SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.59 issue2Assessment of the densities of local anesthetics and their combination with adjuvants: an experimental studyAnalysis of the effects of the alveolar recruitment maneuver on blood oxygenation during bariatric surgery author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

Share


Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.59 no.2 Campinas Mar./Apr. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942009000200004 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Influência da técnica anestésica nas alterações hemodinâmicas no transplante renal. Estudo retrospectivo*

 

Influencia de la técnica anestésica en las alteraciones hemodinámicas en el transplante renal. Estudio retrospectivo

 

 

Eunice Sizue Hirata, TSAI; Maria Fernanda BaghinII; Rosa Inês Costa Pereira, TSAI; Gentil Alves FilhoIII; Artur Udelsmann, TSAIV

IProfessora Doutora do Departamento de Anestesiologia da FCM/UNICAMP
IIME3 do CET/SBA do Departamento de Anestesiologia da FCM/UNICAMP
IIIProfessor Doutor da Disciplina de Nefrologia do Departamento de Clínica Médica da FCM/UNICAMP
IVProfessor Livre-Docente pela UNICAMP; Professor Associado do Departamento de Anestesiologia da FCM/UNICAMP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Sucesso no transplante renal (Tx) depende do tipo de doador, da duração da isquemia fria e de parâmetros hemodinâmicos na reperfusão. O objetivo desta pesquisa foi analisar a técnica anestésica, a incidência de alterações cardiovasculares e a ocorrência de diurese no período perioperatório dos Tx realizados na UNICAMP.
MÉTODO: Avaliou-se retrospectivamente Tx de adultos realizados entre janeiro de 2005 e abril de 2006. Consideraram-se dados demográficos, exames laboratoriais pré-operatórios, técnicas e agentes anestésicos, hidratação, parâmetros hemodinâmicos, emprego de aminas vasoativas, presença de diurese e complicações intra-operatórias, com análise comparativa entre os subgrupos formados conforme a técnica anestésica empregada. Foram usados na análise estatística o teste t de Student (paramétricos), Mann-Whitney (não paramétricos), teste do Qui-quadrado e Exato de Fisher para comparação de proporções e análise multivariada.
RESULTADOS: Estudaram-se 92 pacientes, 59 com anestesia geral (AG) e 33 anestesia geral associada à peridural (AG + Peri), 42 receberam rim de doadores vivos e 50 de falecidos. Não houve diferença (p > 0,05) na maioria dos parâmetros pré-operatórios estudados, exceção feita à origem do enxerto (82% AG + Peri receberam rins de doador falecido). A alteração cardiovascular mais frequente foi hipotensão arterial (30% AG e 48% AG + Peri, p < 0,05). Regime de hidratação não diferiu entre os grupos (86,7 ± 30,2 mL.kg-1 AG e 94,8 ± 21,8 mL.kg-1 AG+Peri, p = 0,38). Enxerto de doador falecido correlacionou-se a maior instabilidade hemodinâmica e pior prognóstico para função imediata do enxerto, p < 0,01 e 0,01, respectivamente. Volume de hidratação de 80 mL.kg-1 associou-se à diurese (OR = 2,94, IC95% 1,00-8,32).
CONCLUSÕES: A técnica anestésica empregada foi anestesia geral, associada ou não à peridural. Alteração hemodinâmica mais comum foi hipotensão arterial. Mostraram-se benéficos em relação à diurese ser receptor de doador vivo e receber hidratação de 80 mL.kg-1 de solução fisiológica a 0,9%.

Unitermos: CIRURGIA, Urológica: transplante renal; COMPLICAÇÕES: hemodinâmicas, função imediata do enxerto, diurese.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El éxito en el transplante renal (Tx) depende del tipo de donador, de la duración de la isquemia fría y de los parámetros hemodinámicos en la reperfusión. El objetivo de esta investigación fue analizar la técnica anestésica, la incidencia de alteraciones cardiovasculares y el aparecimiento de diuresis en el período perioperatorio de los Tx realizados en la UNICAMP.
MÉTODO: Se evaluó retrospectivamente Tx de adultos realizados entre enero de 2005 y abril de 2006. Se tuvieron en cuenta los datos demográficos, los exámenes laboratoriales preoperatorios, técnicas y agentes anestésicos, hidratación, parámetros hemodinámicos, el uso de aminas vasoactivas, la presencia de diuresis y complicaciones intraoperatorias, con análisis comparativo entre los subgrupos formados conforme a la técnica anestésica empleada. Se usaron en el análisis estadístico el test t de Student (paramétricos), Mann-Whitney (no paramétricos), test del Cui-cuadrado y Exacto de Fisher para la comparación de proporciones y análisis multivariada.
RESULTADOS: Se estudiaron 92 pacientes, 59 con anestesia general (AG) y 33 anestesia general asociada a la epidural (AG + Peri), 42 recibieron riñones de donantes vivos y 50 de fallecidos. No hubo diferencia (p < 0,05) en la mayoría de los parámetros preoperatorios estudiados, con excepción del origen del injerto (82% AG + Peri recibieron riñones de donante fallecido). La alteración cardiovascular más frecuente fue la hipotensión arterial (30% AG y 48% AG + Peri, p < 0,05). El régimen de hidratación no fue diferente entre los grupos (86,7 ± 30,2 mL.kg-1 AG y 94,8 ± 21,8 mL.kg-1 AG+Peri, p = 0,38). El injerto del donante fallecido se correlacionó con una mayor inestabilidad hemodinámica y con un peor pronóstico para la función inmediata del injerto, p < 0,01 y 0,01 respectivamente. Un volumen de hidratación de 80 mL.kg-1 se asoció a la diuresis (OR = 2,94, IC95% 1,00-8,32).
CONCLUSIONES: La técnica anestésica empleada fue anestesia general, asociada o no a la epidural. La alteración hemodinámica más común fue la hipotensión arterial. Se mostraron benéficos con relación a la diuresis por ser de un receptor de donante vivo y recibir una hidratación de 80 mL.kg-1 de solución fisiológica a 0,9%.


 

 

INTRODUÇÃO

Transplantes renais (Tx) são realizados desde 1906; no entanto, apenas após 1960, com o desenvolvimento de novos imunossupressores 1, em especial os inibidores de calcineurinas, o reconhecimento do conceito de morte encefálica e a seleção adequada do binômio doador-receptor 2, os Tx se tornaram o tratamento de escolha para os pacientes com insuficiência renal crônica terminal 3.

O Tx está associado a melhor qualidade de vida, melhor relação custo/benefício e, possivelmente, maior sobrevida dos pacientes 3. Nas crianças, o transplante realizado precocemente promove melhor crescimento e desenvolvimento 4.

Os primeiros transplantes foram realizados com anestesia espinal, tendo em vista as poucas opções de fármacos disponíveis à época para a realização de anestesia geral. Com o advento de bloqueadores neuromusculares com baixa excreção renal 5 e anestésicos voláteis com baixa percentagem de biotransformação 6, a anestesia geral tornou-se a melhor opção para esses pacientes. Dentre as vantagens da anestesia geral pode-se citar imobilidade absoluta no momento das anastomoses vasculares e controle adequado da ventilação e da perfusão em pacientes com estado geral normalmente comprometido pela uremia 7. Já o êxito no transplante renal depende de outros fatores: tipo de doador, duração da isquemia fria e possibilidade de manutenção de parâmetros hemodinâmicos adequados no momento da reperfusão. Tem sido observado que o bom desempenho cardiovascular relacionado à administração de grandes volumes de soluções cristalóides está associado à função precoce do enxerto 8 e à menor incidência de necrose tubular aguda 9.

O objetivo foi estudar, de modo retrospectivo, a técnica e os agentes anestésicos utilizados na anestesia para Tx realizados no Hospital de Clínicas da UNICAMP, em indivíduos adultos, com foco principalmente nas alterações hemodinâmicas e na diurese.

 

MÉTODO

Foram estudados todos os transplantes renais, de doadores vivos e de falecidos, realizados no período de janeiro de 2005 a abril de 2006, no Hospital de Clínicas da UNICAMP.

Das fichas de avaliação pré-operatória foram obtidos a idade, o sexo, o peso, a altura, a classificação de estado físico segundo a Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA), os valores de hemoglobina, de hematócrito, de potássio, da uréia e da creatinina plasmáticos. Os demais parâmetros foram extraídos da ficha de anestesia, inclusive aqueles relacionados à monitorização intraoperatória. Quando necessário, foram utilizados dados do prontuário médico.

Foram considerados, além dos parâmetros hemodinâmicos, os agentes anestésicos utilizados, a hidratação e as complicações apresentadas durante a anestesia. Foi considerada hipotensão arterial ou hipertensão arterial, variações da pressão arterial sistólica ou pressão arterial média inferiores ou superiores a 30% em relação à inicial, mantida por período igual ou superior a 15 minutos e/ou administração de fármacos vasoativos com a finalidade de aumentar ou diminuir a pressão arterial, respectivamente. Foi considerada bradicardia a frequência cardíaca inferior a 50 batimentos por minuto, e taquicardia a frequência superior a 120 batimentos por minuto. A pressão venosa central (PVC) foi considerada normal para valores entre 2 e 12 cmH2O.

As variáveis categóricas foram descritas por meio de sua distribuição percentual e as contínuas pela média e desvio-padrão. A análise estatística foi realizada utilizando-se o teste Exato de Fisher e o de Qui-quadrado (χ2) para comparação de variáveis categóricas, o teste t de Student e de Mann-Whitney para comparação de médias. O tamanho da amostra foi determinado pelo número de sujeitos encontrados no período de estudo, sendo o poder do teste avaliado após a coleta de dados, considerando-se um erro tipo I de 5%. Para estudar a magnitude do risco dos fatores estudados e sua inter-relação, realizou-se regressão logística múltipla; considerando-se a diurese como variável dependente. O nível de significância foi de 5% e o software utilizado para análise foi o SAS versão 8,2.

 

RESULTADO

Foram submetidos ao transplante renal, no período considerado, 98 pacientes. Dois pacientes foram excluídos do estudo por informações incompletas e quatro por terem menos de 14 anos. Em quatro pacientes houve necessidade de consulta ao prontuário médico para completar as informações. Dos 92 pacientes estudados, 59 receberam anestesia geral (AG) e 33 anestesia geral associada à peridural (AG+Peri). Quanto à origem do enxerto, 42 receberam rim de doadores vivos relacionados e 50 de doadores falecidos. Os pacientes foram subdivididos em dois grupos, segundo a técnica anestésica empregada. As características dos pacientes segundo idade, sexo, peso e altura, além de exames pré-operatórios mostraram-se semelhantes nos dois grupos (p > 0,05), exceto em relação à origem do enxerto, pela predominância de implante de rins de doadores falecidos (82%) no grupo AG+Peri (p < 0.01) (Tabela I). Os grupos AG e AG+Peri também foram comparáveis quanto à presença de doenças associadas, sendo as mais frequentes a hipertensão arterial (p = 0,36), a acidose metabólica (p = 0,13) e a anemia (p = 0,24).

 

 

A monitorização intraoperatória consistiu em: cardioscopia, oximetria de pulso, pressão venosa central, pressão arterial sistólica pelo método de palpação de pulso ou pressão arterial média por punção da artéria radial e cateterização vesical.

A técnica anestésica empregada foi anestesia geral balanceada, venosa e inalatória, com ventilação controlada mecânica em sistema com reabsorção de CO2 nos dois grupos e associada à peridural única, no grupo AG+Peri. O agente inalatório utilizado foi o isoflurano 0,5 a 1,0%, vaporizado em uma mistura de oxigênio e óxido nitroso a 50%. Os anestésicos venosos mais empregados foram o fentanil, sufentanil, propofol e atracúrio. O consumo médio e seu respectivo desvio-padrão, nas duas técnicas anestésicas podem ser vistos na tabela II, sem diferença significativa entre os grupos.

 

 

A hidratação foi mantida com solução fisiológica a 0,9% em infusão média de 86,7 ± 30,2 mL.kg-1 no grupo AG e 94,8 ± 21,8 mL.kg-1 no grupo AG+Peri (p = 0,38). A transfusão de hemoderivados foi realizada quando os valores de hemoglobina eram inferiores a 8 g.dL-1 e não diferiu nos grupos estudados.

Todos os pacientes receberam furosemida, 0,5 a 1,0 mg.kg-1 durante a realização das anastomoses vasculares e todos, exceto três, receberam doses habituais de atropina e neostigmina e foram extubados ao final da operação. A analgesia pós-operatória, no grupo submetido à anestesia peridural, foi realizada com a associação de bupivacaína a 0,25% (32,5 a 50 mg) e morfina 0,03 mg.kg-1. Nos 59 pacientes do grupo da anestesia geral, a analgesia foi realizada com morfina subcutânea, 0,1 mg.kg-1 , associada à infiltração da ferida cirúrgica com 100 mg de bupivacaína a 0,5%. Todos os pacientes foram encaminhados à unidade de terapia intensiva (UTI) no pós-operatório imediato.

Quanto às alterações cardiovasculares encontradas no período perioperatório, objeto desse estudo, verificou-se que a hipotensão arterial ocorreu em 34 pacientes, 17 (29%) do grupo AG e 17 (51%) do grupo AG+Peri (p = 0,03) e PVC > 12 cmH2O ocorreu em 60 pacientes, 42 (71%) do grupo AG e 18 (54%) do grupo AG+Peri, (p = 0,11). Sessenta e sete pacientes apresentavam diurese no final da operação, 44 (74,57%) do grupo AG e 23 (69,69%) do grupo AG + Peri, conforme Tabela III. O emprego de fármaco vasoativo ocorreu de forma idêntica à hipotensão arterial. Nenhum paciente apresentou hipertensão arterial, dois revelaram taquicardia e um bradicardia.

 

 

A origem do enxerto esteve correlacionada à maior instabilidade hemodinâmica e pior prognóstico para função imediata do enxerto. O estudo das associações entre as variáveis: técnica anestésica, hipotensão arterial, PVC e presença de diurese segundo tipo de doador, demonstrou que os pacientes que receberam rim de cadáver apresentaram com maior frequência hipotensão arterial (p < 0,01) e PVC mais baixa que os pacientes que receberam rim de doador vivo. A diurese foi mais frequente entre pacientes que receberam rim de doador vivo relacionado (p = 0,01) (Tabela IV).

 

 

A regressão logística múltipla, considerando as variáveis estudadas e a ocorrência de diurese apontou como fatores significativos a origem do enxerto e o volume de hidratação recebido (Figura 1). O poder do teste foi avaliado nas tabelas III e IV, sendo de aproximadamente 60% e 80% respectivamente, exceto para PVC > 12, que apresentou um poder de 37% na associação com o tipo de técnica anestésica e de 55% com o tipo de doador. A diurese apresentou o poder mais baixo (10%) na associação com a técnica anestésica.

 

 

Outras complicações frequentes durante o período perioperatório foram acidose metabólica, anemia e hiperpotassemia. Não houve diferença significativa entre os grupos estudados. Os pacientes que apresentaram acidose metabólica receberam infusão de bicarbonato de sódio. A hiperpotassemia foi corrigida com a administração de solução polarizada e ou cloreto de cálcio. Dez pacientes receberam transfusão de concentrado de hemáceas no intraoperatório. Três pacientes foram encaminhados intubados à UTI: dois por broncoespasmo e um por instabilidade hemodinâmica. Outras complicações menos frequentes foram distúrbios de coagulação e rash cutâneo.

 

DISCUSSÃO

A anestesia geral venosa e inalatória com ventilação controlada mecânica é a técnica mais empregada no Tx 7,10. Existe também consenso quanto aos agentes anestésicos utilizados: o tiopental sódico e mais recentemente o propofol associado ao fentanil. A intubação é facilitada pela administração de atracúrio e a manutenção feita com isoflurano associada ou não ao óxido nitroso10. Quanto à dor pós-operatória, tem sido tratada mais comumente com analgesia controlada pelo paciente (PCA) com opioide 11, fentanil ou morfina, apesar da possibilidade de acúmulo de metabólitos ativos com a morfina 12.

A presente casuística é concorde com a literatura com relação à técnica e agentes anestésicos empregados. Todos os pacientes receberam anestesia geral balanceada. A indução foi realizada com propofol em 97,83% dos pacientes e atracúrio em 96,74%. A manutenção foi feita com isoflurano, vaporizado em uma mistura de O2 e NO2 a 1:1 em 100% dos casos estudados e o opioide empregado foi o fentanil (53,26%) e o sufentanil (46,74%), sem diferença entre os grupos. O consumo de anestésicos foi igual nos dois grupos estudados, apesar da associação da peridural em 35,87% dos pacientes.

Mesmo que os trabalhos da literatura apontem a anestesia geral como técnica de escolha para o Tx, existem vários estudos mostrando que a anestesia regional pode ser empregada com êxito nessas operações. Segundo Akpek e col. 13 e Hadimiaglee col. 14, a anestesia peridural contínua e o bloqueio combinado raquiperidural são tão eficazes quanto a anestesia geral nos quesitos estabilidade cardiovascular e complicações, com a vantagem de proporcionar boa analgesia pós-operatória.

Ocorre, no entanto, que os pacientes urêmicos são particularmente susceptíveis a algumas complicações decorrentes da punção espinal. Trabalhos publicados relatam inclusive lesão neurológica por hematoma peridural 15. Causas para tanto não faltam: efeito residual da heparina, utilizada na diálise, plaquetopenia e disfunção plaquetária são comuns na insuficiência renal crônica terminal. Mesmo a normalidade de exames como o RNI e o R não exclui a alteração mais comumente encontrada, que é a disfunção plaquetária 16. Apesar da pequena casuística, não foram observadas complicações dessa natureza.

Além destas complicações, os bloqueios espinais induzem hipotensão arterial e diminuição da pressão venosa central (PVC), por diminuição do retorno venoso ao coração. Também causam bradicardia que, dependendo da intensidade, pode levar à diminuição do débito cardíaco e da pressão arterial. Em determinadas circunstâncias, pode levar a bradiarritmias graves como o bloqueio átrio ventricular 17. Todos esses efeitos são considerados deletérios, pois caminham em sentido oposto às recomendações de Carlie e col. 8 e Luciani e col. 9. Esses autores mostraram a importância da hidratação máxima e de parâmetros hemodinâmicos adequados, no momento da reperfusão, para a obtenção de diurese precoce e profilaxia de necrose tubular aguda no pós-operatório imediato 18. A hipotensão arterial é uma complicação relativamente frequente em urêmicos. São várias as justificativas para essa ocorrência: pacientes muito desidratados por diálise recente, doses excessivas de agentes anestésicos e ou tratamento de longa duração com inibidores da enzima conversora 19. No presente estudo, a incidência de hipotensão arterial foi significativamente mais elevada entre pacientes receptores de rim de doador falecido. Dois fatores poderiam explicar essa complicação nesse grupo específico de pacientes: preparo inadequado dado à urgência relativa desse tipo de intervenção cirúrgica e o predomínio de Tx de doador falecido realizado sob anestesia geral associada à peridural (81,82%). O bloqueio simpático poderia explicar também a utilização significativamente maior de vasopressores, observada no grupo da associação anestesia geral e peridural. Embora a dopamina seja o vasopressor mais indicado no tratamento da hipotensão arterial, e foi o mais utilizado nessa casuística, seu uso deve ser visto com parcimônia, pois, além de ser desprovida de efeito benéfico no rim, a dopamina está associada a complicações como taquiarritmias 20.

A diurese precoce é importante nos Tx, como fator de bom prognóstico. Ela está relacionada à maior sobrevida do enxerto e menor mortalidade 21. Diurese precoce é uma observação comum entre doadores vivos e foi constatada nessa casuística. No caso de doadores falecidos, a diurese é menos frequente porque os rins ficam isquêmicos por períodos variáveis e são armazenados em soluções eletrolíticas a baixas temperaturas, até o momento de serem implantados 22. Algumas medidas como a administração de grandes volumes de líquidos e manitol têm sido preconizadas com a finalidade de se obter diurese ao final da operação 23, desestimulando-se o uso sistemático de dopamina e de altas doses de furosemida 24.

Outra medida que encontra amparo na literatura é a manutenção da PVC elevada no momento da reperfusão do enxerto. Valores variando de 10 até 15 cm de H2O são descritos como adequados 25. Na atual casuística, procurou-se manter a PVC acima de 12 cm de água, à custa de hidratação com solução fisiológica a 0,9% em volumes elevados, 86,7 a 94,8 mL.kg-1. Estes volumes podem estar associados a complicações e a recomendação é o acompanhamento clínico por meio de ações simples como medida da pressão arterial e da PVC e controle de aparecimento de edemas 24. A necessidade de adequada manutenção do volume intravascular pode ser comprovada pela análise multivariada dos parâmetros com diferença estatística significativa na análise bivariada. Elegendo-se um regime de hidratação intermediário entre os valores recomendados na literatura (70 a 90 mL.kg-1), pode-se observar aumento na probabilidade de ocorrência de diurese precoce 26,27. Este resultado, porém, deve ser interpretado com cautela, uma vez que a diurese apresentou um baixo poder estatístico, evidenciado pelos grandes intervalos de confiança.

A técnica anestésica utilizada na anestesia para transplante renal, no período considerado, foi geral venosa e inalatória, associada em 33 (35,86%) pacientes à anestesia peridural simples.

A alteração hemodinâmica mais frequente nessa casuística foi hipotensão arterial, maior entre os pacientes que receberam rim de cadáver, independentemente da técnica anestésica empregada.

Dois fatores podem ser considerados de bom prognóstico em relação à função renal imediata do enxerto: ser receptor de doador vivo relacionado e receber hidratação de pelo menos 80 mL.kg-1 de solução eletrolítica.

 

REFERÊNCIAS

01. Stockall C, Amante AJ, Kahan B et al. - Renal transplantation, em: Sharpe MD, Gelb AW - Anesthesia and Transplantation. Boston, Butterworth-Heinemann, 1999;241-274.         [ Links ]

02. Lima MG - Avaliação e Seleção Imunológica: Prova Cruzada, Reatividade contra Painel e Tipificação HLA, em: Manfro RG, Noronha IL, Silva F° AP - Manual de Transplante Renal. São Paulo, Manole, 2004;23-24.         [ Links ]

03. Wolfe RA, Ashby VB, Milford EL et al. - Comparison of mortality in all patients on dialysis, patients awaiting transplantation and recipients of a first cadaveric transplant. N Engl J Med, 1999; 341:1725-1730.         [ Links ]

04. So SK, Chang PN, Najarian JS et al. - Growth and development in infant after renal transplantation. J Pediatr, 1987;110: 343-350.         [ Links ]

05. Hunter JM, Jones RS, Utting JE - Use of atracurium in patients with no renal function. Br J Anaesth, 1982;54:1251-1258.         [ Links ]

06. Spencer EM, Willatts SM, Prys-Roberts C - Plasma inorganic fluoride concentrations during and after prolonged (>24hs) isoflurane sedation: effect on renal function. Anesth Analg, 1991;73:731-737.         [ Links ]

07. Heino A, Orko R, Rosenberg PH - Anaesthesiological complications in renal transplantation: a retrospective study on 500 transplantation. Acta Anaesthesiol Scand, 1986;30:574-580.         [ Links ]

08. Carlier M, Squifflet JP, Pirson Y et al. - Maximal hydration during anesthesia increases pulmonary artery pressures and improves early function of human renal transplant. Transplantation, 1982; 34:201-204.         [ Links ]

09. Luciani J, Frantz P, Thibault P et al. - Early anuria prevention in human kidney transplantation. Advantage of fluid load under pulmonary artery pressure monitoring during surgical period. Transplantation, 1979;28:308-312.         [ Links ]

10. Moote CA - Anesthesia for renal transplantation. Anesthesiol Clin North America, 1994;12:691-715.         [ Links ]

11. Williams M, Milner QJ - Posoperative analgesia following renal transplantation - current practice in UK. Anaesthesia, 2003; 58:712-713.         [ Links ]

12. Angst MS, Buher M, Lotsch J - Insidious intoxication after morphine treatment in renal failure: delayed onset of morphine-6-glucuronide action. Anesthesiology, 2000;92:1473-1476.         [ Links ]

13. Akpek E, Kayhan Z, Kaya H et al. - Epidural anesthesia for renal transplantation: a preliminary report. Transplant Proc, 1999;31:3149-3150.         [ Links ]

14. Hadimioglu N, Ertug Z, Bigat Z et al. - A randomized study comparing combined spinal epidural or general anesthesia for renal transplantation surgery. Transplant Proc, 2005;37:2020-2022.         [ Links ]

15. Basta M, Sloan P - Epidural hematoma following epidural catheter placement in a patient with chronic renal falure. Can J Anaesth, 1999,46:271-274.         [ Links ]

16. Zachee P, Vermylen J, Boogaerts MA - Hematologic aspects of end stage renal failure. Ann Hematol, 1994;69:33-40.         [ Links ]

17. Ferrari F, Nascimento Jr P, Vianna PTG - Complet atrioventricular block during renal transplantation in patient with Alport's Síndrome: case report. São Paulo Med J, 2001;119:184-186.         [ Links ]

18. Mota A, Freitas L, Marcio F et al. - Risk Factors for acute tubular necrosis in 774 cadaver renal transplantations. Braz J Urol, 2002;28:93-101.         [ Links ]

19. Coriat P, Richer C, Douraki T et al. - Influence of chronic angiotensin converting enzyme inhibition on anesthetic induction. Anesthesiology, 1994;81:299-307.         [ Links ]

20. Katz DV, Troster EJ, Vaz FAC - Dopamina e o rim na sepse: uma revisão sistemática. Rev Assoc Med Bras, 2003;49:317-326.         [ Links ]

21. Dawidson IJ, Ar'Rajab A - Perioperative Fluid and Drug Therapy during Cadaver Kidney Transplantation, em: Terasaki PI, Cecka JM - Clinical Transplants. Los Angeles, 1992;267-279.         [ Links ]

22. O'Brien EA, Bour SA, Marshall RL et al. - Effect of use of vasopressors in organ donors on immediate function of renal allografts. J Transpl Coord, 1996;6:215-216.         [ Links ]

23. Dawidson I, Ar'Rajab A, Dickerman R et al - Perioperative albumin and verapamil improve early outcome after cadaver renal transplantation. Transplant Proc, 1994;26:3100-3101        [ Links ]

24. Schnuelle P, van der Woude FJ - Perioperative fluid management in renal transplantation: a narrative review of literature. Transpl Int, 2006;19:947-959.         [ Links ]

25. Caldwell JE, Cook DR - Kidney Transplantation em: Cook DR, Davies PJ - Anesthetic Principles of Organ Transplantation. New York, Raven, 1994;183-228.         [ Links ]

26. Carlier M, Squifflet JP, Pirson Y et al. - Anesthetic protocol in human renal transplantation: twenty-two years of experience. Acta Anaesthesiol Belg, 1986;37:89-94.         [ Links ]

27. Dawidson IJ, Sandor ZF, Coorpender L et al. - Intraoperative albumina administration affects the outcome of cadaver renal transplantation. Transplantation, 1992;53:774-782.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Dra. Eunice Sizue Hirata
Rua Dona Presciliana Soares, 195/71
13025-080 Campinas, SP
E-mail: eshirata@hotmail.com

Apresentado em 30 de janeiro de 2008
Aceito para publicação em 3 de dezembro de 2008

 

 

* Recebido do Hospital de Clínicas da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (FCM/UNICAMP), SP