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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.2 Campinas Mar./Apr. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000200016 

CARTA AO EDITOR

 

Homenagem ao Dr. Zephirino Alves do Amaral, por ocasião do primeiro centenário da introdução da anestesia regional intravenosa no Brasil (1911-2011)

 

 

Prezado Editor,

Sobrevindo neste ano de 2011 o centenário príncipe da introdução da Anestesia Regional Intravenosa (Santa Casa de Misericórdia de São Paulo) em nosso país e lembrando daquele momento marcante da Anestesiologia brasileira, acreditamos ser válida uma breve descrição de alguns dados pessoais, familiares, estudantis, profissionais, políticos, didáticos, científicos e beneméritos do responsável por essa realização, Dr. Zephirino Alves do Amaral, como um pequeno tributo ao grande médico brasileiro. Em verdade, a manutenção viva da história da Medicina de um país é sempre de grande importância, e esse é outro relevante motivo desta carta.

Inicialmente, devemos registrar que fica clara a grafia do prenome do Dr. Zephirino Alves do Amaral, como está em sua publicação original 1 e em livro que publicamos, não obstante conste Dr. Zeferino em diversos escritos, talvez por reforma ortográfica posterior.

Dr. Zephirino Alves do Amaral nasceu em São João Batista de Atibaia, atual Atibaia/SP, em 30 de novembro de 1887. Realizou estudos fundamentais no Colégio de Itu, em São Paulo, seguindo depois para Paris, a fim de realizar estudos de humanidades. Ao regressar ao Brasil, iniciou seu curso médico na Faculdade de Medicina da Bahia, onde foi colega de Celestino Bourroul, Enjolras Vampré e outros nomes que se destacaram na Medicina brasileira, completando-o na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (Praia Vermelha), em 1908. Em sua tese de doutorado, descreveu pela primeira vez no Brasil um caso de actinomicose cérvico-facial (1908), antes mesmo de outros casos registrados por Adolfo Lutz, Aguiar Pupo, Licinio Dutra, Floriano de Almeida e outros 2.

Dr. Zephirino, para especializar-se em cirurgia, seguiu para a Alemanha, onde tomou conhecimento dos trabalhos de August Karl Gustav Bier, um dos maiores cirurgiões europeus da época e criador da raquianestesia e da anestesia regional intravenosa, a quem homenageamos em publicação anterior, por ocasião do primeiro centenário da criação dessa última técnica anestésica 3.

Voltando ao Brasil, Dr. Zephirino iniciou sua vida profissional na cidade de Bragança Paulista/SP. Em 1910, passou a residir em São Paulo/SP e a trabalhar no Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia, ao qual dedicou longos anos de sua existência, inclusive chefiando a Segunda Cirurgia de Homens durante décadas, enfermaria na qual o conhecemos e também exercemos nossa breve prática cirúrgica. Em sua clínica particular, aliava a técnica operatória aos conhecimentos científicos e à bondade de coração, manifestada principalmente em relação aos humildes.

 

 

São curiosos os materiais, os procedimentos e outros detalhes que ele recomendou na descrição inicial da técnica 1, em sua maioria totalmente diferentes dos que são atualmente considerados corretos. Por exemplo, "como todas as anestesias locaes, não é usada em creanças abaixo de 13 annos". "Necessita-se de três faixas elásticas, sendo duas de dois metros e a outra de seis, tendo todas ellas de 6 a 8 centimetros de largura"; esta última seria para o dessangramento e as duas primeiras para o garroteamento do membro, sendo recomendado que, após o garroteamento proximal, a faixa mais longa deveria ser retirada "a partir da periferia...". "No espaço comprehendido entre a faixa que liga a base do braço e a parte ischemiada, n'uma extensão nunca inferior a 5 centímetros nem superior a 30, passa-se uma terceira faixa". "Para a desinfecção do membro, que deverá ser cuidadosa, emprega-se a solução alcoólica de formalina a ½ por 100, durante cinco minutos, por meio de fricções com uma pelota de algodão preza a uma pinça". Sobre a veia a ser acessada: "Nas operações no rádio, utiliza-se a cephalica, e nas operações do cúbito a basílica; na perna, a veia utilizada é a saphena magna". Para "descobrir" a veia, após a anestesia local, "faz-se uma incisão na pelle, transversal à veia que se deseja encontrar; descoberta esta, liga-se, em cima, próximo da faixa que garante a ischemia do braço e, mais abaixo, passa-se outro fio que servirá para fixar a agulha na veia que é aberta transversalmente, com a ponta de uma thesoura fina". Volumes de solução "anesthesiante" (procaína, à semelhança de Bier): 50-70 mL para membro superior e 70-80 mL para membro inferior. "O líquido anesthesico deverá tomar a direção da peripheria; depois de feita a injecção, liga-se a veia na ponta da agulha e retira-se o fio que fixa a agulha à veia". "Quando se temer intoxicação, pode-se retirar a faixa central, fazendo-se descompressões e compressões sucessivas, com intervallo de um minuto, de modo que a entrada do medicamento na economia se dê lentamente".

Como assistente do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, diretor do Instituto Vacinogênico (1892), diretor Clínico da Santa Casa de Misericórdia (1894), fundador e primeiro diretor da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo (1913), atualmente Faculdade de Medicina da USP, o Dr. Zephirino Alves do Amaral fez parte do corpo docente da Primeira Clínica Médica (Clínica Ginecológica) dessa Escola, onde lecionou Obstetrícia e Cirurgia 4.

Dr. Zephirino foi presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São Paulo e deputado estadual (Legislatura 19281930) pelo Partido Republicano Paulista (PRP). Em sua terra natal, construiu e instalou um Posto de Puericultura e doou o terreno para a construção do Asilo para Menores (1945), que, posteriormente, passou a se chamar Lar Dona Mariquinha do Amaral; Atibaia o homenageou com um busto na praça fronteiriça à Santa Casa de Misericórdia da cidade e, como fez a cidade de São Paulo, colocou seu nome em uma das ruas.

Dr. Zephirino tinha três irmãos, era casado com Dona Evelina Vairo Alves do Amaral, também de Atibaia, e com ela teve cinco filhos: Claudino, Walter, Vera, Celia e Lia. Dr. Zephirino era de família destacada. O primeiro dos filhos, Dr. Claudino Alves do Amaral, que recebeu o nome do pai do Dr. Zephirino, era médico e grande cirurgião em São Paulo, simpático e brincalhão, com quem convivemos bastante, e casado com Dona Glória do Amaral, Dona Glorinha, como era carinhosamente conhecida. Dr. Zephirino era parente próximo da notável pintora Tarsila do Amaral, falecida em 1973, aos 87 anos, e que residiu na casa que abrigou a sede da Sociedade de Anestesiologia do Estado de São Paulo (SAESP), desde 1974 até o início de 2010 5. Ele possuía fazendas na região de Atibaia, nas proximidades da Usina Elétrica e da Usina de álcool da família Matarazzo, e aproximadamente na direção de Bragança Paulista. A família Amaral era muito amiga do famoso escultor Victor Brecheret e o convidava sempre para passar alguns dias de julho no campo, com os filhos.

Dr. Zephirino era um cirurgião da "velha guarda" e detentor de grande conhecimento médico e enorme experiência clínica, numa época em que não existiam tomografia, ultrassonografia, ressonância magnética, nem qualquer outro método semiológico importante atualmente utilizado, a não ser os raios X. Guardamos sempre na memória a cena de um dos brilhantes diagnósticos de doença abdominal que ele realizou, utilizando unicamente sua experiência clínica. O fato ocorreu da seguinte forma: vários médicos e este autor, ainda estudante de Medicina, rodeavam um paciente acamado e apalpavam, auscultavam e percutiam seu abdômen, discutindo as hipóteses diagnósticas possíveis, quando, vindo de trás de todos, surgiu uma mão que simplesmente palpou o abdômen do paciente; era do Dr. Zephirino, que, praticamente sem ver o paciente, disse: "Estão todos enganados, o que ele tem é o seguinte..."

Dr. Zephirino Alves do Amaral faleceu em São Paulo, alguns dias antes de completar 75 anos, em 13 de novembro de 1962, deixando, além da introdução da anestesia regional intravenosa no Brasil, diversos outros trabalhos publicados, inclusive sobre o valor cirúrgico da raquianestesia, tendo prestado importantes serviços à Medicina do nosso país.

Atenciosamente,

Dr. Almiro dos Reis Júnior, TSA
Anestesiologista da São Paulo Serviços Médicos de Anestesia (SMA)
Hospital Alemão Oswaldo Cruz, São Paulo, SP.

 

REFERÊNCIAS

01. Amaral ZA - Anestesia Venosa, Imprensa Med S Paulo, 1911; 19:39-41.         [ Links ]

02. Cordeiro H - Considerações sobre um caso curado de actinomicose cérvico-facial. Rev Bras Otorrinolaringol, 1940;8:635-650.         [ Links ]

03. Reis Jr A - Homenagem a August Karl Gustav Bier por ocasião dos 100 anos da Anestesia Regional Intravenosa e dos 110 anos da Raquianestesia. Rev Bras Anestesiol, 2008; 58:409-424.         [ Links ]

04. Marinho, MGSMC - Trajetória da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: aspectos históricos da "Casa de Arnaldo". São Paulo, FMUSP, 2006;34.         [ Links ]

05. Reis Jr A - Como o sonho da sede própria virou realidade. SAESP em Revista, 2007; 2:20-21.         [ Links ]