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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.61 no.4 Campinas July/Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942011000400013 

ARTIGOS DIVERSOS

 

Ampolas de vidro: riscos e benefícios

 

 

Antônio Roberto Carraretto, TSAI; Erick Freitas Curi, TSAII; Carlos Eduardo David de AlmeidaIII; Roberta Eleni Monteiro AbattiIV

IDoutor em Anestesiologia pela UNESP; Professor do Departamento de Clínica Cirúrgica da UFES; Responsável pelo CET Integrado HUCAM/HAFPES
IIPresidente da Sociedade de Anestesiologia do Espírito Santo - SAES. Corresponsável pelo CET Integrado HUCAM/HAFPES; Médico Assistente do Serviço de Anestesiologia do HUCAM - UFES
IIITítulo de Especialista em Anestesiologia, TEA - MEC/SBA, pela Universidade de São Paulo (USP); Médico assistente do Serviço de Anestesiologia do HUCAM - UFES
IVME3; Médica em Especialização em Anestesiologia no CET Integrado HUCAM/HAFPES

Correspondência para

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVAS E OBJETIVOS: Ampolas de vidro têm sido amplamente utilizadas no acondicionamento de fármacos. O vidro apresenta importantes características que lhe conferem o uso amplo na fabricação de recipientes para o acondicionamento de fármacos e outras substâncias estéreis. No entanto, a contaminação das soluções com micropartículas de vidro durante a abertura, a presença de metais, acidentes pérfuro-cortantes e contaminações biológicas justificam a necessidade de materiais educativos que orientem a manipulação dessas ampolas.
CONTEÚDO: As micropartículas de vidro geradas na abertura das ampolas podem ser aspiradas e injetadas nas mais diversas vias, assim como os metais que contaminaram o conteúdo das ampolas. As contaminações exógenas por vidros e metais podem alcançar diversos sítios no organismo. Desencadeiam-se reações orgânicas que podem dar origem a lesões. Abrir ampolas pode expor o profissional ao risco de lesões pérfuro-cortantes. Essas lesões aumentam o risco biológico em razão de serem a porta de entrada para vírus e bactérias. Sistemas de abertura de ampolas (VIBRAC E OPC) foram desenvolvidos para reduzir a incidência de tais acidentes. Materiais alternativos ao vidro podem representar uma estratégia interessante para aumentar a segurança. O uso de seringas esterilizadas pré-preparadas pelo fabricante pode consistir em uma evolução em relação à segurança.
CONCLUSÃO: O treinamento da equipe e o esclarecimento por parte da indústria farmacêutica quanto ao uso de ampolas mostram-se fundamentais na profilaxia de acidentes e contaminações. Ainda é necessário descobrir novos sistemas de abertura de ampolas de forma mais segura. Não menos importante será a busca de materiais seguros que sirvam de alternativa ao uso do vidro.

Unitermos: ANESTESIOLOGIA: Educação, Segurança. EQUIPAMENTOS: Ampola.


 

 

INTRODUÇÃO

Ampolas de vidro têm sido amplamente utilizadas no acondicionamento de fármacos. Anestesiologistas, juntamente com técnicos de enfermagem, são partes significativas do grupo de profissionais que manipulam esses materiais rotineiramente.

A constituição básica do vidro são três compostos inorgânicos (SiO2 - 73%; Na2CO3 - 14%; CaCO3 - 11%). Em sua essência, é incolor. Adicionam-se, em sua fabricação, óxidos metálicos (ferro, cobalto, manganês, níquel, alumínio, cromo, arsênio, bário e outros). Muitos desses óxidos metálicos podem conferir coloração ao vidro1.

O vidro apresenta importantes características que lhe conferem o uso amplo na fabricação de recipientes para o acondicionamento de fármacos e outras substâncias estéreis (Tabela I).

No ato da abertura de alguns tipos de ampolas, é comum haver contaminação do conteúdo por partículas de vidro. Há muito esse fato vem sendo observado e relatado dentro da comunidade científica2. Esses pequenos fragmentos de vidro podem ser injetados através de várias vias de administração. O anestesiologista poderá administrar essas partículas tanto no intravascular como através dos espaços peridural e subaracnoideo. As partículas de vidro podem ainda carrear alguns tipos de metais utilizados em sua fabricação1,3. A contaminação por essas pequenas partículas demandará um tempo considerável para caracterizar o aparecimento de lesões. Por meio de estudos em animais, foi possível demonstrar que a infusão de micropartículas de vidro resultou em silicose pulmonar e fibrose nodular do fígado, do baço e do intestino delgado. Essas lesões resultaram dos mecanismos de reação a corpos estranhos e embolias4. Demonstrou-se que a principal fonte de contaminação de medicações por metais são as próprias embalagens. Isso se deve à migração do metal contido na fabricação da ampola para o interior do recipiente. Ocorrida a contaminação exógena por metais (bário, alumínio e outros), eles alcançam diversos sítios no organismo5. Os mecanismos de defesa celular reagem a essa agressão e, como consequência, podem ocorrer vários efeitos tóxicos. A qualidade e a intensidade das manifestações clínicas são diretamente proporcionais à carga tóxica e ao tempo de contaminação.

O número de micropartículas de vidro que contaminam a solução contida nas ampolas, no ato da abertura, varia proporcionalmente ao tamanho da ampola e do orifício de abertura2. Estratégias foram criadas na tentativa de se evitar a administração das micropartículas aos pacientes. Alguns autores estudaram o uso de filtros em agulhas, assim como o uso de agulhas de menor calibre. Esses estudos não demonstraram qualquer evidência de proteção. No entanto, foi possível caracterizar que o uso de tais filtros encarecia significativamente o produto, além de reter algumas medicações como, por exemplo, a insulina e o sulfato de vincristina2,6,7. Alguns benefícios foram demonstrados na aspiração de substâncias que seriam injetadas no neuroeixo.

Além dos problemas de contaminação por micropartículas de vidro e, indiretamente, por alguns metais, deve-se dar especial destaque à questão relacionada ao risco profissional. Os atos de abertura das ampolas podem expor os profissionais a lesões pérfuro-cortantes. Essas lesões podem representar um importante risco biológico, por ser uma porta de entrada para bactérias e vírus. Conforme o acondicionamento das ampolas, elas ainda podem representar uma fonte potencial de infecção microbiana ao paciente. Os profissionais manipuladores desses recipientes contam com medidas consagradas na prevenção dos riscos, destacando-se a utilização de luvas, gazes, abridores de ampolas, assim como a desinfecção das ampolas com álcool a 70% antes da abertura8,9. Atualmente, é possível adquirir algumas ampolas acondicionadas em embalagens estéreis9.

Foram desenvolvidos sistemas facilitadores da abertura de ampolas na tentativa de se diminuírem os incidentes pérfuro-cortantes e as contaminações dos conteúdos. Destacam-se o "anel de ruptura" (VIBRAC) e o "OPC" (One Point Cut ou Único Ponto de Abertura). No Brasil, o sistema mais comum é o VIBRAC (Figura 1). Esse mecanismo pode ser encontrado em 85% das ampolas. Implica a aplicação de um anel de tinta após o processo de cura/têmpera da fabricação de ampolas. Ocorre penetração parcial no vidro, o que leva a certa fragilidade na área de aplicação. Essa fragilidade é confeccionada no estrangulamento da ampola (limite entre cabeça e corpo da ampola). O sistema OPC (Figura 2) é utilizado nas demais fabricações nacionais. Nesse sistema, efetua-se uma pequena incisão na região de estrangulamento da ampola. Um ponto à tinta é confeccionado alguns milímetros acima da incisão. Esse ponto orienta a posição correta de abertura da ampola. Mesmo com esses dois mecanismos facilitadores, ainda ocorrem acidentes. Isso se dá, na maioria das vezes, devido a falhas no treinamento profissional e falta de informações adequadas na bula dos medicamentos. Na Tabela II, encontra-se a comparação das vantagens de cada um desses sistemas10,11.

 

 

 

 

A Figura 3 ilustra uma forma segura de se abrirem as ampolas com os sistemas facilitadores.

 

 

O uso de luvas é preconizado em casos específicos como, por exemplo, a manipulação de ampolas contendo quimioterápicos. As ampolas devem ser sempre descartadas em recipientes próprios de acondicionamento de materiais pérfuro-cortantes.

Ainda factível ao risco a que está submetido o profissional que manipula as ampolas, destaca-se a importante falha na abertura de algumas delas. Há certa tendência de, após a abertura, serem produzidas projeções verticais cortantes que aumentam o risco de lesões cortantes. As ampolas maiores e com maior orifício de abertura apresentam maior risco de produzir tais projeções. Isso se deve à maior irregularidade em sua borda de abertura11,12. Desde 1997, são questionadas as notáveis irregularidades nas bordas de abertura das ampolas de propofol (Figura 4)11. No presente estudo, foram analisadas ampolas de propofol durante um dia de serviço. Todas foram abertas conforme as determinações de segurança (Figura 5). As ampolas de menor volume, embora menos comuns, também podem apresentar projeções verticais (Figura 6). Mesmo diante de tal fato, foram pesquisadas as bulas de seis representantes comerciais do propofol. Somente em dois casos, foi possível detectar uma orientação quanto à abertura da ampola.

 

 

 

 

 

 

Cerca de 6% dos anestesiologistas apresentam ferimentos nas mãos provocados pela abertura de ampolas de vidro. Vinte e seis por cento desses profissionais apresentam cicatrizes nas mãos pelo mesmo fator causal. Com a perda da continuidade causada por essas lesões, a contaminação da pele com sangue e secreções permite um ambiente propício para infecções por diversas doenças13. Mesmo assim, um grande número de anestesiologistas negligencia o uso de luvas em sua atividade diária. O simples uso desse aparato de segurança impediria 98% do contato com sangue e secreções8. Os profissionais usam as mais variadas justificativas para o não uso de luvas. Entre elas, destacam-se perda de sensibilidade tátil, mau hábito, atitude conveniente, desconforto, falta de treinamento adequado e conhecimento de riscos, além de dificuldade para manipular fitas adesivas e esparadrapo14. Pesquisa recente demonstrou que uma política de uso obrigatório de luvas foi associada a uma redução significativa da incidência de lesões percutâneas com agulhas, ampolas e outros, e do nível de contaminação no local de trabalho do anestesista. O uso de luvas resultou em redução significativa de ferimentos percutâneos e em menor incidência de contaminação com sangue oculto em superfície de monitores, equipamentos de anestesia e materiais de uso pessoal como canetas e óculos8,15.

Outros métodos para se evitar a lesão das mãos dos anestesiologistas incluem dispositivos industrializados criados especialmente para a abertura de ampolas. Em Carta ao Editor da revista Anesthesia and Analgesia, anestesiologistas propuseram métodos improvisados para abrir ampolas e reduzir o risco de acidentes pérfuro-cortantes. Esses métodos vão desde a utilização do "conector em joelho" do sistema ventilatório até o uso de seringas sem êmbolos6,12,16.

Materiais alternativos ao vidro podem ser uma estratégia interessante para aumentar a segurança. O acondicionamento de medicações em flaconete plástico também vem ganhando cada vez mais adeptos. O plástico (polivinilcloreto - PVC; polipropileno - PP; etilvinilacetato - EVA) é um produto orgânico. É constituído por átomos de carbono, hidrogênio, oxigênio, nitrogênio e halogênios. Esse polímero não é inerte e pode estar sujeito à degradação e à oxidação. Desse modo, torna-se necessária a adição de antioxidantes, estabilizadores, plastificantes e outros17. A eventual interação entre os medicamentos parenterais e os componentes do plástico dificulta a utilização generalizada desse material na fabricação de tais recipientes. Como exemplo, citam-se o diazepam18, a nitroglicerina19, o dinitrato de isossorbida20 e a warfarina sódica. Todos podem ser absorvidos pelo PVC. Diminui-se a disponibilidade dessas medicações quando acondicionadas em frascos ou administradas através de equipos plásticos21.

O uso de seringas esterilizadas pré-preparadas pelo fabricante - prefilled - pode representar uma evolução em relação à segurança profissional, minimizando eventuais erros na diluição de soluções, assim como o risco de contaminação. Os frascos multidoses também fazem parte dessa estratégia de redução de riscos. Porém, não estão isentos de desvantagens23,24. Colaboram para isso: a necessidade do uso de conservantes, a maior probabilidade de contaminação bacteriana e o uso do látex no mecanismo de aspiração.

Conclui-se que o treinamento da equipe e o esclarecimento por parte da indústria farmacêutica quanto ao uso de ampolas mostram-se fundamentais na profilaxia de acidentes e contaminações. Assim, é necessário que se façam pesquisas voltadas para a descoberta de novos sistemas de abertura de ampolas. Esses estudos devem objetivar a criação de sistemas que produzam um número reduzido de fragmentos e menor aplicabilidade de força no momento da abertura.

 

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Correspondência para:
Dr. Erick Freitas Curi
Rua Erothildes Penna Medina, 301/1202 Praia da Costa
29101375 - Vila Velha, ES, Brasil
E-mail: erickcuri@superig.com.br

Submetido em 13 de setembro de 2010.
Aprovado para publicação em 24 de janeiro de 2011.

 

 

Recebido da Universidade Federal do Espírito Santo. Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes - HUCAM/UFES, Brasil.