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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.2 Campinas Mar./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000200007 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Descrição das práticas de prevenção da infecção Hospitalar por anestesiologistas em um Hospital Universitário

 

 

Daniel KishiI; Rogério Luiz da Rocha Videira, TSAII

IAnestesiologista
IIAnestesiologista do HC da FM/USP

Correspondência para

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Os anestesiologistas desempenham importante papel na prevenção de infecções hospitalares. Na prática anestésica, rotineiramente são ultrapassadas as barreiras fisiológicas, possibilitando a contaminação do paciente por micro-organismos e o desenvolvimento de infecção. A não adesão às práticas recomendadas pode facilitar a transmissão de micro-organismos. É importante descrever as práticas de profilaxia da infecção hospitalar relacionadas ao ato anestésico executadas por médicos anestesiologistas.
MÉTODO: Foram distribuídos questionários estruturados, preenchidos pelo próprio anestesiologista de forma voluntária e anônima.
RESULTADOS: Dentre os 112 anestesiologistas, 75% responderam ao questionário. A máscara cirúrgica é usada por 95,2%, 96,3% usam luvas frequentemente, 98,8% usam luva estéril para bloqueio do neuroeixo, 91,3% adotam a técnica estéril para punção venosa central, 95,1% lavam as mãos entre os casos, 91,6% procuram manter estéril a cânula de intubação orotraqueal, 96,3% descartam o propofol em seringa ao final de cada anestesia, 30% limpam os frascos para uso no neuroeixo e 19,8% para uso endovenoso.
CONCLUSÕES: As práticas de profilaxia de infecção hospitalar apresentaram boa adesão e, para melhorá-las, é necessário realizar campanhas educacionais multidisciplinares.

Unitermos: Assepsia; DOENÇAS: Infecciosas, infecção hospitalar; EQUIPAMENTOS: Assepsia; Programa de Controle de Infecção Hospitalar; Precauçoes Universais.


 

 

INTRODUÇÃO

Os anestesiologistas desempenham importante papel na prevenção de infecções hospitalares. Na prática anestésica, rotineiramente são realizados procedimentos invasivos que ultrapassam as barreiras fisiológicas, como por exemplo, na intubação traqueal, acesso venoso ou bloqueios do neuroeixo, o que possibilita a contaminação do paciente por micro-organismos e o desenvolvimento de infecção. A não adesão a práticas recomendadas pode facilitar a transmissão de microorganismos do anestesiologista para o paciente, do paciente para o anestesiologista e entre pacientes 1.

Entre os aspectos importantes para a redução do risco de transmissão de infecção, encontram-se as práticas de higiene do profissional, a adequação da limpeza dos equipamentos e a execução adequada dos procedimentos invasivos 2.

As práticas de higiene relacionadas ao ato anestésico já foram estudadas em diferentes países, como nos Estados Unidos, Reino Unido, Nova Zelândia e França 3-6.

 

MÉTODOS

Após aprovação da Comissão de Ética para Análise de Projetos de Pesquisa do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, foram distribuídos os questionários para os anestesiologistas que atuam no centro cirúrgico do Instituto Central do mesmo hospital.

O questionário foi traduzido e adaptado livremente de estudos prévios de prevenção de transmissão de infecção perioperatória 4,5 e foi preenchido pelo próprio anestesiologista, de forma voluntária e anônima (Questionário).

No período de setembro de 2007 a agosto de 2008, foram entregues questionários a 112 anestesiologistas.

Foram incluídos no estudo os médicos anestesiologistas da Divisão de Anestesiologia do Hospital das Clínicas de São Paulo, uma amostra considerada de conveniência, não aleatorizada.

Foram adotados como critérios de exclusão: 1. Anestesiologistas que não participam rotineiramente do cuidado clínico intraoperatório de cirurgias realizadas no centro cirúrgico; 2. Não aceitar preencher o questionário e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Dos 112 questionários entregues, 84 foram preenchidos e devolvidos, o que equivale à participação de 75% dos profissionais consultados. O uso rotineiro da proteção ocular é relatado por 21,2% dos anestesiologistas, enquanto 95,2% utilizam sempre - ou com frequência - a máscara cirúrgica; 96,3% usam luvas de procedimento em geral, enquanto 84,1% as usam para venóclise. O uso de luvas estéreis para realizar o bloqueio do neuroeixo é de 98,8% e para bloqueio periférico, de 87%. O acesso venoso central com a técnica, incluindo escovação das mãos, gorro, máscara, avental estéril e luva estéril é realizado por 91,3% dos anestesiologistas (Tabela I).

Noventa e cinco por cento dos anestesiologistas lavam as mãos entre os casos, 89% lavam-nas ao retirar as luvas e 74,1% antes de realizar bloqueio do neuroeixo.

A cânula de intubação traqueal é mantida estéril por 91,6% dos anestesiologistas e 95,1% efetuam a troca do filtro do sistema de ventilação entre cada paciente.

O propofol em seringa é descartado ao final de cada anestesia por 98,8% dos anestesiologistas, porém 52,4% dos respondentes recarregam a seringa de propofol para o mesmo paciente.

Torneira de três vias para infusão por via venosa de medicamentos é usada por 96,3%, porém a limpeza com álcool dos frascos e ampolas de medicamentos para uso no bloqueio do neuroeixo é relatada por 30%, enquanto 19,8% realizam essa limpeza antes do uso venoso.

 

DISCUSSÃO

A participação dos anestesiologistas no presente estudo (75%) pode ser favoravelmente comparada à de outros estudos, como a de 44% na pesquisa feita por Tait e col. nos Estados Unidos 3, 68% na realizada por El Mikatti e col. no Reino Unido 4 e 61% naquela efetuada por Ryan e col. na Nova Zelândia 5.

Os dados apresentados no presente estudo mostram, de modo geral, boa adesão às práticas de profilaxia da infecção hospitalar, que se compara favoravelmente aos estudos realizados anteriormente em outros países.

Nesta pesquisa, 73,8% dos entrevistados nunca ou raramente utilizaram óculos de proteção. No único estudo em que esse item é citado, realizado por Ryan e col. 5, na Nova Zelândia (NZ), houve um número semelhante, 63%. Já em relação ao uso de máscara, temos uma proporção semelhante ao estudo americano de Tait e col. 3 (94,9%) e superior aos estudos do Reino Unido (GB - 68,3%) 4 e neozelandês (59,5%) 5. Houve também uma porcentagem maior de usuários de luvas (96,3%) contra 86,3% no estudo de Tait e col. 3 (EUA), 54% no estudo de El Mikatti e col. 4 (GB) e 84,2% no estudo de Ryan e col. 5 (NZ). Em relação ao bloqueio do neuroeixo, foi relatada uma porcentagem semelhante de uso de luvas estéreis, 98,8%, em comparação a 99,3% no estudo de Ryan e col. 5 (NZ), o que indica que essa é uma prática bem estabelecida nos dois países, mas não há esse dado disponível nos outros estudos. Para acesso venoso central pela técnica estéril com gorro, máscara, luva e avental estéril, a adesão em nossa instituição (91,3%) é inferior a 97,5%, de acordo com o relatado por Tait e col. 3 (EUA), mas superior ao relatado por el Mikatti e col. 4 (GB) e Ryan e col. 5 (NZ), com 70,4% e 70%, respectivamente (Tabela II).

 

 

A lavagem das mãos entre os casos, prática simples que pode prevenir a transmissão de micro-organismos com a melhor relação custo/benefício 7, é relatada no presente estudo por 95,1% dos anestesiologistas em comparação com 83,9% no estudo de el Mikatti e col. 4 (GB) e 93,7% no de Ryan e col. 5 (NZ). A adesão a essa prática é menor antes da realização de bloqueio neuroaxial (74,1%); ainda assim, representou mais do que o dobro encontrado por Videira e col. 7 (32%) em estudo anterior realizado no Brasil. De acordo com a recomendação recente publicada pela ASA (Sociedade Americana de Anestesiologistas), deve-se, antes de efetuar o bloqueio neuroaxial, realizar a lavagem das mãos, usar luvas estéreis, gorro e máscara cobrindo a boca e o nariz, além de usar pacotes individuais de preparação da pele e retirar as joias, porém é incerta a recomendação quanto ao uso de avental estéril e mudança de máscaras antes de cada novo caso 8.

O resultado sugere cuidado efetivo com a contaminação das vias aéreas, pois 91,6% dos anestesiologistas procuram manter a cânula de intubação traqueal estéril e 95,1% trocam o filtro do sistema de ventilação entre os pacientes. No estudo de el Mikatti e col. 4 (GB), esse cuidado foi bastante inferior (7,2%), enquanto 97,1% relataram fazer essa troca no estudo de Ryan e col. 5 (NZ). Isso pode sugerir uma melhora na prática da última década, embora os locais dos levantamentos tenham sido diferentes (Brasil, GB 4 e NZ 5), mas esse item não foi analisado no estudo norte-americano.

Assim como no estudo de Ryan e col. 5 (NZ), o propofol em seringa não foi utilizado em pacientes diferentes, o que revela uma prática adequada, porém mais da metade dos entrevistados faz recarga frequente da seringa para o mesmo paciente, enquanto não há dados a esse respeito nos estudos realizados nos EUA 3 e GB 4.

Embora Hemingway e col. 9 tenham mostrado que a limpeza externa de ampolas com álcool possa reduzir a contaminação do conteúdo, a minoria dos anestesiologistas limpa com álcool os frascos e as ampolas a serem abertos, o que aumenta o risco de contaminação dos medicamentos.

A adesão às práticas de profilaxia de infecção hospitalar relatada no presente estudo foi comparativamente melhor do que a observada em estudos realizados anteriormente.

Alguns aspectos, como, por exemplo, a limpeza dos frascos de medicamento com álcool, ainda estão muito aquém do desejado, devendo ser estimulada essa prática.

Para melhorar as práticas de higienização, é possível sugerir a criação de sinais e quadros dispostos nas estações de trabalho do anestesiologista, além de um manual de procedimentos, com sua disponibilização por meio eletrônico e em forma de um livreto com fácil acesso. Além disso, os fabricantes de medicamentos usados em nossa especialidade poderiam estimular a boa prática clínica ao imprimir nas embalagens a recomendação de higienizá-los antes do uso, ou adotar a embalagem estéril para medicamentos usados em bloqueios do neuroeixo.

 

 

REFERÊNCIAS

01. Ross RS, Viazov S, Gross T et al. - Transmission of hepatitis C virus from a patient to an anesthesiology assistant to five patients. New Engl J Med, 2000;343:1851-1854.         [ Links ]

02. Herwaldt L A, Pottinger J M, Coffin SA et al. - Nosocomial Infections Associated with Anesthesia, em: Mayhall CG - Hospital Epidemiology and Infection Control, 3rd Ed, Philadelphia, Lippincott Williams & Wilkins, 2004:847-874.         [ Links ]

03. Tait AR, Tuttle DB - Preventing perioperative transmission of infection: a survey of anesthesiology practice. Anesth Analg, 1995;80:764-769.         [ Links ]

04. el Mikatti N, Dillon P, Healy TE - Hygienic practices of consultant anaesthetists: a survey in the north-west region of the UK. Anaesthesia, 1999;54:13-18.         [ Links ]

05. Ryan AJ, Webster CS, Merry AF et al. - A national survey of infection control practice by New Zealand anaesthetists. Anaesth Intensive Care, 2006;34:68-74.         [ Links ]

06. Carbonne A, Veber B, Hajjar J et al. - Evaluation des pratiques en anesthésie exposant au risque infectieux par transmission croisée. Ann Fr Anesth Reanim. 2006;25:1158-1164.         [ Links ]

07. Videira RL, Ruiz-Neto PP, Brandao Neto M - Post spinal meningitis and asepsis. Acta Anaesthesiol Scand, 2002;46:639-646.         [ Links ]

08. American Society of Anesthesiologists Task Force on infectious complications associated with neuraxial techniques. - Practice advisory for the prevention, diagnosis, and management of infectious complications associated with neuraxial techniques: a report by the American Society of Anesthesiologists Task Force on infectious complications associated with neuraxial techniques. Anesthesiology. 2010;112:530-545.         [ Links ]

09. Hemingway CJ, Malhotra S, Almeida M et al. - The effect of alcohol swabs and filter straws on reducing contamination of glass ampoules used for neuroaxial injections. Anaesthesia, 2007;62:286-288.         [ Links ]

 

 

Correspondência para:
Dr. Daniel Kishi
Rua Serafim Dias Machado no 171 Vila Maria
12209-240 - São Jose dos Campos, SP, Brasil
E-mail: dk3www@yahoo.com

Submetido em 13 de julho de 2010.
Aprovado para publicação em 9 de setembro de 2010.

 

 

Recebido da Disciplina de Anestesiologia Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) - Estudo realizado no Hospital das Clinicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FM/USP).