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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.57 no.4 Campinas July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942007000400009 

INFORMAÇÃO CLÍNICA

 

Disfunção temporária do nervo lingual após uso de máscara laríngea. Relato de caso*

 

Disfunción temporal del nervio lingual trás del uso de máscara laríngea. Relato de caso

 

 

Hugo Eckener Dantas de Pereira CardosoI; Durval Campos Kraychete, TSAII; José A. Lima FilhoI; Luciano S. Garrido, TSAIII; Anita Perpétua Carvalho RochaIV

IAnestesiologista da Clinica de Anestesia de Salvador
IIProfessor Doutor, Disciplina de Anestesiologia da UFBA; Coordenador do Ambulatório de Dor da UFBA
IIICoordenador do CET em Anestesiologia do Hospital Universitário Professor Edgard Santos
IVMestre em Anestesiologia pela Faculdade de Medicina de Botucatu-UNESP; Médica do Serviço de Anestesiologia do Hospital da Sagrada Família

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A máscara laríngea tem sido utilizada com freqüência em Anestesiologia. O emprego dessa técnica, embora esteja relacionado com um menor número de complicações quando comparado com a cânula traqueal, não é isento de morbidade, principalmente, nos casos de via aérea difícil. O objetivo desse relato foi apresentar um caso de lesão unilateral de nervo lingual após o uso da máscara laríngea.
RELATO DO CASO: Paciente do sexo feminino foi submetida à intervenção cirúrgica para troca de prótese mamária bilateral, sob anestesia geral balanceada, com máscara laríngea de tamanho 3. O volume aplicado para insuflação do balonete foi de 30 mL de ar. Após a primeira hora do pós-operatório, iniciou quadro de dormência e dor na garganta e nos dois terços posteriores da língua que evoluiu em 24 horas com perda da percepção do sabor dos alimentos. A suspeita diagnóstica foi de neuropraxia do nervo lingual pelo uso de máscara laríngea. Esse quadro se manteve por três semanas, período em que se obteve resolução dos sintomas.
CONCLUSÃO: Complicações após o uso de máscara laríngea, apesar de raras, podem ocorrer. A neuropraxia do nervo lingual é uma delas. O seu diagnóstico é clínico, e a sua evolução, favorável, com resolução dos sintomas em semanas ou meses.

Unitermos: COMPLICAÇÕES: lesão nervosa, nervo lingual; EQUIPAMENTOS, Máscara laríngea.



RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La máscara laríngea ha sido utilizada con frecuencia en Anestesiología. El empleo de esa técnica, aunque esté relacionada a un menor número de complicaciones cuando se le compara a la cánula traqueal, no está exento de morbidez, principalmente en los casos de vía aérea difícil. El objetivo de este relato fue presentar un caso de lesión unilateral de nervio lingual trás del uso de la máscara laríngea.
RELATO DEL CASO: Paciente del sexo femenino, sometida a intervención quirúrgica para cambio de prótesis mamaria bilateral, bajo anestesia general balanceada, con máscara laríngea de tamaño tres. El volumen aplicado para insuflación del globo fue de 30 mL de aire. Después de la primera hora del postoperatorio, se inició el cuadro de adormecimiento y dolor en la garganta y en los dos tercios posteriores de la lengua que evolucionó en 24 horas con pérdida de la percepción del sabor de los alimentos. La sospecha diagnóstica fue de neuropraxia del nervio lingual por el uso de máscara laríngea. Este cuadro se mantuvo por tres semanas, período en que se obtuvo una resolución de los síntomas.
CONCLUSIÓN: Complicaciones después del uso de máscara laríngea, a pesar de no frecuentes, pueden ocurrir. La neuropraxia del nervio lingual es una de ellas. Su diagnóstico es clínico y su evolución es favorable con resolución de los síntomas en semanas o meses.


 

 

INTRODUÇÃO

A máscara laríngea, criada por Archie J. I. Brain em 1980 1, é um dispositivo intermediário entre a máscara facial e a cânula traqueal. Essa máscara é colocada na hipofaringe, formando um selo em torno da glote, sendo um dos meios de manutenção das vias aéreas em determinadas intervenções cirúrgicas. Esse dispositivo foi utilizado em 23% das anestesias gerais realizadas nos EUA no ano de 1998 2.

O emprego dessa técnica, embora esteja relacionado com um menor número de complicações quando comparado com a cânula traqueal, não é isento de morbidade, sobretudo, nos casos de via aérea difícil 3,4. A queixa mais freqüente é dor na garganta, com incidência de 10% a 40% 5. A neuropraxia do hipoglosso 6, do nervo laríngeo recorrente e do nervo lingual, entretanto, tem sido descrita na literatura 7,8.

O objetivo desse relato foi apresentar um caso de lesão unilateral de nervo lingual após o uso da máscara laríngea, discutindo o diagnóstico e a evolução.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, 36 anos, 60 kg, 174 cm, foi submetida à intervenção cirúrgica para troca de prótese mamária bilateral, sob anestesia geral balanceada. Foi monitorizada com eletrocardioscópio na derivação DII, oxímetro de pulso, plestimógrafo, pressão arterial não-invasiva, capnógrafo e capnometria.

A anestesia foi realizada com 3 mg de midazolan, 100 µg de fentanil, 100 mg de propofol e rocurônio 30 mg. Depois disso, foi introduzida máscara laríngea de n° 3. O volume aplicado para insuflação do balonete foi de 30 mL de ar. O posicionamento do dispositivo foi confirmado por capnografia.

A manutenção da anestesia foi feita com sevoflurano e oxigênio em ventilação mecânica controlada. O procedimento teve duração de duas horas. O despertar ocorreu sem intercorrências. A paciente foi encaminhada à sala de recuperação pós-anestésica, sem queixas. Após uma hora, iniciou quadro de dormência e dor na garganta e nos dois terços posteriores da língua que evoluiu em 24 horas com perda completa da percepção do sabor dos alimentos. A suspeita diagnóstica foi de neuropraxia do nervo lingual pelo uso de máscara laríngea. Esse quadro se manteve por três semanas, período em que se obteve resolução espontânea dos sintomas.

 

DISCUSSÃO

A lesão nervosa é uma complicação descrita após laringoscopia e intubação traqueal, sendo rara com o uso da máscara laríngea. Há descritos na literatura episódios de neuropraxia associados ao uso da máscara laríngea, e em geral as lesões descritas geralmente acometem o nervo recorrente, o nervo hipoglosso e o nervo lingual 10. Sabe-se que o quadro clínico depende do nervo comprometido. A lesão do nervo lingual está associada à perda do paladar e da sensação na porção anterior da língua; a lesão do nervo hipoglosso, à dificuldade de deglutir; e a lesão do nervo laríngeo recorrente, a disartria, estridor e aspiração pós-operatória 4. A paciente em questão apresentou inicialmente quadro de dormência e dor na garganta e nos dois terços posteriores da língua, e 24 horas depois observou uma completa ausência da percepção do sabor dos alimentos, o que é compatível com lesão do nervo lingual.

Todos os casos de neuropraxia até então descritos apresentaram resolução espontânea, variando de uma semana a nove meses 6,8,9,11-12. Nesse relato, o período de resolução espontânea foi de três semanas, o que é compatível com os casos descritos na literatura.

A sensação da membrana mucosa da língua é suprida pelo nervo lingual que é um ramo do tronco posterior do nervo submandibular, situando-se medial e anteriormente ao nervo alveolar inferior e ao músculo pterigóideo lateral. O nervo lingual possui ramificações que cruzam a artéria maxilar e a corda do tímpano. Os ramos de distribuição suprem a membrana mucosa dos dois terços anteriores da língua, da boca e da gengiva adjacentes e da glândula sublingual (Figura 1). Os corpúsculos gustatórios dos dois terços anteriores da língua são supridos pelas fibras trazidas através da corda do tímpano 12. A neuropraxia do nervo lingual pode ser decorrente de lesão em qualquer trecho de sua extensão, sendo mais comumente observada após comprometimento no trecho entre o músculo pterigóideo lateral e a mandíbula 9.

 

 

Alguns fatores estão envolvidos com uma maior incidência de neuropraxia do nervo lingual. Dentre eles, destacam-se: manipulação da máscara laríngea no perioperatório, fixação da máscara laríngea em direção a mandíbula 9, uso de óxido nitroso, emprego de dispositivo de tamanho inadequado, insuflação excessiva do balonete da máscara laríngea, inexperiência do anestesiologista, dificuldade de inserção, dentre outros. Embora nesse caso não tenha sido utilizado óxido nitroso no perioperatório, sabe-se que esse gás pode levar a um aumento da pressão do balonete da máscara laríngea entre 9% e 38%, ocasionando compressão nervosa 13. Esse relato não descreve a medida da pressão da máscara laríngea; entretanto, recomenda-se que esta não exceda 60 cmH2O 14,15.

Há diferentes numerações disponíveis de máscara laríngea. As indicadas para utilização em pacientes adultos, com peso adequado, são as de número 4 e 5 16. Nesse caso clínico, a numeração escolhida foi 3, que poderia justificar o surgimento de neuropraxia, já que o emprego de máscara laríngea de tamanho menor que o recomendado gera uma dificuldade na vedação do dispositivo e, conseqüentemente, a necessidade de injeção de um maior volume de ar no balonete, o que gera uma compressão excessiva das estruturas adjacentes.

Como conclusão, verifica-se que apesar da baixa incidência a utilização de máscara laríngea não é isenta de complicações. A neuropraxia do nervo lingual é uma delas. O seu diagnóstico é clínico e a sua evolução é em geral favorável, com resolução dos sintomas em semanas a meses. Apesar de a neuropraxia do nervo lingual ser um quadro benigno, é importante frisar que ela pode ser evitada com a adequada utilização da máscara laríngea.

 

REFERÊNCIAS

01. Brain AI, McGhee TD, McAteer EJ et al. – The laryngeal mask airway: development and preliminary trials of a new type of airway. Anaesthesia 1985;40:356-361.        [ Links ]

02. Baskett PJ, Parr MJ, Nolan JP – The intubating laryngeal mask: results of a multicentre trial with experience of 500 cases. Anaesthesia1998; 53:1174-1179.        [ Links ]

03. Verghese C, Brimacombe JR – Survey of laryngeal mask airway usage in 11,910 patients: safety and efficacy for conventional and nonconventional usage. Anesth Analg 1996;82:129-133.        [ Links ]

04. Brimacombe JR, Brain AIJ, Berry AM – The Laryngeal Mask Airway. A Review and Practical Guide. London, WB Saunders, 1997.        [ Links ]

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11. Majumder S, Hopkins PM – Bilateral lingual nerve injury following the use of the laryngeal mask airway. Anaesthesia, 1998; 53:184-186.        [ Links ]

12. Stewart A, Lindsay WA – Bilateral hypoglossal nerve injury following the use of the laryngeal mask airway: case report. Anaesthesia, 2002;57:264-265.        [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Hugo Eckener Dantas de Pereira Cardoso
Rua Pernambuco, 405/1003
Ed. Água Branca – Pituba
41830-390 Salvador, BA
E-mail: heckener@uol.com.br

Apresentado em 21 de junho de 2006
Aceito para publicação em 18 de abril de 2007

 

 

* Recebido da Clínica de Anestesia de Salvador, BA