de hipotensão arterial com vasoconstrição e diminuição da pressão de pulso 37. Diferentemente, este trabalho mostrou que a PAD é que sofre a menor variação em voluntárias não submetidas ao estresse cirúrgico.

Ao avaliarmos os três aparelhos em voluntárias com idades entre 20 e 40 anos, percebemos variações intrapessoais, com diferenças médias significantes entre elas, de até 6,7 mmHg na PAS, de até 4,9 mmHg na PAM e de até 3,3 mmHg na PAD. Desta forma, tratar qualquer diminuição da pressão arterial sem levar em conta o erro médio do aparelho e a variação intrapessoal pode resultar em hipertensão arterial em torno de 17% 9 ou mesmo hipertensão arterial inaceitável 8 durante raquianestesia para cesariana. A avaliação de dois em dois minutos foi desconfortável para 25% das pacientes. Este trabalho mostrou que a PAD é o parâmetro mais fidedigno para verificar alterações da pressão arterial em voluntárias. O tratamento da pressão arterial durante raquianestesia baseado em qualquer queda da PAS deve ser reavaliado.

 

REFERÊNCIAS

01. Dominguez RC, Michel A - Evolucion de la esfigmomanometria. Arch Inst Cardiol Méx, 1994;34:315-323.        [ Links ]

02. Riva-Rocci S - Um nuovo sfigmomanometro. Gazzetta Medica di Torino, 1896;50:981-996.        [ Links ]

03. Riva-Rocci S - Um nuovo sfigmomanometro. Gazzetta Medica di Torino, 1896;51981-1001-1017.        [ Links ]

04. Lelhane A, O'Malley K, O'Brien ET - Reporting of blood pressure data in medical journals. Br Med J, 1980;281:1603-1604.        [ Links ]

05. Roche V, O'Malley K, O’Brien ET - How scientific is blood pressure measurement in leading medical journal? J Hypert, 1990;8:1167-1168.        [ Links ]

06. Consenso Brasileiro para tratamento da hipertensão arterial. Arq Bras Card, 1994;16:(Supl2):S257-S258.        [ Links ]

07. Holanda HEM, Mion Jr D, Peirin AMG - Medida da pressão arterial. Critérios empregados em artigos científicos de periódicos brasileiros. Arq Bras Card, 1997;68:433-436.        [ Links ]

08. Carvalho JCA, Cardoso MMSC, Capelli EL et al - Prophylactic ephedrine during cesarean delivery spinal anesthesia: dose-response study of bolus and continuous infusion administration. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:309-314.        [ Links ]

09. Carvalho JCA, Cardoso MMSC, Lorenz E et al - Prophylactic ephedrine during spinal anesthesia for cesarean section: bolus followed by continuous infusion in fixed doses or continuous infusion in decreasing doses. Rev Bras Anestesiol, 2000;50: 425-430.        [ Links ]

10 .Oliveira Filho GR, Garcia JHS, Goldschimidit R et al - Predictors of early hypotension during spinal anesthesia. Rev Bras Anestesiol, 2001;51:298-304.        [ Links ]

11. Korotkoff NS - On the subject of methods of determining blood pressure. Bull Imperial Medical Academy, St. Petersburg, 1905;11:365.        [ Links ]

12. Ramsey III M - Non-invasive automatic determination of mean arterial pressure. Med Biol Eng Comput, 1979;17:11-18.        [ Links ]

13. Yelderman M, Ream AK - Indirect measurement of mean blood pressure in the anesthetized patient. Anesthesiology, 1979;50: 253-256.        [ Links ]

14. Hutton P, Dye J, Prys-Roberts C - An assessment of the Dinamap 845. Anaesthesia, 1984;39:261-267.        [ Links ]

15. Park MK, Menard SM - Accuracy of blood pressure measurement of the Dinamap monitor in infants and children. Pediatrics, 1987;79:907-914.        [ Links ]

16. Wareham JS, Haugh LD, Yeager SB et al - Prediction of arterial pressure in the premature neonate using the oscillometric method. Am J Dis Child, 1987;141:1108-1110.        [ Links ]

17. Johnson CJH, Kerr JH - Automatic blood pressure monitors. A clinical evaluation of five models in adults. Anaesthesia, 1985;40:471-478.        [ Links ]

18. Moyle JTB - Non-Invasive Monitoring in Anaesthesia. IN: Kaufman L - Anaesthesia Review II. Edinburgh: Churchill Livingstone: 1984;200-213.        [ Links ]

19. Gourdeau M, Martin R, Lamarche T et al - Oscillometry and direct blood pressure: a comparative clinical study during deliberate hypotension. Can Anaesth Soc J, 1986;33:300-307.        [ Links ]

20. Gloyna DF, Huber P, Abston P et al - A comparison of blood pressure measurement techniques in the hypotensive patient. Anesth Analg, 1984;63:222.        [ Links ]

21. Geddes LA, Tivey R - The importance of cuff width in measurement of blood pressure indirectly. Cardiovasc Res Cen Bul, 1976;14:69-79.        [ Links ]

22. Carpenter RL, Caplan RA, Brown DL et al - Incidence and risk factors for side effects of spinal anesthesia. Anesthesiology, 1992;76:906-916.        [ Links ]

23. Auroy Y, Naschi P, Messiah A et al - Severe complications related to regional anesthesia: Results of a prospective survey in France. Anesthesiology, 1997;87:479-486.        [ Links ]

24. Carvalho JCA, Cardoso MMSC, Amaro AR et al - Low doses of subarachnoid morphine and fentanyl combined with rectal diclofenac for postoperative pain control after cesarean delivery. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:103-106.        [ Links ]

25. Delfino J, Pontes S, Gondim D et al - Isobaric 0.5% bupivacaine and 0.5% ropivacaine in spinal anesthesia for orthopedic surgery. A comparative study. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:160-164.        [ Links ]

26. Delfino J, Vale NB - Spinal anesthesia with 0.5% isobaric ropivacaine or levobupivacaine for lower limb surgeries. Rev Bras Anestesiol, 2001;51:91-97.        [ Links ]

27. Imbelloni LE, Carneiro ANG - Comparison of 1.5% and 2% lidocaine with dextrose for spinal anesthesia. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:9-13.        [ Links ]

28. Imbelloni LE, Carneiro ANG - Comparison of 2% lidocaine with or without glucose for spinal anesthesia. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:98-102.        [ Links ]

29. Neves JFNP, Monteiro GA, Almeida JR et al - Spinal anesthesia for cesarean section: headache evaluation with 25G and 27G Quincke and Whitacre needles. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:173-175.        [ Links ]

30. Alves TCA, Braz JRC, Ganem EM - Influence of pre-anesthetic medication with clonidine on the association of sufentanil and bupivacaine in spinal anesthesia. Rev Bras Anestesiol, 1999;49:320-326.        [ Links ]

31. Delfino J, Vale NB, Magalhães Filho E - Comparative study between 0.5% and 0.75% isobaric ropivacaine in spinal anesthesia for orthopedic surgery. Rev Bras Anestesiol, 2000;50: 207-211.        [ Links ]

32. Imbelloni LE, Beato L - Comparative study between 0.5% isobaric bupivacaine and 0.5% isobaric mixture of 75% S(-) bupivacaine and 25% R(+) bupivacaine in spinal anesthesia for orthopedic surgery. Rev Bras Anestesiol, 2001;51:369-376.        [ Links ]

33. Imbelloni LE - Spinal anesthesia with 2% plain lidocaine for short orthopedic surgery. Study in 250 patients. Rev Bras Anestesiol, 2002;52:24-33.        [ Links ]

34. Imbelloni LE, Vieira EM, Beato L et al - Spinal anesthesia for outpatient pediatric surgery in 1-5 years old children with 0.5% isobaric enantiomeric mixture of bupivacaine (S75:R25). Rev Bras Anestesiol, 2002;52:286-293.        [ Links ]

35. Imbelloni LE, Vieira EM, Beato L et al - Isobaric 0.5% bupivacaine for spinal anesthesia in pediatric outpatient surgery of 6 to 12 year old children. A prospective study. Rev Bras Anestesiol, 2002;52:402-409.        [ Links ]

36. Cardoso MMSC - Hipotensão arterial materna em raquianestesia para cesárea. Cedar, 2002;VI:20:4-6.        [ Links ]

37. Ramsey III M - Blood pressure monitoring: automated oscillometric devices. J Clin Monitoring, 1991;7:56-67.        [ Links ]

38. Datta S, Alper MH, Ostheimer GW et al - Method of ephedrine administration and nausea and hypotension during spinal anesthesia during cesarean section. Anesthesiology, 1982;56: 68-70.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Luiz Eduardo Imbelloni
Av. Epitácio Pessoa, 2356/203 Lagoa
22471-000 Rio de Janeiro, RJ
E-mail: imbelloni@openlink.com.br

Apresentado em 21 de março de 2003
Aceito para publicação em 30 de maio de 2003

 

 

* Recebido do Instituto de Anestesia Regional, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, SP (FAMERP)