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vol.58 issue5ReplyDr. Raphael Augusto Bellini *22/10/1927 - †04/04/2008 author indexsubject indexarticles search
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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.5 Campinas Sept./Oct. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000500018 

NECROLÓGIO

 

João Lopes Vieira
*22/07/1935 - 28/04/2008

 

 

Tive o privilégio de conhecer o Prof. Dr. João Lopes Vieira logo no início de suas atividades no Centro de Ensino e Treinamento em Anestesiologia do Instituto Penido Burnier, em 1969. Naquela época, eu era acadêmico de Medicina e freqüentava o serviço nas férias. Por fazer o curso na mesma faculdade em que ele havia se formado, há sete anos, tivemos muitos assuntos para conversar.

Contou-me sobre sua origem, do seu sonho que se realizou e das perspectivas de vida na sua nova casa. Pude verificar sua agilidade na execução de uma anestesia, seu amor aos estudos, o espírito de lealdade e o respeito para com os pacientes.

Disse-me: - Se você quiser ser anestesiologista terá de saber muita fisiologia, farmacologia, anatomia aplicada e clínica. O anestesiologista não deve ficar somente confinado nas salas de operação. Desde o pré-operatório até os cuidados no pós-operatório imediato, temos de estar sempre presentes. Vieira foi sim, no nosso meio, o pioneiro daquilo que se preconiza atualmente: o anestesiologista deve se dedicar à medicina perioperatória.

De fato, em 1972, quando iniciei o meu curso de especialização, Vieira, juntamente com o Dr. Alfredo Porto e Dr. Masami Katayama, inaugurou um Consultório de Avaliação Pré-anestésica no Hospital de Otorrinolaringologia do Instituto Penido Burnier, hoje Hospital Santa Sofia. O hospital cultivava, desde aquela época, outras especialidades cirúrgicas, como Cirurgia Plástica, Urologia, Cirurgia Pediátrica, Ortopedia, Proctologia, Ginecologia e Odontologia. Assim, todos os pacientes passaram a ser avaliados dias antes da cirurgia. A melhora do relacionamento paciente-anestesiologista-cirurgião, com essa prática, fez do hospital um dos pioneiros no atendimento a pacientes de curta permanência hospitalar. Vieira teve uma história de vida marcante. Nascido em Araçatuba, interior de São Paulo, filho de portugueses, mudou-se sozinho para o Rio de Janeiro e formou-se em Medicina pela Faculdade Nacional de Medicina da Universidade do Brasil (Praia Vermelha), hoje Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

De origem humilde, teve de lutar na cidade grande para realizar seu sonho. Morava na casa do estudante da faculdade, tendo sido o seu coordenador várias vezes.

Com as oportunidades que a cidade do Rio de Janeiro sempre ofereceu aos estudantes, Vieira não perdeu tempo e participou de cirurgias, de atendimentos em prontos-socorros e ao atendimento às gestantes na Maternidade Clara Basbaum. Teve as portas abertas para ser cirurgião, clínico ou obstetra, escolhendo, porém, a Anestesiologia como especialidade.

Casou-se com Vera Lúcia Lopes Vieira e mudou-se para a cidade de Oswaldo Cruz, transferindo-se posteriormente para Birigui, perto da sua cidade natal. Nesse período nasceram suas quatro filhas: Sheila, engenheira, radicada nos EUA, Letícia, anestesiologista da PUCCAMP, Denise, farmacêutica em Campinas, e Gladys, astrônoma da NASA. Quando estava trabalhando em Birigui, prestou em Porto Alegre o concurso para obtenção do Título Superior em Anestesiologia (TSA), tendo sido aprovado.

Com sete anos de formado, porém, preocupado com a educação das filhas, não hesitou em aceitar o convite do Prof. Dr. Alberto Affonso Ferreira para transferir-se para Campinas. Sabia que teria de começar tudo de novo. No entanto, coragem e arrojo não lhe faltaram.

Esse espírito arrojado causou grande polêmica quando, em meados da década de 1970, preconizou o uso de betabloqueadores em anestesia geral, visando principalmente à hipotensão arterial induzida, para diminuição do sangramento no campo operatório. Foi além ao dizer, em suas palestras, que os betabloqueadores protegiam o coração, evitavam a indesejável taquicardia e que não deveriam ser suspensos no pré-operatório. Com os escassos meios de monitorização a proposta era realmente corajosa, mas sua casuística e resultados, corroborados com publicações da literatura internacional, tornaram, mais tarde, a proposta incontestável.

Era também um aficcionado da anestesia regional. Percorria com extrema habilidade todos os segmentos da coluna vertebral. Casuística pessoal de mais de 2.000 casos de anestesia peridural torácica permitia-lhe afirmar que a técnica era segura. No entanto, tudo isso foi feito numa época em que a anestesia peridural torácica era muito contestada e, assim, mais um assunto polêmico foi introduzido na literatura nacional pelo Dr. Vieira, juntamente com outros autores.

Em co-autoria com o Dr. Masami Katayama foi o primeiro a publicar, na Revista Brasileira de Anestesiologia (RBA), o uso da anestesia subaracnóidea para artroscopia de joelho em regime ambulatorial. Mais uma vez lançou-se a discutir um assunto de impacto. Escreveu, junto com outros autores, vários artigos que foram publicados na RBA.

Teve alguns trabalhos laureados. Em co-autoria com Masami Katayama, ganhou cinco vezes o Prêmio AGA, por publicações originais sobre o emprego clínico do óxido nitroso e, em co-autoria com Lutti MN, Cangiani LM, Simoni RF e Silva LA, foi vencedor do Prêmio SAESP do ano 2000, prêmio este outorgado pela Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo ao melhor artigo publicado na RBA durante o ano. O artigo versa sobre analgesia controlada pelo paciente com morfina ou fentanil por via peridural.

Estudioso de anatomia detinha-se horas a estudar o plexo braquial nas publicações e em peças anatômicas. O manguito músculo-aponevrótico, envoltório do plexo, segundo ele, poderia ser abordado em vários níveis e num deles centrou sua experiência ao desenvolver uma técnica que leva seu nome.

A técnica foi objeto de sua tese de doutoramento (então já com 63 anos) defendida junto à Faculdade de Ciências Médicas de Botucatu, sob orientação do Prof. Dr. Pedro Thadeu Galvão Vianna. Hoje, com a ultra-sonografia é possível atingir o ponto por ele preconizado com mais facilidade.

Foi professor de Anestesiologia da Faculdade de Medicina da PUC Campinas e da PUC Sorocaba.

Tinha a exata noção da importância da SBA e da SAESP, com as quais colaborou direta e indiretamente. Diretamente, ao participar da Comissão Científica da SAESP e da Comissão de Ensino e Treinamento da SBA. Indiretamente, ao proporcionar tempo para que os membros do CET pudessem participar das atividades associativas. Foi responsável pelo CET do Instituto Penido Burnier no período de 1986 a 2000. Lutou muito com problemas nas coronárias (submeteu-se a várias coronarioplastias), voltando sempre muito ativo ao trabalho. No entanto, foi vencido por um AVC, que o tirou da sala de operação. Lutou três anos para tentar se recuperar. Nesse período, escreveu capítulos de livros e um artigo extraído de sua tese de doutorado para a revista Anesthesiology, mas era visível sua angústia por não poder voltar a realizar anestesia.

Era feliz como anestesiologista. Voltado inteiramente ao trabalho, fazia da anestesia uma atividade prazerosa. Servia ao paciente, aos cirurgiões, à instituição e aos amigos com dedicação e desprendimento. Certamente no além, onde talvez não exista lugar para polêmicas, continuará aspergindo fé, esperança e incentivo, com carinho especial para aqueles que fazem da anestesia um momento feliz.

Luiz Marciano Cangiani, TSA
Co-Responsável pelo CET do Instituto Penido Burnier e Centro Médico de Campinas