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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.55 no.4 Campinas July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942005000400001 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Efeitos da lidocaína por via venosa sobre a farmacodinâmica do rocurônio*

 

Efectos de la lidocaína por vía venosa sobre la farmacodinámica del rocuronio

 

 

Leandro Sotto Maior Cardoso, TSAI; César Romão Martins, TSAII; Maria Angela Tardelli, TSAIII

IAnestesiologista, Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina
IIAnestesiologista, Preceptor dos Residentes do CET da UNIFESP - EPM
IIIProfessora Adjunta da Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva da UNIFESP - EPM

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O rocurônio é um bloqueador neuromuscular (BNM) não-despolarizante de ação intermediária que apresenta início de ação mais rápido, indicado para situações onde há necessidade de intubação traqueal rápida. A lidocaína é freqüentemente utilizada por via venosa para diminuir as respostas hemodinâmicas associadas à intubação traqueal. A associação de um BNM a um anestésico local resulta em potencialização dos efeitos bloqueadores neuromusculares. O objetivo deste estudo é avaliar a interação entre a lidocaína e a farmacodinâmica do rocurônio avaliada por aceleromiografia.
MÉTODO: Pacientes estado físico ASA I e II, com idade entre 18 e 65 anos, aleatoriamente distribuídos em dois grupos (GC: controle e GL: lidocaína), receberam rocurônio como bloqueador neuromuscular. O GL recebeu lidocaína (1,5 mg.kg-1) 3 minutos antes do rocurônio. A função neuromuscular foi avaliada pela resposta do músculo adutor do polegar à seqüência de quatro estímulos (SQE). Após a injeção do BNM foram anotados os tempos para a primeira resposta (T1) até a SQE atingir 10% e 0% do valor controle, e recuperar 25%, 75% e 95% da altura de contração (Dur25%, Dur75%, Dur95%). Anotou-se também o tempo de recuperação de T4/T1 = 0,8) e os intervalos Dur75%-Dur25% (IR25-75) e T4/T1 = 0,8 - Dur25%.
RESULTADOS: Este estudo não demonstrou diferença estatística significativa entre os grupos quando comparados T1= 10%, T1 = 0, IR25-75, T4/T1 = 0,8 - Dur25%. Os tempos para Dur25%, Dur75%, Dur95% no GL foram estatisticamente superiores aos do GC.
CONCLUSÕES: A associação de lidocaína ao rocurônio prolongou a fase inicial de recuperação do bloqueio sem interferir com o início de ação ou com a fase de recuperação final.

Unitermos: ANESTÉSICOS, Local: lidocaína; BLOQUEADORES NEUROMUSCULARES, Não-Despolarizante: rocurônio


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El rocuronio es un bloqueador neuromuscular (BNM) no despolarizante de acción intermediaria que presenta un inicio de acción más rápido, indicado para situaciones donde hay necesidad de rápida intubación traqueal. La lidocaína es frecuentemente utilizada por vía venosa para disminuir las respuestas hemodinámicas asociadas a la intubación traqueal. La asociación de un BNM a un anestésico local resulta en potencialización de los efectos bloqueadores neuromusculares. El objetivo de este estudio es evaluar la interacción entre la lidocaína y a farmacodinámica del rocuronio evaluada por aceleromiografia.
MÉTODO: Pacientes estado físico ASA I y II, con edad entre 18 y 65 años, eventualmente distribuidos en dos grupos (GC: control y GL: lidocaína), recibieron rocuronio como bloqueador neuromuscular. El GL recibió lidocaína (1,5 mg.kg-1) 3 minutos antes del rocuronio. La función neuromuscular fue evaluada por la respuesta del músculo aductor del pulgar a la secuencia de cuatro estímulos (SQE). Después de la inyección del BNM se anotaron los tiempos para la primera respuesta (T1) a la SQE alcanzar 10 y 0% del valor control, y recobrar 25%, 75% y 95% de la altura de la contracción (Dur25%, Dur75%, Dur95%). Se anotó también el tiempo de recuperación de T4/T1 = 0,8) y los intervalos Dur75%-Dur25% (IR25-75) y T4/T1 = 0,8 - Dur25%.
RESULTADOS: Este estudio no demostró diferencia estadísticamente significativa entre los grupos cuando comparados T1= 10%, T1 = 0, IR25-75, T4/T1 = 0,8 - Dur25%. Los tiempos para Dur25%, Dur75%, Dur95% en el GL fueron estadísticamente superiores a los del GC.
CONCLUSIONES: La asociación de lidocaína al rocuronio prolongó la parte inicial de recuperación del bloqueo sin interferir con el inicio de acción o con la parte de recuperación final.


 

 

INTRODUÇÃO

O brometo de rocurônio é um bloqueador neuromuscular (BNM) não-despolarizante aminoesteróide de ação intermediária 1-5. Entre os BNM não-despolarizantes de uso clínico, o rocurônio é o que apresenta início de ação mais curto 6, sendo indicado quando se deseja intubação traqueal rápida sem os inconvenientes da succinilcolina 7.

A lidocaína é um anestésico local, freqüentemente utilizado por via venosa durante a indução anestésica, com a finalidade de diminuir as respostas hemodinâmicas associadas à intubação traqueal 8.

Há evidências de que os anestésicos locais diminuem a transmissão neuromuscular e exercem efeitos no neurônio motor e na fibra muscular. Estudos in vitro mostraram que a associação desse fármaco com um BNM resulta em potencialização dos efeitos bloqueadores neuromusculares 9,10. Na prática clínica, esse efeito sinérgico entre BNM e anestésico local poderia ser interessante se resultasse em instalação mais precoce do bloqueio neuromuscular, o que possibilitaria uma intubação traqueal mais rápida aliada à proteção dos efeitos cardiovasculares inerentes à técnica.

O objetivo deste estudo foi avaliar se a administração por via venosa de lidocaína, antes da administração de rocurônio para a intubação traqueal, modifica a farmacodinâmica deste bloqueador neuromuscular.

 

MÉTODO

Este estudo clínico prospectivo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo Escola Paulista de Medicina (UNIFESP - EPM). Foram selecionados 46 pacientes estado físico ASA I e II, com idade entre 18 e 65 anos, com índice de massa corpórea entre 20 e 25 kg.m-2 submetidos a procedimentos cirúrgicos eletivos sob anestesia geral com intubação traqueal e ventilação mecânica controlada.

Após o consentimento informado por escrito, os pacientes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos: GC (controle) e GL (lidocaína). Todos os pacientes receberam rocurônio como bloqueador neuromuscular. No GL os pacientes receberam lidocaína, três minutos antes de receberem o rocurônio. No GC os pacientes receberam igual volume de solução fisiológica. Constituiu critério de exclusão a presença de situações que interferissem na ação dos bloqueadores neuromusculares tais como hipo ou hiperproteinemia, insuficiência renal, hepatopatias, hipo ou hipertermia, alterações do equilíbrio ácido-base e hidroeletrolítico, gravidez, doenças neuromusculares, alcoolismo crônico e fármacos que alteram a farmacologia dos BNM.

Os pacientes não receberam medicação pré-anestésica. Um acesso venoso foi obtido no membro superior com cateter 18G para hidratação e administração de fármacos. Foi instalada uma torneira diretamente no cateter de forma a possibilitar que os fármacos atingissem a corrente sangüínea para excluir interferência do calibre e comprimento da extensão no tempo de infusão da lidocaína e do rocurônio.

Utilizou-se como monitorização o cardioscópio, oxímetro de pulso, capnógrafo e analisador de gases, monitor não-invasivo de pressão arterial, monitor da transmissão neuromuscular pelo método da acelerografia (TOF GUARD®), termômetros esofágico e cutâneo.

A indução da anestesia foi realizada com fentanil (5 µg.kg-1), seguida de etomidato (0,3 mg.kg-1), após três minutos. Mantida ventilação manual sob máscara com oxigênio a 100% e isoflurano com fração expirada de, no máximo, 0,5% até a estabilização da resposta do músculo adutor do polegar à estimulação elétrica do nervo ulnar. Prosseguiu-se a indução com a administração de 1,5 mg.kg-1 de lidocaína (GL) ou volume equivalente de solução fisiológica (GC). Após três minutos administrou-se 0,6 mg.kg-1 de rocurônio, em 15 segundos. A laringoscopia e a intubação traqueal foram realizadas após o desaparecimento das quatro respostas à seqüência de quatro estímulos (SQE).

A anestesia foi mantida com isoflurano em concentração de até 1% de fração expirada, em oxigênio e óxido nitroso a 50%. Doses adicionais de 2 µg.kg-1 de fentanil foram administradas quando a pressão arterial ou a freqüência cardíaca atingiam valores acima de 20% dos basais. A temperatura central foi mantida entre 36,5 e 37 ºC e a periférica acima de 34 ºC durante todo o procedimento, utilizando manta térmica com calor por convecção. A ventilação mecânica foi ajustada para manter a fração expirada de CO2 ao final da expiração (PETCO2) entre 32 e 36 mmHg.

A função neuromuscular (FNM) foi monitorizada de forma contínua no membro superior contralateral ao do acesso venoso, pelo monitor TOF-Guard (Dinamark), utilizando o padrão de estimulação SQE (seqüência de quatro estímulos), através da estimulação supramáxima do nervo ulnar por dois eletrodos de superfície localizados no punho. Esta estimulação foi mantida por no mínimo cinco minutos para a estabilização da resposta do músculo adutor do polegar. O grau de bloqueio neuromuscular foi quantificado em termos de percentual da amplitude da resposta padrão inicial T1/T0 onde T1 representa a amplitude da primeira resposta à SQE e T0, a amplitude da primeira resposta prévia à administração do BNM.

Após a administração do rocurônio, foi observado o tempo necessário para abolição de 90% da resposta muscular (T1 = 10%); o tempo necessário para abolição total da resposta muscular (T1 = 0) e os tempos para recuperação de 25%, 75% e 95% de T1. Também foi anotado o tempo para que a relação entre T4 e T1 atingisse o valor de 0,8 (T4/T1 = 0,8).

Os valores de pressão arterial média, freqüência cardíaca, temperaturas periférica e central foram registrados nos momentos em que foram anotados os dados referentes à monitorização da função neuromuscular.

Os conceitos para os parâmetros analisados foram:

1. Início de ação: tempo decorrido para abolição de 100% da resposta muscular, T1 = 0, após o término da injeção do bloqueador neuromuscular;

2. Duração clínica (Dur25%): intervalo de tempo em minutos, entre o final da injeção do rocurônio e a recuperação espontânea de 25% da primeira resposta à SQE;

3. Dur75%: intervalo de tempo em minutos, decorrido entre a administração do rocurônio e a recuperação de 75% da primeira resposta à SQE

4. Duração total de ação (Dur95%): intervalo de tempo em minutos, decorrido entre a administração do rocurônio e a recuperação de 95% da primeira resposta à SQE

5. Índice de recuperação (IR25-75%): tempo decorrido entre a recuperação espontânea de 25% e 75% da altura da primeira resposta à SQE;

6. Relação T4/T1 = 0,8: intervalo de tempo em minutos, decorrido entre a administração do rocurônio e a recuperação de 80% da quarta resposta em relação à primeira resposta à SQE.

7. Intervalo T4/T1 = 0,8 - Dur25%: intervalo de tempo entre a Dur25% e a SQE atingir 0,8.

Os parâmetros - índice de massa corpórea, idade, freqüência cardíaca e pressão arterial - foram analisados através do teste t de Student. A distribuição entre os sexos foi comparada através do teste de proporção de Fisher. Para a análise estatística dos tempos referentes à monitorização da função neuromuscular empregou-se o teste não paramétrico de Mann-Whitney. Para todas as variáveis, o nível de significância adotado foi de 5% (p <0,05).

 

RESULTADOS

Foram incluídos 23 pacientes em cada grupo. As médias e desvios-padrão dos parâmetros demográficos (idade, índice de massa corpórea e sexo) encontram-se na tabela I. Com relação a estes parâmetros, os grupos mostraram-se homogêneos do ponto de vista estatístico.

Na figura 1 está a média e o desvio-padrão das variáveis referentes à instalação do bloqueio neuromuscular. O tempo para abolição de 90% da resposta muscular (T1 = 10%), em segundos, nos grupos GC e GL foram 83,83 ± 35,31 e 78,74 ± 20,37, respectivamente; sem diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,8175). Os valores do início de ação (T1 = 0), em segundos, nos grupos GC e GL foram 123,17 ± 55,57 e 107,79 ± 34,70, respectivamente. Não houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,5530).

A figura 2 apresenta os dados referentes à fase de recuperação do bloqueio neuromuscular.

Os valores da duração clínica (Dur25%), em minutos, nos grupos GC e GL foram 32,35 ± 6,26 e 36,48 ± 6,69, respectivamente. Os grupos mostraram-se diferentes de forma estatística significativa (p = 0,0449).

Os valores da duração 75% (Dur75%), em minutos, nos grupos GC e GL foram 44,09 ± 11,16 e 53,83 ± 12,49, respectivamente. Houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,0029).

Os valores da duração de ação (Dur95%), em minutos, nos grupos GC e GL foram 49,66 ± 13,94 e 60,69 ± 13,82. Os grupos mostraram-se estatisticamente diferentes (p = 0,0060).

As médias e os desvios-padrão do índice de recuperação (IR25-75), em minutos, foram 11,74 ± 6,50 em GC e 17,35 ± 9,90 em GL. Não houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,2531).

As médias e os desvios-padrão do tempo para a relação T4/T1 atingir 0,8, em minutos, foram 62,52 ± 15,31 em GC e 72,87 ± 17,21 em GL. Não houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,0558).

As médias e os desvios-padrão dos intervalos de tempo entre a relação T4/T1 atingir 0,8 e a Dur25%, em minutos, foram 30,17 ± 11,21 em GC e 36,39 ± 14,17 em GL. Não houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,1378).

A figura 3 apresenta os dados referentes à pressão arterial média e à freqüência cardíaca nos diferentes momentos em que foram anotados os parâmetros da monitorização da função neuromuscular. Não houve diferenças estatística significativas entre os grupos.

 

DISCUSSÃO

O presente estudo foi desenhado seguindo-se as orientações do GCRP (Good Clinical Research Practice in pharmacodynamic studies of neuromuscular blocking agents) 11.

Para a realização do estudo procurou-se homogeneizar os fatores que pudessem interferir com o bloqueio neuromuscular durante a anestesia.

Não se utilizou medicação pré-anestésica com benzodiazepínicos, por serem agentes capazes de causar relaxamento muscular, potencializando os BNM 12. Para o intra-operatório procurou-se utilizar fármacos que priorizassem a estabilidade hemodinâmica e assegurassem a manutenção de adequada perfusão muscular, para que não houvesse interferência na distribuição do bloqueador neuromuscular até a sua biofase 13. Com esta finalidade optou-se por etomidato como hipnótico para a indução anestésica.

Os anestésicos inalatórios também potencializam, por diversos mecanismos, os bloqueadores neuromusculares. Eles deprimem o sistema nervoso central, aumentam o fluxo sangüíneo muscular, diminuem a filtração glomerular, diminuem o fluxo sangüíneo hepático, diminuem a sensibilidade da membrana pós-juncional à despolarização e têm ação direta sobre a fibra muscular 14-16. Dentre os agentes inalatórios, o óxido nitroso apresenta menor interação com o bloqueio neuromuscular. A utilização de isoflurano em concentrações menores que 1%, associado ao óxido nitroso, foi estabelecida porque até esta concentração seu efeito sobre a função neuromuscular é comparável ao da anestesia venosa, considerada padrão para os estudos com BNM 17.

Durante o ato anestésico-cirúrgico é comum a ocorrência de hipotermia 18,19. O controle rígido das temperaturas central e periférica é particularmente importante porque a farmacologia dos BNM e a monitorização da função neuromuscular sofrem interferências da hipotermia central e periférica 11,20, respectivamente. A hipotermia potencializa a ação dos BNM por diminuir a condução nervosa, as excreções urinária e biliar dos fármacos e a atividade enzimática 21,22. Sabe-se que durante a monitorização da função neuromuscular, a diminuição da temperatura da pele abaixo de 32 ºC diminui a amplitude das respostas evocadas enquanto, o calor local resulta em diminuição da impedância do eletrodo 23-25. Os cuidados estabelecidos no protocolo para a manutenção das temperaturas central e periférica permitem descartar a possibilidade de interferência desse fator nos resultados obtidos.

Após a indução da anestesia os pacientes foram submetidos à ventilação manual por, no mínimo, 5 minutos antes de receberem o BNM, com a finalidade de obter estabilização da resposta muscular ao estímulo elétrico. Este cuidado é importante porque o grau de bloqueio neuromuscular é estimado comparando-se a amplitude da contração muscular isolada com um valor controle medido na ausência de bloqueio neuromuscular. Na prática, este valor de controle é geralmente difícil de ser determinado porque a estimulação repetitiva do nervo motor aumenta a resposta mecânica evocada do músculo correspondente, resultando num aumento da resposta ao estímulo isolado. Isto é conhecido como potencialização do estímulo isolado ou staircase phenomenon. A provável explicação para este fenômeno é a fosforilação da cadeia leve da miosina criando um aumento na força de contração isolada para uma determinada quantidade de cálcio liberada a cada potencial de ação. A implicação prática deste fenômeno é que o anestesiologista não familiarizado com esta potencialização pode considerar que, quando a resposta ao estímulo isolado atinge os níveis pré-bloqueio, a recuperação está completa 26.

A concentração de CO2 ao final da expiração foi mantida dentro de uma faixa estreita, porque a alcalose respiratória antagoniza os efeitos dos BNM, enquanto a acidose respiratória os potencializa 27.

Controlando-se todas estas variáveis e tornando os grupos homogêneos, foi possível estudar, como única variável, os efeitos da administração de lidocaína por via venosa sobre a farmacodinâmica do rocurônio.

Nas situações onde há necessidade de relaxamento muscular de instalação rápida, a utilização de succinilcolina tem sido cada vez mais substituída por outras técnicas, em decorrência dos efeitos adversos deste BNM 28. As técnicas que têm sido empregadas com a finalidade de encurtar o início de ação dos BNM não-despolarizantes incluem o aumento da dose (acima de duas vezes a DE95) 29 e a dose preparatória (priming) 30. Estas técnicas apresentam inconvenientes como o prolongamento da duração do bloqueio neuromuscular associado a possível efeito cardiovascular e risco de broncoaspiração, quando se utiliza aumento da dose ou dose preparatória, respectivamente 31.

A busca por bloqueadores neuromusculares que pudessem substituir a succinilcolina nesta função resultou na introdução do rocurônio, o BNM não-despolarizante de mais rápido início de ação 32. A fim de encurtar ainda mais seu início de ação, tem-se utilizado a técnica de aumento da dose (3 a 4 vezes a DE95) 31, o que permite  intubação traqueal em aproximadamente 60 segundos, porém com um aumento considerável em seu tempo de ação, fazendo este BNM de ação intermediária comportar-se como BNM de longa duração 1.

No presente estudo procurou-se avaliar os efeitos da interação do anestésico local lidocaína com o rocurônio.

Diversos estudos demonstraram a interação sinérgica dos anestésicos locais com os BNM in vitro 9 e in vivo por via venosa 33,34 e por via peridural 35,36.

Os anestésicos locais podem interferir com a função neuromuscular exercendo sua ação em diferentes componentes da junção mioneural, tanto na membrana pré quanto na pós-sináptica. Na membrana pré-sináptica os anestésicos locais são capazes de bloquear a condução das fibras terminais do nervo motor 9,37, diminuir o conteúdo quantal de acetilcolina ou o número de quanta liberado em repouso ou à estimulação nervosa 9,38 e prolongar o período refratário absoluto e a fadiga à estimulação tetânica 37. Na membrana pós-sináptica, são capazes de se ligar a áreas específicas dos receptores nicotínicos diferentes das de ACh, promovendo a dessensibilização destes receptores 39,40; causar bloqueio de canal aberto nos receptores nicotínicos, onde parecem se ligar a uma área específica localizada a três quartos do caminho transmembrana 41,42; interferir diretamente na fibra muscular, seja por bloqueio de canais de sódio (procaína) 43 ou canais de sódio e potássio (lidocaína) 44.

Assume-se que, durante a monitorização da função neuromuscular, a depressão e a recuperação da força de contração ao primeiro estímulo da SQE (T1 ou twitch) decorram dos efeitos na membrana pós-sináptica, enquanto o fenômeno da fadiga relaciona-se aos efeitos pré-sinápticos 45.

Embora o desenho do presente estudo não permita avaliar os reais mecanismos da interação entre a lidocaína e o rocurônio, os resultados permitem especular sobre as possíveis ações em áreas pré e pós-sinápticas.

Em um estudo recente, os autores 46 compararam as condições de intubação da succinilcolina com rocurônio (0,6 mg.kg-1) associado ou não à lidocaína (1,5 mg.kg-1), após 60 e 90 segundos da administração do BNM. Demonstraram que a associação de lidocaína ao rocurônio permite condições apropriadas de intubação traqueal em 60 segundos, à semelhança da succinilcolina e de forma superior à administração isolada de rocurônio. Após 90 segundos todos os grupos apresentaram condições adequadas de intubação. Estes autores fundamentaram-se em critérios clínicos para definir as condições de intubação, sem realizar a monitorização da função neuromuscular dos pacientes. Nesse estudo a administração de lidocaína não foi capaz de acelerar o início de ação do rocurônio (T1 = 10% e T1 = 0), o que não necessariamente contradiz o estudo anterior, uma vez que condições adequadas de intubação podem ser obtidas mesmo na ausência de bloqueio neuromuscular 47. Os autores ressaltam que esta associação apresenta a vantagem de encurtar o início de ação do rocurônio, sem o inconveniente aumento da duração de ação. No entanto, deve-se destacar que estes autores não incluíram em seu método qualquer técnica de avaliação objetiva da duração do bloqueio.

No presente estudo, a associação de lidocaína ao rocurônio promoveu aumento nas durações 25%, 75% e 95% do bloqueio. Como não foram avaliados os efeitos da associação de lidocaína com diferentes doses de rocurônio, o método não permite comparar se o efeito da associação dos dois fármacos assemelha-se ao aumento da dose. Entretanto, considerando-se os resultados obtidos, a associação promoveu o retardo da recuperação inicial do bloqueio neuromuscular, sem prolongar a recuperação final.

Em outro estudo, que empregou método semelhante ao desta pesquisa, os autores demonstraram que a administração de lidocaína (1,5 mg.kg-1), três minutos antes do BNM, foi capaz de encurtar o início de ação do vecurônio. No entanto, esses autores não investigaram o impacto da co-administração destes dois fármacos sobre a duração do BNM 48.

Com relação à fase de recuperação do bloqueio neuromuscular, em concordância com os dados de literatura, no presente estudo a lidocaína prolongou o tempo de recuperação da primeira resposta à SQE, representadas por Dur25%, Dur75% e Dur95%, o que ratifica seus efeitos pós-sinápticos. A lidocaína retardou o início da recuperação, deslocando os valores a partir da Dur25% de forma uniforme, o que pode ser evidenciado pela ausência de diferença no índice de recuperação (IR25-75%).

Em contrapartida, o presente estudo não detectou ação pré-sináptica significativa na interação da lidocaína com o rocurônio, evidenciada pela ausência de diferença entre os tempos para a recuperação final da função neuromuscular, representados pelos tempos para T4/T1 atingir 0,8 e a diferença entre os tempos para T4/T1 = 0,8 e Dur25%, que tem sido proposto como índice da velocidade da recuperação final 11.

Considerando que os BNM não-despolarizantes apresentam diferentes afinidades com os receptores pré e pós-sinápticos e que a lidocaína atua dificultando a transmissão neuromuscular no terminal pré-sináptico e na fibra muscular, podemos concluir, nas condições estudadas, que o anestésico local interferiu com maior intensidade na intensificação dos efeitos pós-sinápticos.

Nas condições estudadas, a administração por via venosa de lidocaína previamente ao rocurônio não foi capaz de encurtar o início de ação deste BNM, porém prolongou sua duração farmacológica sem prolongar o tempo para a recuperação completa da função neuromuscular.

 

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Endereço para correspondência
Dra. Maria Angela Tardelli
Disciplina de Anestesiologia, Dor e Terapia Intensiva
Rua Napoleão de Barros, 715, 4º A
04024-002 São Paulo, SP
E-mail: tardelli.dcir@epm.br

Apresentado em 20 de setembro de 2004
Aceito para publicação em 10 de março de 2005

 

 

* Recebido da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (UNIFESP - EPM), São Paulo, SP