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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.1 Campinas Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000100002 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Estudo comparativo entre bupivacaína racêmica (S50-R50) a 0,125% e bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% e 0,25% em anestesia peridural para analgesia de parto*

 

Estudio comparativo entre bupivacaina racémica (S50-R50) a 0,125% y bupivacaina en exceso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% y 0,25% en anestesia peridural para analgesia de parto

 

 

Nádia Maria da Conceição Duarte, TSAI; Ana Maria Menezes Caetano, TSAII; Luciana Cavalcanti LimaIII; Aumério Silva das ChagasIV

ICo-Responsável pelo CET/SBA do IMIP
IIResponsável pelo CET/SBA do IMIP; Mestre em Saúde Materno-Infantil pelo IMIP
IIIMestre em Saúde Materno-Infantil pelo IMIP
IVAnestesiologista do CET/SBA do IMIP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A peridural contínua é utilizada para alívio da dor do trabalho de parto e associada a baixos índices de complicações. Estudos com enantiômeros levógiros dos anestésicos locais demonstraram maior segurança em função de menor cardiotoxicidade. O objetivo deste estudo foi comparar a analgesia e o bloqueio motor entre a bupivacaína (S50-R50) a 0,125% e a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% e 0,25% em peridural contínua para analgesia de parto.
MÉTODO: Realizou-se ensaio clínico duplamente encoberto, com distribuição aleatória de 75 participantes em trabalho de parto, distribuídas em três grupos: GI – bupivacaína (S50-R50) a 0,125%; GII – bupivacaína (S75-R25) a 0,125%; e GIII – bupivacaína (S75-R25) a 0,25%. A inclusão no estudo foi feita após assinatura do Consentimento Livre e Esclarecido.
RESULTADOS: Não foram encontradas diferenças estatísticas significativas quanto à latência da analgesia, nível sensorial do bloqueio, volume de anestésico local, duração do trabalho de parto e da analgesia, freqüência de parto instrumental, escores de Apgar ou pH do cordão umbilical. O intervalo para a primeira dose resgate foi maior e os escores de dor em 45 min foram menores no grupo bupivacaína (S75-R25) a 0,25%. A intensidade do bloqueio motor foi maior no grupo bupivacaína (S50-R50) a 0,125%.
CONCLUSÕES: A bupivacaína (S75-R25) determinou um bloqueio motor menos intenso, mesmo quando utilizada em maior concentração (0,25%), resultando em melhor qualidade de analgesia, sem interferir na evolução do trabalho de parto ou na vitalidade dos recém-nascidos.

Unitermos: ANALGESIA: parto; ANESTÉSICOS, Local: bupivacaína racêmica, bupivacaína em excesso enantiomérico, levobupivacaína; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: peridural contínua.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La peridural continua se utiliza para el alivio del dolor del trabajo de parto y asociada a bajos índices de complicaciones. Estudios con enantiómeros levógiros de los anestésicos locales demostraron una mayor seguridad en función de una menor cardiotoxicidad. El objetivo de este estudio fue comparar la analgesia y el bloqueo motor entre la Bupivacaina (S50-R50) a 0,125% y la Bupivacaina en exceso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% e 0,25% en peridural continua para analgesia de parto.
MÉTODO: Se realizó un ensayo clínico doblemente encubierto, con distribución aleatoria de 75 participantes en trabajo de parto, distribuidas en tres grupos: GI – Bupivacaina (S50-R50) a 0,125%, GII – Bupivacaina (S75-R25) a 0,125% y GIII – Bupivacaina (S75-R25) a 0,25%. La inclusión en el estudio fue hecha después de la firma del Consentimiento Libre y Aclarado.
RESULTADOS: No se encontraron diferencias estadísticas significativas en cuanto a la latencia de la analgesia, nivel sensorial del bloqueo, volumen de anestésico local, duración del trabajo de parto y de la analgesia, frecuencia de parto instrumental, puntuaciones de Apgar o pH del cordón umbilical. El intervalo para la primera dosis rescate fue mayor y los puntajes de dolor en 45 minutos fueron menores en el grupo Bupivacaina (S75-R25) a 0,25%. La intensidad del bloqueo motor fue mayor en el grupo Bupivacaina (S50-R50) a 0,125%.
CONCLUSIONES: La Bupivacaina (S75-R25) determinó un bloqueo motor menos intenso, incluso cuando se utilizó en mayor concentración (0,25%), resultando en una mejor calidad de analgesia, sin interferir en la evolución del trabajo de parto o en la vitalidad de los recién nacidos.


 

 

INTRODUÇÃO

A bupivacaína, anestésico local comercialmente utilizado, apresenta-se como mistura racêmica (S50-R50), embora o enantiômero levógiro S(-), a levobupivacaína, seja menos tóxico para o sistema nervoso central e sistema cardiovascular do que o enantiômero dextrógiro R(+) 1.

Estudos clínicos com enantiômeros levógiros de anestésicos locais mostraram maior segurança clínica em função da menor cardiotoxicidade e motivaram pesquisas sobre a estereosseletividade 2. O termo bupivacaína, ou bupivacaína racêmica, refere-se ao anestésico local cuja composição é formada por 50% do isômero R e 50% do isômero S (S50-R50). A levobupivacaína refere-se à solução de bupivacaína contendo 100% do isômero S, enquanto a bupivacaína com excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) refere-se à solução que contém 75% do isômero S e 25% do isômero R.

A administração de levobupivacaína por via peridural está associada à menor intensidade de bloqueio motor, sendo aparentemente dose-dependente, utilizando-se concentrações de 0,0625% a 0,5% 3.

O uso da bupivacaína em anestesia obstétrica deve-se à sua elevada potência e longa duração de ação, além de bloqueio diferencial sensitivo-motor 4. Porém, sua supremacia foi questionada em 1979 por Albright com relatos de cardiotoxicidade 5.

Quanto ao uso dos estereoisômeros em analgesia de parto, Nakamura e col. 6, estudando as repercussões materno-fetais da bupivacaína racêmica, da ropivacaína e da levobupivacaína em analgesia e anestesia de parto, observaram que a ropivacaína aboliu a dor das gestantes com menor bloqueio motor e os seus recém-nascidos foram os que apresentaram melhores índices de Apgar e os melhores escores da capacidade adaptativa e neurológica.

O objetivo desse estudo foi comparar a mistura em excesso enantiomérico (S75-R25) e a mistura racêmica de bupivacaína na analgesia de parto, quanto à qualidade da analgesia e intensidade do bloqueio motor.

 

MÉTODO

Após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Instituto Materno-Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP), realizou-se um ensaio clínico com distribuição aleatória das participantes, duplamente encoberto, com o objetivo de comparar a analgesia e o bloqueio motor entre a bupivacaína racêmica (S50-R50) e a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) na anestesia peridural contínua para analgesia de parto.

Foram incluídas 75 gestantes, em trabalho de parto, estado físico ASA I e II, divididas de forma aleatória em três grupos: GI – bupivacaína racêmica (S50-R50) a 0,125%; GII – bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% e GIII – bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25%. Foram excluídas do estudo as gestantes com contra-indicações relativas ou absolutas ao bloqueio peridural contínuo, com história de alergia ou hipersensibilidade aos anestésicos locais, as que fizeram uso de agentes opióides durante o trabalho de parto ou aquelas com fetos que apresentavam sinais de possível sofrimento intra-uterino. Foram avaliados: latência da analgesia (tempo decorrido entre a administração inicial da solução de anestésico local e o estabelecimento do nível máximo do bloqueio sensorial); nível sensorial do bloqueio, pesquisado através da perda da sensação térmica e dolorosa nos segmentos correspondentes aos dermátomos sacral, lombar e torácico; tempo para a solicitação da primeira dose-resgate (tempo decorrido entre a administração inicial da solução de anestésico local e a solicitação da primeira dose resgate da solução de anestésico local pela gestante ou Escala Analógica Visual (VAS) > 3); escores de dor com avaliação pela Escala Analógica Visual da Dor 7; grau de bloqueio motor avaliado pela Escala de RAM 6 e deambulação; tempo de duração do primeiro e do segundo estágio do trabalho de parto; tempo de duração da analgesia (tempo decorrido entre a administração do anestésico local e o término do segundo estágio do trabalho de parto); freqüência de parto instrumental e volume total utilizado de anestésico local. O grau de vitalidade dos recém-nascidos foi avaliado utilizando-se os escores de APGAR no quinto minuto e acidose neonatal, definida como pH do cordão umbilical abaixo de 7,20 8. As gestantes em trabalho de parto estabelecido, definido pela equipe obstétrica, que solicitavam alívio da dor e que preenchiam os critérios de inclusão e exclusão, depois de obtida a assinatura do consentimento livre e esclarecido, eram alocadas no seu grupo.

As participantes tinham acesso venoso garantido anteriormente à realização do bloqueio anestésico, com cateter de teflon 18G e eram monitoradas com cardioscópio, oxímetro de pulso e pressão arterial não-invasiva. Anotava-se o momento de início do procedimento e o escore inicial de dor. A seguir, a punção peridural era efetuada com agulha de Tuohy 18G por via mediana, ao nível de L2-L3 ou L3-L4 e o cateter de peridural 20G era inserido e devidamente fixado. De acordo com a tabela de distribuição aleatória, as gestantes dos grupos GI, GII e GIII recebiam, respectivamente, 10 mL de bupivacaína (S50-R50) a 0,125%, 10 mL de bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125%, ou 10 mL de bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25%.

As soluções do estudo foram envasadas em frascos-ampola de 20 mL, conforme acordo entre o departamento científico e o desenvolvimento de produtos do laboratório Cristália®. Foram produzidos no total 243 frascos-ampola, e 81 frascos-ampola continham solução de bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125%, 81 continham solução de bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25% e 81 continham bupivacaína a 0,125%. Os frascos-ampola eram identificados com o número da alocação das participantes e o volume do frasco. A distribuição aleatória do estudo foi realizada pelos pesquisadores, utilizando o software estatístico EpiInfo 6.04b, de domínio público, e fazia parte do protocolo de pesquisa.

O bloqueio motor, os escores de dor e a necessidade de doses-resgate de anestésico local eram avaliados a cada 15 minutos (Mi = antes do início da analgesia, M15 = 15 minutos após o início da analgesia, M30 = 30 minutos e assim sucessivamente até o fim do trabalho de parto). Dose-resgate de 5 mL do mesmo anestésico local, na mesma concentração utilizada no início da analgesia, era administrada sempre que a gestante referia um escore de dor igual ou maior do que 3 na Escala Analógica Visual, inclusive durante o período expulsivo. Na ocorrência de qualquer grau de bloqueio motor que pudesse interferir na evolução do trabalho de parto, a dose resgate do anestésico local tinha sua concentração reduzida em 50%.

As variáveis contínuas foram resumidas em média, mediana e desvio-padrão (DP). A comparação entre essas variáveis foi realizada por meio do teste ANOVA. Para as variáveis cujas suposições do teste de ANOVA não foram satisfeitas, utilizou-se o teste de Kruskal-Wallis. As variáveis categóricas foram resumidas usando freqüências absolutas e relativas em forma de tabela e a comparação entre os três grupos foi realizada com a utilização do teste de Kruskal-Wallis. Em todas as hipóteses testadas, as diferenças estatísticas foram consideradas significativas quando p < 0,05. O tamanho da amostra foi calculado considerando um erro tipo I (alfa) de 5% e erro tipo II (beta) de 10%, com um poder de teste estimado mínimo de 80%. Utilizando-se o software estatístico EpiInfo 6.04b, encontrou-se um número amostral (N) de 72 pacientes (24 em cada grupo) e foi estimada uma perda em torno de 10%. Para compensar essas prováveis perdas, elevou-se o n para 81, com 27 participantes em cada grupo.

 

RESULTADOS

Foram analisadas 75 gestantes, das quais 26 (GI) receberam bupivacaína (S50-R50) a 0,125%, 24 (GII) receberam bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% e 25 (GIII) receberam bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25%. Houve seis exclusões após a alocação nos grupos por impossibilidade de realização da técnica anestésica e dados incompletos, sendo um paciente no GI, três pacientes no GII e dois pacientes no GIII. Os grupos foram semelhantes (ANOVA) quanto aos dados antropométricos &sup3; idade (p = 0,48), peso (p = 0,28) e altura (p = 0,65) (Tabela I).

 

 

Quanto ao estado físico, somente foram incluídas no estudo gestantes ASA I e II. O GI apresentou 76,9% de parturientes ASA I e 23,1% de ASA II; o GII teve 83,3% de parturientes ASA I e 16,7% de ASA II e o GIII 80% de parturientes ASA I e 20% de ASA II, sem diferença estatística significativa entre eles (c2 =0,85).

Ao ser analisada a paridade, observou-se que em GI 76% eram nulíparas, 16% primíparas e 8% secundíparas. No GII encontraram-se 78,3% nulíparas, 8,7% primíparas, 8,7% secundíparas e 4,3% tinham paridade igual a três. No GIII, 78,3% gestantes eram nulíparas, 13% primíparas e 8,7% eram secundíparas, sem diferença estatística significativa entre os grupos (c2 = 0,85).

No momento da instalação da analgesia, os três grupos, avaliados pelo teste de ANOVA, apresentaram mediana de dilatação do colo uterino igual a 7 (p = 0,3) e mediana de escore de dor (VAS) igual a 9 (p = 0,53) (Tabela II).

 

 

Quanto à evolução do trabalho de parto, a latência da analgesia foi semelhante entre os três grupos (ANOVA), com média igual a 11 min para GI, 13 min para GII e 9,6 min para GIII (p = 0,51). Porém, ao ser analisado o tempo médio de solicitação da primeira dose-resgate, encontrou-se diferença estatística significativa (ANOVA) entre os grupos (p = 0,01), e GIII > GI = GII, 67 min, 36 min, 37 min, respectivamente (Tabela II).

A duração do primeiro estágio do trabalho de parto foi semelhante entre os grupos (p = 0,34), com média, em minutos, igual a 541,11 (GI), 639,95 (GII) e 510,93 (GIII). A duração do segundo estágio também não apresentou diferenças (p = 0,07), com média, em minutos, igual a 14,25, 17,73 e 21,13 para GI, GII e GIII, respectivamente (Tabela II).

O tempo médio de duração da analgesia de parto foi de 43,65 minutos para GI, 67,5 minutos para GII e 81,45 minutos para GIII, sem diferença estatística significativa (p = 0,20) (Tabela II).

Na maioria das gestantes, e sem diferença estatística significativa (c2 = 0,63), o nível sensorial do bloqueio estabilizou-se entre T10 e T12, sendo 80,8% em GI, 78,3% em GII e 79,2% em GIII. Apenas duas gestantes no GII e uma no GIII apresentaram nível abaixo de T12, enquanto as demais participantes do estudo atingiram nível acima de T10. De forma voluntária, e sem diferença estatística significativa (c2 = 0,48), 48,6% das gestantes em cada grupo deambularam durante o trabalho de parto (Tabela III).

 

 

O bloqueio motor diferiu entre os grupos nos seguintes momentos: foi mais intenso em GI quando comparado com a GIII nos momentos M75 (ANOVA p = 0,01) e M90 (Kruskal-Wallis p = 0,02); no momento M105 o bloqueio motor em GI foi mais intenso do que em GII (ANOVA p = 0,02) e em GIII (ANOVA p = 0,0004); em M120, o bloqueio motor diferiu entre GI e GIII (ANOVA p = 0,008), sendo mais intenso no primeiro grupo. Apesar dessas diferenças quanto à intensidade do bloqueio motor, não houve impedimento à deambulação, não sendo observada, também, relação com o número de doses suplementares de anestésico local entre os grupos.

Nas avaliações periódicas da analgesia, evidenciou-se diferença estatística significativa entre os três grupos (ANOVA) 45 minutos após a instalação da peridural, e os escores de dor foram maiores em GI quando comparados com a GII (p = 0,03) e com a GIII (p = 0,01).

Quanto à administração de dose-resgate, não houve diferença entre os grupos (c2 = 0,68), e 86,7% de todas as pacientes solicitaram dose suplementar de anestésico local em algum momento durante a analgesia, com mediana de três doses para cada parturiente. Analisando a analgesia de parto a cada 15 minutos, também não se constatou diferença na solicitação de dose-resgate naqueles momentos.

Não se observou diferença entre os três grupos quanto à freqüência de parto espontâneo ou instrumental (c2 = 0,31). A freqüência de cesariana foi 11,5%, 8,3% e 28% e a de utilização de fórceps foi 26,9%, 20,4% e 28% em GI, GII e GIII, respectivamente (Tabela IV). Quando estratificados os grupos, também não foram encontradas diferenças significativas quanto à freqüência de utilização de fórceps ou cesariana.

 

 

O volume total de anestésico local utilizado foi semelhante entre os grupos (ANOVA p = 0,87), com média igual a 20,38 mL (GI), 19,33 mL (GII) e 20 mL (GIII).

Os recém-nascidos não apresentaram diferença quanto aos escores de Apgar, com mediana igual a 9 nos três grupos (Kruskal-Wallis p = 0,75), e apenas dois recém-nascidos do estudo apresentaram escores de Apgar abaixo de 7, um no GI e outro no GIII. Quando avaliada a ocorrência de acidose neonatal (pH < 7,20), a freqüência entre os grupos foi de 23,5%, 42,1% e 7,1% para GI, GII e GIII, respectivamente, sem diferença estatística significativa (c2 = 0,07) (Tabela V). Porém, ao serem estratificados os grupos, encontrou-se diferença significativa (p = 0,02), sendo a freqüência de acidose maior em GII do que em GIII.

 

 

DISCUSSÃO

Estudos clínicos com enantiômeros levógiros de anestésicos locais mostraram maior segurança clínica em função da menor neuro e cardiotoxicidade 2. Os trabalhos publicados têm demonstrado que a administração de levobupivacaína por via peridural está associada à menor intensidade de bloqueio motor, o que se constitui uma vantagem para a sua aplicação clínica na analgesia de parto3. As gestantes desse estudo receberam bupivacaína racêmica (S50-R50) a 0,125% e bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) em diferentes concentrações (0,125% ou 0,25%). Aquelas que receberam bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25% solicitaram mais tardiamente o primeiro resgate e tiveram, de início, menores escores de dor do que os dos outros dois grupos. Apesar de a freqüência de deambulação espontânea não diferir entre os grupos, o bloqueio motor avaliado pela escala de RAM foi mais intenso nas parturientes que receberam bupivacaína racêmica (S50-R50) do que naquelas que receberam a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25).

Estudando a analgesia de parto em um ensaio clínico com distribuição aleatória das participantes, Nakamura e col.6 avaliaram 33 parturientes que receberam por via peridural bupivacaína, ropivacaína ou levobupivacaína, todas em concentração igual a 0,125% e concluíram que o bloqueio motor com a levobupivacaína foi mais intenso do que com a bupivacaína e com a ropivacaína. Esses resultados são conflitantes com os encontrados no presente estudo, no qual o bloqueio motor foi mais intenso nas gestantes que utilizaram bupivacaína racêmica (S50-R50) do que nas que utilizaram bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) nas duas diferentes concentrações. Apesar de estudos in vitro sugerirem que os dois isômeros da bupivacaína são eqüipotentes em determinar bloqueio motor 9, trabalho publicado mais recentemente observou que a forma dextrógira é mais potente do que a forma levógira em inibir canais de sódio 10, o que justifica o menor bloqueio motor observado nessa pesquisa com a bupivacaína com maior concentração do isômero S.

Da mesma forma, um estudo clínico comparando a bupivacaína a 0,5% com a mistura enantiomérica de bupivacaína (S75-R25) a 0,5% em 44 pacientes submetidos à anestesia peridural para procedimentos vasculares ou ortopédicos dos membros inferiores concluiu que o grau de bloqueio motor foi mais intenso no grupo bupivacaína a 0,5% quando comparado com a mistura enantiomérica de bupivacaína (S75-R25) a 0,5% 11.

O bloqueio da musculatura esquelética é um dos efeitos mais indesejáveis durante a analgesia de parto, pelo risco de aumento da freqüência de parto instrumental, maior duração do trabalho de parto e insatisfação materna 6,12. A analgesia de parto, quando bem conduzida, não interfere na dinâmica uterina, não prolongando o tempo do primeiro estágio do trabalho de parto. Para o segundo estágio do trabalho de parto, cuidados com o volume e a concentração do anestésico local devem ser tomados, com o intuito de preservar a força muscular 13. O uso de anestésicos locais em baixas concentrações na anestesia peridural não parece alterar a evolução do trabalho de parto 14. Esse estudo não evidenciou diferenças na freqüência de partos instrumentais entre os grupos avaliados, com uma freqüência semelhante àquela citada na literatura 6,15, mesmo tendo um grupo de gestantes utilizado a mistura em excesso enantiomérico de bupivacaína (S75-R25) em concentração mais elevada (0,25%). A duração da analgesia de parto também não diferiu em conseqüência da utilização de maior concentração de anestésico local naquele grupo.

Ainda sobre o estudo de Nakamura e col. 6, os autores observaram uma tendência à maior intensidade da dor no grupo da bupivacaína quando comparada com a levobupivacaína. Esses resultados são concordantes com os desse estudo, no qual se observou que a intensidade da dor durante toda a evolução do trabalho de parto foi semelhante entre os grupos, exceto aos 45 minutos, quando as gestantes que faziam uso da bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25% apresentaram menores escores de dor. Vale ressaltar que a solicitação da primeira dose-resgate nesse grupo foi mais retardada (67,08 min) e este era o grupo que utilizava a maior concentração de anestésico local.

Com o objetivo de avaliar a qualidade da anestesia e as repercussões materno-fetais com o emprego de bupivacaína a 0,5%, da mistura enantiomérica da bupivacaína (S75-R25) a 0,5% ou da ropivacaína a 0,75%, associadas ao fentanil por via peridural em gestantes submetidas a cesarianas, Cortes e col.16 observaram que não houve diferença entre os grupos, exceto na qualidade da anestesia que foi inferior sob o aspecto clínico nos grupos com predominância da fração levógira, havendo necessidade de complementação da anestesia em três casos. No presente estudo, a qualidade da analgesia foi superior no grupo que utilizou o anestésico local com maior fração levógira e com uma concentração mais elevada. Apesar de a maioria dos estudos sobre analgesia de parto utilizar anestésicos locais em concentrações inferiores a 0,25% 17,18, o perfil farmacológico de anestésicos com maior proporção do isômero levógiro permite aumento das suas concentrações, sem conseqüente aumento da intensidade do bloqueio motor 3.

Os recém-nascidos desse estudo não apresentaram diferença quanto aos escores de Apgar. Aqueles que nasceram de mães que utilizaram a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,125% apresentaram uma maior freqüência de acidose (pH < 7,2), quando comparados com os recém-nascidos do grupo que utilizou esse mesmo anestésico, porém em concentração igual a 0,25%. Uma possível explicação para esse fato seria um tempo mais prolongado de canal de parto. Porém, o grupo que apresentou a maior média de duração do segundo estágio do trabalho de parto, apesar de não haver diferença estatística significativa, foi o que fez uso da bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25) a 0,25%, cujos recém-nascidos apresentaram a mais baixa freqüência de acidose.

Estudando a eficiência da levobupivacaína (bupivacaína 100% levógira) e da mistura enantiomérica de bupivacaína (S75-R25) em anestesia peridural, alguns autores encontraram uma redução na incidência de efeitos colaterais, boa receptividade do método pelos pacientes, ausência de sintomas neurológicos transitórios no pós-operatório e adequação dos bloqueios motor e sensitivo, que apontam para a aplicação segura dessas soluções em anestesia peridural lombar 19,20.

Ao comparar dois anestésicos locais, a bupivacaína racêmica (S50-R50) e a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25), sendo este último um anestésico cujo perfil está associado a menor neuro e cardiotoxicidade, pode-se concluir que ambos os fármacos em baixas concentrações podem ser utilizados para a analgesia de parto. Entretanto, a bupivacaína em excesso enantiomérico de 50% (S75-R25), por determinar um bloqueio motor menos intenso, permitiu o seu uso em maior concentração (0,25%), resultando em analgesia de qualidade superior e maior intervalo para solicitação da primeira dose-resgate, sem interferir na evolução do trabalho de parto ou com o grau de vitalidade dos recém-nascidos.

AGRADECIMENTOS: Os autores agradecem ao Laboratório Cristália – Produtos Químicos Farmacêuticos Ltda. pela gentileza do fornecimento das soluções de anestésicos locais em suas diferentes concentrações.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dra. Nádia Maria da Conceição Duarte
Rua Feliciano José de Farias, 160/1.101 – Boa Viagem
51030-450 Recife, PE
E-mail: nadia.duarte@terra.com.br

Apresentado em 4 de janeiro de 2007
Aceito para publicação em 23 de outubro de 2007

 

 

* Recebido do Instituto Materno Infantil Professor Fernando Figueira (IMIP), Recife, PE