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Revista Brasileira de Anestesiologia
Print version ISSN 0034-7094
Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.3 Campinas May/June 2011
http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000300010
INFORMAÇÕES CLÍNICAS
Falha no funcionamento do ressuscitador manual autoinflável devido à presença de secreções pulmonares ressecadas
Armando Carlos Franco de Godoy
Professor Doutor; Fisioterapeuta responsável pelas enfermarias de Emergência Clínica e Cirurgia do Trauma da Unicamp
RESUMO
JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Os ressuscitadores manuais autoinfláveis (RMA) são dispositivos utilizados para ofertar ventilações para pacientes com necessidade ventilatória. Esses dispositivos são compostos por um conjunto de válvulas que trabalham de forma sequencial e alterações em seu funcionamento podem ser prejudicais ao paciente.
RELATO DO CASO: Durante a utilização de RMA, observou-se que a válvula permaneceu fixa devido à presença de secreção pulmonar ressecada, o que impossibilitou a ventilação do paciente, mas não a manipulação da unidade compressível.
CONCLUSÕES: Essa situação reafirma que o reanimador é um dispositivo que deve ser usado por profissionais treinados, pois, apesar de as alterações de funcionamento serem raras, podem ser potencialmente fatais.
Unitermos: COMPLICAÇÕES: Edema pulmonar agudo, Parada cardiorespiratória; EQUIPAMENTOS: ressuscitador manual autoinflável; REANIMAÇÃO
INTRODUÇÃO
Os reanimadores manuais autoinfláveis (RMA) são dispositivos utilizados com a finalidade de ofertar ventilações com pressão positiva, em pacientes com necessidade de suporte ventilatório. Entre as situações clínicas em que os RMAs são utilizados é possível citar: ressuscitação cardiopulmonar e transporte extra e intra-hospitalar 1,2.
Os RMAs não podem ser considerados simples dispositivos, mas sim um mecanismo complexo que consiste de um conjunto de válvulas que trabalham de forma sequencial, com o objetivo de permitir a exalação e a entrada de ar no sistema respiratório do paciente 3.
Os RMAs podem apresentar três partes: reservatório de O2 (1), unidade compressível (2) e conector do paciente (3). O reservatório de O2 constitui-se de um saco com a finalidade de receber o fluxo de O2 e é encaixado na parte posterior da unidade compressível; a unidade compressível é a parte manipulada pelo operador do RMA para ofertar volume de ar ao paciente; enquanto o conector do paciente é a peça em que se acopla a máscara de ressuscitação ou a porção proximal do tubo endotraqueal (Figura 1).

Para fazer funcionar o RMA, o operador comprime a unidade compressível produzindo pressão supra-atmosférica no interior desta e fazendo com que a válvula tipo disco (4) obstrua a saída do conector do paciente, direcionando ar para o sistema respiratório deste; concomitantemente, a válvula posterior (5) fecha a saída de ar pela parte posterior da unidade compressível. Quando o operador descomprime a unidade compressível, ocorre uma pressão subatmosférica em seu interior, o que faz com que a válvula posterior se abra e aspire o ar ambiente ou oxigênio do reservatório de O2. Em sincronia, a válvula tipo disco retrocede até esbarrar no anteparo do conector do paciente (6), permitindo a exalação do ar injetado no sistema respiratório. Alguns RMAs têm no conector do paciente uma válvula de pressão (7) que se abre quando o sistema atinge uma pressão superior a 40 cmH2O, garantindo limite pressórico no sistema (Figura 1).
RELATO DO CASO
Durante a utilização do RMA em um paciente de 65 anos, sexo masculino, com edema pulmonar cardiogênico dependente de ventilação mecânica invasiva, para a realização de troca de ventiladores, observou-se que não ocorria expansão do tórax do paciente durante as manipulações da unidade compressível. Em uma inspeção do equipamento, notou-se que a válvula tipo disco estava colada no anteparo do conector do paciente por uma camada de secreção pulmonar ressecada (8) (Figura 1).
DISCUSSÃO
A situação apresentada vai ao encontro das opiniões de diversos autores, os quais relatam que o RMA é um dispositivo que deve ser usado por uma equipe de profissionais devidamente treinados e familiarizados com os componentes e o mecanismo de funcionamento de suas válvulas, pois, apesar de as alterações das válvulas do RMA serem raras, são reais e podem ser fatais em determinadas situações clínicas 3,4.
Na literatura, é possível encontrar relatos de casos de mau funcionamento da válvula do paciente, devido ao fato de os RMAs estarem recebendo altos fluxos de O2 5 e/ou com montagem errônea de suas peças 3. Nessas situações, os autores relatam que houve dificuldade ou impossibilidade de manipular a unidade compressível do RMA 3-11. Essa situação ocasionou nos pacientes complicações como: pneumotórax 6, dilatação e ruptura gástrica com aspiração do conteúdo gástrico 7, pneumoperitônio 8, ruptura de esôfago 9 e pneumoencéfalo 10.
No presente caso, como a válvula do paciente permanecia fixa por secreções pulmonares ressecadas e o RMA utilizado apresentava válvula de pressão, o ar a ser direcionado para o sistema respiratório foi direcionado para o ambiente, enquanto a unidade compressível continuava sendo manipulada normalmente, sem ocorrer ventilação do paciente.
O que levou à percepção de que ocorria falha no funcionamento do RMA foi a imobilidade do tórax do paciente. Se ocorresse a utilização desse RMA em tais circunstâncias por tempo indeterminado, em situações como transporte extra ou intra-hospitalar, parada cardiorrespiratória ou troca do tubo endotraqueal, o paciente poderia apresentar hipoxemia, com eventual prejuízo de sua condição clínica, o que poderia leválo até a morte.
Embora, na unidade, os RMAs colocados à beira do leito sejam trocados a cada 48 horas, não é possível precisar há quanto tempo esse RMA permaneceu ao lado do paciente sem ser utilizado.
O RMA é um dispositivo que deve ser usado por uma equipe de profissionais devidamente treinados e familiarizados com os componentes e o mecanismo de funcionamento de suas válvulas, pois, em alguns tipos, a unidade compressível pode ser manipulada pelo operador sem ocorrer a ventilação do paciente.
REFERÊNCIAS
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Correspondência para:
Dr. Armando Carlos Franco de Godoy
Rua Hercules Florence, 100/23 Botafogo
13020170 - Campinas, SP, Brasil
E-mail: armandogodoy@ig.com.br
Submetido em 26 de agosto de 2010.
Aprovado para publicação em 7 de dezembro de 2010.
Recebido do Hospital das Clínicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil.










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