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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.4 Campinas July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000400011 

ARTIGOS ESPECIAIS

 

Avaliação do nível de estresse do anestesiologista da cooperativa de anestesiologia de Sergipe

 

 

Austeclínio Newton Marinho AndradeI; Marco Antônio Costa de Albuquerque, TSAII; Aley Newton Marinho AndradeIII

IEstudante de Medicina da UFS
IIMestre em Ciências da Saúde; Médico-anestesiologista do Hospital Universitário da UFS; Coordenador de Anestesiologia do Hospital Universitário da UFS
IIIMédico-anestesiologista da Cooperativa de Anestesiologia de Sergipe

Correspondência para

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: Avaliar o impacto que o estresse gera na saúde ocupacional dos anestesiologistas de Sergipe e propor soluções para melhorar as condições de trabalho, qualidade do serviço realizado e qualidade de vida.
MÉTODO: Aplicaram-se o questionário WHOQOL-BREF, a definição do tamanho da amostra pelo método de Barbetta e as comparações entre grupos pelos testes t Student e Análise de Variância, considerando-se significativos valores de p < 5%.
RESULTADOS: A pesquisa apresentou que a carga horária média semanal de trabalho é de 61,33 horas. Na análise subjetiva sobre a qualidade de vida, 53,1% dos entrevistados apresentam avaliação negativa ou não estabelecida. No item "lazer", 61,2% responderam que tem pouca ou nenhuma oportunidade, demonstrando consonância com a avaliação de satisfação pessoal e de trabalho. A faixa etária entre 41 e 52 anos foi a que apresentou escores melhores. Não houve diferença significativa com relação a gênero e dias de trabalho semanais. O domínio geral apresentou escores inferiores ao dos demais em todas as variáveis analisadas.
CONCLUSÕES: A carga horária excessiva contribui para uma autoavaliação negativa sobre qualidade de vida, além de dificultar o acesso a lazer. A implementação de política de qualidade nas instituições de trabalho, bem como uma reavaliação pessoal em busca de inovação, reciclagem profissional, alternativas de lazer e motivação, são fatores que poderão contribuir para a melhora da qualidade de vida e de trabalho desses profissionais.

Unitermos: ANESTESIOLOGIA: Organização; ANESTESIOLOGISTAS.


 

 

INTRODUÇÃO

A saúde ocupacional tornou-se um tema constantemente discutido, em decorrência das necessidades pessoais e coletivas. A sociedade vem reconhecendo essa importância, em razão da repercussão que o estresse causa não só no âmbito profissional, mas também no pessoal e social1,2.

Com os profissionais médicos-anestesiologistas a situação não é diferente, pois o estresse é inevitável e torna-se maléfico quando sobre ele não se tem controle, o que resulta em problemas físicos e psicossociais3.

No olhar da população, os profissionais da área médica estão protegidos desses problemas pelas instituições em que trabalham, pelos próprios colegas e ainda pelo retorno financeiro a eles atribuído4.

Entretanto, existem evidências diretas e indiretas de que essa concepção é irreal, pois a Anestesiologia é uma área identificada como extremamente estressante5, o que se demonstra em trabalhos realizados5.

Avaliamos o nível de estresse dos anestesiologistas filiados à Cooperativa de Anestesiologia de Sergipe, relacionando o perfil de qualidade de vida encontrado e o grau de satisfação com saúde, o número de dias e turnos semanais trabalhados, sexo e faixa etária.

A pesquisa avaliou o impacto do estresse na vida pessoal e profissional desses especialistas, propondo soluções para melhorar as condições de trabalho, a qualidade do serviço realizado e a qualidade de vida desses especialistas.

 

MÉTODO

Realizou-se um estudo descritivo, exploratório e de caráter transversal, por meio de um questionário padronizado, sem a identificação dos voluntários.

Os participantes são anestesiologistas filiados à Cooperativa de Anestesiologia do Estado de Sergipe e a pesquisa foi realizada no ambiente de trabalho, da seguinte forma: o pesquisador dirigia-se ao centro cirúrgico dos hospitais - Hospital de Urgência de Sergipe, Maternidade Santa Isabel, Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, Fundação Beneficente Hospital de Cirurgia, Hospital Universitário, Hospital São Lucas e Hospital Primavera - apresentava o enfoque da pesquisa e os interessados respondiam livremente ao questionário, dividido em duas partes: a primeira com dados gerais pessoais, como idade, sexo, turno de trabalho e número de dias de trabalho semanal e a segunda contendo a avaliação da qualidade de vida, por meio de um questionário desenvolvido pelo Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde, o World Health Organization Qualityof Life (WHOQOL), em sua versão abreviada - o WHOQOLBREF -, que contém 26 questões, escalonadas de um a cinco pontos6.

Esse questionário contém duas perguntas gerais sobre a qualidade de vida e o grau de satisfação com a saúde e as outras 24 envolvem aspectos físicos e psicológicos, relação social e meio ambiente. Com ele, é possível avaliar subjetivamente o grau de satisfação pessoal do entrevistado com sua capacidade de trabalho, aparência física, acesso a informações, lazer, vida sexual, sono, situação financeira, condições de trabalho e serviços de saúde, relações sociais em geral, segurança no trabalho e moradia6.

Seguiram-se as orientações do Grupo de Qualidade de Vida da Organização Mundial de Saúde para a realização da pontuação do questionário. Para a definição do tamanho da amostra, utilizou-se o método de Barbetta.

O tamanho da população em estudo era de 104 anestesiologistas e o erro tolerável considerado de 5%. Obtivemos uma amostra de 49 anestesiologistas.

As comparações entre grupos foram realizadas por meio dos testes estatísticos t de Student e Análise de Variância (ANOVA), considerando-se o nível de significância de 5%. O teste t de Student tem o objetivo de comparar médias entre dois grupos ou amostras, independentes ou pareadas, assumindo-se a homogeneidade das variâncias, enquanto a ANOVA tem o mesmo objetivo, porém no caso de mais de dois grupos.

O software utilizado para a análise foi o SPSS 17.0 (Statistical Package for the Social Science) e os dados foram expressos em percentual, média e desvio-padrão.

Foram excluídos da pesquisa aqueles que se recusaram voluntariamente a participar, os profissionais que não foram encontrados e os autores. Todos tiveram direito a privacidade, sigilo, anonimato e total liberdade para desistir de sua participação na pesquisa a qualquer momento.

Um termo de consentimento livre e esclarecido foi recebido pelos anestesiologistas antes da realização do questionário, o qual foi lido e assinado.

 

RESULTADOS

Participaram da pesquisa 49 anestesiologistas da Cooperativa de Anestesiologia de Sergipe, o que representa 45,79% do total. A média de tempo de profissão é 15,04 anos, variando de 3 anos a 38 anos e a média de horas semanais trabalhadas corresponde a 61,33, variando de 35 a 90 horas (Tabela I).

 

 

Quanto ao sexo, foram 31 homens (63,3%) e 18 mulheres (36,7%) (Tabela II). Houve predomínio da faixa etária entre 29 e 40 anos, o que representou 46,9% da amostra, seguida da faixa entre 41 e 52 anos (36,7%) e acima dos 52 anos (16,3%) (Tabela II). A idade variou de 29 a 65 anos e a média foi de 42,2 anos (Tabela III).

 

 

 

 

O turno de trabalho predominante é o matutino (75,5%), seguido pelo vespertino (18,4%) e, por último, pelo noturno (6,1%) (Tabela II).

Das mulheres, 15 trabalham mais no turno matutino (83,3%) e três no vespertino (16,7%). Nenhuma das mulheres entrevistadas apresenta predomínio de horas de trabalho no turno noturno e, entre os homens, três apresentam maior carga horária noturna (9,7%), mas também predomina o turno matutino com 71%, seguido do vespertino com 19,4% (Tabela II).

Quando avaliados subjetivamente sobre a qualidade de vida (domínio geral), 6,1% responderam muito boa, 40,8% boa, 32,7% nem boa nem ruim, 18,4% ruim e 2% muito ruim (Tabela II). Com relação a quanto aproveitam a vida (domínio psicológico), 19 responderam bastante (38,8%), 19 mais ou menos (38,8%) e 11 muito pouco (22,4%) (Tabela II).

Avaliados sobre o grau de satisfação com as relações pessoais (domínio social), 51% se afirmam satisfeitos, cinco estão insatisfeitos (10,2%) e um afirma estar muito insatisfeito (2%) (Tabela II). Já em relação à energia suficiente para o dia a dia (domínio físico), 61,2% responderam médio e apenas 2% muito pouco (Tabela II).

Em relação à oportunidade de lazer (domínio meio ambiente), 28,6% responderam muito pouca oportunidade (Tabela II).

Quando feita a comparação pelo teste t Student dos escores obtidos na pontuação do questionário em relação aos gêneros, constatou-se não haver diferença estatisticamente significativa em nenhum domínio relativo a gênero, com o valor de p superior a 5%. Embora o valor absoluto nos domínios psicológico e físico tenha sido maior entre os homens; entre as mulheres, foram no domínio social, no meio ambiente e no geral (Tabela IV).

 

 

Na comparação de escores por domínio entre as faixas etárias, percebe-se que a faixa que compreende as idades entre 41 e 52 anos apresentou pontuação superior em relação às outras faixas etárias em todos os domínios (Tabela V).

 

 

Analisando a média dos escores, sob o ponto de vista de tempo de profissão com relação às horas semanais de trabalho, verificou-se que os profissionais com 15 a 26 anos de profissão apresentam uma pontuação mais baixa (56,32) em relação àqueles com mais de 26 anos de trabalho (69) e àqueles com menos de 15 anos (63,13) (Tabela VI).

 

 

Constatou-se que, entre os entrevistados, há uma variação relativa à quantidade de dias de trabalho por semana e o mínimo foi de 4 e o máximo de 7 dias por semana. Quando comparada a pontuação no questionário, constatou-se que os valores foram estatisticamente insignificantes (Tabela VII).

 

 

DISCUSSÃO

A pesquisa foi realizada com 45,79% dos anestesiologistas da Cooperativa de Anestesiologia de Sergipe, percentual significativo de entrevistados em comparação com outros trabalhos que guardam características semelhantes5.

A carga horária média semanal do anestesiologista sergipano é de 61,33 horas, considerada elevada se comparada a outras profissões, mas inferior ao encontrado em outros locais em relação a essa área. Em trabalho publicado em 2004, intitulado "O plantão noturno em Anestesiologia reduz a latência do sono", verifica-se que a média de trabalho é de 72 horas7. Outro dado importante é que, com o passar dos anos, o número médio de horas trabalhadas pelo anestesiologista não diminuiu, fato que merece uma análise mais aprofundada, esclarecendo os fatores motivadores para a permanência no mercado de trabalho, com o aumento da carga horária.

Na análise subjetiva sobre a qualidade de vida, 53,1% dos entrevistados apresentam avaliação negativa ou indefinida, percentual superior ao de trabalho semelhante realizado em Recife, onde 44,6% apresentaram a mesma percepção5 e em trabalho realizado entre os médicos uruguaios8, o que nos remete a um estudo mais minucioso para referendar tal grau de insatisfação.

Com relação a quanto aproveitam a vida, 61,2% responderam mais ou menos ou muito pouco, índice também considerado alto, que reflete a insatisfação psicológica, o que corrobora o dado anterior.

Observamos que, dos entrevistados, 63,2% responderam considerar média ou muito pouca a quantidade de energia suficiente para o dia a dia.

No item lazer, 61,2% dos anestesiologistas responderam que têm média, muito pouca ou nenhuma oportunidade, o que revela que esses profissionais são muito exigidos em sua profissão e que a sobrecarga de trabalho limita a realização de outras atividades consideradas essenciais para a saúde física e mental. Os anestesiologistas se encontram insatisfeitos também em suas relações pessoais (amigos e parentes), e 40,8% responderam insatisfeito, muito insatisfeito ou indiferente.

Após a análise dos dados apresentados, observamos que o exercício profissional na área de Anestesiologia no estado de Sergipe é muito estressante, o que gera transtornos nos diversos aspectos da vida e não só causa alterações físicas e psicológicas, como também se reflete nas relações pessoais e com o ambiente. Cabe fazer um recorte e propor uma reavaliação de todos os profissionais dessa especialidade, no sentido de rever as condições de trabalho e remuneração, que estão como foco causador de insatisfação profissional, resultando em consequências para a saúde física e psicoemocional.

Outros trabalhos publicados relatam problemas semelhantes relacionados aos anestesiologistas, de maneira geral. Estudos sobre sua personalidade constataram que eles são mais reservados, sérios, inteligentes, assertivos, autossuficientes e tensos em comparação com os médicos de outras especialidades9.

A especialidade lhes passa a impressão de não necessitar da cooperação de outros médicos. Pelo fato de trabalharem sozinhos, sentem-se estáveis, independentes e têm dificuldades de confiar em outros colegas, temendo a ocorrência de sequelas graves ao paciente, o que os leva a só confiarem no próprio desempenho, comportamento que gera sobrecarga psicoemocional e é responsável pela alta taxa de abuso de drogas e suicídio entre esses profissionais3.

Torna-se prioritária a criação de uma comissão para se avaliar as condições de trabalho nos hospitais do estado de Sergipe, comissão esta que tenha a independência e conte com o apoio dos setores público e privado para que se coloque em prática, nos hospitais e clínicas em que se realizam anestesias, a Resolução nº 1.802/06, do Conselho Federal de Medicina, resultando assertivamente em melhora das condições de trabalho. Paralelamente, a Sociedade de Anestesiologia do estado de Sergipe pode elaborar proposta de melhoria da saúde ocupacional desses profissionais, buscando subsídios para formatar, em conjunto com a Cooperativa de Anestesiologia, avaliações periódicas de seus associados e cooperados, interferindo diretamente na inserção do anestesiologista no mercado de trabalho. Além disso, busca a melhoria da rede de prestação de serviços e orienta sobre as condições de trabalho, bem como avalia carga horária de trabalho e outros fatores intervenientes ao exercício profissional.

Concluímos que o resultado desta pesquisa reflete o difícil momento de inserção do médico no mercado de trabalho, associado a fatores culturais que impõem sobrecarga de trabalho, com vistas à manutenção do status e do ganho financeiro do profissional. Esse resultado não difere de pesquisas semelhantes já realizadas, o que denota a necessidade de se tomarem atitudes individuais e coletivas no sentido de atenuar e/ou melhorar a saúde e satisfação desses profissionais. O reconhecimento e o diagnóstico do problema nos levam à reflexão de que algo precisa ser feito para continuarmos exercendo nossa profissão com dignidade, cuidando de nossos pacientes da melhor forma possível e permanecendo saudável para o exercício profissional, com qualidade em nossa vida diária.

 

REFERÊNCIAS

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03. Duval Neto GF - Dependência Química e os Anestesiologistas, em: Cavalcanti IL, Cantinho FAF, Assad AR - Medicina Perioperatória. Rio de Janeiro, SAERJ, 2006;981-989.         [ Links ]

04. Duval Neto GF - Stress e Fadiga na Segurança do Ato Anestésico: Impacto no Desempenho Profissional, em: Cavalcanti IL, Cantinho FAF, Assad AR - Medicina Perioperatória. Rio de Janeiro, SAERJ, 2006;967-971.         [ Links ]

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Correspondência para:
Dr. Austeclínio Newton Marinho Andrade
Rua João Vieira de Aquino, 122 Conjunto Leite Neto Jardins
49027150 - Aracaju, SE, Brasil
E-mail: austeclinio@gmail.com

Submetido em 11 de agosto de 2010.
Aprovado para publicação em 13 de dezembro de 2010.

 

 

Recebido da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Brasil.

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