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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.4 Campinas July/Aug. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000400005 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Padronização da anestesia em suínos para procedimentos cirúrgicos cardiovasculares experimentais*

 

Estandarización de la anestesia en cerdos para procedimientos quirúrgicos cardiovasculares experimentales

 

 

Glaucylara Reis GeovaniniI; Fábio R. PinnaII; Flávio A. P. PradoII; Wagner Tetsuji TamakiIII; Euclides MarquesIII

IEstagiária do Marcapasso - Incor/SP FMUSP
IIAcadêmicos do Quarto Ano da FMUSP
IIIMédicos do Incor - HC/FMUSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVO: Embora sejam os cães os animais mais utilizados em Cirurgia Experimental, nota-se crescente utilização de ovinos, bovinos e suínos como modelos para experimentação científica. Assim, faz-se necessário maior aprendizado de seu tratamento e padronizações básicas para os procedimentos cirúrgicos mais complexos em suínos. O objetivo foi avaliar a sedação e analgesia, obtidas pela injeção intramuscular de midazolam e cetamina e anestesia local com lidocaína a 2% sem vasoconstritor, na realização de traqueostomia, dissecção de artéria e veia femorais.
MÉTODO: A freqüência cardíaca e o reflexo córneo-palpebral foram avaliados logo no início da sedação, durante os procedimentos cirúrgicos descritos e após seu término. Foram utilizados oito suínos fornecidos por fazendas locais sem tratamento prévio da raça Large White, com peso de 35 a 42 quilos que receberam injeção intramuscular de 22 mg.kg-1 de cetamina e 0,3 mg.kg-1 de midazolam.
RESULTADOS: A abordagem anestésica nesses animais, de difíceis intubação e acesso aos vasos profundos, provou ser segura para sedação e analgesia através do método utilizado: acesso intramuscular.
CONCLUSÃO: Obteve-se adequado plano de anestesia para o procedimento proposto.

Unitermos: ANALGÉSICOS: cetamina; ANIMAIS: porcos; CIRURGIA: experimental; HIPNÓTICOS, benzodiazepínicos: midazolam.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: Aunque los perros sean los animales más a menudo usados en Cirugía Experimental, se nota un aumento en la utilización de los ovinos, bovinos y porcinos como modelo para experimentación científica. De esa forma, se hace necesario aprender más con su tratamiento y estandarizaciones básicas para los procedimientos quirúrgicos más complejos en porcinos. El objetivo fue evaluar la sedación y la analgesia obtenidas por la inyección intramuscular de midazolán y la cetamina y anestesia local con lidocaína a un 2% sin vasoconstrictor, en la realización de traqueostomía, disección de arteria y vena femorales.
MÉTODO: La frecuencia cardíaca y el reflejo córneo-palpebral fueron evaluados inmediatamente al inicio de la sedación, durante los procedimientos quirúrgicos descritos y después en su conclusión. Se utilizaron ocho porcinos que fueron suministrados por haciendas de la región sin tratamiento previo de la raza Large White, con peso de 35 a 42 kilos que recibieron inyección intramuscular de 22 mg.kg-1 de cetamina y 0.3 mg.kg-1 de midazolán.
RESULTADOS: El abordaje anestésico en esos animales, de difícil intubación y acceso a los vasos profundos, demostró ser seguro para la sedación y analgesia a través del método utilizado: el acceso intramuscular.
CONCLUSIÓN: Se obtuvo un adecuado plan de anestesia para el procedimiento propuesto.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde o seu início, a Cirurgia Cardíaca tem ancorado seu avanço e desenvolvimento em pesquisas realizadas em animais, sendo o cão a espécie mais utilizada, porém tem crescido a utilização de bovinos, ovinos e suínos1,2. Os cães utilizados em nosso meio são capturados nas ruas e liberados pela Secretaria de Saúde. Muitos desses animais não têm raça definida, apresentando variação de tamanho, peso, idade e condições de saúde precárias. O fornecimento pelos criadores locais de suínos consangüíneos padronizados em relação a raça, peso, idade, sexo, condições de saúde e sem variações sazonais tem estimulado a sua utilização em pesquisas2. Entretanto, é necessário um novo aprendizado em sua manipulação para evitar o sofrimento desnecessário do animal, aliado às padronizações básicas para os procedimentos cirúrgicos mais complexos.

O objetivo do presente estudo foi avaliar a sedação e a analgesia, utilizando as variáveis freqüência cardíaca e reflexo córneo-palpebral, mediante injeção intramuscular de midazolam e cetamina associada à anestesia local com lidocaína 2% sem vasoconstritor, para realização de traqueostomia e dissecção de artérias e veias femorais.

 

MÉTODO

Foram utilizados oito suínos da raça Large White, fornecidos de fazendas locais, sem tratamento prévio, mantidos em jejum alimentar na noite anterior ao experimento. Os animais receberam injeção intramuscular de cloridrato de cetamina na dose de 22 mg.kg-1 e midazolam 0,3 mg.kg-1, peso calculado a partir da informação do fornecedor2,3. A seguir, foram imediatamente pesados e encaminhados para sala de operação. Procedeu-se à monitoração do eletrocardiograma de superfície contínua com a utilização do polígrafo Gould T5000 e avaliação do reflexo córneo-palpebral antes, durante e após a realização das dissecções cirúrgicas. Complementou-se a anestesia com infiltração subcutânea de lidocaína 2% nos locais onde foram realizadas as dissecções vasculares e a traqueostomia. Com essa anestesia fez-se uma incisão longitudinal mediana que se estendia cranialmente por 10 centímetros, a partir da fúrcula esternal (Figura 1). A traquéia foi exposta por traqueostomia, e introduziu-se uma cânula Rush traqueal 8,5F. Com essa mesma incisão cutânea foram identificadas a veia jugular interna e a artéria carótida comum direita, sendo a veia jugular interna direita o local da introdução de um cateter de Hemaque 8F (Figura 2). A artéria e a veia femoral também foram dissecadas e cateterizadas. O acesso foi realizado por inguinotomia esquerda, sendo essas estruturas vasculares profundas e recobertas por músculos adutores que dificultam sua dissecção (Figura 3). A freqüência cardíaca e o reflexo córneo-palpebral, provocado pelo toque com o dedo, foram avaliados antes, durante e após o procedimento cirúrgico, sendo esses dados submetidos à análise estatística, pelo método de Análise de Variância dos postos (médias), sendo considerados valores significativos quando p < 0,05. O reflexo córneo-palpebral poderia estar presente ou ausente.

 

 

 

 

 

 

RESULTADOS

Os resultados são apresentados na tabela I, onde é possível verificar que as avaliações realizadas sobre a freqüência cardíaca (FC) no início e no final do experimento não apresentaram alterações significativas. O intervalo de tempo entre a sedação intramuscular e o término dos procedimentos propostos foi de 24 a 32 minutos. Os animais estudados tinham peso entre 35 e 42 kg (média de 40,1 kg e desvio-padrão de 2,23). O reflexo córneo-palpebral também não mostrou diferenças em relação aos diferentes momentos do experimento, estando ausente em todos.

 

DISCUSSÃO

Apesar da sua crescente utilização em pesquisas em várias áreas da medicina, os suínos apresentam características que dificultam seu manuseio, como ausência de veias superficiais e dificuldade de intubação traqueal3,4. Na ausência de veias superficiais de bom calibre, buscou-se uma alternativa anestésica de efeito rápido na indução de hipnose e analgesia, possível de ser administrada por via intramuscular e com alta margem de segurança4,5. A intubação traqueal em porcos é dificultada pela sua profundidade, além da mobilidade e do estreitamento da glote (Figura 4), sendo necessário o uso de lâminas de laringoscópio de 20 centímetros, nos casos estudados. Alguns autores sugerem medidas para orientar a realização de traqueostomia nesses animais6, sendo este um outro assunto a ser discutido. Uma vantagem adicional é que com a traqueostomia é facilitada a manutenção da cânula e o desmame do ventilador, necessário quando são realizados experimentos que necessitem sobrevivência dos animais em operações de grande porte, como as cardiovasculares. Pela mesma incisão é possível o acesso às veias jugulares e artérias carótidas. Entretanto, após o conhecimento da anatomia da veia cava anterior, foi possível em outros experimentos obter acesso venoso central por punção6,7.

 

 

O agente anestésico ideal para o experimento proposto deveria:

a) Produzir sedação, analgesia e relaxamento muscular sem comprometimento hemodinâmico.

b) Apresentar alta margem de segurança.

c) Ter início rápido e pronta recuperação após interrupção da administração.

d) Ter metabolização regular com boa correlação dose-efeito.

e) Ser de fácil administração.

f) Ausência de efeitos tóxicos (imediatos ou tardios).

g) Compatibilidade com o animal do estudo.

h) Correlação com medicamentos utilizados em humanos.

i) Consumo, custo e disponibilidade acessíveis.

A escolha do anestésico levou em consideração também:

1) Considerações relativas ao procedimento: tipo de operação, sua duração, intensidade de dor potencialmente induzida durante a operação e atividades dos fármacos nas variáveis estudadas.

2) Considerações relativas ao animal: espécie animal, comportamento, correlação com a espécie humana, peso-idade e sexo do animal, metabolização, distribuição do anestésico nos diferentes compartimentos corpóreos, exposição prévia a medicamentos, tendência específica a toxicidade, concomitância de experimentos.

Alguns anestésicos inalatórios estão associados ao desenvolvimento de hipertermia maligna, como o caso do isoflurano8. Anestésicos locais, como a bupivacaína, apesar de adequada e duradoura anestesia local, predispõem esses animais a desenvolverem disritmias ventriculares fatais. Outros anestésicos, como a medetomidina, podem levar a depressão cardiovascular9. O fentanil é uma fenilpiperidina, sendo 60 a 80 vezes mais potente que a morfina, altamente lipossolúvel, depositando-se em tecido gorduroso, sendo rapidamente metabolizado no fígado10. Apesar de sua eficiência na analgesia e sedação leva à depressão respiratória, precipitando a ventilação mecânica em um animal de difícil intubação traqueal10,11. Sua administração é por via venosa, e em experimentos prévios com suínos houve elevado consumo desse medicamento, tendo sido necessária a sua associação a outros fármacos como benzodiazepínicos12. Os benzodiazepínicos, apesar de adequada sedação, não apresentam boa analgesia, sendo, portanto, difícil a manipulação do animal sem a associação a outro anestésico. O propofol é um alquilfenol com propriedades hipnóticas. A sua depuração excede o fluxo sangüíneo hepático, sugerindo metabolismo extra-hepático ou eliminação extra-renal. Pode induzir diminuição da pressão arterial e da freqüência cardíaca. Não produz boa analgesia e sua via de administração é venosa12. O cloridrato de cetamina produz anestesia dissociativa e, após curto período de 30 a 40 segundos, inicia-se um quadro de inconsciência que pode, após uma única dose, durar 15 minutos e uma profunda analgesia por 40 minutos. Outros efeitos da cetamina são aumento do tônus muscular ocorrendo contrações musculares involuntárias e bruscas, diminuição da resistência das vias aéreas, risco quase abolido de broncoespasmo, aumento de pressão arterial até 25% juntamente com aumento de débito e freqüência cardíacas, causados por aumento da atividade simpática12,13. A associação ao midazolam que é um benzodiazepínico de ação rápida pode manter a inconsciência durante todo o procedimento cirúrgico realizado. O midazolam apresenta em sua estrutura molecular um anel benzeno fundido a um anel diazepínico de sete átomos, um substituindo 5-arílico e um anel 1,4-diazepínico, além de um anel imidazol fechado no radical 1. Em situações de taquicardia, o midazolam pode diminuir o débito cardíaco12,13.

A associação de cetamina ao midazolam mostrou-se adequada para a proposta cirúrgica de estabelecer via aérea segura e adequados acessos venoso e arterial1. A depressão respiratória não é muito observada em doses habituais desses medicamentos, e sua associação no presente experimento permitiu a realização das dissecções sem o desencadeamento de disritmias cardíacas ou perda do plano anestésico.

Entretanto, este estudo tem a limitação de não avaliar os volumes ventilatórios, nem os exames gasométricos antes e após a sedação, pois a intubação e os acessos arterial e venoso só foram obtidos após a realização da anestesia, sendo possível em estudos posteriores realizar essas medidas, uma vez padronizados os métodos anestésico, cirúrgico e ventilatório. Estudos recentes também comprovam o benefício da cetamina, com poucos efeitos hemodinâmicos, durante anestesia de suínos hipovolêmicos, em comparação com outros agentes anestésicos, como a lidocaína14.

Foi possível concluir que a anestesia com cetamina e midazolam com complementação de anestesia local com lidocaína foi eficaz e segura para os procedimentos cirúrgicos propostos.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Dra. Glaucylara Reis Geovanini
Divisão Cirúrgica
Rua Dr. Enéas de Carvalho, 25
05401-900 São Paulo, SP
E-mail: gal.reis@globo.com

Apresentado em 24 de abril de 2007
Aceito para publicação em 8 de abril de 2008

 

 

* Recebido do Instituto do Coração (Incor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), São Paulo, SP