SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.56 issue5Immediate hemodynamic and metabolic effects of 7.5% sodium chloride and its association with 6% dextran 70 in hemorragic shock resuscitation: an experimental study in dogsInfraclavicular vertical brachial plexus blockade in patients with chronic obstructive pulmonary disease: case report author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.56 no.5 Campinas Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942006000500007 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína complexada com ciclodextrinas e anestesia por via subaracnóidea em ratos*

 

Mezcla con exceso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaina con complejo de ciclodextrinas y anestesia por vía subaracnoidea en ratones

 

 

Daniele Ribeiro de AraujoI; Angélica de Fátima de Assunção Braga TSAII; Carolina Morales MoraesIII; Leonardo Fernandes FracetoIV; Eneida de PaulaV

IDoutora em Biologia Funcional e Molecular Bioquímica, Instituto de Biologia-UNICAMP
IIProfessora-Associada do Departamento de Anestesiologia, FCM-UNICAMP
IIIGraduanda do Curso de Farmácia, Universidade de Sorocaba UNISO
IVProfessor Doutor do Curso de Farmácia, Universidade de Sorocaba UNISO
VProfessora-Associada do Departamento de Bioquímica Instituto de Biologia, UNICAMP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Com a finalidade de prolongar a duração de ação e reduzir a toxicidade sistêmica, têm-se desenvolvido formulações de anestésicos locais (AL) complexados com ciclodextrinas (CD). Este estudo realizou a caracterização físico-química e avaliou, em ratos, os efeitos dos complexos de inclusão de bupivacaína racêmica (S50-R50) e da mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína com hidroxipropil-betaciclodextrina (HP-b-CD), comparando-os com as soluções atualmente utilizadas na clínica.
MÉTODO: Os complexos de inclusão de S75-R25 em HP-b-CD (razão molar 1:1) foram caracterizados por estudos de solubilidade de fases variando-se as concentrações de HP-b-CD e a temperatura. Determinaram-se as constantes de afinidade (K) pela HP-b-CD e os parâmetros termodinâmicos para a complexação. Os bloqueios motor e sensitivo foram avaliados, por meio da administração subaracnóidea das formulações na concentração clínica de 0,5%.
RESULTADOS: A formação de complexos de inclusão foi observada pelo aumento da solubilidade aquosa do AL sob diferentes temperaturas e concentrações de HP-b-CD. Os testes in vivo mostraram que S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD reduziram a latência (p < 0,001) sem alterar o tempo de recuperação do bloqueio motor, tempo para efeito máximo e efeito total dos fármacos. Além disso, ambas as formulações aumentaram a intensidade (1,5 vez, p < 0,001) e prolongaram a duração da analgesia, com relação aos fármacos livres.
CONCLUSÕES: Os complexos S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD potencializaram o bloqueio nervoso diferencial, podendo ser utilizados para reduzir a freqüência de administrações ou a dose de AL para indução de um mesmo efeito. A formulação contendo a mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína mostrou-se interessante no desenvolvimento de formulações seguras e úteis para o tratamento da dor aguda no período pós-operatório.

Unitermos: ANESTÉSICOS, Local: bupivacaína; ANIMAIS: ratos.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Con la finalidad de prolongar la duración de la acción y reducir la toxicidad sistémica, se han desarrollado formulaciones de AL con complejo de ciclodextrinas (CD). Ese estudio realizó la caracterización físico-química y evaluó en ratones, los efectos de los complejos de inclusión de bupivacaína racémica (S50-R50) y de la mezcla con exceso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína con hidroxipropil-betaciclodextrina (HP-b-CD), comparándolos con las soluciones actualmente utilizadas en la clínica.
MÉTODO: Los complejos de inclusión de S75-R25 en HP-b-CD (razón molar 1:1) fueron caracterizados por estudios de solubilidad de fases variando las concentraciones de HP-b-CD y la temperatura. Fueron determinadas las constantes de afinidad (K) por la HP-b-CD y los parámetros termodinámicos para los complejos. Los bloqueos motor y sensitivo fueron evaluados en ratones, a través de la administración subaracnoidea de las formulaciones en la concentración clínica de 0,5%.
RESULTADOS: La formación de complejos de inclusión se observó a través del aumento de la solubilidad acuosa del AL bajo diferentes temperaturas y concentraciones de HP-b-CD. Las pruebas in vivo mostraron que S50-R50HP-b-CD y S75-R25HP-b-CD redujeron la latencia (p < 0,001) sin alterar el tiempo de recuperación del bloqueo motor, tiempo para efecto máximo y efecto total de los fármacos. Además, ambas formulaciones aumentaron la intensidad (1,5 veces, p < 0,001) y prolongaron la duración de la analgesia, con relación a los fármacos libres.
CONCLUSIONES: Los complejos, S50-R50HP-b-CD y S75-R25HP-b-CD, potenciaron el bloqueo nervioso diferencial, pudiendo ser utilizados para reducir la frecuencia de administraciones o la dosis de AL para inducción de un mismo efecto. La formulación conteniendo la mezcla con exceso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaina fue interesante en el desarrollo de formulaciones seguras y útiles para el tratamiento del dolor agudo en el período postoperatorio.


 

 

INTRODUÇÃO

Os avanços nas pesquisas básica e clínica têm expandido as opções na farmacoterapia da dor. Entre as várias classes de fármacos utilizados para aliviar ou eliminar a dor, encontram-se os anestésicos locais (AL), que apresentam a propriedade de bloquear o processo de excitação-condução em nervos periféricos. Apesar da grande aplicabilidade clínica da bupivacaína, a ropivacaína, a levobupivacaína e, mais recentemente, a mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína têm se apresentado como novas opções para anestesias regionais prolongadas. No entanto, os AL atualmente utilizados apresentam limitações devido à sua duração de ação relativamente curta e à toxicidade para os sistemas nervoso central e cardiovascular 1,2.

Com a finalidade de prolongar a duração de ação e reduzir a toxicidade sistêmica desses fármacos, têm sido desenvolvidas formulações contendo AL complexados com ciclodextrinas (CD), oligossacarídeos cíclicos resultantes da hidrólise enzimática do amido 3,4. Além da estabilização físico-química, os efeitos significativos da complexação com CD são observados, sobretudo na modificação da solubilidade aquosa, da razão de liberação e das propriedades farmacocinéticas e farmacodinâmicas, alterando a duração e a intensidade de seus efeitos farmacológicos dos fármacos complexados 5,6.

Estudos em animais de laboratório indicam que a complexação com betaciclodextrinas (b-CD) e alguns de seus derivados, como a hidroxipropil-betaciclodextrina (HP-b-CD) (Figura 1), aumentaram a solubilidade aquosa e a duração do bloqueio nervoso induzido pela bupivacaína racêmica 7-11. Além disso, em estudo recente demonstrou-se que a complexação de bupivacaína racêmica (S50-R50) e da mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína com HP-b-CD potencializou a intensidade e a duração da analgesia após bloqueio do nervo isquiático de camundongos, sendo de potencial interesse para o alívio da dor no período pós-operatório 12.

Considerando-se o menor potencial tóxico da bupivacaína (S75-R25) com relação à bupivacaína racêmica (S50-R50), o presente estudo teve por objetivo realizar a caracterização físico-química e avaliar, em ratos, os efeitos dos complexos de inclusão de bupivacaína racêmica (S50-R50) e da mistura enantiomérica de bupivacaína (S75-R25) com HP-b-CD, administrados por via subaracnóidea, comparando-os com as soluções livres, atualmente utilizadas na clínica.

 

MÉTODO

Os complexos sólidos foram preparados misturando-se quantidades apropriadas de HP-b-CD e S75-R25 em água, tal que a razão molar fosse 1:1. As amostras foram deixadas sob agitação durante 24 horas à temperatura ambiente. Após isso, a solução foi liofilizada e guardada a –20º C para posterior uso. Os complexos sólidos foram pesados em quantidades suficientes para obter as concentrações desejadas e, posteriormente, dissolvidos em tampão (HEPES 20 mM pH 7,4, com NaCl 154 mM). A caracterização físico-química do complexo foi realizada por meio de estudos de solubilidade de acordo com método já descrito 13. Adicionou-se excesso de AL (15mM) em solução tampão 50 mM pH 7,4, na presença de quantidades crescentes de HP-b-CD (0, 5, 10, 20, 25, 30, 35 mM).

As soluções foram agitadas a 110 rpm sob diferentes temperaturas (10, 15, 20, 30 e 40º C) até o sistema atingir o equilíbrio (24 horas) e determinou-se a concentração de anestésico solubilizada por espectrofotometria (absortividade molar, e = 470) 14. A partir desses dados, foram obtidas as isotermas de solubilidade e medindo-se a constante de afinidade (K) em diferentes temperaturas utilizando a equação 1, onde: So é a concentração inicial do AL em solução.

A partir dos valores de constante de afinidade (K) em função de temperatura construiu-se um gráfico de van't Hoff medindo-se parâmetros termodinâmicos para o complexo formado: entalpia (DHº) e entropia (DSº), de acordo com a equação 2, onde T é a temperatura (em graus Kelvin) e R é constante ideal dos gases (8,31 kJ/mol) 15-17.

Este estudo experimental foi realizado após aprovação pela Comissão de Ética em Experimentação Animal do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (CEEA) – IB – UNICAMP que segue as normas do Colégio Brasileiro de Experimentação Animal (COBEA). Foram utilizados grupos de cinco ratos albinos, machos, pertencentes à linhagem Wistar, com idade aproximada de 90 dias e peso corporal variando entre 200 e 250 g. Os animais, provenientes do Centro de Bioterismo da UNICAMP (CEMIB), foram submetidos a ciclo claro/escuro de 12 horas, com água e alimentação à vontade, alojados coletivamente (cinco animais por gaiola) e aclimatados ao local de experimentação por pelo menos sete dias.

Para a administração subaracnóidea os animais foram contidos firmemente enquanto uma agulha conectada a uma seringa de Hamilton foi inserida perpendicularmente no espaço entre as vértebras L5 e L6 (Figura 2). O local de injeção selecionado estava restrito à região onde o cordão espinhal termina e a cauda eqüina começa, de forma a reduzir a possibilidade de lesão espinal e facilitar a acessibilidade intervertebral. No momento em que a agulha foi inserida no espaço subaracnóideo, observou-se um súbito movimento da cauda, reflexo este que foi utilizado como indicativo de punção correta. As formulações foram injetadas em volume máximo de 20 µL 18.

 

 

A avaliação dos bloqueios motor e sensitivo foi realizada simultaneamente e todas as medidas foram executadas pelo mesmo investigador. Os animais foram observados durante 24 horas após o tratamento para verificar a incidência de efeitos tóxicos sistêmicos (convulsões e óbitos) ou locais (falhas na recuperação dos movimentos normais). Os grupos experimentais foram assim determinados:

  • Grupo-controle: HP-b-CD;
  • Grupo S50-R50: bupivacaína racêmica;
  • Grupo S75-R25: mistura com 50% de excesso enantiomérico de bupivacaína;
  • Grupo S50-R50HP-b-CD (1:1): bupivacaína racêmica hidroxipropil-b-ciclodextrina na proporção molar 1:1 (S50R50: HP-b-CD);
  • Grupo S75-R25HP-b-CD (1:1): mistura com 50% de excesso enantiomérico de bupivacaína com hidroxipropil-b-ciclodextrina, na proporção molar 1:1 (S75-R25:HP-b-CD).

A presença de bloqueio motor foi evidenciada pelo "arrastamento" dos membros posteriores e/ou fechamento dos dedos 19 , sendo a intensidade do bloqueio motor avaliada de acordo com valores de escore: 0 (uso normal dos membros posteriores), 1 (incapacidade de flexionar completamente os membros posteriores) e 2 (impossibilidade do uso dos membros posteriores). A avaliação foi feita a cada minuto durante os cinco primeiros minutos após a injeção subaracnóidea e, posteriormente, em intervalos de 10 minutos até que fosse verificada a total recuperação dos movimentos do animal (pelo menos uma hora de observação). A latência (tempo entre a injeção e a obtenção de bloqueio motor grau 1 ou 2), o tempo para atingir o escore máximo (Tmáx), o tempo para recuperação da função motora e o efeito total do AL (estimado pela área sobre a curva efeito-tempo, AUC) foram os parâmetros analisados.

O bloqueio sensitivo foi avaliado utilizando-se um estímulo mecânico 20. Para a execução do teste utilizou-se um equipamento apropriado, chamado analgesímetro, que gerou aumento gradual da força (em gramas) exercida por uma extremidade plástica sobre a superfície dorsal da pata do animal. Para evitar analgesia induzida por estresse, cada animal foi envolvido em uma toalha permitindo que a cabeça e os membros ficassem livres. O reflexo de retirada da pata foi considerado representativo do limiar de dor Pain Withdrawal Threshold to Pressure (PWTP). A linha basal do PWTP foi medida antes dos experimentos e os animais que apresentaram valor do limiar de dor abaixo ou acima de 90 a 140 g foram excluídos do experimento e estabeleceu-se um valor máximo de pressão cut-off de 350 g, considerado representativo de bloqueio sensitivo. Após administração do veículo ou das formulações, as medidas foram realizadas durante cinco horas, com intervalos de 15 minutos durante a primeira hora, 30 minutos durante a segunda e terceira horas e, finalmente, 60 minutos nas últimas duas horas de teste. A analgesia foi definida como um aumento no limiar de pressão dos animais, pelo menos 50% maior que o observado no grupo tratado com o veículo. O ponto final da analgesia foi estabelecido quando da ausência de diferença estatística entre os grupos teste e controle 12.

Para a análise estatística do bloqueio motor (latência, Tmáx, tempo de recuperação e AUC) utilizou-se o teste Mann-Whitney e os dados foram expressos como medianas (limites mínimo e máximo). Os valores de PWTP durante o bloqueio sensitivo foram expressos em média ± DP e avaliados, em tempos individuais, por Análise de Variância (One-way ANOVA) com teste posterior de Tukey-Kramer 21. Foi definida como estatística significativa quando p < 0,05.

 

RESULTADOS

Por meio dos experimentos de solubilidade de fases, foi possível observar a complexação da S75-R25 com HP-b-CD em pH 7,4 sob diferentes temperaturas (Figura 3). O diagrama de solubilidade de fases dos sistemas indica a formação de complexos solúveis, havendo aumento linear na solubilidade de S75-R25 em função das concentrações de HP-b-CD testadas e em diferentes temperaturas.

 

 

Utilizando as regressões lineares obtidas das curvas da figura 3 e da equação 1, calculou-se a constante de afinidade (K) entre a S75-R25 e HP-b-CD para as várias temperaturas (Tabela I). Seus dados mostram que a elevação da temperatura leva a aumento no valor das constantes de afinidade (K), devido a aumento na solubilidade do fármaco, deslocando o equilíbrio no sentido da formação do complexo.

 

 

A partir dos valores de temperatura e constante de afinidade (K), utilizando-se a equação 2, foi possível construir a curva de van't Hoff (Figura 4) obtendo-se parâmetros termodinâmicos da complexação da molécula de S75-R25 com HP-b-CD.

 

 

Por meio dos dados de regressão linear, obtidos na figura 4, mediu-se os parâmetros termodinâmicos, sendo os valores obtidos para a complexação da S75-R25 com HP-b-CD de: 21,86 kJ/ mol de entalpia (DHº), 90,40 J/mol/K de entropia (DSº) e 5,07 kJ/ mol de energia livre do sistema (DGº). A análise desses dados mostra que a complexação entre S75-R25 e a cavidade interna da CD é favorável, visto que a energia livre do sistema é negativa, sendo a entropia do sistema determinante para a complexação entre o fármaco e a CD.

Avaliação do Bloqueio Motor

As soluções anestésicas livres e complexadas, quando administradas por via subaracnóidea, afetaram de maneira similar a função motora dos animais. No entanto, a administração do veículo, HP-b-CD, não induziu qualquer sinal de bloqueio motor.

Comparando-se individualmente os grupos experimentais, observou-se que a latência do bloqueio motor foi reduzida, de forma significativa (p < 0,001) pelo tratamento com os complexos S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD com relação às soluções livres. Porém, outros parâmetros, como tempo de recuperação do bloqueio motor, tempo para o efeito máximo e efeito total do fármaco, não foram alterados pela complexação com HP-b-CD (Tabela II).

 

 

Avaliação do Bloqueio Sensitivo

A avaliação do bloqueio sensitivo, através do teste PWTP, mostrou as relações efeito-tempo para os AL livres e complexados. Os efeitos do veículo (HP-b-CD), dos fármacos livres (S50-R50 e S75-R25) e dos complexos de inclusão (S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD) administrados por via subaracnóidea foram avaliados ao longo do tempo (Figuras 5 e 6).

 

 

 

 

O tratamento com S50-R50HP-b-CD aumentou o limiar de nocicepção dos animais com relação ao fármaco livre durante todo o período de experimentação. Na fase inicial do teste (até 180 min), ou seja, o ponto final da analgesia induzida por S50-R50 livre, ocorreu um aumento significativo (p < 0, 001) na intensidade da analgesia (cerca de 1,5 vez, com relação à S50-R50 livre) (Figura 5).

 

Tabela III

 

O complexo de inclusão S75-R25HP-b-CD também modificou a resposta dos animais à nocicepção, aumentando o limiar da dor e a duração do efeito antinociceptivo em até cinco horas após a injeção (Figura 6). Observou-se um aumento (1,4 vez) na intensidade do efeito analgésico quando comparado com S75-R25 livre, após 180 minutos de tratamento (p < 0,001).

Ambos os sistemas de liberação controlada (S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD) aumentaram a intensidade e prolongaram a duração da analgesia, sendo o efeito dos complexos praticamente estável nas duas últimas horas do teste (Figuras 5 e 6), evidenciando sua maior eficiência com relação à S50-R50 e S75-R25 livres.

 

DISCUSSÃO

A habilidade das CD de formarem complexos de inclusão depende essencialmente da compatibilidade estérica e da polaridade entre a CD e a molécula complexada. Além disso, as forças que dirigem a complexação têm sido atribuídas à alta energia de repulsão da água da cavidade das CD, às interações de van der Waals, ligações de hidrogênio e interações hidrofóbicas 22,23. As moléculas complexadas permanecem normalmente orientadas em uma posição onde há máximo contato entre sua porção hidrofóbica e a cavidade apolar da CD, estando sua porção hidrofílica em contato com os grupos hidroxil da CD ou expostas ao meio aquoso 3,23. De fato, os resultados dos testes de caracterização físico-química indicam que a S75-R25 interage com a cavidade das moléculas de HP-b-CD e esta interação aumenta a solubilidade aquosa do AL, sendo energeticamente favorável e indicando um possível aumento na biodisponibilidade do fármaco.

Para efeitos comparativos, incluíram-se os grupos tratados com S50-R50 e S50-R50HP-b-CD nos testes de avaliação da eficácia anestésica. Embora as formulações complexadas não tenham modificado a duração ou a intensidade do bloqueio motor, observou-se redução no tempo de latência e, além disso, promoveram um efeito potencializador do bloqueio nervoso diferencial induzido pelos AL. Esses resultados são condizentes com aqueles obtidos previamente em camundongos, através do teste do bloqueio do nervo isquiático, indicando que a complexação com HP-b-CD reduz a instalação do bloqueio motor, promovendo um início de ação mais rápido, sem prolongar ou intensificar sua duração 12.

Um AL ideal deve ter longa duração de ação, baixa toxicidade sistêmica e maior seletividade para fibras sensitivas que motoras, onde essa característica de manter a analgesia sem afetar excessivamente a função motora, tem grande relevância clínica 24.

A avaliação do bloqueio sensitivo induzido pela injeção subaracnóidea dos complexos de inclusão S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD mostrou aumento na intensidade e na duração da analgesia com relação aos fármacos livres. A potencialização do efeito analgésico promovido pela complexação com a CD pode estar relacionada com o aumento da concentração de AL total, disponibilizado pelas formulações e também pela formação de uma barreira que impede a ligação com as proteínas do líquor e a captação pela circulação, já que o fármaco livre apresenta grande capacidade de ligação às proteínas do líquor, o que reduz sua fração disponível no local de ação.

Os fármacos lipofílicos (como S50-R50 e S75-R25), quando injetados por via subaracnóidea, apresentam rápida distribuição no fluido cerebroespinhal. Em conseqüência disso, há início de ação mais rápido, mas com redução na duração de ação 25. Dessa forma, se a complexação com CD disponibiliza uma maior fração de AL, mantendo também o anestésico mais tempo em contato com o nervo, as formulações complexadas seriam de grande utilidade na clínica por potencializar seus efeitos analgésicos.

Apesar de ambos os complexos, S50-R50HP-b-CD e S75-R25HP-b-CD, terem potencializado o bloqueio nervoso diferencial, a formulação com a mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína beneficia-se pelo fato de apresentar menor potencial tóxico do que a bupivacaína (S50-R50), favorecendo o desenvolvimento de formulações mais seguras e úteis na clínica para o tratamento da dor aguda no período pós-operatório, com a vantagem de serem administradas em menores concentrações.

Os resultados do estudo mostraram que é possível, através de formulações nano-estruturadas, desenhadas especialmente para cada AL, aumentar o bloqueio nervoso diferencial e a duração total da anestesia após administração de bupivacaína (S50-R50) e da mistura com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) de bupivacaína. Dessa forma, as formulações não-emulsão de AL propostas podem ser utilizadas para diminuir a freqüência de administrações ou diminuir a dose do AL necessária para indução de um mesmo efeito, o que é interessante para fármacos com duração de ação prolongada, mas com toxicidade sistêmica elevada, como a bupivacaína.

 

REFERÊNCIAS

01. Covino BG – Pharmacology of local anaesthetic agents. Br J Anaesth, 1986;58:701-716.        [ Links ]

02. Simonetti MPB, Valinetti EA, Ferreira FM – Avaliação da atividade anestésica local da S(-) bupivacaína: estudo experimental in vivo em nervo isquiático de rato. Rev Bras Anestesiol, 1997; 47:425-434.        [ Links ]

03. Fromming KH, Szejtli J – Topics in Inclusion Science Cyclodextrins in Pharmacy, Hungria, Kluwer Academic Publishers, 1994;33-34.        [ Links ]

04. Gould S, Scott RC – 2-hydroxypropyl-b-cyclodextrin (HP-b-CD): a toxicology review. Food Chem Toxicol, 2005; 1451-1459.        [ Links ]

05. Szejtli J – Medicinal applications of cyclodextrins. Med Res Rev, 1994;14:353-386.        [ Links ]

06. Araujo DR, Pinto LMA, Braga AFA et al – Formulações de anestésicos locais de liberação controlada: aplicações terapêuticas. Rev Bras Anestesiol, 2003;53:663-671.        [ Links ]

07. Dollo G, Le Corre P, Chevanne F et al – Inclusion complexation of amide-type local anesthetics with b-cyclodextrin and derivates. I. Physicochemical characterization. Int J Pharm, 1996;131:219-228.        [ Links ]

08. Dollo G, Le Corre P, Chevanne F et al – Inclusion complexation of amide-type local anesthetics with b-cyclodextrin and derivates. II. Evaluation of affinity constants and in vitro transfer rate constants. Int J Pharm, 1996;136:65-74.        [ Links ]

09. Dollo G, Thompson DO, Le Corre P et al – Inclusion complexation of amide-type local anesthetics with b-cyclodextrin and derivates. III. Biopharmaceutics of bupivacaine-SBE7-b-CD complex following percutaneous sciatic nerve administration in rabbits. Int J Pharm, 1998;164:11-19.        [ Links ]

10. Dollo G, Le Corre P, Freville JC et al – Biopharmaceutics of local anesthetic-cyclodextrin complexes following loco-regional administration. Ann Pharm Fr, 2000;58:425-432.        [ Links ]

11. Estebe JP, Ecoffey C, Dollo G et al – Bupivacaine pharmacokinetics and motor blockade following epidural administration of the bupivacaine-sulphobutylether 7-b-cyclodextrin complex in sheep. Eur J Anaesthesiol, 2002;19:308-310.        [ Links ]

12. Araujo DR, Pinto LMA, Braga AFA et al – Sistemas de liberação controlada com bupivacaína racêmica (S50-R50) e mistura enantiomérica de bupivacaína (S75-R25): efeitos da complexação com ciclodextrinas no bloqueio do nervo isquiático em camundongos. Rev Bras Anestesiol, 2005;55:316-328.        [ Links ]

13. Higuchi T, Connors KA – Phase-solubility techniques. Adv Anal Chem Instr, 1965;4:117-212.        [ Links ]

14. de Paula E, Schreier S – Use of a novel method for determination of partition coefficients to compare the effect of local anesthetics on membrane structure. Biochim Biophys Acta, 1995;1240:25-33.        [ Links ]

15. Ravelet C, Ravel A, Grosset C et al – Stoichiometry and formation constants of six PAHs with g-Ciclodextrin, determined by HPLC using a cyano stacionary phase. J Liq Chrom Relat Technol, 2002;25:421-432.        [ Links ]

16. Ismaili L, Andre C, Nicod L et al – Chromatographic determination of the association constants between Psorasolen derivatives and modified b-cyclodextrin: effect of sucrose as a co-enhancer association agent. J Liq Chrom Relat Technol, 2003;26:871-882.        [ Links ]

17. Gazpio C, Sanchez M, Garcia-Zubiri et al – HPLC and Solubility study of the interaction between pindolol and cyclodextrins. J Pharm Biomed Anal, 2005;9:487-492.        [ Links ]

18. Mestre C, Pelissier T, Fialip J et al – A method to perform direct transcutaneous intrathecal injection in rats. J Pharm Toxic Meth, 1994;32:197-200.        [ Links ]

19. Feldman HS, Covino BG – Comparative motor-blocking effects of bupivacaine and ropivacaine, a new amino amide local anesthetic, in the rat and dog. Anesth Analg, 1988;67:1047-1052.        [ Links ]

20. Randall LO, Selitto JJ – A method for measurement of analgesic activity of inflamed tissue. Archiv Int Pharmacodyn, 1957;409-419.        [ Links ]

21. Zar JH – Biostatistical Analysis, 3rd Ed, New Jersey, Prentice-Hall, 1996;180-216.        [ Links ]

22. Bibby D, Davies NM, Tucker IG – Mechanisms by which cyclodextrins modify drug release from polymeric drug delivery systems. Int J Pharmac, 2000;197:1-11.        [ Links ]

23. Davis ME, Brewster ME – Cyclodextrin-based pharmaceutics: past, present and future. Nature Reviews, 2004;3:1023-1035.        [ Links ]

24. Kuzma PJ, Kline MD, Calkins MD et al – Progress in the development of ultra-long-acting local anesthetics. Reg Anesth, 1997; 22:543-551.        [ Links ]

25. Boersma FP, Meert TF, Vercauteren M – Spinal sufentanil in rats: part I: epidural versus intrathecal sufentanil and morphine. Acta Anaesthesiol Scand, 1992;36:187-192.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dra. Daniele Ribeiro de Araújo
Depto. de Bioquímica Instituto de Biologia
Cidade Universitária Zeferino Vaz s/n
13083-970 Campinas, SP
E-mail: draraujo2003@yahoo.com.br

Apresentado em 30 de novembro de 2005
Aceito para publicação em 30 de junho de 2006

 

 

* Recebido do Laboratório de Biomembranas e Sistemas Biomiméticos, Departamento de Bioquímica Instituto de Biologia, Universidade Estadual de Campinas UNICAMP e Laboratório de Química da Universidade de Sorocaba UNISO