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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.60 no.6 Campinas Nov./Dec. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942010000600015 

CARTA AO EDITOR

 

O anestesiologista e a ecocardiografia transesofágica intraoperatória

 

 

Prezado Editor,

Gostaria de aproveitar a oportunidade do artigo recém-publicado na Revista Brasileira de Anestesiologia: "Mudança de Conduta Cirúrgica Motivada pela Ecocardiografia Transesofágica Intraoperatória", de Silvio AA e col., 1 para estimular a discussão quanto à questão do real envolvimento da Anestesiologia na utilização da ecocardiografia transesofágica no intraoperatório em nosso país. Países como Estados Unidos e Canadá, bem como inúmeros países da Comunidade Europeia, já incorporaram em seus serviços referência à utilização dessa monitoração como forma de promover a diminuição da morbimortalidade associada ao procedimento cirúrgico cardiovascular.

Recentemente, pude ler, em capítulo específico publicado no Anesthesiology Clinics 2, que a ecocardiografia transesofágica no intraoperatório acabará afetando drasticamente o curso da Anestesiologia cardiovascular em futuro próximo. Cabe ainda salientar que a técnica, mesmo que de forma rudimentar em seus primórdios, vem sendo aplicada há mais de 25 anos em alguns serviços, sofrendo, nesse período, profundas modificações que resultam da evolução tecnológica.

Nós, anestesiologistas, que nos dedicamos à anestesia cardiovascular, vemos essa prática como um recurso de fundamental importância tanto no manuseio da técnica anestésica administrada e controle hemodinâmico como na mudança de tomada de decisões no período transoperatório por parte da equipe cirúrgica em conjunto com a equipe anestésica 3. Cabe ainda ressaltar atitudes intangíveis, mas não menos importantes, relacionadas ao desenvolvimento de maior respeito e maior importância ao profissional dotado da capacidade de exercer procedimento de tamanha especificidade, sem comentar o potencial valor agregado no que se refere à remuneração envolta no procedimento em si.

As dificuldades quanto à prática da ecocardiografia transesofágica no intraoperatório são inúmeras; investimento na aquisição e manutenção do equipamento, além da longa e contínua curva de aprendizado.

Afora os poucos profissionais anestesiologistas dotados de habilidade e prática associada à técnica, fruto, talvez, do elevado custo da monitoração, que acaba se tornando obrigatoriamente um método institucional, além, é claro, das dificuldades envoltas na formação de um profissional qualificado, cabe ressaltar a importância da regulamentação da prática da ecocardiografia transesofágica no intraoperatório pelo anestesiologista. Já existem inúmeros guidelines que visam regulamentar a prática do exame pelo anestesiologista, e a credibilidade é fundamental, pois, sem ela, todo e qualquer esforço no âmbito geral será em vão. A aquisição de respeito e reconhecimento pela prática da técnica certamente exigirá esse esforço.

A Sociedade Americana de Anestesiologistas (ASA) e a Sociedade Cardiovascular de Anestesiologistas (SCA) possuem um guideline 4 em vigor, o qual foi elaborado por uma força-tarefa em 1996. Esse guideline, em virtude da evolução tecnológica e dos novos métodos diagnósticos desenvolvidos, para não mencionar os resultados cada vez mais decisivos obtidos 5, certamente será revisado em 2010 ou 2011.

Exemplo semelhante pode ser encontrado no Canadá, que possui um guideline especificamente elaborado em 2006 para a prática da ecocardiografia transesofágica no intraoperatório realizada pelos anestesiologistas e publicado no Canadian Journal of Anesthesia 6.

Existem outros exemplos em países nos quais a monitoração já é difundida há algum tempo. Cabe aos anestesiologistas brasileiros começarem a pensar no assunto. Tudo começará pela criação de uma área de certificação, com guideline próprio, com a criação de níveis de evidência bem estruturados e a estratificação técnica do profissional a ser qualificado, tudo isso nos moldes dos guidelines já existentes.

Alguns modelos já estão em prática e com elevada comprovação técnico-científica de sucesso. Já temos um norte. Cabe a nós, anestesiologistas brasileiros, que nos dedicamos à Anestesiologia cardiovascular e ao método da ecocardiografia transesofágica no intraoperatório, criarmos um modelo baseado em nossa realidade.

 

Kleber Machareth, TSA
Anestesiologista do Serviço de Anestesia da
Santa Casa de Campo Grande, MS

 

REFERÊNCIAS

01. Silvio AA, Silva ED, Segurado AVR et al. - Mudança de conduta cirúrgica motivada pela ecocardiografia transesofágica intraoperatória. Rev Bras Anestesiol, 2010;60:192-197.         [ Links ]

02. Yeates TM, Zimmerman JM, Cahalan MK - Perioperative echocardiography: two-dimensional and three-dimensional applications. Anesthesiol Clin, 2008;26:419-435.         [ Links ]

03. Fox J, Glas K, Swaminathan M et al. - The impact of intraoperative echocardiography on clinical outcomes following adult cardiac surgery. Sem Cardioth Vasc Anesth, 2005;9:25-40.         [ Links ]

04. American Society of Anesthesiologists - Practice guideline for perioperative transesophageal echocardiography. A report by the American Society of Anesthesiologists and the Society of Cardiovascular Anesthesiologists. Task Force on Transesophageal Echocardiography. Anesthesiology, 1996;84:986-1006.         [ Links ]

05. Vegas A, Meineri M - Three-dimentional transesophageal echocardiography is a major advance for intraoperative clinical management of patients undergoing cardiac surgery: A core review. Anesth Analg, 2010;110:1548-1573.         [ Links ]

06. Beique F, Ali M, Hynes M et al. - Canadian guidelines for training in adult perioperative transesophageal echocardiography. Recommendations of the Cardiovascular Section of the Canadian Anesthesiologists' Society and the Canadian Society of Echocardiography. Can J Anesth, 2006;53:1044-1060.         [ Links ]