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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.57 no.5 Campinas Sept./Oct. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942007000500002 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Estudo prospectivo das repercussões de baixas doses de remifentanil na função sinoatrial e na condução e refratariedade cardíaca*

 

Estudio prospectivo de las repercusiones de bajas dosis de remifentanil en la función sinoatrial en la conducción y refractariedad cardiaca

 

 

Simone Soares Leite, TSAI; Elizabeth Bessadas Penna Firme, TSAII; Márcia Santana Bevilaqua, TSAIII; Leonel dos Santos Pereira, TSAIV; Jacob AtiéV

IMédica Assistente do Serviço de Anestesia do HUCFF/UFRJ; Co-Responsável pelo CET do HUCFF/UFRJ; Chefe do Serviço de Anestesia do Hospital Maternidade Carmela Dutra
IIMédica Assistente do Serviço de Anestesia do HUCFF/UFRJ; Co-Responsável pelo CET do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro
IIIMédica Assistente do Serviço de Anestesia do HUCFF/UFRJ; Co-Responsável pelo CET do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro
IVCo-Responsável pelo CET do HUCFF/UFRJ; Doutor em Medicina do Departamento de Cirurgia (Setor Anestesiologia) da FM/UFRJ; Professor Adjunto do Departamento de Cirurgia (Especialidade Anestesia) da UFRJ; Chefe do Serviço de Anestesia do HUCFF/UFRJ
VChefe do Setor de Arritmias Cardíacas do HUCFF/UFRJ e da Clínica São Vicente da Gávea; Professor Adjunto do Departamento de Cardiologia da UFRJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O remifentanil é um opióide com início e término de ação rápidos, cujo uso em procedimentos de curta duração vem se propagando nos últimos anos. Entre os efeitos colaterais descritos, há relatos de bradicardia e assistolia. O objetivo deste estudo foi avaliar os efeitos desse fármaco na condução e refratariedade cardíaca, em humanos.
MÉTODO: Estudo prospectivo de 16 pacientes, entre 18 e 65 anos, de ambos os sexos, ASA I a III, submetidos a estudo eletrofisiológico intracardíaco eletivo. Foram excluídos os pacientes com doença do nódulo sinoatrial e os portadores de bloqueios cardíacos graves. No laboratório de eletrofisiologia, os pacientes foram inicialmente sedados com midazolam (0,03 mg.kg-1), após 5 minutos (M0) avaliou-se o grau de sedação de intensidade de dor, pressões arteriais sistólica e diastólica, freqüências cardíaca e respiratória e saturação de oxigênio. O eletrofisiologista avaliou as variáveis de condução cardíaca (duração do QRS, intervalos AA, AH, HV e PA), o tempo de recuperação do nódulo sinoatrial e as variáveis de refratariedade cardíaca (período refratário do átrio direito, período refratário do ventrículo direito e período refratário do nódulo atrioventricular). Após as medidas iniciais o remifentanil foi introduzido (bolus de 0,5 µg.kg-1 + infusão de 0,05 µg.kg-1.min-1) e após 20 minutos as mesmas variáveis foram reavaliadas (M1).
RESULTADOS: Observou-se diminuição das pressões sistólica e diastólica (p = 0,0001) entre M0 e M1, sem diferença estatística significativa da freqüência respiratória ou da saturação de oxigênio. Houve aumento do intervalo átrio-His (p = 0,006) e do tempo de recuperação do nódulo sinoatrial (p = 0,0004), do período refratário do átrio direito (p = 0,001) e do período refratário do nódulo atrioventricular (p = 0,0001), porém não houve diminuição da freqüência cardíaca basal entre M0 e M1.
CONCLUSÕES:
O remifentanil alterou as variáveis eletrofisiológicas cardíacas, o que em doses maiores que as estudadas poderiam causar bradicardia sinusal, assistolia e distúrbios de condução.

Unitermos: ANALGÉSICOS, Opióide: remifentanil, CIRURGIA, Cardíaca: ablação; COMPLICAÇÕES: assistolia, bradicardia; FISIOLOGIA, Cardiovascular: condução, refratariedade.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El remifentanil es un opioide con inicio y fin de acción rápidos, cuyo uso en procedimientos de corta duración se ha venido propagando en los últimos años. Entre los efectos colaterales descritos, hay relatos de bradicardia y asistolia. El objetivo de este estudio fue evaluar los efectos de este fármaco en la conducción y refractariedad cardíaca, en humanos.
MÉTODO: Estudio prospectivo de 16 pacientes, entre 18 y 65 años, de ambos sexos, ASA I a III, que se sometieron a estudio electrofisiológico intra cardiaco electivo. Se excluyeron pacientes con enfermedades del nódulo sino-atrial y los portadores de bloqueos cardíacos graves. En el laboratorio de electrofisiologia, los pacientes fueron inicialmente sedados con midazolam (0,03 mg.kg-1), 5 minutos después (M0) se evaluó el grado de sedación e intensidad de dolor, presiones arteriales sistólica y diastólica, frecuencias cardíaca y respiratoria y saturación de oxígeno. El electrofisiologista evaluó las variables de conducción cardíaca (duración del QRS, intervalos AA, AH, HV y PA), el tiempo de recuperación del nódulo sino-atrial y las variables de refractariedad cardíaca (período refractario del atrio derecho, período refractario del ventrículo derecho y período refractario del nódulo atrio ventricular). Después de las medidas iniciales el remifentanil fue introducido (bolo de 0,5 µg.kg-1 + infusión de 0,05 µg.kg-1.min-1) y después de 20 minutos las mismas variables fueron evaluadas nuevamente (M1).
RESULTADOS: Se observó disminución de las presiones sistólica y diastólica (p = 0.0001) entre M0 y M1, sin diferencia estadística significativa de la frecuencia respiratoria o de la saturación de oxígeno. Hubo aumento del intervalo atrio-His (p = 0,006) y del tiempo de recuperación del nódulo sino-atrial (p = 0,0004), del período refractario del atrio derecho (p = 0,001) y del período refractario del nódulo atrio ventricular (p = 0,0001), pero no hubo disminución de la frecuencia cardíaca basal entre M0 e M1.
CONCLUSIONES: El remifentanil altero las variables electrofisiológicas cardíacas, lo que en dosis mayores que las estudiadas podría causar bradicardia sinusal, asistolia y disturbios de conducción.


 

 

INTRODUÇÃO

O remifentanil é um agonista seletivo do receptor mu, com potência semelhante ao fentanil. Sua estrutura química apresenta uma ligação metil-éster-propanóica que é hidrolisada pelas esterases plasmáticas inespecíficas e pelas teciduais (carboxiesterase), resultando em uma duração de ação curta e previsível, sem acúmulo de efeito com doses repetidas ou quando administrado em infusão venosa contínua (meia-vida contexto-dependente de três minutos). Também possui volumes de distribuição nos compartimentos centrais e totais muito baixos, apresentando meia-vida beta muito menor que os outros opióides, além de uma pequena meia-vida Ke0, o que lhe confere um rápido início de ação 1-9.

Esse perfil farmacocinético e farmacodinâmico é muito atraente, sobretudo para a realização de procedimentos rápidos. Entretanto, o seu uso está associado à instabilidade hemodinâmica, com hipotensão arterial e bradicardia 10-14. Além disso, há na literatura o relato de dois casos de assistolia após o uso de remifentanil na indução anestésica 15,16.

Os relatos de bradicardia foram observados principalmente nos pacientes em uso de fármacos antagonistas do receptor beta adrenérgico, nos pacientes com bradicardia preexistente e naqueles que receberam dose em bolo do fármaco (>1 µg.kg-1 em 30 segundos) 12,13. Contudo, um dos casos de assistolia descrito na literatura ocorreu em um paciente jovem, sem doenças associadas, em quem não foi administrada dose em bolus 16.

O objetivo deste estudo foi avaliar, em humanos, se o remifentanil exerce efeito na condução e refratariedade cardíaca que justifique as bradicardia e assistolia observadas por outros autores.

 

MÉTODO

Após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisas do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho e obtenção de consentimento livre e informado, foram estudados de forma prospectiva, 16 pacientes adultos, de ambos os sexos, escalados para realização eletiva de estudo eletrofisiológico intracardíaco percutâneo, ablação de disritmias por cateter de radiofreqüência ou ambos.

A técnica anestésica empregada foi sedação e analgesia, e o componente sedativo e amnésico escolhido foi o midazolam.

Os critérios de inclusão adotados foram idade entre 18 e 65 anos, estado físico ASA I a III e peso menor que 100% acima do ideal.

Os critérios de exclusão foram pacientes usuários habituais de benzodiazepínicos, antidepressivos, drogas ilícitas ou estimulantes do sistema nervoso central; os em uso habitual de antagonistas dos receptores beta ou fármacos agonistas do receptor alfa2; pacientes que foram submetidos à anestesia ou usaram opióides nas últimas 48 horas; pacientes em uso de amiodarona (quando suspensa há menos de 45 dias); pacientes com Miastenia Gravis ou glaucoma de ângulo fechado e os considerados com "estômago cheio"; pacientes com distúrbios psiquiátricos, doença pulmonar grave, insuficiência cardíaca descompensada, angina instável ou infarto agudo do miocárdio nas últimas seis semanas; pacientes com bloqueios cardíacos prévios graves; pacientes com nefropatias ou hepatopatias.

Em todos os pacientes submetidos ao estudo os fármacos antidisrítmicos foram suspensos por no mínimo cinco meias-vidas (exceto a amiodarona).

O estudo eletrofisiológico intracardíaco foi realizado no laboratório de eletrofisiologia cardíaca do Hospital Clementino Fraga Filho.

Nenhum paciente recebeu medicação pré-anestésica.

Após monitorização com eletrocardiograma de 12 derivações com o sistema EPTRACER V0.73 (ECG), oxímetro de pulso digital, pressão arterial não-invasiva (PANI) e capnógrafo (aferidos a partir do monitor Cardiocap Ultima Datex Ohmeda), foi realizada venóclise no membro superior esquerdo com cateter 18G e administrados 20 mL.kg-1 de solução de Ringer com lactato, em 10 a 15 minutos. Subseqüentemente, a infusão foi diminuída a uma velocidade mínima para manter a veia patente. Ao equipo de infusão foram adicionados um conector em Y (Polifix®-B Braun) e uma torneira de três vias (TAP-3 Embramed) interposta entre o conector e o cateter venoso.

A seguir, foram administrados 0,03 mg.kg-1 (peso ideal) de midazolam, antes das punções femorais realizadas pelo eletrofisiologista.

No M0 (5 minutos após a administração do midazolam) foi avaliado o grau de sedação pela escala de Ramsay, intensidade de dor por uma escala subjetiva de 0 a 4 (0 = nenhuma dor e 4 = maior dor que já sentiu na vida), pressões arteriais sistólica (PS) e diastólica (PD), freqüência cardíaca (FC) sem eletroestimulação, freqüência respiratória (FR), saturação arterial de oxigênio (SpO2), pela oximetria de pulso, com oxigenoterapia suplementar (5 L.min-1 de O2 sob máscara de Hudson), CO2 expirado por capnografia (PETCO2), as variáveis de condução cardíaca (duração do QRS, intervalos AA, AH, HV e PA), função do nódulo sinoatrial (tempo de recuperação do nódulo sinoatrial) e de refratariedade cardíaca (período refratário do átrio direito, do ventrículo direito e do nódulo atrioventricular). Ver glossário para definições.

O estudo eletrofisiológico basal foi realizado pelo registro simultâneo do eletrocardiograma de 12 derivações e dos sinais intracavitários (EPTRACER V0.73) que foram captados por três ou quatro cateteres-eletrodos transvenosos (Biosense Webster® quadripolar 6F) localizados na região alta de átrio direito, adjacente ao feixe de His, na ponta de VD e no seio coronário. A duração do QRS e os intervalos basais (intervalos AA, PR, PA, AH, HV e QT) foram aferidos durante o ritmo sinusal com velocidade de registro de 100 mm.s-1. Os PREAD, PREVD e PRENAV foram aferidos por extra-estímulos decrescentes inseridos sobre estimulação contínua nos ciclos de 600, 500 e 430 ms. O tempo de recuperação do nódulo sinoatrial (TRNS) foi determinado por estimulação atrial direita com comprimentos de ciclo de 600, 550, 430 e 380 ms, por 1 minuto em cada nível e com velocidade de registro de 100 mm.s-1. Dez ciclos foram analisados após o término da estimulação, e o maior dentre esses intervalos pós-estimulação foi utilizado para calcular o TRNS. A configuração da onda P no ECG de superfície e os eletrogramas intra-atriais foram utilizados para verificar que o primeiro batimento após o término da estimulação foi realmente de origem sinusal.

Os pacientes que não apresentaram, em M0, os intervalos PA, AH e HV dentro da faixa de normalidade das medidas padronizadas no laboratório foram excluídos do estudo. Assim como os pacientes com síndrome de WPW cujo PRE anterógrado da via acessória foi menor que o do NAV.

Após as medidas iniciais, o remifentanil foi iniciado com bolus por via venosa de 0,5 µg.kg-1 (peso ideal), em 30 segundos, seguido da infusão venosa contínua (na dose de 0,05 µg.kg-1.min-1 de peso ideal), de modo a manter um grau de sedação 2 a 4, pela escala de Ramsay e intensidade de 0 a 1 de dor. A dose do remifentanil podia ser ajustada em até mais ou menos 50% à inicial para atingir tais objetivos. Os pacientes que não atingiram esses objetivos receberam propofol, em infusão contínua, com ou sem bolus de 0,5 mg.kg-1 (peso ideal) e foram afastados do estudo.

Após a avaliação dos parâmetros hemodinâmicos e respiratórios (PANI, FC, FR, PETCO2 e SpO2) a dose do remifentanil foi diminuída em até 50% da dose inicial, quando a pressão arterial sistólica foi menor que 15 mmHg da inicial ou menor que 80 mmHg, ou quando a freqüência respiratória foi menor que 8 irpm ou a SpO2 menor que 94% (com oxigênio suplementar) ou nos casos em que freqüência cardíaca foi menor que 40 bpm.

As mesmas variáveis foram reavaliadas em M1 (após 20 minutos de infusão ajustada de remifentanil).

Após avaliação de todas as variáveis propostas no estudo, a anestesia foi mantida a critério do anestesiologista responsável pela mesma. Não foi estudada a indutibilidade da taquicardia sustentada.

A análise comparativa das variáveis em M0 e M1 foi realizada pelo teste t de Student pareado e foram consideradas diferenças significativas quando p < 0,05.

 

RESULTADOS

As características dos pacientes estudados encontram-se na tabela I.

 

 

A indicação do procedimento foi o diagnóstico eletrofisiológico e ablação por cateter de radiofreqüência de taquicardia reentrante nodal em sete casos e de síndrome de Wolff-Parkinson-White nos outros nove.

O tempo médio de duração do procedimento foi de 78 ± 25 minutos (máximo de 128 e mínimo de 40 minutos) e a dose média total de remifentanil por procedimento foi de 276 ± 115 µg (máximo de 520 e mínimo de 140 µg), com uma média de 3,45 ± 0,12 µg.min-1.

O grau de sedação alcançado foi satisfatório em todos os casos. Com grau 2 a 3 pela Escala de Ramsay no M0 e de 3 a 4, no M1 (Tabela II).

 

 

A intensidade de dor pela escala subjetiva usada foi de 0 a 2 em M0 e de 0 a 1 em M1 (Tabela III). Essas variáveis foram consideradas satisfatórias e não foi necessária a associação de propofol em nenhum dos casos.

 

 

Em relação às variáveis hemodinâmicas e respiratórias (PANI, FC, FR, PETCO2 e SpO2), avaliadas em M0 e M1, foram observadas diferenças estatísticas significativas, apenas em relação às pressões arteriais sistólicas e diastólicas (Tabela IV). Quanto à freqüência cardíaca não foi constatada diferença significativa entre MO e M1.

 

 

Em relação às variáveis de condução cardíaca (duração do QRS, intervalos AA, AH, HV e PA), foi observado aumento da duração do QRS e do intervalo AH (Tabelas V e VI). Não houve variação estatística significativa entre M0 e M1, nas medidas dos intervalos AA, HV e PA.

 

 

 

 

Também foi observado aumento do TRNS (Tabela VII).

 

 

Quanto às variáveis de refratariedade cardíaca (período refratário do átrio direito, do ventrículo direito e do nódulo atrioventricular), houve aumento do período refratário do átrio direito (p = 0,001) e do período refratário do nódulo atrioventricular (p = 0,0001). Não foi observada diferença estatística significativa em relação ao período refratário do ventrículo direito.

 

DISCUSSÃO

O remifentanil, assim como outros opióides, pode causar bradicardia e assistolia, antes ou durante a laringoscopia e intubação traqueal 10-21.

Inicialmente esse quadro foi atribuído a mecanismo centralmente mediado; entretanto, sabe-se que a morfina apresenta um efeito direto no nódulo sinoatrial e na condução atrioventricular 22,23. Já o sufentanil prolonga a duração do potencial de ação em fibras de Purkinje de cães 24-26.

Da mesma forma, Reitan e col. atribuíram 10% da bradicardia, causada pelo fentanil em cães, à sua ação periférica e não apenas vagotônica central 27. Em ratos, Saeki e col. demonstram a ativação dos receptores opióides tipo mu no nódulo sinoatrial, o que comprovou um efeito cronotrópico negativo direto do mesmo 28. No entanto, esses efeitos eletrofisiológicos diretos do fentanil não foram observados em humanos 29.

Com o alfentanil e o sufentanil, Sharpe e col. também não demonstraram efeitos diretos na condução e na refratariedade cardíaca (estudo em humanos), ao contrário dos anestésicos inalatórios que aumentaram a refratariedade das vias de condução atrioventricular 30,31.

Em relação ao remifentanil, alguns mecanismos foram propostos para explicar a causa da bradicardia e da hipotensão arterial, dentre eles a possível liberação de histamina após administração rápida do fármaco, um estímulo vagal centralmente mediado, a inibição central do tônus simpático, um efeito direto na condução e na refratariedade cardíaca ou uma causa multifatorial 10.

Todavia, Sebel e col. provaram que as alterações hemodinâmicas observadas não se correlacionam com as alterações nas concentrações sangüíneas de histamina 32.

Atualmente, acredita-se que a diminuição da pressão arterial média causada pelo remifentanil seja devida à vasodilatação periférica e conseqüente diminuição da resistência vascular sistêmica, por mecanismo endotélio-dependente, relacionado com a liberação de prostaciclina e óxido nítrico 33.

Shinohara e col. demonstraram que em ratos com neuroeixo intacto (com a resposta do reflexo barorreceptor mantida) a hipotensão arterial e a bradicardia, abruptas e de rápida resolução, devem-se à ação vagotônica central do remifentanil 34. No entanto, hipotensão arterial e bradicardia, nesse caso de início gradual, também foram observadas nos animais desnervados (sem o reflexo barorreceptor ativo), o que afastou a responsabilidade do efeito vagotônico central como causa única da bradicardia. Como esses animais vagotomizados não apresentavam diminuição do tônus simpático, essa hipótese também foi afastada. Os autores propuseram como causa da bradicardia, uma ação cronotrópica negativa direta, por estimulação dos receptores mu no nódulo sinoatrial. Essa hipótese é corroborada pela administração prévia de naloxona (antagonista do receptor mu) que abole a bradicardia nos animais baro-desnervados e vagotomizados 34.

Ao estudar o efeito do remifentanil sobre a resposta hemodinâmica à intubação traqueal, Thompson e col. avaliaram também o efeito da administração prévia de um agente vagolítico (glicopirrolato 200 µg), com o objetivo de evitar bradicardia. Os autores concluíram que o glicopirrolato não aumentou a freqüência cardíaca basal, mas atenuou a bradicardia associada ao uso do remifentanil (incidência de 50% no grupo remifentanil ´ 10% no grupo remifentanil e glicopirrolato) 11.

Sebel e col. observaram uma redução média de 20% da pressão arterial e da freqüência cardíaca, após doses de 2 a 30 µg.kg-1 por via venosa em bolus de remifentanil (administrados em 1 minuto), em pacientes tratados previamente com glicopirrolato 32.

O presente estudo comprovou que o remifentanil exerce um efeito depressor na função do nódulo sinoatrial (refletido pelo prolongamento do tempo de recuperação do nódulo sinoatrial) e na condução intra-atrial (caracterizado pelo aumento do intervalo átrio-His), o que justifica per si o seu perfil bradicárdico 35.

Entretanto, não foram observadas alterações na freqüência cardíaca basal, o que provavelmente deva-se às pequenas doses de remifentanil empregadas (as variações do intervalo AH e do TRNS, apresentaram diferença estatística significativa, mas ainda assim com números absolutos dentro da faixa da normalidade) ou ao número de pacientes estudados. A segunda hipótese é pouco provável, pois as variações do intervalo A-H e do TRNS, foram muito diferentes no estudo estatístico (p = 0,006 e 0,0004, respectivamente).

O remifentanil também causou aumento do período refratário do átrio direito e do nódulo atrioventricular, o que sugere um potencial disritmogênico desse fármaco 36. Porém, apesar das alterações observadas nos períodos refratários, os mesmos também se encontram dentro da faixa fisiológica.

Quando comparado com os outros opióides estudados anteriormente o remifentanil 30,31, ao contrário do esperado, causou alterações das variáveis eletrofisiológicos, mesmo nas pequenas doses empregadas (doses para sedação consciente) e as alterações observadas no presente estudo podem ser atribuídas apenas ao uso do remifentanil, pois Sharpe e col. demonstram que o midazolam não altera as variáveis de condução e refratariedade cardíaca 30.

Adicionalmente, pelos resultados desse estudo ficou comprovado que o remifentanil é um fármaco capaz de causar hipotensão arterial, como já havia sido demonstrado anteriormente 10,11.

Em sedação e analgesia, estudos anteriores demonstraram que a associação de remifentanil (bolus de 0,5 µg.kg-1min-1, em 30 segundos, seguido de infusão venosa contínua, na dose de 0,05 µg.kg-1min-1) e midazolam (2 mg por via venosa) é eficaz, pois 66% dos pacientes não apresentaram dor ou desconforto durante os procedimentos, com um grau de sedação leve. Além disso, observou-se pouco efeito colateral (16% de náuseas e 2% de vômitos) 37,38.

Portanto, não fossem os resultados desse estudo, o remifentanil seria o componente analgésico ideal nas sedações e analgesia para a realização de estudo eletrofisiológico intracardíaco percutâneo, ablação de disritmias por cateter de radiofreqüência, ou ambos. Mas o presente estudo indica que o remifentanil não deve ser usado nesses procedimentos, pois pode interferir na precisão das medidas eletrofisiológicas.

Desse estudo concluiu-se que o remifentanil apresentou um efeito eletrofisiológico na função do nódulo sinoatrial e na condução e refratariedade cardíaca (aumentou o tempo de recuperação do nódulo sinoatrial, a duração do intervalo QRS, o intervalo AH e os períodos refratários do átrio direito e do nódulo atrioventricular), o que em doses maiores que as estudas poderia causar bradicardia sinusal, assistolia e distúrbios de condução.

Portanto, o mesmo deve ser evitado em pacientes com doenças documentadas do nódulo sinoatrial, distúrbios de condução prévios e em usuários habituais de fármacos que afetem o cronotropismo e dromotropismo cardíaco, como, por exemplo, os bloqueadores do receptor beta-adrenérgico.

Concluiu-se também que o remifentanil não é um bom fármaco a ser empregado como componente analgésico nas sedações e analgesia para realização de estudos eletrofisiológicos intracardíacos, pois pode interferir na interpretação dos seus resultados.

Neste estudo não foram demonstradas alteração na freqüência cardíaca basal, mas outros estudos devem ser realizados no futuro, com doses maiores do fármaco, para que se avalie sua segurança.

Glossário

1) Intervalo átrio-His (AH): Estima o tempo de condução internodal atrioventricular, medido do eletrograma atrial ao eletrograma do feixe de His. Os valores normais em adultos variam de 35 a 150ms.

2) Intervalo PA: É uma aproximação do tempo de condução intraatrial. É medido do começo da onda P ao começo da ativação atrial no eletrograma de His (início do potencial A). Os valores normais em adultos em ritmo sinusal variam de 9 a 150 ms.

3) Intervalo His-Ventriculo (HV): É o tempo de condução entre o local onde se registra o potencial H (feixe de His proximal) e o início da ativação ventricular. Os valores normais em adultos variam de 10 a 55 ms.

4) Tempo de recuperação do nódulo sinoatrial (TRNS): É o tempo requerido para a recuperação da formação de um impulso sinusal após um super-estímulo do marcapasso atrial. Valores normais em adultos variam de < ou = 1.207 a < ou= 1.500.

5) Período refratário efetivo do átrio direito (PREAD): É o mais longo intervalo S1-S2 (estímulo artefato) que não resulta em despolarização atrial. Valores normais em adultos variam de 150 a 360 ms. (dependentes da amplitude do ciclo empregado).

6) Período refratário efetivo do ventrículo direito (PREVD): É o mais longo intervalo S1-S2 que não consegue evocar uma resposta ventricular. Valores normais em adultos variam de 170 a 290 ms.

7) Período refratário efetivo do nódulo atrioventricular (PRENAV): É o mais longo intervalo A1-A2 medido no eletrograma do feixe de His que não se propaga para o feixe de His. Valores normais em adultos variam de 230 a 430ms.

 

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Endereço para Correspondência:
Simone Soares Leite
Rua Marques de Paraná, 128/706 — Flamengo
22230-030 Rio de Janeiro, RJ
E-mail: sslsimone@bol.com.br

Apresentado em 15 de maio de 2006
Aceito para publicação em 12 de junho de 2007

 

 

* Pesquisa realizada no Hospital Clementino Fraga Filho (HUCFF) da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FM/UFRJ), Rio de Janeiro, RJ