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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.54 no.1 Campinas Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942004000100007 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Correlação entre concentração liquórica e efeitos colaterais após injeção de morfina por via subaracnóidea em ratos*

 

Correlación entre concentración liquórica y efectos colaterales después de inyección de morfina por vía subaracnoidea en ratones

 

 

Neuzimar de Souza Freire SilvaI; Rioko Kimiko Sakata, TSAII; Adriana Machado IssyII

IPós-Graduando da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da UNIFESP
IIProfessora Adjunta de Anestesiologia da UNIFESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A morfina por via subaracnóidea promove bom efeito analgésico, mas não é isenta de efeito colateral. O objetivo deste estudo foi verificar se há correlação entre a concentração de morfina no líquor e os efeitos colaterais após injeção de morfina por via subaracnóidea.
MÉTODO: Foram estudados 28 ratos, em quatro grupos, 24 horas após a colocação de cateter subaracnóideo via cisterna magna. Os grupos G1, G2, G3 e G4 receberam respectivamente 0,1; 0,3; 0,5 e 1 µg de morfina em 10 µl de solução fisiológica a 0,9%. Foram coletadas amostras de líquor e anotados os efeitos colaterais nos momentos M15, M30, M60, M120 e M180 minutos após a injeção.
RESULTADOS: Os efeitos colaterais observados foram tremor mandibular, agitação, prurido, ausência de diurese, sedação e alteração respiratória. Houve maior incidência de efeitos colaterais nas avaliações precoces, diminuindo progressivamente com o tempo. As concentrações médias de morfina no líquor no G1 variou de 72,84 a 1,13 pg; no G2, de 114,26 a 5,68 pg; no G3, de 151,18 a 13,62 pg; e no G4, de 561,37 a 18,61 pg.
CONCLUSÕES: Não houve correlação entre concentração de morfina no líquor e efeitos colaterais.

Unitermos: ANALGÉSICOS, Opióides: morfina; ANIMAL: rato; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: subaracnóidea


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La morfina por vía subaracnoidea promueve buen efecto analgésico, solamente no es exenta de efecto colateral. El objetivo de este estudio fue verificar si hay correlación entre la concentración de morfina en el líquor y los efectos colaterales después de inyección de morfina por vía subaracnoidea.
MÉTODO: Fueron estudiados 28 ratones, en cuatro grupos, 24 horas después de colocación de catéter subaracnoideo vía cisterna magna. Los grupos G1, G2, G3, y G4 recibieron respectivamente 0,1; 0,3; 0,5 y 1 µg de morfina en 10 µl de solución fisiológica a 0,9%. Fueron colectadas muestras de líquor y anotados los efectos colaterales en los momentos M15, M30, M60, M120 y M180 minutos después de la inyección.
RESULTADOS: Fueron observados efectos colaterales: tremor de mandíbula, agitación, prurito, ausencia de diuresis, sedación y alteración respiratoria. Hubo mayor incidencia de efectos colaterales en las evaluaciones precoces, diminuyendo progresivamente con el tiempo. Las concentraciones medias de morfina en el líquor en el G1 varió de 72,84 a 1,13 pg; en el G2, de 114,26 a 5,68 pg; en el G3, de 151,18 a 13,62 pg; y en el G4, de 561,37 a 18,61 pg.
CONCLUSIONES: No hubo correlación entre concentración de morfina en el líquor y efectos colaterales.


 

 

INTRODUÇÃO

A morfina foi um dos primeiros opióides a ser utilizado para analgesia pós-operatória e para o controle da dor crônica. É um opióide com baixa solubilidade lipídica, afinidade moderada pelo receptor, eficácia moderada, baixa velocidade de dissociação do receptor e duração prolongada.

A descoberta de receptores opióides em 1974 1 e a identificação de opióide endógeno em 1975 2 foi um avanço no tratamento da dor. A morfina por via espinhal, por sua baixa lipossolubilidade, apresenta grande período de latência e duração prolongada. Quando utilizada no espaço subaracnóideo, a morfina tem dispersão no sentido cranial, podendo provocar efeitos colaterais como prurido, náusea, vômito e insuficiência respiratória, sendo este último o mais temido por sua manifestação tardia.

Não foi encontrado, na literatura pesquisada, relato de correlação entre a concentração de morfina no líquor e efeitos colaterais após injeção subaracnóidea. Para tentar verificar se há essa correlação, esta pesquisa foi elaborada dosando a concentração no líquor após injeção de diferentes doses de morfina e observando os efeitos colaterais nos ratos, em diferentes momentos.

 

MÉTODO

Este estudo experimental foi realizado após ter sido aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo e da Universidade Federal do Amazonas. Foram investigados 28 ratos da linhagem Wistar, machos, sadios, com idade aproximada de 90 dias e peso entre 250 e 300 gramas. Foram excluídos do protocolo, ratos com paralisia ou flacidez das patas. Os animais foram mantidos em gaiolas individuais, recebendo 12 horas de luz por dia, água e ração à vontade durante todo o experimento.

Os animais foram distribuídos em 4 grupos de 7 e todos receberam 10 µl de solução fisiológica por via subaracnóidea: os do G1, 0,1 µg de morfina; os do G2, 0,3 µg de morfina; os do G3, 0,5 µg de morfina; e os do G4, 1 µg de morfina.

A morfina foi preparada, através da diluição de 1 mg do sal de sulfato de morfina em 1 ml de solução fisiológica a 0,9% (1 mg/ml). As demais (0,1; 0,3; 0,5; e 1 µg de morfina em 10 µl) foram preparadas por diluição com solução fisiológica a 0,9% e mantidas à temperatura de 4 ºC até a análise. Para a solução de 0,1 µg/10 µl, foram retirados 50 µl da solução estoque e adicionados 4950 µl de solução fisiológica 0,9%. Para a solução de 0,3 µg/10 µl, foram retirados 100 µl da solução estoque e adicionados 3000 µl de solução fisiológica a 0,9%. Para a solução de 0,5 µg/10 µl, foram retirados 100 µl da solução estoque e adicionados 2000 µl de solução fisiológica a 0,9% e para solução de 1 µg/10 µl, foram retirados 500 µl da solução estoque e adicionados 4500 µl de solução fisiológica a 0,9%.

Para colocação de cateter subaracnóideo, os animais foram submetidos à anestesia geral com cetamina (60 µg/g) e xilazina (16 µg/g) por via muscular. A colocação do cateter subaracnóideo foi realizada pela técnica de Yaksh, Rudy 3, modificada; com introdução do cateter na parte mais lateral, para facilitar a administração da droga e a coleta de líquor. O cateter alcançou o espaço subaracnóideo da região torácica alta, aproximadamente ao nível de T3-T4. A extremidade livre do cateter foi fechada com um pequeno estilete metálico.

Os animais foram mantidos em gaiolas individuais para recuperação anestésica e os com deficiência neurológica, foram excluídos do estudo.

Foram administradas diferentes concentrações de morfina de maneira aleatória nos animais, 24 horas após a colocação do cateter no espaço subaracnóideo. Todos os animais que participaram do estudo estavam ativos, movimentando-se, recebendo ração e água livres, e totalmente recuperados da anestesia.

A injeção pelo cateter foi efetuada com seringa de Hamilton de 10 µl, graduada de 1 em 1 µl, em uma velocidade de 5 µl por segundo.

Foram realizadas coletas de 0,2 ml de líquor nos momentos: 15 (M15), 30 (M30), 60 (M60), 120 (M120) e 180 (M180) minutos após a administração da morfina. As amostras foram centrifugadas e armazenadas a -8 ºC, sendo utilizado o método de cromatografia líquida de alta eficiência para quantificar a morfina no líquor.

Realizou-se coleta de 0,3 ml de sangue arterial, entre 15 e 30 minutos após a administração da morfina, em um animal de cada grupo.

Foram observados e anotados os possíveis efeitos colaterais e complicações nos momentos: M0, M5, M15, M30, M60, M120 e M180, correlacionando com a concentração liquórica de morfina.

Para análise estatística foram empregados os testes não-paramétricos. Para todos os testes, foi fixado em 0,05 ou 5% (p < 0,05) o nível de rejeição da hipótese de nulidade.

 

RESULTADOS

Concentração da Morfina no Líquor

As médias das concentrações da morfina no líquor no G1 diminuíram progressivamente e foram significativamente menores que nos demais grupos em M15, M30, M60, e M120; no M180 a média da concentração de G1 foi semelhante à de G2 e menor que de G3 e G4. No G2 e no G3 ocorreu diminuição seguida de aumento e nova diminuição e no G4 também houve aumento seguido de diminuição (Tabela I e Figura 1).

Correlação entre Concentração Liquórica de Morfina e Efeitos Colaterais

No G1, em M15 (72,84 pg/100 µl) foram observados: tremor mandibular, agitação, prurido, sedação, e alteração respiratória; em M30 (19,01 pg/100 µl), tremor mandibular, prurido, sedação, e alteração respiratória; em M60 (7,38 pg/100 µl), tremor mandibular, prurido, ausência de diurese, sedação, e alteração respiratória. Tanto em M120 (3,25 pg/100 µl) como em M180 (1,13 pg/100 µl) não ocorreu nenhum efeito.

No G2, em M15 (106,64 pg/100 µl) foram observados: tremor mandibular, agitação, prurido, ausência de diurese, sedação e alteração respiratória; em M30 (96,91 pg/100 µl), agitação, prurido, ausência de diurese, sedação e alteração respiratória; em M60 (114,26 pg/100 µl), prurido, ausência de diurese, sedação, e alteração respiratória; em M120 (37,81 pg/100 µl), prurido e ausência de diurese e em M180 (5,68 pg/100 µl) não ocorreu nenhum efeito.

No G3, em M15 (144,77 pg/100 µl) foram observados: prurido, sedação e alteração respiratória; em M30 (121,47 pg/100 µl), prurido, sedação e alteração respiratória; em M60 (151,18 pg/100 µl), prurido, ausência de diurese e sedação; em M120 (42,57 pg/100 µl), prurido e ausência de diurese e em M180 (13,62 pg/100 µl) não ocorreu nenhum efeito.

No G4 em M15 (179,18 pg/100 µl) foram observados: prurido, sedação e alteração respiratória; em M30 (386,14 pg/100 µl), prurido, ausência de diurese, sedação e alteração respiratória; em M60 (561,37 pg/100 µl), prurido, ausência de diurese e sedação; em M120 (74,86 pg/100 µl), prurido e sedação e, em M180 (18,61 pg/100 µl), não ocorreu nenhum efeito (Tabela II).

 

DISCUSSÃO

Para este estudo, foi escolhido o rato Wistar pela facilidade de aquisição, manuseio e manutenção da alimentação e higiene nas gaiolas, além de grande resistência orgânica às infecções e baixo custo. Muitos autores também optaram por ratos para injeção de morfina por via subaracnóidea, pelos motivos descritos 3-5.

Para colocação do cateter, foi utilizada a técnica cirúrgica descrita por Yaksh, Rudy 5 modificada, por permitir acesso relativamente fácil ao espaço subaracnóideo através da cisterna magna. Também possibilita a manutenção do cateter durante períodos prolongados, porque permite fixação eficaz do mesmo, além de isolá-lo do contato com a boca e as patas do animal, impedindo-o de retirá-lo. Entretanto, se reproduzida fielmente, demanda um tempo muito grande para a colocação do cateter e apresenta um elevado índice de falha para a coleta de líquor.

O experimento foi feito 24 horas após a colocação do cateter para que não houvesse dúvidas sobre a analgesia residual da anestesia e também para que fosse possível avaliar a ausência de lesão neurológica. Não foi feito após tempo maior, porque poderia ocorrer obstrução da ponta de cateter, impedindo a difusão da solução e também a coleta seriada de líquor. Este estudo e os da literatura, foram realizados somente com animais despertos e movimentando-se livremente, sem contenção 3-5.

O opióide escolhido para esta pesquisa foi a morfina, que por ser hidrofílica, possui duração de ação prolongada. Porém, essa característica também é responsável pela permanência do fármaco no líquor durante tempo maior que com opióide lipofílico. Com isso, ocorre maior difusão cranial e ligação do opióide aos receptores encefálicos, provocando efeitos colaterais como prurido, náusea, vômito e depressão respiratória. A presença desses efeitos colaterais limita o uso de opióides por via subaracnóidea.

Não encontramos trabalhos sobre correlação entre concentração de morfina no líquor e os efeitos colaterais investigados. Para verificar se existe essa correlação, foram escolhidas doses de 0,1 a 1 µg; um estudo mostrou que 1 µg de morfina, por via subaracnóidea, produz efeito analgésico e colateral 6.

Na presente pesquisa, com as doses administradas, a concentração de morfina no líquor foi menor que a concentração mínima de 200 a 400 pg/100 µl, relatada na literatura 7, atingindo essa concentração somente em M30 e M60 do G4.

Após administração venosa, a morfina é encontrada no soro, no líquor e no encéfalo de ratos, em 5 minutos. No encéfalo, observa-se diminuição da concentração após 30 minutos, mantendo estável até 60 minutos. No líquor, não há modificação da concentração após 30 minutos; entretanto, 60 minutos após a administração venosa ocorre aumento intenso, sugerindo que a morfina poderia estar retida no tecido encefálico. O líquor poderia ser uma importante via de eliminação da morfina do sistema nervoso central, porém não são encontrados seus metabólitos nesse local após administração de dose única 8.

No presente estudo foram encontradas grandes concentrações de morfina no líquor, aos 15 minutos. Aos 30 e 60 minutos, a alteração da concentração foi diferente nos grupos, ocorrendo aumento ou diminuição. Aos 120 e 180 minutos, ocorreu diminuição da concentração de morfina no líquor em todos os grupos.

Neste estudo, foram encontradas grandes concentrações de morfina, em M15, em todos os grupos, provavelmente porque as amostras de líquor foram coletadas no local da injeção. Em M30 ocorreu redução da concentração de morfina, em três grupos, provavelmente devido à distribuição do fármaco no líquor e para a medula espinhal, para os tecidos adjacentes e para o encéfalo. No G4, houve aumento da concentração provavelmente por difusão da morfina de tecidos para o líquor; também foi observado aumento nos grupos 2, 3 e 4 no M60. No G1, continuou havendo diminuição da concentração, provavelmente porque a dose era pequena e mesmo com difusão do tecido para o líquor o aumento foi menor que a saída da droga do líquor para os tecidos.

Nos momentos M120 e M180 houve diminuição das concentrações de morfina no líquor, em todos os grupos, provavelmente porque a maior parte já havia sido eliminada; em M180 foram detectadas concentrações bastante pequenas.

Neste estudo, foram observados efeitos colaterais com baixas concentrações de morfina, enquanto, em alguns momentos em que a concentração de morfina no líquor foi maior, nenhum efeito foi observado.

Não houve correlação entre concentração de morfina no líquor e efeitos colaterais observados. Aparentemente, o desaparecimento dos efeitos colaterais tem correlação com o tempo transcorrido após injeção de morfina subaracnóidea.

Com base nos resultados deste estudo experimental realizado em ratos, com 0,1; 0,3; 0,5 e 1 µg de morfina por via subaracnóidea em 10 µl de solução fisiológica, pode-se concluir que não há correlação entre concentração de morfina no líquor e efeitos colaterais.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Dra. Rioko Kimiko Sakata
Rua Três de Maio 61/51 Vila Clementino
04044-020 São Paulo, SP

Apresentado em 04 de fevereiro de 2003
Aceito para publicação em 06 de maio de 2003

 

 

* Recebido da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), São Paulo, SP