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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.58 no.6 Campinas Nov./Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942008000600015 

NECROLÓGIO

 

Valdir Medrado, o Educador

 

 

("On doit la verité aux morts" - Bossuet)

Morreu, no dia 15 deste mês (agosto de 2008), Valdir Cavalcante Medrado. E seria uma omissão muito grande se a sua morte ficasse sem registro, porque ele foi um dos maiores expoentes da anestesiologia brasileira. Teve militância associativa, foi presidente da SBA, criou a SBA volante, levando às capitais distantes do Brasil, numa época em que não se dispunha da internet (1973) nem mesmo de facilidades de telefonia a distância, a atualização necessária ao progresso da especialidade. Arautos da melhor categoria, a começar por ele próprio, foram escalados para discutir assuntos de sua competência nas capitais mais distantes do Brasil, quando os colegas desses lugares tiveram oportunidade de ouvir e discutir temas importantes com Álvaro Eugenio, Zairo Vieira, Carlos Parsloe, Danilo Duarte, Guilherme Kurtz (pesquisador de farmacologia e autoridade em temas pertinentes à Anestesiologia, sobretudo bloqueadores neuromusculares). Valdir Medrado deu contribuições relevantes à nossa especialidade. Foi ele um dos pioneiros no Brasil do uso da peridural contínua para analgesia obstétrica (recurso apresentado por Philip Bromage, em 1960, no CBA de Goiânia) e foi ele também que trouxe para nós, da Duke University (seu ninho acadêmico nos EUA), o FNS, vaporizador "de bolso" para uso de halotano e metoxifluorano, e que passou a ser fabricado aqui pela indústria Grego/Dameca, sediada em Belo Horizonte. E foi ainda Valdir quem introduziu no Brasil, com estudos e observações em hospital universitário da Bahia, o CI-581, a futura cetamina (Ketalar).

Mas é pouco relevante dizer o que Valdir fez, diante do que ele foi. Como assim? Ele foi um dos maiores educadores da Medicina brasileira no campo da Anestesiologia. Tinha paixão e amor pelo que fazia e uma extraordinária capacidade de motivação e convencimento. Não era um cientista, nem mesmo conferencista ou expositor destacado. Era um apaixonado pelo que fazia e conseguia motivar pessoas. Dele se disse, invocando Machado de Assis, que "não é a verdade que vence, quem vence é a convicção". Ele não se destacava por recursos dialéticos, mas tinha idéias e paixão, e isso, sim, era o seu argumento maior para persuadir e convencer. Valdir preparou mais de 200 anestesiologistas na Bahia. Deu dignidade à especialidade. E ele próprio foi um exemplo de nossa importância e valor na Medicina. Foi Diretor Médico de hospitais renomados de Salvador; fez parte do Conselho Regional e da Associação Bahiana de Medicina, onde idealizou e pôs em prática as jornadas da ABM no interior. Reativou e fez circular a Revista Médica da Bahia e saiu à frente na instalação de UTIs em Salvador. Freqüentou quase 40 congressos norte-americanos de Anestesiologia, sendo ele o primeiro a trazer de lá os Refreshers da ASA, publicação que era, na época, ouro em pó das atualidades em nossa área. E até há pouco tempo o Dr. Valdir era presença certa em todos os congressos brasileiros de Anestesiologia, tendo papel importante na organização dos que foram realizados na Bahia. E, para completar, ele não ficava ausente em nenhum encontro de anestesiologistas da SAEB, viajando pelo interior nos ônibus que levavam os participantes da capital, muitos deles seus ex-alunos, quase todos jovens, que encontravam no seu exemplo inspiração e entusiasmo para viver as experiências e alternativas da especialidade.

Mas Valdir não foi apenas médico e anestesiologista. Foi um apaixonado pela vida e um grande explorador cultural. Achava coisas onde outros não viam nada: artesanatos de Cachoeira, no recôncavo baiano; faianças portuguesas de Dias D'Avila; artistas anônimos de arte popular; coisas que ele mostrava a visitantes estrangeiros - bom cicerone que era - e que causava encantos em todos. (Errou quando levou Severinghaus, o famoso cientista da Anestesiologia mundial, ao primeiro e único shopping center da Bahia, na época, ouvindo dessa celebridade uma exclamação de desagrado, manifestada quase aos gritos: Why did you take me to this american shopping center?") Isso aborreceu Valdir, mas, num cartão enviado dos EUA, Severinghaus agradeceu a acolhida, dizendo que gostou de tudo na Bahia, least that shopping center, o que indica que ambos ficaram tocados pelo episódio.

Valdir deixou esposa, filhos e netos, e uma recordação positiva em todos os que foram tocados por sua influência e conheceram de perto a sua obstinação pelo trabalho e o exemplo de sua conduta ética na Medicina.

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