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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.3 Campinas May/June 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000300001 

EDITORIAL

 

Ciência além dos cálculos

 

 

A ciência médica esta habituada à doutrina cartesiana, na qual prova e contraprova são fatores fundamentais na aceitação de determinado fato observado. Além disso, quase sempre é aconselhável apresentar aquelas provas alicerçadas em alguns cálculos que, matematicamente, comprovem os resultados. Assim, as ações investigativas sempre se basearam em protocolos rígidos em que, por meio de métodos específicos, se medem e contam particularidades do fenômeno científico observado. Métodos concebidos dessa forma são conhecidos como quantitativos no jargão da pesquisa científica. Todavia, outros métodos de investigação podem ser apropriados, sobretudo nas áreas em que medir e contar são tarefas quase impossíveis, ou o fenômeno observado não comporta a aplicação de método quantitativo; ou ainda quando esse mesmo fenômeno é observado de outra forma na produção dos dados.

No presente número, o trabalho de Pereira e col. se enquadra nesse outro tipo de investigação. O método foi desenhado não para medir ou contar variáveis, mas para estudar essas variáveis do ponto de vista qualitativo. Essa forma de estudo pode provocar algum tipo de estranhamento, ou mesmo descartar esse tipo de leitura, entre aqueles habituados a ler artigos baseados em métodos quantitativos. Entretanto, o trabalho traz todos os elementos característicos de investigação científica qualitativa, com produção de resultados, discussão e conclusão obtida por meio dos resultados observados.

Segundo Black 1, é mais fácil aceitar um resultado se for expresso em números, ou seja, quantificado, mesmo que a conclusão seja reducionista ou mesmo improvável. Pesquisadores qualitativos buscam a verdade mais além dos números. Eles visam estudar o fenômeno em seu contexto natural, tentando encontrar o sentido, ou interpretá-lo, em função dos significados que as pessoas atribuem a ele. Dessa forma, usam "perspectiva holística que preserva as complexidades do comportamento humano" 2. O pensamento de que a abordagem quantitativa exclui a pesquisa qualitativa se tornou obsoleto em nossos dias. Nas áreas de atenção primária à saúde, ou da pesquisa em serviços de saúde, a observação qualitativa ocupa espaço cada vez mais expressivo. Em muitas ocasiões, hoje, a pesquisa qualitativa desponta como prérequisito para a pesquisa quantitativa.

A pesquisa quantitativa começa por uma ideia, transformada em hipótese. Esse fato gera resultados e, por dedução, termina com uma conclusão. A pesquisa qualitativa começa com a disposição de se investigar determinada área. Os dados são coletados por meio de entrevistas, documentos e outros. Através desses dados, criam-se as ideias e hipóteses por intermédio de raciocínio indutivo 2. A pesquisa qualitativa não pode ser repetida inúmeras vezes, produzindo sempre os mesmos resultados. Seu poder reside na validade, ou seja, em o quanto está próxima à verdade. Ela não é estanque e limitada e depende muito da experiência subjetiva dos pesquisadores e dos pesquisados 3.

Médicos atribuem elevado valor aos resultados alicerçados em números, sobretudo se possuem muitos algarismos. Vários exemplos poderiam ser apresentados de como já fomos enganados por esses mesmos números quando a realidade é bem outra. O crescimento do interesse pela pesquisa qualitativa vem justamente pelo fato de que os métodos quantitativos, em muitos casos, fornecem respostas incorretas (ou nenhuma resposta) aos dilemas clínicos e à eficácia dos serviços de saúde.

Os periódicos médicos no passado rejeitavam a publicação de artigos com metodologia qualitativa, em grande parte devido ao desconhecimento da metodologia investigativa utilizada nesses artigos. Nos dias de hoje, começam a abrir espaço para a pesquisa qualitativa. O modelo, entretanto, de pesquisa qualitativa não é aval para a pesquisa de qualidade. Como sucede com a pesquisa quantitativa, também é necessário efetuar-se uma leitura crítica das evidências apresentadas.

 

Dr. Mário J Conceição
Editor-chefe
Revista Brasileira de Anestesiologia

 

REFERÊNCIAS

1. Black N - Why we need qualitative research. J Epidemiol Community Health, 1994;48:425-426.         [ Links ]

2. Green J, Britten N - Qualitative research and evidence based medicine. BMJ, 1998;316:1230-1232.         [ Links ]

3. Greenhalgh T - How to Read a Paper: the Basics of Evidence-Based Medicine. 3rd Ed, Oxford, Blackwell Publishing, 2006;187-200.         [ Links ]