SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.56 issue3Hemodynamic effects of aortic occlusion during inhalational anesthesia with isoflurane and sevoflurane: experimental study in dogsBroncho-alveolar lavage cellularity in patients submitted to myocardial revascularization with cardiopulmonary bypass: three case reports author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.56 no.3 Campinas May/June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942006000300005 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Efeitos de concentrações crescentes de lidocaína hiperbárica, administradas no espaço subaracnóideo, sobre a medula espinhal e as meninges. Estudo experimental em cães*

 

Efectos de concentraciones crecientes de lidocaína hiperbara, administradas en el espacio subaracnoideo, sobre la médula espinal y las meninges. Estudio experimental en perros

 

 

Silvânia R.O. PiresI; Eliana Marisa Ganem, TSAII; Mariângela MarquesIII; Yara Marcondes Machado Castiglia, TSAIV

IPós-Graduanda do Programa de Pós-Graduação em Anestesiologia do Departamento de Anestesiologia da FMB-UNESP
IIProfessora Adjunta do CET/SBA do Departamento de Anestesiologia da FMB-UNESP
IIIProfessora Assistente Doutora do Departamento de Patologia da FMB-UNESP
IVProfessora Titular do CET/SBA do Departamento de Anestesiologia da FMB-UNESP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Ainda não está bem estabelecida a concentração de lidocaína que é potencialmente capaz de determinar lesão no tecido nervoso. O objetivo desta pesquisa foi estudar os efeitos sobre a medula espinhal e as meninges, de concentrações crescentes de lidocaína administrada por via subaracnóidea, em injeção única através de agulha de Quincke.
MÉTODO: Após a aprovação da Comissão de Ética em Experimentação Animal, 40 cães adultos foram anestesiados com fentanil e etomidato e submetidos a punção subaracnóidea com agulha de Quincke 22G 21/2 para introdução de 1 mL, em 10 segundos, de solução glicosada a 7,5% – Grupo 1; lidocaína a 5% em solução glicosada a 7,5% – Grupo 2; lidocaína a 7,5% em solução glicosada a 7,5% – Grupo 3; lidocaína a 10% em solução glicosada a 7,5% – Grupo 4. Após a recuperação da anestesia venosa, foram observados, no período em que os animais estavam em vigência do bloqueio subaracnóideo, a presença de bloqueio motor, o tônus do esfíncter anal (normal ou relaxado) e o nível de bloqueio sensitivo nos diferentes dermátomos das regiões cervical, torácica, lombar e sacral. Os animais permaneceram em cativeiro por 72 horas. Foram avaliados o tônus do esfíncter anal, a motricidade das patas posteriores, a sensibilidade dolorosa nas patas anteriores e posteriores e nos dermátomos sacrais, lombares e torácicos. Após serem sacrificados por eletrocussão sob anestesia, foram retiradas porções lombar e sacral da medula espinhal e das meninges para exame histológico por microscopia óptica.
RESULTADOS: Nenhum animal dos Grupos 1 e 2 apresentou lesões clínicas ou histológicas. Três animais do Grupo 3 apresentaram alterações motoras nas patas posteriores e relaxamento do esfíncter anal. Nestes, foram observados focos de necrose na região posterior (dois cães) e necrose em faixa em toda a superfície medular (um cão). Em um outro animal deste grupo, no qual foram notados focos de necrose, em área inferior a 5% do campo histológico não foram encontradas alterações clínicas. Sete animais do Grupo 4 apresentaram alterações clínicas (paralisia ou diminuição de força muscular nas patas posteriores, relaxamento do esfíncter anal) e histológicas (necrose na faixa da superfície medular ou focos de necrose de tecido nervoso).
CONCLUSÕES: Neste estudo, a lidocaína em concentrações superiores a 7,5%, em injeção única, administrada no espaço subaracnóideo por meio de agulha de Quincke, determinou alterações histológicas sobre a medula espinhal, mas não sobre as meninges.

Unitermos: ANESTESIA, Regional: subaracnóidea; ANESTÉSICOS, Local: lidocaína; ANIMAIS: cães; COMPLICAÇÕES: lesão neurológica, neurotoxicidade


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Todavía no ha quedado bien establecida la concentración de lidocaína que es potencialmente capaz de determinar lesión en el tejido nervioso. El objetivo de esta pesquisa fue el de estudiar los efectos sobre la médula espinal y las meninges, de concentraciones crecientes de lidocaína administrada por vía subaracnoidea, en inyección única a través de aguja de Quincke.
MÉTODO: Después de la aprobación de la Comisión de Ética en Experimentación Animal, 40 perros adultos fueron anestesiados con fentanil y etomidato y sometidos a punción subaracnoidea con aguja de Quincke 22G 21/2 para introducción de 1 mL, en 10 segundos, de solución glicosada a 7,5% - Grupo 1; lidocaína a 5% en solución glicosada a 7,5 % - Grupo 2; lidocaína a 7,5% en solución glicosada a 7,5% - Grupo 3; lidocaína a 10% en solución glicosada a 7,5% - Grupo 4. Después de la recuperación de la anestesia venosa, se observó, durante el período en que los animales estaban bajo los efectos del bloqueo subaracnoideo, la presencia de bloqueo motor, el tono del esfínter anal (normal o relajado) y el nivel de bloqueo sensitivo en los diferentes dermátomos de las regiones cervical, torácica, lumbar y sacral. Los animales permanecieron en cautiverio por 72 horas. Se evaluaron el tono del esfínter anal, la motricidad de las patas posteriores, la sensibilidad dolorosa en las patas anteriores y posteriores y en los dermátomos sacrales, lumbares y torácicos. Ellos fueron sacrificados por electrocución bajo anestesia y fueron retiradas las partes lumbar y sacral de la médula espinal y de las meninges para examen histológico por microscopía óptica.
RESULTADOS: Ningún animal de los Grupos 1 y 2 presentó lesiones clínicas o histológicas. Tres animales del Grupo 3 presentaron alteraciones motoras en las patas posteriores y relajamiento del esfínter anal. En ellos se observaron focos de necrosis en la región posterior (dos perros) y necrosis en faja en toda la superficie medular (un perro). En otro animal de ese grupo, en el cual se observó focos de necrosis, en área inferior a 5% del campo histológico, no se encontraron alteraciones clínicas. Siete animales del Grupo 4 presentaron alteraciones clínicas (parálisis o disminución de fuerza muscular en las patas posteriores, relajamiento del esfínter anal) e histológicas (necrosis en faja de superficie medular o focos de necrosis de tejido nervioso).
CONCLUSIONES: En ese estudio, la lidocaína en concentraciones superiores a 7,5%, en inyección única, administrada en el espacio subaracnoideo a través de aguja de Quincke, determinó alteraciones histológicas sobre la médula espinal, pero no sobre las meninges.


 

 

INTRODUÇÃO

Demonstrou-se o estreito índice terapêutico da lidocaína hiperbárica a 5%, quando introduzida no neuroeixo, desde o início da década de 1990, quando a síndrome da cauda eqüina foi associada à sua administração subaracnóidea, por meio de microcateter na técnica contínua 1,2, após injeção única com agulha de ponta de lápis 3,4 e injeções repetidas por falha de bloqueio 5.

Ainda não está bem estabelecida a concentração de lidocaína que é potencialmente capaz de determinar lesão no tecido nervoso. Estudos experimentais em ratos, em que o anestésico foi administrado por meio de cateter implantado no espaço subaracnóideo, foi observada neurotoxicidade em concentração que variou de 2,5% 6 a 7,5% 7,8. Esse modelo tem como crítica o fato de não reproduzir a técnica anestésica utilizada na prática clínica 6.

O objetivo desta pesquisa foi estudar os efeitos sobre a medula espinhal e as meninges, de concentrações crescentes de lidocaína administrada por via subaracnóidea em injeção única por meio de agulha de Quincke.

 

MÉTODO

Após a aprovação pela Comissão de Ética em Experimentação Animal, foram utilizados 40 cães adultos, de ambos os sexos, sem raça definida, cujos pesos variaram de 7 a 12 kg e comprimentos de coluna vertebral, de 60 a 68 cm. Foram excluídos os animais que não apresentaram aspecto sadio e que tiveram necessidade de mais de uma punção subaracnóidea, bem como aqueles dos quais se obteve líquor hemorrágico, o que caracterizou acidente de punção. Os cães foram distribuídos de forma aleatória em quatro grupos de dez animais, que se diferenciaram pela solução administrada no espaço subaracnóideo: Grupo 1 (controle) – solução glicosada a 7,5%, Grupo 2 – lidocaína a 5% em solução glicosada a 7,5%; Grupo 3 – lidocaína a 7,5% em solução glicosada a 7,5%; Grupo 4 – lidocaína a 10% em solução glicosada a 7,5%.

Em todos os animais foi realizada a mesma seqüência experimental. Após jejum de 12 horas com livre acesso à água, os cães foram anestesiados com fentanil (0,005 mg.kg-1) e etomidato (2 mg.kg-1), por via venosa. A seguir, foram colocados em decúbito ventral na goteira de Claude Bernard, tendo sido medida a distância entre a protuberância occipital e o espaço lombossacral para a obtenção do comprimento da coluna vertebral.

Foi realizada a limpeza da pele e dos pêlos, com água e sabão, em área de 10 cm ao redor do espaço L6-L7, seguida de lavagem com água, antissepsia com solução tópica de gluconato de clorexidina a 2% e colocação de campos estéreis.

Após a palpação das duas tuberosidades do osso ilíaco e do processo espinhoso da última vértebra lombar, logo abaixo foi localizado o espaço lombossacral. Deslizando-se o indicador no sentido cefálico, o próximo espaço intervertebral era o L6-L7.

Para a realização da punção subaracnóidea, introduziu-se, por meio de acesso mediano, com ângulo de inclinação de aproximadamente 45º, a agulha de Quincke 22G 21/2, descartável, com o orifício de administração do anestésico local no sentido cefálico. Ao ultrapassar a membrana aracnóide, foi retirado o mandril da agulha e houve o escoamento do líquor.

Após a obtenção do líquor, a solução de cada grupo foi injetada no espaço subaracnóideo, com seringas de 3 mL, em 10 segundos. O volume administrado foi de 1 mL.

Após a recuperação da anestesia venosa, que ocorreu em cerca de 20 minutos, foram observados, no período em que os animais estavam em vigência do bloqueio subaracnóideo, a presença de bloqueio motor, o tônus do esfíncter anal (normal ou relaxado) e o nível de bloqueio sensitivo avaliado por meio da pesquisa da presença de dor nos diferentes dermátomos, das regiões cervical, torácica, lombar e sacral, com auxílio de pinça hemostática fechando a primeira trava. Foi considerada presença de dor a contração da pele do animal ao estímulo doloroso ou o movimento da cabeça tentando morder.

Após a recuperação da anestesia subaracnóidea, os animais permaneceram sob observação clínica durante as 72 horas em que foram mantidos em cativeiro. Foram avaliados: o tônus do esfíncter anal, a motricidade das patas posteriores pela característica do deambular (andar normal, andar com limitações, não conseguindo sustentar as patas, incapacidade de andar), a capacidade de movimentar a cauda e a alteração da sensibilidade dolorosa. A sensibilidade foi pesquisada pela reação da sensação de dor (retração da pata, mudança de postura, face com expressão de angústia) após pressão exercida pelo fechamento dos dentes da pinça sobre as membranas interdigitais das patas anteriores e posteriores e sobre a pele da região correspondente aos dermátomos sacrais, lombares e torácicos.

Os animais foram sacrificados por eletrocussão, após anestesia prévia com pentobarbital sódico, e foram retiradas porções lombar e sacral da medula espinhal no tempo inferior a três minutos, sendo fixadas em solução de formalina a 10% para posterior exame histológico.

Foram realizados cortes transversais do tecido nervoso e das meninges, que se iniciaram cerca de 5 cm acima do local onde foi realizada a punção raquidiana, indo até o final da cauda eqüina, com intervalos de 1 cm.

Os cortes foram corados pelo método de hematoxilina-eosina e a leitura das lâminas foi efetuada pela microscopia óptica, sem que se soubesse a que grupo experimental elas pertenciam.

Tendo o objetivo de avaliar a homogeneidade dos grupos com relação ao peso e ao comprimento da coluna vertebral, foi realizada a Análise de Variância, sendo considerados significativos os valores de p < 0,05.

 

RESULTADOS

A análise estatística dos quatro grupos experimentais constatou que houve homogeneidade entre eles com relação ao peso e ao comprimento da coluna vertebral (Tabela I).

 

 

Todos os animais apresentaram aspecto sadio e não foi encontrada dificuldade na realização, da punção subaracnóidea em nenhum deles, sendo claro o líquor obtido.

Após a recuperação da anestesia venosa, os animais dos Grupos 2, 3 e 4 apresentaram bloqueio motor das patas posteriores, bloqueio sensitivo que variou de T11 a L1 e esfíncter anal relaxado com perda espontânea de fezes.

Nenhum animal dos Grupos 1 e 2 apresentou alterações clínicas durante o período de cativeiro ou histológica da medula e das meninges pela microscopia óptica (Tabela II, Figura 1).

 

 

 

 

Foram observadas alterações histológicas em quatro animais pertencentes ao Grupo 3 e alterações clínicas em três deles. No quarto animal, na medula do qual se constataram focos de necrose nas superfícies posterior, anterior e lateral, em cerca de 5% do campo histológico, não foram observadas alterações clínicas. Os outros três animais mostraram alterações clínicas caracterizadas por relaxamento do esfíncter anal e diminuição de força muscular nas patas posteriores, levando à paralisia em um deles. As alterações histológicas variaram de necrose em faixa na toda a superfície medular (15% do campo histológico) a focos de necrose em diversas regiões da medula, com predomínio de lesão na região posterior (Tabela II). A necrose foi caracterizada pela presença de vacúolos, de núcleos picnóticos e de lesão de aspecto fibrinóide (Figura 2).

 

 

No Grupo 4, sete animais apresentaram alterações clínicas e histológicas. Em seis animais, foi observada diminuição da força muscular nas patas posteriores, e em três deles houve associação a relaxamento do esfíncter anal. Em um animal constatou-se somente relaxamento do esfíncter anal.

As alterações histológicas observadas foram necrose em faixa em toda a superfície medular em quatro animais e focos de necrose na região anterior, ou lateral ou posterior, em três cães (Tabela III). A necrose caracterizou-se por vacuolização confluente com perda de substância e presença de núcleos picnóticos (Figura 3).

 

 

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo mostraram que a lidocaína, em concentrações superiores a 7,5%, determinou toxicidade no tecido nervoso.

As lesões histológicas do tecido nervoso encontradas, a presença de vacúolos, a degeneração de axônio, os núcleos picnóticos e a lesão de aspecto fibrinóide são características de necrose, e foram mais intensas na região posterior da medula, mas estenderam-se, superficialmente, até as regiões lateral e anterior. Esses resultados diferem do que foi descrito por alguns autores 7-9, que comprovaram alterações histológicas somente na região posterior da medula e na raiz dorsal. Contudo, estão em concordância com os resultados de outro estudo 6 que constatou lesões histológicas nas regiões anterior, lateral e posterior da substância branca e nas regiões dorsal e ventral da substância cinzenta em ratos que receberam lidocaína a 10% em injeção única por meio de cateter implantado no espaço subaracnóideo.

É descrito que as alterações histológicas acometem com mais freqüência a região posterior, porque em local próximo à raiz posterior, logo antes de sua entrada na substância branca medular, há uma zona não-mielinizada que contém neurônios desnudos. Esses neurônios são mais sensíveis aos efeitos tóxicos de fármacos injetados no líquor 9. Entretanto, é importante ressaltar que a superfície medular é o local de maior contato do anestésico com o tecido nervoso e, portanto, vulnerável ao agente agressor.

A maior extensão na localização das lesões encontradas nesta pesquisa pode ser imputada à diferentes métodos utilizados. Neste experimento, o animal estudado foi o cão, em que se realizou a punção subaracnóidea por meio de agulha de Quincke, em injeção única. Enquanto em outros 7-9, foram utilizados ratos e o anestésico foi administrado por meio de cateter implantado no espaço subaracnóideo, em infusão contínua 10,11, ou em bolus 6-8, o que pode ter induzido lesões de diferentes formas 12.

Está bem estabelecido que, para assegurar a ausência de toxicidade de um agente a ser administrado no líquor, este deve ser verificado em muitos animais de diferentes espécies 13.

Outros estudos realizados com o mesmo método mostraram que caso a lesão seja muito intensa ela se estende além da região posterior 14,15.

Nesta pesquisa, não foram observadas alterações clínicas ou histológicas em nenhum cão que recebeu solução glicosada e lidocaína hiperbárica a 5%. Estes resultados estão de acordo com algumas pesquisas encontradas na literatura, nas quais em coelhos 16 e em ratos 7,8,12 as lesões neurológicas aconteceram quando a lidocaína foi administrada no espaço subaracnóideo em concentrações iguais ou superiores a 7,5%. Contudo, em situações que favoreceram o acúmulo deste anestésico local, como em injeções lentas (60 segundos), as lesões podem ocorrer com concentrações a 5% 17,18 e em concentrações ainda menores, após doses elevadas ou tempo prolongado de exposição do tecido nervoso ao anestésico local 8,10,11,15.

A síndrome da cauda eqüina foi descrita após a administração subaracnóidea de grandes volumes de lidocaína a 2%, que deveriam ter sido administrados no espaço subaracnóideo 19-21, em seres humanos e em animal de experimentação 15, ressaltando os efeitos causados pelo contato prolongado entre o fármaco e o tecido nervoso. Isto ocorre porque a margem de segurança entre o efeito terapêutico da lidocaína e seu efeito tóxico é muito pequena.

Em nervos isolados de rãs, a lidocaína induziu a perda irreversível dos impulsos nervosos, de maneira dose-dependente, a partir de concentrações de 40 mmol, que corresponde à concentração de 1%. A perda total da atividade neuronal aconteceu com concentrações de 80 mmol, ou seja, a 2% 22.

Em neurônios do gânglio dorsal de ratos, foi observado que concentrações de 30 mmol, em contato com o nervo por 4 minutos, foram suficientes para induzir a morte de neurônios 23.

O mecanismo celular responsável pela neurotoxicidade dos anestésicos locais ainda não está completamente conhecido. Sabe-se apenas que, quando alterações clínicas se manifestam, existem lesões suficientemente graves para produzir a perda da condução de algumas populações de fibras nervosas 24.

Foi observado bloqueio do transporte axoplasmático rápido e da condução do nervo, em nervos isolados de coelho, com concentrações de lidocaína tão baixas quanto a 0,6%, quando o contato durou 60 minutos 25. O transporte axoplasmático rápido é necessário para manter a viabilidade e estrutura do neurônio 26.

Estudo recente, in vitro, utilizando células do gânglio da raiz dorsal de ratos mostrou que a neurotoxicidade desencadeada pela lidocaína está relacionada com a disfunção mitocondrial com ativação das vias de apoptose 27.

Para concluir, pode-se dizer que a lidocaína em concentrações superiores a 7,5% em injeção única, administrada no espaço subaracnóideo por meio de agulha de Quincke, determinou alterações histológicas sobre a medula espinhal, mas não sobre as meninges, neste modelo experimental em cães.

 

REFERÊNCIAS

01. Rigler ML, Drasner K, Krejcie TC et al – Cauda equina syndrome after continuous spinal anesthesia. Anesth Analg, 1991;72:275-281.        [ Links ]

02. Schell RM, Brauer FS, Cole DJ et al – Persistent sacral nerve root deficits after continuous spinal anaesthesia. Can J Anaesth, 1991;38:908-911.        [ Links ]

03. Beardsley D, Holman S, Gantt R et al – Transient neurologic deficit after spinal anesthesia: local anesthetic maldistribution with pencil point needles? Anesth Analg, 1995;81:314-320.        [ Links ]

04. Gerancher JC – Cauda equina syndrome following a single spinal administration of 5% hyperbaric lidocaine through a 25-gauge Whitacre needle. Anesthesiology, 1997;87:687-689.        [ Links ]

05. Drasner K, Rigler ML – Repeat injection after a "failed spinal": at times, a potentially unsafe practice. Anesthesiology, 1991; 75:713-714.        [ Links ]

06. Kirihara Y, Saito Y, Sakura S et al – Comparative neurotoxicity of intrathecal and epidural lidocaine in rats. Anesthesiology, 2003;99:961-968.        [ Links ]

07. Takenami T, Yagishita S, Asato F et al – Intrathecal lidocaine causes posterior root axonal degeneration near entry into the spinal cord in rats. Reg Anesth Pain Med, 2002,27:58-67.        [ Links ]

08. Takenami T, Yagishita S, Nara Y et al – Intrathecal mepivacaine and prilocaine are less neurotoxic than lidocaine in a rat intrathecal model. Reg Anesth Pain Med, 2004;29:446-453.        [ Links ]

09. Takenami T, Yagishita S, Asato F et al – Neurotoxicity of intrathecally administered tetracaine commences at the posterior roots near entry into the spinal cord. Reg Anesth Pain Med, 2000;25:372-379.        [ Links ]

10. Hashimoto K, Kishimoto T, Hampl KF et al – The functional and histologic effects of 1.5% lidocaine and 0.43% bupivacaine administered intrathecally in rat. Reg Anesth, 1998;23: (Suppl3):49.        [ Links ]

11. Hashimoto K, Hampl KF, Nakamura Y et al – Epinephrine increases the neurotoxic potential of intrathecally administered lidocaine in the rat. Anesthesiology, 2001;94:876-881.        [ Links ]

12. Sakura S, Kirihara Y, Muguruma T el al – The comparative neurotoxicity of intrathecal lidocaine and bupivacaine in rats. Anesth Analg, 2005;101:541-547.        [ Links ]

13. Yaksh TL, Collins JG – Studies in animals should precede human use of spinally administered drugs. Anesthesiology, 1989;70:4-6.        [ Links ]

14. Ganem EM, Vianna PT, Marques M et al – Neurotoxicity of subarachnoid hyperbaric bupivacaine in dogs. Reg Anesth, 1996;21:234-238.        [ Links ]

15. Ganem EM, Vianna PTG, Marques M et al – Efeitos da administração subaracnóidea de grandes volumes de lidocaína a 2% e ropivacaína a 1% sobre a medula espinhal e as meninges. Estudo experimental em cães. Rev Bras Anestesiol, 2003;53: 351-360.        [ Links ]

16. Yamashita A, Matsumoto M, Matsumoto S et al – A comparison of the neurotoxic effects on the spinal cord of tetracaine, lidocaine, bupivacaine, and ropivacaine administered intrathecally in rabbits. Anesth Analg, 2003;97:512-519.        [ Links ]

17. Silva DM, Ganem EM, Marques ME – Efeitos da lidocaína hiperbárica a 5%, administrada no espaço subaracnóideo com diferentes tipos de agulha, sobre a medula espinhal e as meninges de cães. Rev Bras Anestesiol, 2004;54:(Suppl):247B.        [ Links ]

18. Silva DM, Ganem EM, Marques ME – Lidocaína hiperbárica a 5% administrada pela via subaracnóidea com agulha de Quincke em diferentes velocidades de injeção. Efeitos sobre a medula e as meninges de cães. Rev Bras Anestesiol, 2004; 54:(Suppl):249A.        [ Links ]

19. Drasner K, Rigler ML, Sessler DI et al – Cauda equina syndrome following intended epidural anesthesia. Anesthesiology, 1992; 77:582-585.        [ Links ]

20. Cheng AC – Intended epidural anesthesia as possible cause of cauda equina syndrome. Anesth Analg, 1994;78:157-159.        [ Links ]

21. Lee DS, Bui T, Ferrarese J et al – Cauda equina syndrome after incidental total spinal anesthesia with 2% lidocaine. J Clin Anesth, 1998;10:66-69.        [ Links ]

22. Bainton CR, Strichartz GR – Concentration dependence of lidocaine-induced irreversible conduction loss in frog nerve. Anesthesiology, 1994;81:657-667.        [ Links ]

23. Gold MS, Reichling DB, Hampl KF et al – Lidocaine toxicity in primary afferent neurons from the rat. J Pharmacol Exp Ther, 1998;285:413-421.        [ Links ]

24. Kalichman MW – Physiologic mechanisms by which local anesthetics may cause injury to nerve and spinal cord. Reg Anesth, 1993;18:(Suppl6):448-452.        [ Links ]

25. Byers MR, Fink BR, Kennedy RD et al – Effects of lidocaine on axonal morphology, microtubules, and rapid transport in rabbit vagus nerve in vitro. J Neurobiol, 1973;4:125-143.        [ Links ]

26. Malinovsky JM, Pinaud M – Neurotocité des agents administers par voie intrathécale. Ann Fr Anesth Réanim, 1996;15:647-658.        [ Links ]

27. Johnson ME, Uhl CB, Spittler KH et al – Mitochondrial injury and caspase activation by the local anesthetic lidocaine. Anesthesiology, 2004;101:1184-1194.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Profª Dra. Eliana Marisa Ganem
Deptº de Anestesiologia da FMB UNESP
18618-970. Botucatu, SP
E-mail: eganem@fmb.unesp.br

Apresentado em 14 de setembro de 2005
Aceito para publicação em 22 de janeiro de 2006

 

 

* Recebido da Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade do Estado de São Paulo (FMB-UNESP), Botucatu, SP.