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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.59 no.3 Campinas May/June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942009000300002 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Bloqueio do plexo lombar pela via posterior para analgesia pós-operatória em artroplastia total do quadril. Estudo comparativo entre Bupivacaína a 0,5% com Epinefrina e Ropivacaína a 0,5%*

 

Bloqueo del plexo lumbar por la vía posterior para analgesia postoperatoria en artroplastia total de la cadera. Estudio comparativo entre Bupivacaína a 0,5% con Epinefrina y Ropivacaína a 0,5%

 

 

Leonardo Teixeira Domingues Duarte, TSAI; Franklin Cespedes PaesII; Maria do Carmo Barreto C. FernandesIII; Renato Ângelo Saraiva, TSAIV

IAnestesiologista do Hospital SARAH; Mestre em Ciências da Reabilitação
IIAnestesiologia do Hospital SARAH
IIIEnfermeira do Hospital SARAH; Mestre em Ciências da Reabilitação
IVAnestesiologista; Coordenador da Anestesiologia da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação

Endereço para correpondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: O bloqueio do plexo lombar pela via posterior promove analgesia pós-operatória efetiva na artroplastia total do quadril. Ropivacaína e bupivacaína não apresentaram qualquer diferença na eficácia analgésica em diferentes bloqueios de nervos periféricos. O objetivo deste estudo foi comparar a eficácia da analgesia pós-operatória resultante da administração em dose única da bupivacaína a 0,5% ou da ropivacaína a 0,5% no bloqueio do plexo lombar pela via posterior na artroplastia total do quadril.
MÉTODO: Trinta e sete pacientes foram alocados aleatoriamente em dois grupos, segundo o anestésico local utilizado no bloqueio: Grupo B - bupivacaína a 0,5% com epinefrina 1:200.000 ou Grupo R - ropivacaína a 0,5%. Durante o período pós-operatório, os escores de dor e o consumo de morfina na analgesia controlada pelo paciente foram comparados entre os grupos. O sangramento durante a operação e a incidência de efeitos adversos e de complicações também foram comparados.
RESULTADOS: Apesar dos escores de dor terem sido menores no Grupo R 8, 12 e 24 horas após o bloqueio, essas diferenças não foram clinicamente significativas. Regressão linear múltipla não identificou o anestésico local como variável independente. Não houve diferença no consumo de morfina, no sangramento intraoperatório e na incidência de complicações e efeitos adversos entre os dois grupos.
CONCLUSÕES: A bupivacaína a 0,5% e a ropivacaína a 0,5% produziram alívio eficaz e prolongado da dor pós-operatória após artroplastia total do quadril, sem diferença clínica, quando doses equivalentes foram administradas no bloqueio do plexo lombar pela via posterior.

Unitermos: ANALGESIA, Pós-operatória; ANESTÉSICOS, Local: bupivacaína, ropivacaína; CIRURGIA, Ortopédica: artroplastia de quadril; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional: bloqueio do plexo lombar.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: El bloqueo del plexo lumbar por la vía posterior, genera una analgesia postoperatoria efectiva en la artroplastia total de la cadera. La ropivacaína y la bupivacaína no arrojaron ninguna diferencia en la eficacia analgésica en diferentes bloqueos de nervios periféricos. El objetivo de este estudio, fue comparar la eficacia de la analgesia postoperatoria, resultante de la administración en dosis única de la bupivacaína a 0,5% o de la ropivacaína a 0,5% en el bloqueo del plexo lumbar por la vía posterior en la artroplastia total de la cadera.
MÉTODO: Treinta y siete pacientes fueron ubicados aleatoriamente en dos grupos según el anestésico local utilizado en el bloqueo: Grupo B - bupivacaína a 0,5% con epinefrina 1:200.000 o Grupo R - ropivacaína a 0,5%. Durante el período postoperatorio, los puntajes de dolor y el consumo de morfina en la analgesia controlada por el paciente, fueron comparados entre los grupos. El sangramiento durante la operación y la incidencia de efectos adversos y de complicaciones también fueron comparados.
RESULTADOS: Pese a que los puntajes de dolor hayan sido menores en el Grupo R 8 horas, 12 horas y 24 horas después del bloqueo, esas diferencias no fueron clínicamente significativas. La regresión lineal múltiple no identificó el anestésico local como una variable independiente. No hubo diferencia en el consumo de morfina, en el sangramiento intraoperatorio y en la incidencia de complicaciones y efectos adversos entre los dos grupos.
CONCLUSIONES: La bupivacaína a 0,5% y la ropivacaína a 0,5%, ofrecieron un alivio eficaz y prolongado del dolor postoperatorio después de la artroplastia total de la cadera, sin diferencia clínica, cuando dosis equivalentes fueron administradas en el bloqueo del plexo lumbar por la vía posterior


 

 

INTRODUÇÃO

A experiência clínica demonstra que a dor pós-operatória na artroplastia total do quadril é muito intensa e aumenta com a mobilização do paciente. Pacientes submetidos à artroplastia total do quadril são, comumente, idosos e apresentam diferentes comorbidades associadas. O alívio efetivo da dor pós-operatória nesses pacientes é essencial para o seu conforto e satisfação, para permitir maior mobilidade, minimizar a morbi-mortalidade pós-operatória e promover recuperação mais rápida por meio da prevenção ou diminuição de espasmos musculares que dificultam a mobilização precoce da articulação 1-4.

A dor após a artroplastia total do quadril é intensa especialmente nas primeiras 24 horas após a operação 5. As técnicas mais comumente utilizadas para analgesia após artroplastia total do quadril são a analgesia controlada pelo paciente (PCA) com opioides por via venosa 2, a analgesia subaracnoidea 6, analgesia peridural 7 e o bloqueio do plexo lombar, pelas vias anterior 2 ou posterior (bloqueio do compartimento do psoas) 8,9. O bloqueio do plexo lombar pela via posterior promove analgesia unilateral eficaz após artroplastia total do quadril, reduzindo os escores de dor e o consumo de analgésicos 9,10.

Grandes volumes de anestésicos locais (30 a 40 mL) são usados no bloqueio do compartimento do psoas, embora a experiência clínica indique que 20 a 25 mL da solução anestésica sejam suficientes 11. Como grandes volumes anestésicos podem ser injetados, é muito importante a escolha de um agente com baixa toxicidade. A ropivacaína apresenta menor toxicidade cardíaca e neurológica que a bupivacaína 12,13. Além disso, o efeito vasoconstritor da ropivacaína pode ser benéfico em bloqueios administrados em regiões muito vascularizadas com possibilidade de absorção rápida dos anestésicos locais 14. Apesar de sua potência ser aparentemente menor do que a da bupivacaína 15, a eficácia analgésica da ropivacaína não mostrou qualquer diferença em relação à bupivacaína em diferentes bloqueios nervosos periféricos 16-22 .

O objetivo deste estudo foi comparar a qualidade da analgesia pós-operatória promovida pelo bloqueio do plexo lombar pela via posterior com a administração de uma dose única de bupivacaína a 0,5% com epinefrina 1:200.000 ou de ropivacaína a 0,5% em pacientes submetidos à artroplastia total do quadril. Objetivos secundários incluíram a comparação da incidência de efeitos colaterais e complicações, de bloqueio bilateral e do sangramento intraoperatório.

 

MÉTODO

Após aprovação da Comissão de Ética da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação, consentimento informado por escrito foi obtido de todos os pacientes. Esse ensaio clínico aleatório, duplamente encoberto, incluiu pacientes consecutivos com estado físico da ASA I a III e submetidos à artroplastia primária total do quadril. Os critérios de exclusão adotados foram: história de neuropatias periféricas; coagulopatias; intervenção cirúrgica anterior ou deformidades da coluna vertebral; demência ou outros estados mentais que afetem a habilidade do paciente usar a PCA ou a escala de dor Visual Analógica (VAS); hipersensibilidade aos agentes analgésicos e uso de opioides no período pré-operatório.

Os pacientes foram alocados aleatoriamente em dois grupos baseados em uma tabela de permutações aleatórias gerada por computador e apresentada em envelopes opacos e fechados. Uma enfermeira preparou a solução anestésica e o anestesiologista desconhecia o anestésico local injetado no bloqueio do plexo lombar. Todos os pacientes receberam a mesma técnica anestésica, sendo induzida a anestesia geral e combinada ao bloqueio do plexo lombar pela via posterior com bupivacaína a 0,5% com epinefrina 1:200.000 (Grupo B, 20 pacientes) ou com ropivacaína a 0,5% (Grupo R, 19 pacientes).

Todos os pacientes receberam diazepam 5 mg por via oral na noite anterior e na manhã da cirurgia como medicação pré-anestésica. Ao chegarem à sala de anestesia, os pacientes foram monitorizados com eletrocardiografia contínua, oximetria de pulso, pressão arterial não-invasiva, capnografia com análise de gases expirados e débito urinário horário. A anestesia geral precedeu o bloqueio do plexo lombar e foi induzida com alfentanil 20 µg.kg-1, propofol 2 mg.kg-1 e succinilcolina 1 mg.kg-1 pela via venosa. Após a intubação traqueal, a anestesia geral foi mantida com sevoflurano (concentração expirada 1,2% - 1,3%), em mistura de oxigênio 50% e óxido nitroso, com ventilação mecânica controlada a fim de manter a normocapnia.

Em seguida, os pacientes foram posicionados em decúbito lateral com o quadril parcialmente fletido e o membro a ser operado na posição não-dependente. A reversão da paralisia muscular da succinilcolina foi confirmada antes do bloqueio do compartimento do psoas com base na retomada da ventilação espontânea do paciente. O bloqueio do plexo lombar foi realizado em dose única. A agulha foi introduzida perpendicularmente à pele na junção do terço lateral com os dois terços mediais de uma linha entre o processo espinhoso de L4 e uma linha paralela à coluna vertebral, passando pela espinha ilíaca póstero-superior 8. Todos os bloqueios foram realizados por anestesiologistas experientes na técnica (LTDD e FCP). O plexo lombar foi localizado por meio da identificação de contrações do músculo quadríceps femoral usando estimulador de nervo periférico (Stimuplex Dig RC, BBraun, Melsungen, Alemanha). Os estímulos foram inicialmente de 1,5 mA, 50 µs, 2 Hz. Foi usada agulha eletricamente isolada com bisel não-cortante, 21-gauge e 100 mm de comprimento (Stimuplex A, BBraun, Melsungen, Alemanha). Após identificar a resposta motora, o posicionamento final da agulha foi determinado com base na melhor resposta motora entre 0,35 mA e 0,5 mA. Volume de 0,4 mL. kg-1 da solução anestésica (2 mg.kg-1) foi administrado, fracionadamente, após aspiração negativa de sangue e líquor, em todos os pacientes. O momento da injeção anestésica foi considerado o momento zero para todas as avaliações subsequentes.

Durante a cirurgia, doses de vecurônio foram administradas a critério do anestesiologista para facilitar a ventilação pulmonar. A eficácia do bloqueio do plexo lombar foi determinada com base nos parâmetros hemodinâmicos durante a estimulação cirúrgica. A pressão arterial (PA) e a frequência cardíaca (FC) foram mantidas dentro de um limite de variação de 30%, acima ou abaixo, dos valores basais pré-operatórios. Em caso de elevação acima de 30% do valor basal da PA sistólica ou da FC, a concentração expirada de sevoflurano era aumentada em 10%, em intervalos de três minutos entre cada alteração. Após três aumentos consecutivos na concentração de sevoflurano, se não houvesse correção dos parâmetros hemodinâmicos, doses venosas de alfentanil 10 µg.kg-1 eram administradas. Diminuições na PA sistólica foram corrigidas pela redução de 10% da concentração expirada de sevoflurano e pela administração de efedrina 5 mg por via venosa, em intervalos de três minutos até atingir o limiar de variação de 30% na linha de base.

Após o paciente chegar à sala de recuperação pós-anestésica (SRPA), foi iniciada PCA com morfina por via venosa. A bomba de infusão (Pain Management Provider, Abbott Laboratories, Illinois, EUA) foi ajustada para administrar doses de 40 µg.kg-1 de morfina (0,5 mg.mL-1), com intervalo de bloqueio de 15 minutos, sem limites de dose. Como parte da analgesia multimodal, todos os pacientes receberam dipirona 20 mg.kg-1 a cada 6 horas e tenoxicam 20 mg a cada 12 horas pela via venosa, com a primeira dose de cada medicação sendo administrada no final da cirurgia.

Durante o período pós-operatório, os escores de dor em repouso (VAS, em que zero representa nenhuma dor e 10 cm indica a pior dor possível) e o consumo acumulado de morfina foram avaliados por uma enfermeira que desconhecia o delineamento do estudo. As observações foram realizadas na chegada do paciente à SRPA e com 4, 8, 12 e 24 horas após o bloqueio. Ao término das 24 horas de observação, os pacientes foram questionados sobre o escore de dor mais elevado durante o período de estudo. Outras variáveis analisadas foram perda sanguínea intraoperatória (estimada pela pesagem de compressas e pela medição do volume de sangue coletado nos vidros de sucção, deduzido o volume de solução fisiológica a 0,9% utilizada para lavar a cavidade operatória); o número de unidades de concentrados de hemácias transfundidas no período pós-operatório; a incidência de náuseas e vômitos pós-operatórios; a ocorrência de disestesias pós-operatórias; e distribuição bilateral da anestesia (avaliada na SRPA com a aplicação de estímulo térmico gelado nos dermátomos contralaterais à cirurgia após o despertar do paciente). O bloqueio motor no membro operado não foi avaliado devido ao risco de deslocamento da prótese.

Neste estudo, foi testada a hipótese de que a analgesia pós-operatória promovida oito horas após a realização do bloqueio do compartimento do psoas com ropivacaína a 0,5% é, pelo menos, tão eficaz quanto aquela promovida com bupivacaína a 0,5% e epinefrina 1:200.000 após artroplastia total do quadril. Após um estudo-piloto, o escore médio de dor em repouso 8 horas após o bloqueio realizado com bupivacaína a 0,5% e epinefrina 1:200.000 foi de 1,74 cm ± 2,38 cm. Uma análise de potência indicou que eram necessários 17 pacientes em cada grupo para detectar diferença clinicamente relevante de 1,3 cm ± 0,6 cm na VAS 8 horas após a realização do bloqueio com ropivacaína a 0,5%, com uma potência de 80% e nível de significância de 5% (beta = 0,2 e alfa = 0,05).

Uma vez que todas as variáveis pertinentes apresentaram uma distribuição não-gaussiana (teste Shapiro-Wilk), as comparações entre os dois grupos foram feitas utilizando o teste Mann-Whitney U bicaudal. O teste Qui-quadrado de Pearson foi utilizado para comparar variáveis discretas. A fim de estabelecer se os anestésicos locais atuaram, de fato, como variáveis independentes, considerando as demais variáveis, foi realizada regressão linear múltipla, na qual o consumo de morfina em oito horas foi adotado como variável dependente (substituto para a eficácia do bloqueio). Quando relevante, os dados foram apresentados como médias ± desvio-padrão (DP), ou como medianas e seus intervalos interquartis. Os dados foram coletados em uma planilha Excel (Microsoft, CA, EUA) e a análise estatística foi realizada com os programas SPSS para Windows (Statistical Package for the Social Sciences, v. 13, Chicago, IL) e Stat View (SAS Institute, v. 5.0.1, Cary, NC, EUA). Foi considerado significativo p < 0,05.

 

RESULTADOS

Durante o estudo, 43 pacientes foram agendados para artroplastia total do quadril. No entanto, quatro não foram incluídos no estudo porque seriam submetidos a artroplastias de revisão. Assim, 39 pacientes satisfizeram os critérios de inclusão e concordaram em participar do estudo. Dois pacientes do grupo R foram excluídos. Um paciente apresentou uma raquianestesia total e o outro desenvolveu déficit cognitivo pós-operatório que impediu o uso correto do dispositivo de PCA. Assim, 20 pacientes foram alocados no grupo B e 17 grupo R.

As características demográficas dos pacientes não diferiram entre os dois grupos (Tabela I). Da mesma forma, a duração da operação, o volume anestésico administrado e a intensidade da corrente de estimulação nervosa no momento da injeção anestésica também foram semelhantes entre os grupos (Tabela I). Com base nas necessidades anestésicas durante a cirurgia, não houve falhas nos bloqueios. Além disso, nenhuma dose suplementar de alfentanil foi administrada durante a cirurgia em nenhum paciente.

 

 

As figuras 1 e 2, bem como a tabela II, mostram os escores de dor (VAS) e o consumo acumulado de morfina durante todo o período de observação. Os escores de dor foram menores no Grupo R com 8, 12 e 24 horas após o bloqueio (p < 0,05). Não houve diferença estatística entre os grupos na utilização da morfina. Embora não esteja detalhado aqui, o consumo de morfina nos intervalos entre as observações também foi analisado, mas, novamente, não houve diferença significativa entre os grupos.

 

 

 

 

Corroborando a análise bivariada anterior, a regressão linear múltipla não identificou o anestésico local como variável independente. Em outras palavras, ele não influenciou o consumo de morfina em 8 horas.

O sangramento intraoperatório, o número de pacientes que necessitaram transfusões sanguíneas, bem como o número de unidades de concentrados de hemácias transfundidas no período pós-operatório não diferiram entre os grupos (Tabela III).

 

 

A distribuição bilateral do bloqueio ocorreu em apenas três dos 37 pacientes (8,1%; um paciente no Grupo R e dois pacientes no Grupo B).

A incidência de náuseas (29,4% e 30,0%, nos grupos R e B, respectivamente) e vômitos (17,6% e 15,0%, nos grupos R e B, respectivamente) foi similar nos dois grupos. Não houve casos de disestesias ou outras sequelas neurológicas relacionadas com o bloqueio do plexo lombar até o momento da alta hospitalar, nem sinais de toxicidade anestésica ou complicações relacionadas à punção do plexo lombar (hematoma, infecção).

 

DISCUSSÃO

Este estudo demonstrou que o uso da ropivacaína a 0,5% no bloqueio do plexo lombar pela via posterior em pacientes submetidos à artroplastia total do quadril resultou em escores de dor significativamente menores 8, 12 e 24 horas após o bloqueio quando comparada à bupivacaína a 0,5% com epinefrina 1:200.000. Apesar disso, o consumo de morfina por via venosa não foi afetado pelo tipo de anestésico local utilizado no bloqueio.

Apesar de a ropivacaína ter determinado escores menores de dor, não se pode superestimar o valor dessas pequenas diferenças. Os escores de dor foram tão semelhantes que é improvável que a significância estatística encontrada tenha qualquer importância clínica. O comportamento dos pacientes foi muito semelhante nos dois grupos. Provavelmente, por essa razão, o consumo de morfina tenha sido semelhante nos dois grupos. Estudos sobre a experiência da dor mostraram que a diferença mínima clinicamente significativa na VAS de 10 cm deve ser de, pelo menos, 1,2 cm para representar importância clínica 23.

Os resultados do presente estudo são semelhantes aos de outros ensaios clínicos nos quais a analgesia promovida por diferentes bloqueios nervosos periféricos foi a mesma, independentemente da administração de bupivacaína ou de ropivacaína. A latência, potência e duração dos bloqueios foram semelhantes e com bloqueios igualmente efetivos quando concentrações e doses iguais de ropivacaína e bupivacaína foram usadas 17-22.

Outros aspectos devem ser considerados e podem ter influenciado os resultados. A dor após a artroplastia total do quadril é de grande intensidade logo após a cirurgia, mas geralmente não é duradoura, diminuindo bastante de intensidade após as primeiras 24 horas 9,10. Após esse período, a redução do consumo de opioides e nos escores de dor é, em grande parte, em função da adoção de um regime de analgesia multimodal. A abordagem multimodal da analgesia pode ter limitado a probabilidade de que se encontrassem diferenças nos escores de dor em repouso. É possível que diferenças sutis na analgesia e eficácia do bloqueio tenham sido encobertas. No entanto, a estratégia de analgesia pós-operatória foi usada por razões éticas. Além disso, os grupos foram tratados com doses equivalentes de morfina na PCA, dos anti-inflamatórios dipirona e tenoxicam, promovendo, assim, efeito analgésico semelhante em ambos.

O desfecho primário do estudo foi comparar a analgesia pós-operatória promovida pelos anestésicos locais estudados. A dose acumulada de morfina foi usada como um substituto da eficácia do bloqueio. Como os bloqueios foram realizados sob anestesia geral, não foi possível comparar a distribuição do bloqueio sensitivo e sua latência. Da mesma forma, a duração do bloqueio não foi avaliada devido à presença do curativo cirúrgico que cobria o quadril e a coxa. De fato, o anestésico local não influenciou o consumo de morfina como demonstrado pela regressão linear múltipla. Uma vez que o peso médio dos pacientes não diferiu entre os grupos, essa variável não teve qualquer efeito sobre o consumo pós-operatório acumulado de morfina.

Apesar da existência de diversos métodos para analgesia pós-operatória na artroplastia total do quadril, ainda não se sabe qual é a melhor técnica em termos de eficácia e perfil de efeitos adversos. Estudos mostraram que o bloqueio do compartimento do psoas promove analgesia adequada e reduz o consumo de morfina após artroplastia total do quadril 9,10. O alívio da dor é, pelo menos, tão eficaz quanto a PCA com morfina, mas com menor ocorrência de efeitos adversos e recuperação funcional mais rápida 1,10. No presente estudo, o bloqueio do plexo lombar foi efetivo na analgesia pós-operatória, tanto com a bupivacaína quanto com a ropivacaína. Os escores de dor se mantiveram muito baixos com ambos os anestésicos locais estudados ao longo de todo o período de observação. Uma vez que a duração do bloqueio em dose única não costuma ultrapassar mais de 12 horas, esse resultado sinaliza a eficácia da PCA com morfina nas últimas 12 horas de observação.

Na pesquisa bibliográfica realizada, o único estudo que compara os efeitos da ropivacaína e da bupivacaína no bloqueio do plexo lombar pela via posterior foi realizado por Greengrass e col. 18. No entanto, no referido ensaio clínico, os autores estudaram pacientes submetidos a artroplastias do joelho, combinaram um bloqueio do nervo isquiático e não avaliaram a analgesia pós-operatória. Dessa forma, o presente estudo difere do anterior ao comparar os efeitos de doses iguais desses anestésicos locais sobre a analgesia pós-operatória da artroplastia total do quadril quando a principal técnica anestésica é o bloqueio do compartimento do psoas.

Além de os bloqueios terem sido igualmente eficazes, os efeitos colaterais tiveram pouca intensidade e não diferiram entre os dois grupos. Outros estudos demonstraram que não há diferença na incidência de náuseas e vômitos quando ropivacaína e bupivacaína foram comparadas em bloqueios de nervos periféricos 21,22. Devido à raridade em técnicas com dose única, não houve complicações no local da punção, tais como infecção ou hematoma.

A abordagem posterior do plexo lombar traz consigo o risco de dispersão ou injeção inadvertida da solução anestésica nos espaços peridural ou subaracnoideo 24. A frequência de dispersão peridural descrita no estudo é semelhante àquela descrita na literatura (2% a 26%) 10,25. Porém, é provável que a incidência aqui relatada esteja subestimada. Apesar da pequena percentagem de bloqueios sensitivos bilaterais descritos na SRPA, a pesquisa do bloqueio contralateral foi realizada mais de três horas após a injeção anestésica. A dispersão peridural regride três a quatro horas após a injeção 11. Assim, no momento da avaliação do bloqueio bilateral, é possível que tenha havido casos de anestesia peridural que já tivessem regredido. Somente a pesquisa imediatamente após o bloqueio pode garantir avaliação rigorosa. Mannion e col. 11 relataram frequências de dispersão contralateral entre 33% e 40%, quando a pesquisa foi realizada 45 minutos após o bloqueio.

O presente estudo não tem potência suficiente para concluir acerca do perfil de toxicidade da bupivacaína ou da ropivacaína administradas no bloqueio do plexo lombar. Apenas 37 pacientes foram estudados. Os níveis plasmáticos dos anestésicos locais não foram medidos, tampouco foram investigados outros marcadores de cardiotoxicidade. Novos estudos serão necessários para determinar qual dos dois anestésicos locais tem o melhor perfil de toxicidade no bloqueio do compartimento do psoas.

O estudo tem, ainda, outros aspectos que merecem consideração. Primeiro, não foi adotada a estratégia de intenção de tratamento, e dois pacientes do Grupo R foram excluídos da análise. No entanto, como o tamanho da amostra estudada garantia uma elevada potência para o desfecho primário, os resultados não foram afetados. Em segundo lugar, embora os pacientes tenham sido orientados antes da cirurgia sobre como usar o dispositivo de PCA e a VAS, muitos deles tiveram dificuldades em utilizá-los devido a suas origens culturais e socioeconômicas. Por outro lado, esse efeito deve ter sido minimizado pela distribuição aleatória dos pacientes.

Todos os bloqueios foram realizados sob anestesia geral. O bloqueio do plexo lombar pela via posterior envolve o posicionamento profundo da agulha e, em caso da necessidade de várias tentativas para a obtenção da melhor resposta motora, poderá resultar em grande desconforto para o paciente. Consequentemente, a generalização das recomendações de se evitar a anestesia geral durante a anestesia regional pode limitar o uso de bloqueios nervosos periféricos em decorrência da menor aceitação dos pacientes. Além disso, não há evidências na literatura que sugiram qual prática é mais segura com relação ao risco de lesão neurológica. Nenhum estudo comparou o risco de complicações neurológicas em pacientes acordados ou sob anestesia. Alguns indicam que o risco de complicações dos bloqueios de nervos periféricos após a anestesia geral não deve ser mais comum que as complicações relatadas em pacientes acordados 26. A realização da anestesia regional em pacientes profundamente sedados ou após a indução da anestesia geral é uma prática comum na rotina da anestesia pediátrica. Lesão neurológica grave após bloqueios de nervos periféricos pode ser evitada com a limitação da profundidade da agulha e a utilização de abordagens mais laterais quando técnicas de anestesia regional são executadas próximo ao neuroeixo, independentemente se o paciente está acordado, sedado ou anestesiado 27.

Conclui-se que, tanto a ropivacaína quanto a bupivacaína administradas no bloqueio do plexo lombar pela via posterior produziram analgesia pós-operatória eficaz e prolongada, com escores de dor de leve intensidade (menores que três cm na VAS), em um regime multimodal de analgesia após artroplastia total do quadril. Não houve diferença clínica nos escores de dor e o consumo de morfina foi semelhante quando doses equivalentes de ropivacaína e bupivacaína foram administradas no bloqueio do plexo lombar pela via posterior para o alívio da dor após artroplastia total do quadril.

 

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Endereço para correspondência:
Dr. Leonardo Teixeira Domingues Duarte
Departamento de Anestesiologia - Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação
SMHS 501, Conjunto A, Asa Sul
70330-150 Brasília, DF
E-mail: leonardo@sarah.br

Apresentado em 11 de dezembro de 2008
Aceito para publicação em 20 de janeiro de 2009

 

 

* Recebido da Rede SARAH de Hospitais de Reabilitação - Hospital SARAH Brasília, DF