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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.57 no.4 Campinas July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942007000400002 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Administração intraperitoneal da mistura com excesso enantiomérico de 50% de bupivacaína (S75-R25) para analgesia pós-operatória em colecistectomias videolaparoscópicas*

 

Administración intraperitoneal de la mezcla con exceso enantiomérico de 50% de bupivacaína (S75-R25) para analgesia postoperatoria en colecistectomías videolaparoscópicas

 

 

João Batista Santos Garcia, TSAI; Antônio M. Alencar JúniorII; Carlos Eduardo Claro dos Santos, TSAIII

IProfessor Adjunto Doutor da Disciplina de Anestesiologia da UFMA. Responsável pelo Serviço de Dor do HU/UFMA
IIMédico Residente do HU/UFMA; Membro da Liga de Dor do Maranhão
IIIMédico Assistente do Serviço de Anestesiologia do Maranhão

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O efeito analgésico de infusões intraperitoneais de anestésicos locais após colecistectomia videolaparoscópica é controverso e os resultados descritos vão de alívio considerável à pequena redução da dor. O objetivo deste estudo foi avaliar a eficácia da administração intraperitoneal da mistura com excesso enantiomérico de 50% de bupivacaína (S75-R25) para o alívio da dor no pós-operatório de colecistectomia videolaparoscópica.
MÉTODO: Estudo aleatório, placebo-controlado e duplamente encoberto com 40 pacientes submetidos à colecistectomia videolaparoscópica divididos em dois grupos: GI (n = 20) que recebeu 80 mL de solução de bupivacaína S75-R25 a 0,125% intraperitoneal no fim da operação; GII (n = 20) que recebeu 80 mL de solução fisiológica a 0,9%. Ambos os grupos receberam 40 mg de tenoxicam e 30 mg.kg-1 de dipirona, por via venosa, pouco antes do fim da operação. A analgesia no pós-operatório (PO) foi feita com tramadol. Foram avaliados os escores de dor em repouso, ao sentar e à manobra de Valsalva, segundo a escala numérica ao despertar e 2, 4, 8, 12 e 24 horas no PO; a presença de dor no ombro; o tempo para a primeira solicitação do analgésico; e o seu consumo cumulativo.
RESULTADOS: Houve diferença estatística significativa entre os escores de dor às 12 horas no PO com o paciente em repouso (GI < GII). O tempo da primeira solicitação de tramadol foi maior no GI e o seu consumo menor neste grupo, porém essas diferenças não foram significativas.
CONCLUSÕES: A instilação intraperitoneal de 80 mL de bupivacaína S75-R25 a 0,125% proporcionou baixos escores de dor em repouso de forma significativa somente às 12 horas de PO de colecistectomia videolaparoscópica.

Unitermos: ANALGESIA: pós-operatória; ANESTÉSICOS, Local: Bupivacaína S75-R25; TÉCNICA ANALGÉSICA: intraperitoneal; CIRURGIA, Abdominal: colecistectomia videolaparoscópica.



RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El efecto analgésico de infusiones intraperitoneales de anestésicos locales después colecistectomía videolaparoscópica es controvertido y los resultados descritos van desde el alivio considerable a la pequeña reducción del dolor. El objetivo de este estudio fue evaluar la eficacia de la administración intraperitoneal de la mezcla con exceso enantiomérico de 50% de bupivacaína (S75-R25) para el alivio del dolor en el postoperatorio de colecistectomía videolaparoscópica.
MÉTODO: Estudio aleatorio, placebo-controlado y doblemente encubierto con 40 pacientes sometidos a colecistectomía videolaparoscópica divididos en dos grupos: GI (n = 20) que recibió 80 mL de solución de bupivacaína S75-R25 a 0,125% intraperitoneal al final de la operación; y GII (n = 20) que recibió 80 mL de solución fisiológica a 0,9%. Los dos grupos recibieron 40 mg de tenoxican y 30 mg.kg-1 de dipirona, por vía venosa, poco antes del final de la operación. La analgesia en el postoperatorio (PO) se hizo con tramadol. Se evaluaron las puntuaciones de dolor en reposo, al sentarse y en la maniobra de Valsalva, según la escala numérica al despertar y 2, 4, 8, 12 y 24 horas en el PO; la presencia de dolor en el hombro; el tiempo para la primera solicitación del analgésico y su consumo acumulativo.
RESULTADOS: Hubo una diferencia estadística significativa entre los puntajes de dolor a las 12 horas en el PO con el paciente en reposo (GI < GII). El tiempo de la primera solicitación de tramadol fue mayor en el GI y en su consumo menor en este grupo, sin embargo esas diferencias no fueron significativas.
CONCLUSIONES: La instilación intraperitoneal de 80 mL de bupivacaína S75-R25 a 0,125%, proporcionó bajos puntajes de dolor en reposo de forma significativa solamente a las 12 horas de PO de colecistectomía videolaparoscópica.


 

 

INTRODUÇÃO

Comparada com a técnica convencional, a colecistectomia videolaparoscópica, técnica minimamente invasiva, está associada ao menor trauma cirúrgico 1. Apesar disso, está associada à dor intra-abdominal, incisional e na região supraclavicular 2, sobretudo no pós-operatório imediato 3. Como se trata de operação caracterizada por curta permanência hospitalar, o controle da dor nesse período é imperioso 4.

O efeito analgésico de infusões intraperitoneais de anestésicos locais após colecistectomia videolaparoscópica é controverso, e os resultados descritos na literatura vão desde o alívio considerável da dor até uma redução não-significativa da mesma 5.

Um dos anestésicos locais mais utilizados para esse fim é a bupivacaína, porém esta possui considerável toxicidade cardíaca e para o sistema nervoso central 6. A alternativa para esse problema é a levobupivacaína, o S(-) enantiômero da bupivacaína, que tem intensidade e duração de efeito analgésico similares aos da mistura racêmica, com menor risco de toxicidade sistêmica 7.

A modificação da relação enantiomérica da bupivacaína racêmica tornou possível a criação de um novo anestésico, a mistura com excesso enantiomérico de 50% de bupivacaína S75-R25, com toxicidade semelhante à da levobupivacaína. Ela, portanto, é menor que a da mistura racêmica, porém possui a mesma eficácia que a mistura racêmica em relação ao bloqueio nervoso 8. Até agora não se encontrou na literatura estudos que avaliem a eficácia da instilação intraperitoneal desse fármaco no controle da dor.

O objetivo desse estudo foi avaliar a eficácia da administração intraperitoneal da bupivacaína S75-R25 para o alívio da dor intra-abdominal no pós-operatório de colecistectomia videolaparoscópica.

 

MÉTODO

Foram selecionados 40 pacientes com estado físico ASA I e II, de ambos os sexos, submetidos a colecistectomia videolaparoscópica eletiva.

A amostra foi dividida em dois grupos, o Grupo I (GI) e o Grupo II (GII), ambos com 20 pacientes, de forma aleatória e duplamente encoberta, através de envelopes lacrados sorteados logo antes do procedimento, sem que o investigador tivesse conhecimento do grupo até o final do estudo. O protocolo de estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética do Hospital Universitário bem como o consentimento, por escrito.

Foram excluídos do estudo pacientes com histórico de alergia a antiinflamatórios não-hormonais ou ao anestésico local, com disritmias ou cardiopatias, com déficit cognitivo e aqueles que se recusaram a participar da pesquisa.

Os pacientes de ambos os grupos receberam como medicação pré-anestésica midazolam (1 mg) por via venosa, na sala cirúrgica. A indução anestésica foi realizada com propofol (2,5 mg.kg-1) (titulado) até a perda de consciência e alfentanil (30 a 50 µg.kg-1). A intubação traqueal foi realizada após a administração de cisatracúrio (0,15 mg.kg-1). A anestesia foi mantida com sevoflurano e bloqueador neuromuscular que foi repetido, na dose de um terço da dose inicial, quando houve necessidade. Foi administrada metoclopramida no fim do ato cirúrgico.

Os pacientes foram monitorizados com oxímetro de pulso, cardioscópio na derivação DII, capnógrafo e pressão arterial não-invasiva com medidas em intervalos de cinco minutos.

Os pacientes do Grupo I receberam 80 mL de bupivacaína S75-R25 a uma concentração de 0,125% por instilação intraperitoneal, no fim do ato operatório. Os pacientes do Grupo II receberam 80 mL de solução fisiológica a 0,9% por instilação intraperitoneal no fim da operação.

A solução para instilação peritoneal foi preparada por um membro da equipe que não teve mais nenhuma participação no estudo. A instilação intraperitoneal foi feita no leito vesical, na região supra-hepática e proximidades.

Ambos os grupos receberam também dipirona (30 mg.kg-1) e tenoxicam (40 mg), por via venosa, pouco antes do fim da operação.

A analgesia no pós-operatório foi feita com tramadol administrado conforme solicitação do paciente ou quando houve dor maior ou igual a 3 na escala numérica, em intervalo de até quatro horas, na dose de 100 mg por via venosa.

A enfermagem foi orientada a administrar as doses de medicação analgésica prontamente de acordo com a necessidade de cada paciente, não tendo conhecimento com qual grupo estava trabalhando.

A intensidade da dor intra-abdominal no pós-operatório imediato foi mensurada pela escala numérica nos seguintes momentos: logo após a recuperação da consciência e 2, 4, 8, 12 e 24 horas após o procedimento anestésico-cirúrgico com o paciente em repouso; ao levantar-se da posição supina para sentar; e ao realizar manobra de Valsalva. Na escala numérica, o paciente atribuiu à dor um valor em números inteiros que variava de 0 a 10, considerando-se 0 a ausência de dor e 10 a pior dor imaginável. Também foi registrada a presença ou a ausência de dor no ombro nas 24 horas após o término da operação. O intervalo de tempo entre a extubação e a primeira solicitação expressa de analgésico foi registrado.

O consumo total de analgésico (tramadol) e o consumo cumulativo foram registrados e, ao fim de 24 horas, comparados entre os dois grupos. Outros efeitos adversos foram colocados em observação, como náuseas, vômitos, tinidos, abalos musculares, dormências, etc.

Os dados colhidos foram organizados em tabelas no programa Excel e, depois, analisados estatisticamente no programa Stata, utilizando-se os seguintes testes: t de Student para as variáveis idade, altura e duração da intervenção cirúrgica; Qui-quadrado para as variáveis raça, sexo, classificação ASA, presença de dor supraclavicular e efeitos adversos; Mann-Whitney para as variáveis peso, escores de dor intra-abdominal (escala numérica) e tempo de solicitação do analgésico (tramadol) pela primeira vez e consumo total de tramadol nas 24 horas de internação hospitalar; e Kolmogorov-Smirnov para a análise do consumo cumulativo de tramadol.

Para a análise estatística dos dados foram utilizadas mensurações de tendência central (médias) e de dispersão (desvio-padrão). O nível de significância estatística foi fixado em p < 0,05.

 

RESULTADOS

O estudo foi concluído com uma amostra de 32 pacientes, e 19 destes foram do Grupo I (GI), que recebeu a solução de bupivacaína S75-R25 a 0,125%, e 13 pacientes do Grupo II (GII), no qual foi administrada a solução fisiológica a 0,9% (placebo). Foram excluídos um paciente do GI e sete pacientes do GII por impossibilidade da realização completa do protocolo.

Não houve diferença estatística significativa entre GI e GII em relação a idade, peso, altura, sexo e cor (Tabela I).

 

 

Em GI, 63,16% foram classificados como estado físico ASA I e 36,84% como ASA II, enquanto em GII 100% dos pacientes foram classificados como ASA I (p = 0,013).

A duração da operação no GI foi, em média, de 44,21 minutos e no GII, de 41,15 minutos, não havendo diferença estatística significativa entre os dois grupos (p = 0,6028).

Os escores de dor intra-abdominal (escala numérica) em repouso nos dois grupos, avaliados ao acordar (M0), 2 (M2), 4 (M4), 8 (M8), 12 (M12) e 24 horas (M24) após a operação, foram significativamente menores no GI apenas em M12 (Tabela II).

 

 

Os escores de dor intra-abdominal pela escala numérica ao levantar-se da posição supina para a sentada e durante a realização da manobra de Valsalva pelo paciente nos momentos correspondentes a 2 (M2), 4 (M4), 8 (M8), 12 (M12) e 24 horas (M24) após o procedimento não apresentaram diferença estatística entre os grupos (Tabelas III e IV).

 

 

 

 

A dor no ombro ocorreu em dois pacientes (10,53%) no GI e em quatro pacientes (30,77%) no GII, porém não houve diferença estatística significativa entre os grupos (Tabela V).

 

 

O tempo decorrido desde o final da operação até a solicitação do analgésico (tramadol) pelo paciente da primeira vez e o consumo médio total de tramadol ao fim das 24 horas de internação hospitalar também não apresentaram diferenças estatísticas significativas entre os dois grupos. O primeiro foi em média 92,63 minutos no Grupo I e de 31,15 minutos no Grupo II (p = 0,2397); e o último de 94,73 mg para o Grupo I e de 130,76 mg para o Grupo II (p = 0,3380).

A diferença entre o consumo cumulativo de tramadol entre os dois grupos não foi significativa do ponto de vista estatístico (Tabela VI).

 

 

Efeitos adversos foram observados em 6 (31,58%) dos 19 pacientes do GI, ocorrendo náuseas em cinco (26,31%) pacientes, vômito em três (15,78%), tontura em dois (10,52%) e epigastralgia em um (5,26%). No GII, também ocorreram efeitos adversos em 6 (46,15%) dos 13 pacientes, dos quais cinco (38,46%) apresentaram náuseas e quatro (30,76%) apresentaram vômitos. Não houve diferença estatística significativa entre os dois grupos (p = 0,403; Qui-quadrado). Não foi observado prejuízo das funções cardíacas ou do SNC em nenhum dos pacientes estudados.

 

DISCUSSÃO

Não houve diferença estatística significativa entre GI e GII em relação a todos os dados demográficos, o que demonstra a homogeneidade da amostra obtida para o estudo. Além disso, a média de idade e a distribuição entre os sexos estão de acordo com os apresentados na literatura, que relata a ocorrência de litíase biliar em 20% das pessoas entre 40 e 60 anos de idade, com predomínio da afecção no sexo feminino. Sua presença é sete vezes mais comum em mulheres do que em homens na juventude, sendo tal diferença de apenas duas vezes em pessoas acima dos 60 anos 9. Portanto, a amostra também tem uma boa representatividade em relação à população geral. No GI, 63,16% foram classificados como estado físico ASA I e 36,84% como ASA II, enquanto no GII 100% dos pacientes foram classificados como ASA I (p = 0,013), porém isso não acarretou prejuízo ao estudo.

Não houve diferença estatística significativa entre os dois grupos estudados em relação à duração da intervenção cirúrgica (p = 0,6028). O tempo médio foi menor que uma hora, o que está de acordo com a literatura, mostrando que a técnica de colecistectomia por videolaparoscopia é rápida e gera menor tempo de trauma cirúrgico. Contudo, ela está associada à dor intra-abdominal, incisional e no ombro 2, e normalmente tem sido tratada por meio de uma abordagem multimodal. Esta envolve o uso de opióides, antiinflamatórios não-hormonais (AINH), paracetamol e anestésicos locais 10.

Embora os AINH proporcionem um efeito poupador de morfina, eles não proporcionam isoladamente analgesia pós-operatória eficaz para intervenções laparoscópicas 11. Além disso, eles têm a desvantagem de causar irritação gástrica, além de plaquetopenia e prejuízo da função renal no período perioperatório, quando muitos pacientes estão sob risco de apresentarem essas desordens, devido ao jejum forçado, desidratação e trauma tecidual 10.

A vantagem do uso dos anestésicos locais é que eles não possuem os mesmos efeitos adversos dos opióides, que podem acarretar demora da recuperação e da alta hospitalar. Estes incluem náusea, sedação, prejuízo no retorno da motilidade gastrintestinal e prurido 10.

Os anestésicos locais vêm sendo administrados na cavidade peritoneal durante procedimentos como a colecistectomia laparoscópica e laparoscopias ginecológicas para esterilização e diagnóstico 12. A razão para a utilização dessa via de administração é que o peritônio está exposto ao bloqueio da condução nociceptiva visceral provendo, assim, um mecanismo adicional de analgesia. Porém, a absorção através da grande superfície peritoneal também pode ocorrer, e este pode ser um mecanismo mais tardio de analgesia 10.

O uso dos anestésicos locais é um método atrativo, pois teoricamente melhora o controle da dor nesse período, além de diminuir o consumo de opióides 12.

Uma revisão sistemática de 13 ensaios clínicos de administração intraperitoneal de 50 a 200 mg de bupivacaína em volumes de 10 a 100 mL após colecistectomia videolaparoscópica reduziu de forma significativa os escores de dor global, abdominal e no ombro em sete dos estudos, mas não nos outros seis. Além disso, o consumo de analgésico foi reduzido em cinco desses estudos 12. Essa análise revelou uma diferença estatística significativa, porém uma relevância clínica questionável. Assim, parece que a administração intraperitoneal de anestésicos locais em colecistectomia videolaparoscópica produz analgesia modesta que pode não ser adequada para uso rotineiro 10. Em laparoscopia ginecológica sua utilização demonstrou uma analgesia mais efetiva, possivelmente por se tratar de um procedimento menos traumático que a colecistectomia 12.

É interessante observar que em um estudo a combinação de 200 mg de lidocaína e 20 mg de tenoxicam em instilação intraperitoneal reduziu os escores de dor e o consumo de opióides em comparação com placebo ou lidocaína intraperitoneal mais tenoxicam por via venosa 13.

As diferenças nos resultados desses estudos de instilação intraperitoneal de anestésicos locais podem resultar do tipo de operação realizada e da localização, dose, tipo e tempo de instilação. O fracasso em alguns estudos em mostrar um efeito analgésico pode resultar da rápida diluição do anestésico local na cavidade peritoneal 14. Não é possível, entretanto, aumentar a dose sem elevar o risco de toxicidade sistêmica. Embora potencialmente mais tóxica que a lidocaína, a bupivacaína tem a vantagem de ter ação mais prolongada. Contudo, em ensaios clínicos os efeitos analgésicos da bupivacaína têm demonstrado ser de curta duração 10.

Uma alternativa é a levobupivacaína, o S(-) enantiômero da bupivacaína, que possui intensidade e duração de efeito analgésico similar ao da mistura racêmica, com menor risco de toxicidade sistêmica 7. A alternativa mais recente é a mistura com excesso enantiomérico de 50% de bupivacaína S75-R25, com toxicidade semelhante à da levobupivacaína e com a mesma eficácia que a mistura racêmica em relação ao bloqueio nervoso 8.

Esse novo anestésico apresentou maior tempo de analgesia e menor grau de bloqueio motor em comparação com o grupo em que foi utilizada bupivacaína racêmica em pacientes submetidos à anestesia peridural para procedimentos cirúrgicos vasculares ou ortopédicos no membro inferior 15. Outro estudo demonstrou não haver diferença na duração, nem no tempo necessário para alcançar o máximo bloqueio motor entre a bupivacaína racêmica e a S75-R25. Contudo, a intensidade do bloqueio motor foi muito menor no grupo S75-R25 16.

Em comparação com ropivacaína, em anestesia peridural para cesarianas, a S75-R25 e a bupivacaína racêmica (todos associados ao fentanil) apresentaram menor duração da analgesia e, ao fim do procedimento, o grupo da S75-R25 apresentou bloqueio motor muito menor que os outros dois 17.

Entretanto, não foi encontrado na literatura nenhum estudo com a instilação intraperitoneal da mistura S75-R25 da bupivacaína, o que o torna pioneiro nessa experiência.

Nesse estudo, os escores de dor intra-abdominal em repouso ao recuperar a consciência, às 2, 4, 8 e 24 horas após a operação, não apresentaram diferenças estatísticas significativas. Em estudo controlado realizado com a instilação intraperitoneal de bupivacaína em pacientes submetidas à laparoscopia ginecológica, os escores de dor no grupo que recebeu esse anestésico e o grupo-controle também não apresentaram diferença significativa nas 4 e 24 horas do período pós-operatório 18. Outro estudo, no qual foi administrada solução de bupivacaína a 0,5% em pacientes submetidos à colecistectomia laparoscópica, mostrou não haver diferença significativa entre os escores de dor em 1, 2, 4 e 14 horas de pós-operatório em relação ao grupo placebo 4.

No presente estudo, essa diferença ocorreu às 12 horas após o ato cirúrgico. Às 24 horas, a diferença ficou próxima à significância estatística (p = 0,0942). Um estudo realizado com bupivacaína intraperitoneal em colecistectomia laparoscópica mostrou que a dor foi mais intensa em todos os momentos avaliados nas 24 horas do pós-operatório no grupo placebo e que, após as primeiras oito horas, houve diferença estatística significativa entre os dois grupos 19. Em contrapartida, em estudo placebo-controlado em que foi utilizada bupivacaína intraperitoneal em pacientes colecistectomizados por videolaparoscopia, a dor foi reduzida de forma significativa nos pacientes que receberam a bupivacaína apenas nas seis primeiras horas após a operação 20.

Contudo, observa-se que em todos os momentos as médias dos escores de dor intra-abdominal do GI foram sempre menores que as do GII.

Os escores de dor intra-abdominal ao levantar-se da posição supina para sentar e ao realizar manobra de Valsalva não foram muito diferentes entre GI e GII em nenhum dos momentos avaliados (M2, M4, M8, M12 e M24).

No presente estudo, a dor no ombro teve uma prevalência praticamente três vezes maior no GII que no GI (30,77% versus 10,53%), mesmo assim não houve diferença estatística entre os grupos. Em um estudo placebo-controlado com instilação intraperitoneal de 80 mL de bupivacaína a 0,125% em pacientes submetidos à colecistectomia videolaparoscópica, a incidência de dor no ombro foi de 30% e não houve diferença estatística significativa entre os dois grupos 21.

O tempo de solicitação do tramadol pela primeira vez, em minutos, também não apresentou diferença significativa entre os grupos, mas pode-se observar que a solicitação do analgésico no GI ocorreu, em média, mais de uma hora (61,48 minutos) após a solicitação no GII (92,63 minutos versus 31,15 minutos).

Autores demonstraram não haver diminuição no tempo de administração do analgésico pela primeira vez após a intervenção cirúrgica em pacientes submetidos à colecistectomia videolaparoscópica que receberam solução de bupivacaína intraperitoneal 22. Em outro estudo, no mesmo tipo de operação, 200 mg de lidocaína diluídos em 200 mL de solução foram instilados, por via intraperitoneal, na superfície diafragmática direita proporcionando aumento do tempo de solicitação do analgésico de 25 para 105 minutos 23.

A diferença entre o consumo médio total de tramadol entre os grupos em 24 horas de internação hospitalar não teve significância estatística, embora tenha sido menor no GI (94,73 mg) do que no GII (130,76 mg).

Um estudo mostrou que a solicitação de analgésicos no pós-operatório por pacientes que não receberam anestesia local foi significativamente maior do que nos pacientes nos quais foi infiltrada solução de bupivacaína a 0,5% na pele, subcutâneo, fáscia e peritônio parietal. Dentro deste último grupo, o consumo de analgésico foi maior nos pacientes nos quais a infiltração foi feita antes da inserção dos trocarteres em comparação com o grupo que recebeu a bupivacaína após a operação 24. Em contrapartida, em outro estudo placebo-controlado em pacientes que receberam bupivacaína intraperitoneal o consumo total de morfina para a analgesia no pós-operatório não foi significativamente diferente entre os grupos em estudo 25.

Outros autores mostraram que em pacientes submetidos à colecistectomia videolaparoscópica, o consumo cumulativo de metamizol foi menor no grupo que recebeu 30 mL de bupivacaína a 0,25% do que em outros dois grupos que receberam a mesma quantidade de solução fisiológica a 0,9% ou de bupivacaína a 0,25% associada à morfina 26. No estudo atual, o consumo cumulativo de tramadol não foi significativamente diferente entre GI e GII.

A toxicidade dos anestésicos locais é um problema grave que limita a sua dose e eficácia. É tradição utilizar a bupivacaína por ela ter uma longa duração de ação; contudo, a sua administração implica toxicidade cardiovascular e do SNC, já tendo sido relatados morte acidental e parada cardíaca com o seu uso 27. As concentrações plasmáticas entre 0,92 e 1,14 µg.mL-1 alcançadas após instilação intraperitoneal de 100 a 150 mg de bupivacaína estão bem abaixo da concentração tóxica de 3 µg.mL-1. Concentrações sistêmicas similares produziram sintomas neurológicos como parestesia e formigamento em voluntários não-anestesiados durante infusão, por via venosa, de bupivacaína. Porém, permanece não esclarecido se essas concentrações produzem analgesia pós-operatória efetiva 10.

A levobupivacaína, o S(-) enantiômero da bupivacaína racêmica, está relacionada com uma menor toxicidade no SNC e uma menor ocorrência de disritmias fatais do que esta última em experimentos com animais 28. Em estudos com voluntários humanos, a levobupivacaína foi relacionada com uma menor redução no índice de infarto, aceleração e fração de ejeção do que a bupivacaína 29. A bupivacaína S75-R25 apresenta um padrão de resposta semelhante ao da levobupivacaína, sem a depressão cardiocirculatória induzida pela mistura racêmica 8.

Não foram observados disritmias, parada cardíaca, convulsões ou outros sintomas relacionados com o SNC ou cardiovasculares nesse estudo, e os efeitos adversos encontrados (náuseas, vômitos, tontura e epigastralgia) estão dentro dos níveis aceitáveis de incidência. Não foi possível avaliar as concentrações sistêmicas da mistura enantiomérica S75-R25.

Os resultados desse estudo estão em consonância com os apresentados na literatura com outros anestésicos locais. Supõe-se, entretanto, que uma amostra maior poderia trazer resultados mais positivos, pois é possível observar a proximidade de alguns dados da significância estatística, ainda que não a tenham alcançado. Sugere-se, portanto, a realização de estudos semelhantes com esse novo anestésico (bupivacaína S75-R25), inclusive com maiores amostras para resultados mais apurados e com dosagem plasmática do fármaco.

Concluiu-se que a instilação intraperitoneal de 80 mL de bupivacaína S75-R25, a uma concentração de 0,125%, proporcionou baixos escores de dor em repouso, no grupo que a recebeu, de forma significativa somente às 12 horas de PO de colecistectomia videolaparoscópica.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. João Batista S. Garcia
Av. dos Holandeses, 213/701 Ponta D'Areia
65085-450 São Luís, MA
E-mail: jbgarcia@uol.com.br

Apresentado em 28 de junho de 2006
Aceito para publicação em 08 de março de 2007

 

 

* Recebido do Hospital Universitário Materno-Infantil da Universidade Federal do Maranhão (HU/UFMA), São Luís, MA