SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.58 issue1Topical anesthesia associated with sedation for phacoemulsification: experience with 312 patientsAnesthesia for cesarean section on a pregnant woman with hypoplasia of the distal aorta: case report author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.1 Campinas Jan./Feb. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000100005 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Profilaxia antiemética em cirurgia de abdome agudo. Estudo comparativo entre droperidol, metoclopramida, tropisetron, granisetron e dexametasona*

 

Profilaxis antiemética en cirugía de abdomen agudo. Estudio comparativo entre droperidol, metoclopramida, tropisetrón, granisetrón y dexametasona

 

 

Víctor Contreras-DomínguezI; Paulina Carbonell-BellolioII

IServiço de Urgência e Anestesiologia, Hospital Clínico Regional de Concepción; Professor Assistente de Anestesiologia, Universidade de Concepción, Chile
IIServiço de Anestesiologia, Hospital Traumatológico de Concepción, Chile

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A incidência de náuseas e vômitos pós-operatórios (NVPO) gira em torno de 30%. A profilaxia de NVPO foi objeto de múltiplos estudos, tanto para tentar diminuir esse problema como para comparar o índice custo-benefício do tratamento utilizado. Esse estudo comparou a eficácia de cinco fármacos antieméticos em apendicectomia.
MÉTODO: Estudo clínico prospectivo controlado, duplamente encoberto de 150 pacientes ASA I e II com IMC < 30, submetidos a apendicectomia. Os pacientes foram divididos em seis grupos: Grupo 1 (n = 25): 5 mL solução fisiológica a 0,9%; Grupo 2 (n = 25): droperidol 0,625 mg; Grupo 3 (n = 25): metoclopramida 20 mg; Grupo 4 (n = 25): tropisetron 5 mg; Grupo 5 (n = 25): granisetron 1 mg; Grupo 6 (n = 25): dexametasona 4 mg. A monitoração foi realizada com ECG, PANI, SpO2, PETCO2, analisador de gases anestésicos e estimulador de nervo periférico. Foi avaliada a presença de NVPO, complicações e o grau de satisfação nas primeiras 48 horas.
RESULTADOS: O droperidol apresentou incidência 4% de NVPO, os grupos de granisetron, tropisetron e metoclopramida apresentaram 12% de NVPO (p < 0,05). O grupo de dexametasona apresentou 24% e o controle 28% de NVPO.
CONCLUSÕES: Na profilaxia de NVPO em apendicectomia de urgência o uso de baixas doses de droperidol foi mais efetivo que o dos outros fármacos.

Unitermos: ANTIEMÉTICOS: dexametasona, droperidol, granisetron, metoclopramida, tropisetron; CIRURGIA: apendicectomia, urgência; COMPLICAÇÕES: náusea, vômito.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La incidencia de náuseas y vómitos peri operatorios (NVPO) se estima en un 30%. La profilaxis de NVPO ha sido objetivo de múltiples estudios, tanto para intentar disminuir este problema como a su vez comparar índice costo-beneficio de la terapia utilizada. Este estudio evalúa la utilización de 5 fármacos antieméticos en relación a grupo control para apendicectomía de urgencia.
MÉTODO: Estudio clínico prospectivo controlado, doble ciego de 150 pacientes ASA I y II con IMC < 30, beneficiarios de apendicectomía. Los pacientes fueron divididos en seis grupos: Grupo 1 (n = 25): 5 ml solución salina; Grupo 2 (n = 25): droperidol 0,625 mg; Grupo 3 (n = 25): metoclopramida 20 mg; Grupo 4 (n = 25): tropisetrón 5 mg; Grupo 5 (n = 25): granisetrón 1 mg; Grupo 6 (n = 25): dexametasona 4 mg. El monitoreo se realizó con ECG, NIBP, SATO2, PETCO2, analizador de gases anestésicos y ENP. Se evaluó la presencia de NVPO, complicaciones y grado de satisfacción en las primeras 48 horas.
RESULTADOS: Droperidol presentó un 4,0% de NVPO en comparación con los grupos de granisetrón, tropisetrón y metoclopramida que presentaron un 12,0% de NVPO (p < 0,05). El grupo de dexametasona presento 24,0% y el control un 28,0% de NVPO.
CONCLUSIONES: En la profilaxis para NVPO en la apendicectomía de urgencia se muestra más efectivo el uso de dosis bajas de droperidol en comparación con otros fármacos.


 

 

INTRODUÇÃO

As náuseas e vômitos pós-operatórios (NVPO) são os sintomas mais comuns e desagradáveis que ocorrem após procedimento cirúrgico com anestesia geral 1, sendo objeto de diversos estudos 2. A disponibilidade de novos fármacos antieméticos, antagonistas seletivos de receptores 5-hidroxitriptamina tipo 3 (5-HT3), a partir da primeira metade da década de 1990, trouxe para o debate a utilidade de seu uso profilático em intervenções cirúrgicas ambulatoriais efetivas ou de urgência. Os aspectos estudados foram a eficácia da profilaxia de NVPO, benefícios para os pacientes e custos 3-7.

Alguns fármacos de uso clássico na profilaxia de NVPO, como o droperidol, com uso extenso e seguro por mais de 30 anos 8,9, foram questionados pelo Food and Drugs Administration (FDA) dos Estados Unidos, com relação a riscos potenciais de disritmias cardíacas com QT longo. White e col. estudaram a profilaxia e o tratamento de NVPO, com diferentes fármacos, em pacientes operados em regime ambulatorial. Eles concluíram que baixas doses de droperidol e dexametasona isolada ou associada à antagonistas 5-HT3 foram úteis 12,13.

Além da eficácia os custos gerados pela profilaxia ou tratamento de NVPO são importantes para os pacientes e para o sistema de saúde 14-16.

O objetivo desse estudo foi avaliar a eficácia de fármacos na profilaxia de NVPO em pacientes submetidos a apendicectomia de urgência, comparando medicamentos clássicos com os de introdução mais recentes na farmacopéia. Para tanto, foram considerados incidência de NVPO e número de episódios, comparando o efeito de 5 fármacos em dose única e placebo.

Foram também pesquisados efeitos adversos dos fármacos, fatores de risco associados, uso de morfina no pós-operatório e grau de satisfação dos pacientes.

 

MÉTODO

Com a prévia aprovação do Comitê de Ética da instituição, foi projetado um estudo clínico, prospectivo, duplamente encoberto e com distribuição aleatória dos pacientes. Foram estudados 150 pacientes adultos, estado físico ASA I e II estáveis, entre 18 e 65 anos, com índice de massa corporal (IMC) inferior a 30, operados de apendicectomia no Serviço de Urgência do Hospital Clínico Regional de Concepção, Chile, entre dezembro de 2003 e fevereiro de 2006. Todos os pacientes deram seu consentimento por escrito para participar no estudo. Todos foram operados com anestesia geral balanceada (AG). Antes da indução da anestesia os pacientes foram distribuídos nos 6 grupos de estudo de acordo com lista gerada por computador:

  • Grupo 1 (n = 25) – 5 mL de solução fisiológica a 0,9% (SF);
  • Grupo 2 (n = 25) – droperidol 0,625 mg diluídos em 5 mL de SF;
  • Grupo 3 (n = 25) – metoclopramida 20 mg em 5 mL de SF;
  • Grupo 4 (n = 25) – tropisetron 5 mg em 5 mL de SF;
  • Grupo 5 (n = 25) – granisetron 1 mg em 5 mL de SF;
  • Grupo 6 (n = 25) – dexametasona 4 mg em 5 mL de SF.

Todos os pacientes estavam em jejum há no mímino 6 horas e receberam medicamento por via venosa de acordo com o grupo a que pertenciam, 5 minutos antes da indução da anestesia.

A monitoração foi realizada com ECG, PANI, SpO2, capnografia, analisador de gases anestésicos (Monitor Cardiocap 5-Datex-Ohmeda, GE Healthcare, Helsinque, Finlândia), estimulador do nervo periférico (TOF Watch S® – Organon, Ltda., Dublin, Irlanda). Os pacientes receberam oxigênio 100% durante 5 minutos.

A indução da AG foi realizada com lidocaína (1 mg.kg-1), fentanil (2 µg.kg-1), tiopental sódico (4 mg.kg-1), atracúrio (0,4 mg.kg-1). A manutenção da anestesia foi feita com mistura de oxigênio e óxido nitroso (1:1) e isoflurano na concentração entre 1 e 1,2 MAC.

Foi administrado adicionalmente 1-2 µg.kg-1 de fentanil se a pressão arterial sistólica ou média aumentasse em 20% acima da basal. A temperatura foi monitorada com sensor nasofaríngeo e em todos os pacientes foi instalada sonda nasogástrica.

Antes do término da anestesia, foi esvaziado o estômago em todos eles. Não foram utilizados fármacos para reverter o bloqueio neuromuscular. Foi registrada a duração total de cada procedimento.

Durante o período intra-operatório, os pacientes foram hidratados com solução de Ringer com lactato (12 mL.kg-1).

Os pacientes foram tratatos através de laparotomia clássica de Mc Burney e operados pelos mesmos cirurgiões.

Durante o pós-operatório imediato todos os pacientes foram monitorados com ECG, PANI, oxímetro de pulso por, pelo menos, três horas desde sua entrada na unidade e até o momento de sua alta.

As indicações pós-operatórias foram padronizadas na totalidade dos pacientes. A analgesia pós-operatória foi obtida com dipirona em infusão, diclofenaco por via muscular e morfina por via venosa de acordo com a demanda, se a dor ultrapassava 30 mm na Escala Visual Analógica (VAS, 0 = sem dor e 100 = dor máxima). Foi administrada ranitidina (50 mg) por via venosa em intervalos regulares durante 48 horas. O tratamento de resgate para náuseas e vômitos do pós-operatório foi ondansetron 4 mg por via venosa (Izofran®, GlaxoSmithKline).

O acompanhamento pós-operatório foi realizado por outro anestesiologista, que desconhecia o fármaco administrado no paciente. Foi registrada a presença ou a ausência (incidência) de NVPO; nos pacientes que apresentaram NVPO, registrou-se o número de episódios (freqüência) de cada um deles e sua intensidade durante as primeiras 48 horas do pós-operatório, necessidade de tratamento de resgate, o consumo de morfina pós-operatória, as reações adversas presentes tais como cefaléias, tonturas, sinais extrapiramidais e ardência ou prurido perianal. Foram registrados também os fatores de risco para NVPO: ser fumante, antecedentes de NVPO prévios, sexo feminino e uso de morfina pós-operatória. O grau de satisfação dos pacientes foi avaliado realizando uma enquete com o paciente em 48 horas mediante uma escala que classificava o tratamento em: excelente, muito bom, bom, regular ou ruim.

A análise de poder do estudo determinou que seriam necessários 20 pacientes em cada grupo para ter 90% de probabilidade (b = 0,1) de detectar uma diminuição relativa de 50% da incidência de náuseas e/ou vômitos pós-operatórios, considerando a incidência basal de NVPO em nossa instituição de 70%, com intervalo de confiança de 95% (a = 0,05). Para outorgar maior validade estatística aos resultados, decidiu-se incluir 25 pacientes em cada grupo.

Os resultados obtidos foram analisados usando o teste exato de Fisher (c2) para os parâmetros demográficos qualitativos e o teste de Wilcoxon para os dados quantitativos. Foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis para a análise das variáveis não-paramétricas entre os grupos, considerando-se um valor de p < 0,05 como significativo. A análise foi feita com Epi-Info versão 6.0 (Center for Disease Control, World Health Organization, Suíça).

 

RESULTADOS

Não foram encontradas diferenças significativas com relação ao sexo, IMC, duração da anestesia e ao consumo de morfina pós-operatória, entre os grupos (Tabela I).

A incidência de fatores de risco para NVPO não foi significativa e sua proporção para cada um dos grupos está na tabela II.

 

 

O grupo em que foi realizada profilaxia com droperidol apresentou incidência de NVPO de 4%, em comparação com os grupos nos quais foram utilizados granisetron, tropisetron e metoclopramida, em que a incidência de NVPO foi de 12% (p < 0,05). A incidência de NVPO no grupo dexametasona foi de 24% e no grupo-controle de 28% (p < 0,005 em relação ao grupo droperidol) (Tabela III). A freqüência da ocorrência de náuseas foi significativamente maior no grupo-controle versus grupo droperidol (p < 0,0001) e os grupos metoclopramida, tropisetron e granisetron (p < 0,001). A freqüência de vômitos foi muito maior no grupo-controle versus grupo droperidol (p < 0,01) e os grupos metoclopramida, tropisetron e granisetron (p < 0,02). Um paciente do grupo-controle apresentou vômitos intensos, às 12 horas no pós-operatório, com relação ao início de sua realimentação.

 

 

Não foram observadas reações adversas a medicamentos em qualquer paciente que participou desse estudo. Não houve incidência de disritmias no período intra nem pós-operatório imediato. O grau de satisfação experimentado pelos pacientes está na tabela IV, sendo este semelhante nos pacientes que receberam droperidol, tropisetron e granisetron.

 

 

DISCUSSÃO

Os resultados desse estudo clínico prospectivo, controlado, duplamente encoberto de 150 pacientes demonstraram que na profilaxia de NVPO pós-apendicectomia, o uso de uma dose única e mínima de droperidol foi mais eficaz e proporcionou um excelente grau de satisfação nos pacientes com relação a fármacos de última geração ou placebo.

As NVPO continuam sendo uma das causas mais comuns de complicação após anestesia. Muitas vezes, limitam o tempo de alta dessa unidade de cuidados pós-cirúrgicos e também são responsáveis pelas novas hospitalizações de pacientes tratados cirurgicamente em regime ambulatorial 17, 18.

Gan T e col. 19 demonstraram que os custos associados a tratamento antiemético efetivo superam os 100 dólares americanos. Porém, mais de um quarto do total dos pacientes que apresentam NVPO continuam com tais sintomas durante as primeiras 24 horas 20.

Em um interessante artigo especial, publicado por Gan e col. 21, divulgado consenso no manuseio de NVPO. Dentro das recomendações básicas para reduzir a incidência desse problema, incluem-se o uso de propofol para a indução e a manutenção da AG, evitar a administração de óxido nitroso e de anestésicos voláteis, como também diminuir o uso de opióides no intra e pós-operatórios. Nos pacientes estudados, não foi utilizado propofol como indutor e na manutenção da anestesia para que não influísse no estudo. Além disso, seu preço mais elevado, em relação ao dos outros agentes indutores, pode influir no custo do tratamento seja no sistema público de saúde ou no privado.

Entre os medicamentos utilizados para a profilaxia de NVPO, o droperidol tem sido muito utilizado na prática clínica, sendo as baixas doses (inferiores a 1 mg) as mais usadas, com bons resultados 8,22,23. Recentemente, o FDA fez uma advertência sobre o uso do droperidol. Essa advertência baseia-se em eventos que podem produzir um risco de morte associados à QT longo e torsades de pointes. Essa advertência tem como base a publicação de dez casos clínicos associados ao seu uso (1,25 mg ou menos), em um período superior a 30 anos de prescrição do fármaco 11. É interessante destacar que, ao revisar a literatura, não há relatos publicados, que associem o uso de droperidol em doses pequenas para manuseio de NVPO, disritmias cardíacas, QT longo e parada cardíaca 24. Recentemente, Zhang e col. 25 demonstraram num estudo eletrofisiológico em voluntários sadios, a falta de influência de baixas doses de droperidol na incidência de disritmias e na extensão do QT. Esses resultados são corroborados pelos trabalhos de Charbit 26 e White 27.

Considerando essas duas últimas publicações, as baixas doses de droperidol seriam a primeira escolha para a profilaxia e o controle de NVPO. Na série de pacientes estudados, com apendicite aguda, doença comum entre as urgências cirúrgicas, o droperidol demonstrou ser o fármaco mais efetivo na profilaxia de NVPO, obtendo significativas vantagens na redução da incidência desse fenômeno, com relação ao granisetron, tropisetron e à metoclopramida (p < 0,05), e também com relação à administração de dexametasona e placebo (p < 0,005). A freqüência de náuseas e vômitos naqueles pacientes que apresentaram esse desagradável sintoma, foram bem menores nos grupos droperidol (p < 0,0001), metoclopramida, tropisetron e granisetron (p < 0,001) com relação ao grupo placebo. Abreu e col. 28 comprovaram esses resultados numa série de 100 pacientes operadas por videolaparoscopia ginecológica, em que o droperidol apresentou a mesma incidência de náuseas que o ondansetron.

A administração de metoclopramida 20 mg, por via venosa, na profilaxia de NVPO, ao fim de colecistectomia laparoscópica foi comparável à administração de 8 mg de ondansetron 29. Na série estudada a incidência NVPO foi de 12% quando os pacientes receberam como profilaxia metoclopramida (209 mg), granisetron e tropisetron.

A eficiência dos antagonistas 5-HT3 foi estudada principalmente em profilaxia de NVPO em procedimentos cirúrgicos efetivos 30-32. Os custos associados à administração desses fármacos não são um problema menor. Sua utilização não deveria ser a primeira escolha em detrimento dos classicamente utilizados na profilaxia de NVPO, dada a controvérsia sobre a relação custo-benefício tanto em intervenções cirúrgicas de urgência como eletivas. Os novos fármacos 5-HT3 deveriam ser utilizados como segunda opção para o tratamento das NVPO, quando houvesse falha com os medicamentos tradicionais, já que o custo dos últimos é menor. Nos pacientes com fatores de risco para NVPO e com antecedentes documentados de fracasso na eficácia profilática dos medicamentos habituais, poderia ser considerada prevenção com fármacos antagonistas 5-HT3.

A dexametasona demonstrou ser mais efetiva ao ser administrada antes do início da indução da AG 33. Pequenas doses de dexametasona (2,5–5 mg) foram validadas como efetivas para a profilaxia de NVPO 34,35. Os riscos inerentes à administração desse fármaco corticosteróide incluem infecção e supressão adrenal entre outros. Até o momento, não foi demonstrada a incidência de complicações após a administração de bolus único de dexametasona 36. O grupo de pacientes que recebeu dexametasona apresentou alta incidência de NVPO, somente comparável ao grupo que recebeu placebo. Com base nesse resultado seu uso habitual é desaconselhável, principalmente quando houver quadro infeccioso grave associado.

A etiologia multifatorial das NVPO é bem conhecida, relacionada com os quatro tipos de neurotransmissores que modulam a ação na zona quimiorreceptora de gatilho na área postrema: dopamina, serotonina, histamina e acetilcolina. O droperidol e a metoclopramida são fármacos antagonistas dos receptores dopaminérgicos e que agem no sistema nervoso central. Esses estimulam a excitabilidade da zona quimiorreceptora bulbar (zona de gatilho) responsável pelos vômitos. O tropisetron e o granisetron são antagonistas do receptor 5-HT3 e agem inibindo a ação da serotonina, liberada das células enterocromafins do trato gastrintestinal, sobre esse receptor localizado nas terminações de fibras aferentes que caminham pelo vago e dirigem-se para a área postrema do núcleo do trato solitário, responsáveis pela êmese. No caso da dexametasona, embora o seu mecanismo não seja conhecido, supõe-se que pudesse ocorrer pelo antagonismo de prostaglandinas ou pela diminuição da secreção de serotonina intestinal 37. É difícil, do ponto de vista farmacocinético, argumentar sobre a superioridade do droperidol com relação aos fármacos anti 5-HT3, porém diversos autores o confirmam, bem como os resultados do presente estudo. Recentemente, Muñoz e col. 38 mostraram a maior eficácia do droperidol no tratamento da êmese pós-operatória em comparação com a dexametasona e com o ondansetron.

Entre os diversos fatores que influenciam na incidência de NVPO está a hidratação perioperatória 39. Maharaj e col. 40 demonstraram a utilidade de uma adequada e generosa hidratação pré-operatória com uma solução cristalóide balanceada (2 mL.kg-1.h-1 de Ringer e lactato) para diminuir a incidência, a freqüência e a gravidade das NVPO em pacientes com alto risco de apresentarem êmese pós-operatória. No presente estudo para que essa variável não influísse nos resultados a hidratação intra-operatória foi padronizada com 10-12 mL.kg-1 de Ringer com lactato para todos os 150 pacientes. No pós-operatório a hidratação constou de 25 a 30 mL.kg-1 de fluidos nas 48 horas.

Na profilaxia de NVPO para apendicectomia de urgência por laparotomia de McBurney, foi mais efetiva a administração de baixas doses de droperidol comparada à utilização de fármacos de última geração, como também em comparação com a administração de dexametasona e placebo. Na série de 150 pacientes, não foi observada qualquer reação adversa a medicamentos, nem a presença de disritmias no período perioperatório.

 

REFERÊNCIAS

01. Anonymous (editorial). Nausea and vomiting after general anaesthesia. Lancet, 1989;1:651-652.        [ Links ]

02. Watcha MF, White PF – Post operative nausea and vomiting: Its etiology, treatment, and prevention. Anesthesiology, 1992;77: 162-184.        [ Links ]

03. Naguib M, El Barky AK, Khoshim MHB – Prophylactic antiemetic therapy with ondansetron, tropisetron, granisetron and metoclopramide in patients undergoing laparoscopic cholecystectomy: a randomized, double blind comparison with placebo. Can J Anaesth, 1996;43:226-231.        [ Links ]

04. Alon E, Kocian R, Nett Ph – Tropisetron for the prevention of postoperative nausea and vomiting in women undergoing gynecologic surgery. Anesth Analg, 1996;82:338-341.        [ Links ]

05. Janknegt R, Pinkaers JWM, Rohof MHC – Double-blind comparative study of droperidol, granisetron and granisetron plus dexametasone as prophylactic anti-emetic therapy in patients undergoing abdominal gynaecological, breast or otolaryngological surgery. Anaesthesia, 1999;54:1059-1068.        [ Links ]

06. Purhonen S, Kauko M, Koski E – Comparison of tropisetron, droperidol, and saline in prevention of postoperative nausea and vomiting after gynecologic surgery. Anesth Analg 1997;84:662-67.        [ Links ]

07. Jokela R, Koivuranta M – Tropisetron or droperidol in the prevention of postoperative nausea and vomiting. Acta Anaesthesiol Scand, 1999;43:645-50.        [ Links ]

08. Henzi I, Sonderegger J, Tramer M – Systematic review: efficacy, dose-response, and adverse effects of droperidol for prevention of postoperative nausea and vomiting. Can J Anaesth, 2000;47:537-51.        [ Links ]

09. White PF – Droperidol: a cost-effective antiemetic for over 30 years! Anesth Analg, 2002;95:789-790.        [ Links ]

10. Bailey P, Norton R, Karan S – The FDA droperidol warning: is it justified? Anesthesiology, 2002;97:288-289.        [ Links ]

11. Habib AS, Gan TJ – FDA black box warning on the postoperative use of droperidol: a review of the cases. Anesth Analg, 2003;96:1377-1379.        [ Links ]

12. White PJ, Watcha MF – Postoperative nausea and vomiting, profilaxis versus treatment. Anesth Analg1999;89:1337-1339.        [ Links ]

13. Coloma M, White PF, Markowitz SD – Dexametasona in combination with dolasetron for prophylaxis in the ambulatory setting. Anesthesiology, 2002;96:1346-1350.        [ Links ]

14. Watcha MF – The cost-effective management of postoperative nausea and vomiting. Anesthesiology, 2000;92:931-933.        [ Links ]

15. Hill RP, Lubarsky DA, Phillips-Bute B – Cost-effectiveness of prophylactic antiemetic therapy with ondansetron, droperidol, or placebo. Anesthesiology, 1998;68:731-738.        [ Links ]

16. Tang J, Watcha MF, White PJ – A comparison of costs and efficacy of ondansetron and droperidol as prophylactic antiemetic therapy for elective outpatient's gynecologic procedures. Anesth Analg, 1996;83:304-313.        [ Links ]

17. Gold BS, Kitz DS, Lecky JH – Unanticipated admission to the hospital following ambulatory surgery. JAMA, 1989;262:3008-3010.        [ Links ]

18. Fortier J, Chung F, Su J – Unanticipated admission after ambulatory surgery: a prospective study. Can J Anaesth, 1998;45: 612-619.        [ Links ]

19. Gan T, Sloan F, Dear G – How much are patients willing to pay to avoid postoperative nausea and vomiting? Anesth Analg, 2001;92:393-400.        [ Links ]

20. Cohen MM, Duncan PG, De Boer DP – The postoperative interview: assessing risk factor for nausea and vomiting. Anesth Analg, 1994;78:7-16.        [ Links ]

21. Gan T, Meyer T, Apfel C – Consensus guidelines for managing postoperative nausea and vomiting. Anesth Analg, 2003; 97:62-71.        [ Links ]

22. Domino KB, Anderson EA, Polissar NL – Comparative efficacy and safety of ondansetron, droperidol, and metoclopramida for preventing postoperative nausea and vomiting: a meta-analysis. Anesth Analg, 1999;88:1370-1379.        [ Links ]

23. Fortney JT, Gan TJ, Graczyk S – A comparison of the efficacy, safety, and patient satisfaction of ondansetron, versus droperidol as antiemetics for elective outpatients' surgical procedures. S3A-409 and S3A-410 study groups. Anesth Analg 1998;86: 731-738.        [ Links ]

24. Gan TJ – Post-operative nausea and vomiting: can it be eliminated? JAMA, 2002;287:1233-1236.        [ Links ]

25. Zhang Y, Lou Z, White PJ – A model for evaluating droperidol s effects on the median QTc interval. Anesth Analg, 2004;98:1300-1305.        [ Links ]

26. Charbit B, Albaladejo P, Funk-Brentano C et al. – Prolongation of QTc interval alter postoperative nausea and vomiting treatment by droperidol or ondansetron. Anesthesiology, 2005;102: 1094-1100.        [ Links ]

27. White PF, Song D, Abrao J et al. – Effect of low dose droperidol on the QT interval during and after general anesthesia. Anesthesiology, 2005;102:1101-1105.        [ Links ]

28. Abreu MP, Vieira JL, Silva IF et al. – Eficácia do ondansetron, metoclopramida, droperidol e dexametasona na prevenção de náusea e vômito após laparoscopia ginecológica em regime ambulatorial. Estudo comparativo. Rev Bras Anestesiol 2006; 56:8-15.        [ Links ]

29. Quaynor H, Reader JC – Incidence and severity of postoperative nausea and vomiting are similar after metoclopramide 20 mg and ondansetron 8 mg given by the end of laparoscopic cholecystectomies. Acta Anaesthesiol Scand, 2002;46:109-113.        [ Links ]

30. Wilson AJ, Diemunsh P, Lindeque BJ – Single-dose iv granisetron in the prevention of postoperative nausea and vomiting. Br J Anaesth, 1996;76:515-518.        [ Links ]

31. Mikawa K, Takao Y, Nishina K et al. – Optimal dose of granisetron for prophylaxis against postoperative emesis after gynecological surgery. Anesth Analg, 1997;85:652-661.        [ Links ]

32. DiBruijn KM – Tropisetron. Drugs 1992;43:11-22.        [ Links ]

33. Wang JJ, Ho ST, Tzeng JI et al. – The effect of timing of dexametasona administration on its efficacy as a prophylactic antiemetic for postoperative nausea and vomiting. Anesth Analg, 2000; 91:136-139.        [ Links ]

34. Liu K, Hsu CC, Chia YY – The effective dose of dexametasona for antiemesis after major gynecological surgery. Anesth Analg, 1999;89:1316-1318.        [ Links ]

35. Wang JJ, Ho ST, Tzeng JI et al. – The use of dexametasona for preventing postoperative nausea and vomiting in females undergoing thyroidectomy: a dose-ranging study. Anesth Analg, 2000;91:1404-1407.        [ Links ]

36. Henzi I, Walder B, Tramer MR – Dexametasona for the prevention of postoperative nausea and vomiting: a quantitative systematic review. Anesth Analg, 2000;90:186-194.        [ Links ]

37. Acalovschi I – Postoperative nausea and vomiting. Curr Anaesth Crit Care 2002;13:37-43.        [ Links ]

38. Muñoz HR, Ibacache ME, Mertz VF – Eficacia de la dexametasona en el tratamiento agudo de nauseas y vómitos posoperatorios. Comparación con droperidol y ondansetrón. Rev Med Chile, 2006;134:697-702.        [ Links ]

39. Ali SZ, Taguchi A, Holtmann B et al. – Effect of supplemental pre-operative fluid on post-operative nausea and vomiting. Anaesthesia, 2003;58:775803.        [ Links ]

40. Maharaj CH, Kallam SR, Malik A et al. – Preoperative intravenous fluid therapy decreases postoperative nausea and pain in high risk patient. Anesth Analg,2005;100:675-82.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dr. Víctor Contreras-Domínguez
Hospital Clínico Regional de Concepción
Calle San Martín, 1436
Concepción, Chile
E-mail: viccontredom@yahoo.com; dr.vcontreras@gmail.com

Apresentado em 13 de dezembro de 2006
Aceito para publicação em 22 de outubro de 2007

 

 

* Recebido do Serviço de Urgências, Hospital Clínico Regional de Concepción, Universidade de Concepción, Concepción, Chile