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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.59 no.4 Campinas July/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942009000400005 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Avaliação da ansiedade e depressão no período pré-operatório em pacientes submetidos a procedimentos cardíacos invasivos*

 

Evaluación de la ansiedad y depresión en el período preoperatorio en pacientes sometidos a procedimientos cardíacos

 

 

Antonio Fernando Carneiro, TSAI; Ligia Andrade S. Telles Mathias, TSAII; Anis Rassi JúniorIII; Nelson Siqueira de MoraisIV; Judymara Lauzi Gozzani, TSAV; Aline Pimentel de MirandaVI

IDoutor em Medicina pela FCM/SCSP; Professor de Anestesiologia da Universidade Federal de Goiás; Membro da Comissão do TSA/SBA
IIProfessor Adjunto da SCSP; Diretora do Serviço e Disciplina de Anestesiologia da SCSP
IIIDoutor em Cardiologia pela Universidade de São Paulo; Diretor Científico do Hospital Anis Rassi de Goiânia
IVDiretor Científico da Sociedade Goiana de Cardiologia; Cardiologista do Hospital Anis Rassi de Goiânia
VProfessor Adjunto da UNIFESP; Editor-Chefe da Revista Brasileira de Anestesiologia; Coordenador do Serviço de Dor da FCM/SCSP
VIAluna do sexto ano da Graduação em Medicina da FCM/SCSP

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A avaliação específica da ansiedade e da depressão não está incluída na rotina de avaliação pré-operatória, o que faz com que em situações como as doenças cardíacas, em que o estado emocional dos pacientes pode estar modificado pela própria doença, possam não ser diagnosticadas. O objetivo do estudo foi comparar o nível e a prevalência de ansiedade e depressão em pacientes com doença cardíaca a serem submetidos a procedimentos invasivos e/ou cirúrgicos, utilizando a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (Hospital Anxiety and Depression Scale - HAD).
MÉTODO: Após a aprovação pelos Comitês de Ética, foram incluídos 96 pacientes, estado físico ASA II e III, que constituíram três grupos: estudo eletrofisiológico (EEF), implante de marcapasso (MP) e revascularização do miocárdio (RM). Os escores considerados "ponto de corte" foram: escala HAD-ansiedade (HAD-A) com ansiedade > 9; escala HAD-depressão (HAD-D) com depressão > 9.
RESULTADOS: Os grupos foram homogêneos quanto às variáveis sociodemográficas. Observou-se diferença estatística significativa entre os três grupos (p = 0,006; p = 0,034) quanto ao nível e prevalência de ansiedade (HAD-A) e na comparação do nível de ansiedade grupo a grupo verificou-se diferença significativa entre os grupos EEF × RM e EEF × MP (p < 0,05). A comparação dos três grupos quanto ao nível e prevalência de depressão (HAD-D) não mostrou diferença estatística significativa.
CONCLUSÕES: Os pacientes com doença cardíaca a serem submetidos a estudo eletrofisiológico, implante de marcapasso e revascularização do miocárdio têm diferença dos níveis e prevalência de ansiedade, mas não apresentam diferença em relação aos níveis e prevalência de depressão.

Unitermos: AVALIAÇÃO PRÉ-ANESTÉSICA: estado psicológico, ansiedade, depressão; CIRURGIA, Cardíaca: revascularização, implante de marcapasso, estudo eletrofisiológico.


RESUMEN

JUSTIFICATIVA Y OBJETIVOS: La evaluación específica de la ansiedad y de la depresión no está incluida en la rutina de evaluación preoperatoria, lo que hace con que en algunas situaciones como las enfermedades cardiacas, en que el estado emocional de los pacientes puede estar modificado por la propia enfermedad, puedan no quedar diagnosticadas. El objetivo del estudio fue comparar el nivel y la prevalencia de ansiedad y depresión en pacientes con enfermedad cardiaca a ser sometidos a procedimientos invasivos y/o quirúrgicos, utilizando la Escala Hospitalaria de Ansiedad y Depresión (Hospital Anxiety and Depression Scale - HAD).
MÉTODO: Después de la aprobación por parte de los Comités de Ética, se incluyeron 96 pacientes, estado físico ASA II y III, que constituyeron tres grupos: estudio electrofisiológico (EEF), implante de marcapaso (MP) y revascularización del miocardio (RM). Las puntuaciones consideradas "punto de corte" fueron las siguientes: escala HAD-ansiedad (HAD-A): con ansiedad > 9; escala HAD-depresión (HAD-D): con depresión > 9.
RESULTADOS: Los grupos fueron homogéneos en cuanto a las variables sociodemográficas. Se observó una diferencia estadística significativa entre los tres grupos (p = 0,006; p = 0,034) en lo concerniente al nivel y a la prevalencia de ansiedad (HAD-A) y en la comparación del nivel de ansiedad grupo a grupo, se verificó la diferencia significativa entre los grupos EEF x RM y EEF x MP (p < 0,05). La comparación de los tres grupos en cuanto al nivel y a la prevalencia de Depresión (HAD-D) no arrojó diferencia estadística significativa.
CONCLUSIONES: Los pacientes con enfermedad cardiaca a ser sometidos a estudio electrofisiológico, implante de marcapaso y revascularización del miocardio, tienen diferencia de los niveles y prevalencia de ansiedad, pero no presentan diferencia con relación a los niveles y a la prevalencia de depresión.


 

 

INTRODUÇÃO

A situação do paciente que aguarda procedimento cirúrgico, mesmo que simples, deve ser considerada no âmbito de sua gravidade, quando estão presentes fragilidade, angústia e muita apreensão 1,2. O número de indivíduos com sintomas de ansiedade após procedimento para tratamento de doença cardíaca varia de 16% a 50% e naqueles submetidos a tratamento cirúrgico de revascularização do miocárdio o aparecimento de sintomas psicológicos pode chegar a 40% 3.

O estado da ansiedade e da depressão em pacientes hospitalizados não psiquiátricos pode ser avaliado por diversas escalas. A Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (Hospital Anxiety and Depression - HAD) tem sido utilizada tanto para rastreamento diagnóstico como para medir a gravidade do transtorno 4,5, apresentando boa aceitabilidade e facilidade para ser respondida 4. A utilização desse instrumento pode detectar casos de transtornos de humor que podem passar despercebidos em avaliação convencional 5. A avaliação pré-anestésica detalhada e a aplicação da escala HAD podem contribuir para a melhor avaliação das condições emocionais pré-operatórias 6.

Este estudo teve por objetivo comparar o nível e a prevalência de ansiedade e depressão em pacientes com doença cardíaca submetidos a procedimentos invasivos e/ou cirúrgicos, como estudo eletrofisiológico (EEF), implante de marcapasso (MP) e revascularização do miocárdio (REVASC), utilizando a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão.

 

MÉTODO

Após a aprovação pelos Comitês de Ética da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e do Hospital Anis Rassi de Goiânia, foram incluídos neste estudo transversal aberto 96 pacientes submetidos à revascularização do miocárdio, implante de marcapasso ou estudo eletrofisiológico.

Constituíram critérios de inclusão: pacientes com estado físico ASA II e III devido a doença cardíaca específica (insuficiência coronariana ou doenças cardíacas com indicação de estudo eletrofisiológico ou marcapasso), necessitando de revascularização do miocárdio, implante de marcapasso ou estudo eletrofisiológico e idade maior ou igual a 18 anos. Foram excluídos do estudo os pacientes analfabetos, aqueles que apresentavam deficiência auditiva, fonativa, visual ou mental, história presente ou anterior de ansiedade e/ou depressão e pacientes em uso de substâncias psicoativas.

Os pacientes selecionados foram divididos em três grupos:

  • grupo EEF: pacientes a serem submetidos a estudo eletrofisiológico (n = 32);
  • grupo MP: pacientes a serem submetidos a implante de marcapasso (n = 32);
  • grupo RM: pacientes a serem submetidos a revascularização do miocárdio (n = 32).

No momento da avaliação pré-anestésica ambulatorial, os pacientes receberam os esclarecimentos necessários para a pesquisa e foi obtido o consentimento escrito para participação do estudo. Para os que concordaram em participar do estudo foi solicitado que respondessem sozinhos aos seguintes instrumentos antes da avaliação pré-anestésica:

a) Questionário de dados sociodemográficos, composto por informações sobre gênero, idade, cor da pele, estado civil, escolaridade e situação ocupacional;

b) Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD).

Foram adotados os pontos de corte apontados por Zigmond e Snaith 7 e recomendados para ambas as subescalas:

  • HAD-A - sem ansiedade, 0 a 8; com ansiedade, > 9;
  • HAD-D - sem depressão, 0 a 8; com depressão, > 9.

As variáveis analisadas foram: idade; sexo; cor da pele; estado civil; grau de instrução; situação ocupacional atual; medianas e escores da escala HAD-ansiedade e HAD-depressão.

O tamanho da amostra foi calculado considerando-se diferença de prevalência de ansiedade de 25% entre os resultados dos grupos, com erro tipo alfa de 5% e beta de 20% 6. Para isso, foi necessária amostra de 32 pacientes por grupo. A distribuição normal dos dados foi avaliada com o teste de Kolmogorov-Smirnov. Na comparação entre os resultados referentes à idade e aos escores de ansiedade e depressão, foi utilizado o teste de ANOVA. Na comparação das variáveis gênero, cor da pele, estado civil, grau de instrução, situação ocupacional atual e prevalência de ansiedade e depressão, foi utilizado do teste de Qui-quadrado. Foi considerada diferença estatística significativa quando p < 0,05. Os testes utilizados fazem parte do sistema computacional SPSS para Windows 10.

 

RESULTADOS

Não houve exclusão de nenhum paciente dos três grupos, ficando a amostra final com os 96 pacientes propostos. Como pode ser observado na tabela I, os grupos foram semelhantes em relação às características sociodemográficas (gênero, idade, cor da pele, estado civil, escolaridade e situação ocupacional atual).

As medianas e os percentis 25 e 75 dos escores da HAD-ansiedade e HAD-depressão dos pacientes dos grupos estudados e o resultado do teste de ANOVA encontram-se na tabela II. Verificou-se diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,006) em relação à HAD-ansiedade, sendo realizado a seguir o teste de Tukey para a comparação grupo a grupo, observando-se diferença significativa (p < 0,05) entre os grupos EEF × RM e EEF × MP. Em relação aos resultados dos escores da HAD-depressão, não houve diferença estatística significativa entre os grupos (p = 0,102).

Na tabela III encontram-se, respectivamente, os resultados do número total e porcentagem de pacientes com/sem ansiedade e com/sem depressão dos três grupos estudados segundo a escala HAD, tendo sido observada diferença significativa apenas na prevalência de ansiedade (p = 0,034).

 

DISCUSSÃO

Este estudo demonstrou que pacientes com doença cardíaca a serem submetidos a procedimentos invasivos e/ou cirúrgicos do tipo estudo eletrofisiológico, implante de marcapasso e revascularização do miocárdio apresentaram prevalência de ansiedade e de depressão elevada e que os pacientes a serem submetidos à EEF tiveram nível de ansiedade mais elevado que os outros.

De acordo com os pontos de corte propostos por Snaith e Zigmond 7, apenas o grupo EEF que apresentou valor da mediana da HAD-A de 10,0 teria ultrapassado o ponto de corte e seria considerado com ansiedade. Entretanto, analisando-se a prevalência de ansiedade, pode-se verificar que em todos os grupos houve número relevante de pacientes ansiosos, respectivamente 62,5% no grupo EEF e 34,4% nos grupos MP e RM. Da mesma forma, houve 46,9% de pacientes com quadro de depressão no grupo EEF, 31,3% no grupo MP e 28,1% de depressão no grupo RM.

A comparação desses resultados com os da literatura tornou-se difícil em relação especificamente aos dados dos grupos de pacientes a serem submetidos a estudo eletrofisiológico e implante de marcapasso, pois a literatura carece de estudos sobre a ansiedade e depressão nesses grupos de pacientes. Duru e col. 8 em estudo comparativo entre pacientes submetidos a estudo eletrofisiológico e implante de marcapasso, não verificaram diferença na prevalência de ansiedade e depressão pós-procedimento entre os grupos. No entanto, estes autores não avaliaram a ansiedade e depressão prévia aos procedimentos. As demais pesquisas encontradas não compararam os dois grupos e avaliaram a ansiedade e a depressão somente no período pós-operatório tardio após o estudo eletrofisiológico, citando prevalência elevada de depressão nos pacientes submetidos à EEF 9-13.

A frequência observada no presente estudo de 34,4% de ansiedade no grupo RM está dentro dos valores descritos na literatura. No entanto, a maioria dos estudos refere-se à avaliação da ansiedade e depressão após o procedimento cirúrgico, com prevalência variando entre 16% e 50% 14-18, ou apenas citam que pacientes submetidos à revascularização cirúrgica do miocárdio apresentaram índices elevados de ansiedade no momento pré-operatório 19,20.

A frequência observada de depressão variou entre 28 e 47%, o que preocupa ainda mais em relação à conduta clínica pré-operatória em pacientes dos grupos EEF, MP e RM. Esses resultados estão de acordo com pesquisas que documentaram aumento da prevalência de depressão, que atingiu até 60% dos pacientes com doença coronariana 20-23.

Vale a pena ressaltar que a menor frequência de ansiedade foi observada precisamente no grupo RM, o que não era esperado. A elevada frequência de ansiedade (entre 34,4% e 62,5%) nos três grupos demonstrou que parcela considerável dos pacientes do presente estudo apresentou esses sintomas e, portanto, mereceriam ser submetidos a uma avaliação mais detalhada de seu estado emocional antes da realização da intervenção cirúrgica.

Moerman e col. 24 defendem a aplicação de questionários de avaliação da ansiedade para todos os pacientes cirúrgicos durante a avaliação pré-operatória, principalmente os pacientes com doenças cardíacas, que necessitam de atenção especial.

A escolha da escala HAD no presente estudo deveu-se a seu fácil manuseio e rápida execução (tempo médio de dez minutos) e possibilidade de o questionário ser respondido pelo próprio paciente. Não conter itens de avaliação de sintomas somáticos e ter sua validade e sua confiabilidade demonstradas em vários estudos foram também importantes para a escolha 25.

Este estudo corroborou a importância do uso da escala HAD em pacientes a serem submetidos a estudo eletrofisiológico, implante de marcapasso e revascularização do miocárdio. Ao identificar os pacientes com níveis elevados de ansiedade e/ou depressão e considerar o uso de suporte psicológico apropriado e contínuo para eles no período pré e pós-operatório, seria possível evitar o aparecimento de outros transtornos psicológicos que necessitariam de intervenção farmacológica diferenciada.

Desde a década de 1960 existem publicações relatando a associação entre presença de ansiedade e depressão e aumento da morbimortalidade após revascularização do miocárdio, e atualmente algumas pesquisas mostraram, inclusive, que a presença de ansiedade e depressão pode influenciar o desenvolvimento de lesões cardiovasculares em indivíduos previamente saudáveis 20,26.

Os dados obtidos no presente estudo reforçam a importância da avaliação da condição emocional do paciente com doença cardíaca a ser submetido a procedimentos invasivos e/ou cirúrgicos do tipo estudo eletrofisiológico, implante de marcapasso e revascularização do miocárdio, uma vez que sua prevalência é elevada.

 

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Endereço para correspondência:
Dra. Ligia Andrade da S. Telles Mathias
Alameda Campinas 139/41
01404-000 São Paulo, SP
E-mail: rtimao@uol.com.br

Apresentado em 19 de janeiro de 2009
Aceito para publicação em 08 de abril de 2009

 

 

* Recebido da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (FCM/SCSP), São Paulo, SP