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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.54 no.2 Campinas Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942004000200018 

NECROLÓGIO

 

Lembrando

 

 

Isto não é um necrológio tradicional, daqueles que enumeram datas, dados e títulos do falecido. É apenas a demonstração da saudade que um pequeno grupo, dentre os inúmeros discípulos e amigos, sente de João José de Cunto, o João, como exigia ser chamado.

No nosso Serviço somos três os que tiveram o privilégio de, alem de ser seus alunos em Anestesiologia, contar com a sua amizade fora do centro cirúrgico.

Mas antes vamos lembrar um pouco do João anestesista dentro do C.C. Sempre o primeiro a chegar, antes de nós residentes que queríamos surpreendê-lo e éramos saudados com um bom dia sorridente e uma rápida inspeção para ver se estávamos de barba feita ("Causa boa impressão no paciente e no cirurgião"); a seguir ia para a sala à ele e à um de nós designada e, lá, com uma paciência incomum para alguém com tantos anos de estrada, ensinava desde trocar soro, diluir tiopental, puncionar a veia a intubar, fazer raquianestesia, peridural e caudal. Alem da paciência acima mencionada chamava a atenção o bom humor que espalhava entre circulantes, cirurgiões e residentes, sempre com uma história relacionada ao que estava sendo executado ou a algum fato recentemente noticiado. Extremamente habilidoso e inventivo, melhorava aparelhos de anestesia, criava pequenos dispositivos úteis no dia a dia e dava trabalho para o pessoal da Takaoka pedindo peças que tinham que ser fabricadas sob medida! (E sempre foi atendido). Gostava da física e matemática relacionadas à anestesia, pedindo "Vocês que estão com as coisas frescas na cabeça me ajudem a explicar por que isto ou aquilo acontece" mas era freqüente ele já saber a resposta, estava apenas nos estimulando a pesquisar. Tinha suas "máximas", relacionadas à segurança, que repetia com freqüência e que ficaram inculcadas em nós ajudando-nos no exercício diário da profissão. Pequenas coisas, grande saudade.

Agora vamos lembrar do João fora do C.C.

Em torno das 19 horas, toca o telefone na sala do Serviço dentro do C.C.:

  • Fulano (residente), como é que está aí?
  • tá acabando João.
  • Vem aqui pra casa depois.

E lá íamos nós, sabendo que nos esperava uma calorosa recepção dele e da Lynéa (sua primeira esposa, falecida há alguns anos) e umas comidinhas que nós, residentes, obviamente não estávamos habituados. Compareciam a essas reuniões alguns poucos cirurgiões, empresários, comerciantes, usineiros e... tocadores de viola! João adorava música, era constante em sua casa o toca-discos (vitrola) funcionando com uma variedade que ia de sambas antigos a Frank Sinatra. E lá, entre causos e estórias passávamos horas (e que dificuldade para acordar no dia seguinte, mas o João já estava lá no C.C., perfeito!).

Se a reunião fosse no sábado começava antes do almoço, com piscina (imaginem um residente, na piscina do chefe, no sábado era a glória!) e continuava pela tarde, sob as gaiolas com seus passarinhos, que recebiam os cuidados que dispensaria aos filhos que não teve. João tratava todos, mas todos mesmo, da faxineira do C.C. ao poderoso usineiro do mesmo modo: escutava o que tinham a dizer, opinava quando solicitado e tinha interesse real pelas pessoas. No seu aniversário (4/12) recebia, agora com Lucy, para uma festa maior, quando eram convidados seus AMIGOS. AMIGOS com maiúscula mesmo, pessoas a quem ele nada pedia e tudo dava. Que honra para nós sermos lembrados por ele.

Que saudade nos dá lembrar dele.

Adeus João.

 

Seus AMIGOS.

Amir Michel Kalaf
Rogério W. Messenberg
Jorge Yutaka Inoue