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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.54 no.6 Campinas Nov./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942004000600019 

NECROLÓGIO

 

Marlene Paulino dos Reis (*20/08/1942 - 12/12/2003)

 

 

Em recente viagem à São Paulo, fui me recordando com detalhes dos 32 anos que convivi com minha amiga e colega de trabalho, Dra. Marlene. Talvez essa recordação tenha sido motivada pela viagem que eu estava realizando, dirigindo sozinha pela mesma estrada e que me levaria a um destino feliz. O tempo passado desde a sua morte é muito curto para evitar que me recorde dela todos os dias, no nosso trabalho, da trágica condição de sua morte prematura, e das conseqüências não menos trágicas que este fato acarretou, principalmente para seus filhos e amigos mais próximos.

Estudamos na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Marlene de 1964 a 1969 e eu 1965 a 1970. Durante a graduação nunca fomos próximas, provavelmente pelas características do curso e pelo espírito corporativo dos estudantes. No ano de 1970, Dra. Marlene fez residência em Anestesiologia na Maternidade de Campinas, na época sob a responsabilidade do Prof. Álvaro Eugênio, por quem ela mantinha grande admiração e carinho. Quando retornou à Ribeirão Preto em 1971, eu estava iniciando a residência de Anestesiologia, no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto, e começamos a trabalhar sob a orientação do Prof. Nicoletti, que além de professor foi um grande amigo. A partir deste ano que nos tornamos grandes amigas, tanto no trabalho como na vida particular, acompanhando o crescimento dos dois filhos que cada uma de nós tivemos, quase na mesma data.

A Dra. Marlene começou a fazer o curso de pós-graduação assim que iniciou seu trabalho em Ribeirão Preto, tendo o Prof. Nicoletti como orientador, e obteve o título de mestre em 1973 e o de Doutor em 1977. O trabalho era intenso, tanto no hospital como em casa com as crianças pequenas, mas a produtividade era grande e a presença nos Congressos Brasileiros era constante e muito proveitosa.

Após o doutorado, em julho de 1978, a Profª Marlene foi para a Inglaterra, onde estagiou no Departamento de Anestesiologia da Welsh National School of Medicine e no Royal PostGraduate Medical School, Hammersmith Hospital. Em 1980, tornou-se livre docente, após concurso público na FMRP-USP e em 1986 realizou concurso para Professora Associada na mesma faculdade.

Concomitantemente com a prático e o ensino da Anestesiologia, a Profª Marlene vislumbrou em 1982 um grande campo de trabalho e de ajuda humanitária, o tratamento da dor. Com muito esforço conseguiu iniciar o Ambulatório Multidisciplinar para o Tratamento de Dor, o qual era responsável até sua morte. Inteligente, vaidosa, empreendedora, alegre, embora detentora de um temperamento forte, que facilmente a fazia explodir mediante os obstáculos, como a realização de atividades que considerasse importante (principalmente ao atendimento clínico de pacientes portadoras de dor crônica), como na defesa dos médicos anestesiologistas. Em 1999, implantou com a colaboração da Profª Gabriela o Curso de Especialização do Tratamento da Dor Crônica.

Nos últimos meses, após a resolução de pequenos problemas pessoais, encontrava-se feliz, animada com novos projetos para os próximos anos. No dia da sua morte, encontrava-se no auge desta felicidade, pois estava indo de encontro de sua filha querida após uma ausência de quase um ano. Sendo a morte imprevisível e inevitável, deveria sempre nos abordar sem dor, sem sofrimento e em estado de graça. Minha amiga Marlene morreu feliz.

 

Dra. Anita Leocádia de Mattos
Hospital das Clínicas, FMRP-USP
Ribeirão Preto, SP