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Revista Brasileira de Anestesiologia
Print version ISSN 0034-7094
Rev. Bras. Anestesiol. vol.60 no.5 Campinas Sept./Oct. 2010
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942010000500001
EDITORIAL
Música e anestesia
Pacientes encaminhados a cirurgias experimentam ansiedade e medo em graus variáveis no período perioperatório. Esse fato pode contribuir para alterar os parâmetros cardiovasculares, bem como para potencializar a intensidade da dor pósoperatória. O anestesiologista procura reduzir a magnitude do problema com a administração de ansiolíticos, sendo os benzodiazepínicos os mais efetivos. Não obstante, essas drogas apresentam efeitos colaterais como agitação, hiperatividade e amnésia prolongada 1. A amnésia impõe um problema adicional especialmente ao paciente ambulatorial, que talvez não se recorde das instruções dadas antes da alta hospitalar 2. Assim, outras modalidades de combate à ansiedade e ao medo perioperatórios certamente serão bem-vindas.
A musicoterapia tem sido utilizada em muitos setores da Medicina, dentre eles tratamentos psiquiátricos, cuidados com pacientes terminais e unidades de terapia intensiva.
Nos últimos anos, vários estudos têm sido publicados sobre a efetividade da musicoterapia no controle da ansiedade perioperatória e da intensidade da dor pós-operatória. Nesses estudos, tem-se empregado sempre música relaxante, excluindo-se a música lírica e com elevada amplitude dinâmica, que é estonteante e hiperativadora.
Assim, Lepage e col. 3 observaram que a musicoterapia diminui o consumo de drogas para sedação durante a anestesia espinhal. Leardi e col. 4, por sua vez, encontraram redução da resposta ao estresse pela música relaxante no intraoperatório em pacientes ambulatoriais. Berbel e col. 5 compararam a música com o diazepam no pré-operatório, concluindo que é tão efetiva quanto o benzodiazepínico no controle da ansiedade. Estudos sobre o período pós-operatório revelaram que os pacientes expostos à musicoterapia requerem menores quantidades de analgésicos de resgate e podem ser mobilizados mais precocemente após a cirurgia, em relação aos pacientes do grupo-controle 6,7.
O midazolam tem sido o benzodiazepínico mais empregado em pré-medicação padronizada, especialmente no caso de pacientes ambulatoriais. Recentemente, Bringman e col. 8 compararam os efeitos da pré-medicação com midazolam por via oral com os da música relaxante sobre a prevenção da ansiedade, concluindo que a música diminui o nível de ansiedade pré-operatória em maior extensão que o midazolam. Nesses estudos, os pacientes ouvem música em fones de ouvido conectados a "CD-players". Na avaliação do grau de ansiedade, tem-se utilizado a escala STAI ("State Trait Anxiety Inventory"), que engloba 20 questões sobre como o indivíduo se sente no momento da pesquisa 9.
As músicas devem ser cuidadosamente selecionadas por terapeutas musicais e incluir peças tanto eruditas como não eruditas, mas sempre em tons suaves e com baixa amplitude dinâmica, como, por exemplo, o "Adágio", de Albinoni, e a "Ária", de Bach, entre as primeiras, "Feelings" e "Smile", entre as últimas.
Outra vantagem da terapia com música relaxante é o fato de ela não apresentar efeitos colaterais, ao contrário do benzodiapínico. No estudo de Bringman e col. 8, por exemplo, alguns pacientes no grupo do midazolam não conseguiram completar o formulário da escala STAI de avaliação do grau de ansiedade, por estarem muito sedados. Um mal-estar descrito como "ressaca" é outro efeito colateral do benzodiazepínico no pós-operatório.
Independentemente do mecanismo em questão, há indícios bastante seguros de que a música relaxante é efetiva no controle da apreensão e da ativação do sistema nervoso autônomo causadas pela ansiedade no período perioperatório. Sobre essa base, é aconselhável a implantação de programas de musicoterapia perioperatória pelo anestesiologista, sobretudo na população de pacientes ambulatoriais. E, muito embora não haja dados conclusivos a esse respeito, seria também desejável a implementação de programas similares no próprio ambiente das salas cirúrgicas: é possível que todos os elementos participantes desse ambiente, médicos e paramédicos, se beneficiem com a redução das manifestações do estresse inerente ao seu trabalho pela música relaxante.
José Roberto Nociti, TSA
Membro do Conselho Editorial da Revista Brasileira de Anestesiologia
Responsável pelo CET/SBA da Santa Casa de Misericórdia de Ribeirão Preto, SP
REFERÊNCIAS
01. Weinbroum AA, Szold O, Ogorek D et al. - The midazolam: induced paradox phenomenon is reversible by flumazenil. Epidemiology, patient characteristics and review of the literature. Eur J Anesthesiol, 2001;18:789-797. [ Links ]
02. De Witte JL, Alegret C, Sessler DI et al. - Preoperative alprazolam reduces anxiety in ambulatory surgery patients: a comparison with oral midazolam. Anesth Analg, 2002;95:1601-1606. [ Links ]
03. Lepage C, Drolet P, Girard M et al. - Music decreases sedative requirements during spinal anesthesia. Anesth Analg, 2001;93:912-916. [ Links ]
04. Leardi S, Pietroletti R, Angeloni G et al. - Randomised clinical trial examining the effect of music therapy in stress response to day surgery. Br J Surg, 2007;94:943-947. [ Links ]
05. Berbel P, Moix J, Quintana S - Estudio comparativo de la eficacia de la musica frente al diazepam para disminuir la ansiedad prequirurgica: un ensayo clinico controlado y aleatorizado. Rev Esp Anestesiol Reanim, 2007;54:355-358. [ Links ]
06. Nilsson U, Rawal N, Unestahl LE et al. - Improved recovery after music and therapeutic suggestions during general anaesthesia: a double-blind randomized controlled trial. Acta Anaesthesiol Scand, 2001;45:812-817. [ Links ]
07. Nilsson U, Rawal N, Unosson M - A comparison of intra-operative or postoperative exposure to music - a controlled trial of the effects on postoperative pain. Anaesthesia, 2003;58:699-703. [ Links ]
08. Bringman H, Giesecke K, Thorne A et al. - Relaxing music as premedication before surgery: a randomized controlled trial. Acta Anesthesiol Scand, 2009;53:759-764. [ Links ]
09. Burns JL, Labbe E, Arke B et al. - The effects of different types of music on perceived and physiological measures of stress. J Music Ther, 2002;39:101-116. [ Links ]










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