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Revista Brasileira de Anestesiologia

Print version ISSN 0034-7094

Rev. Bras. Anestesiol. vol.63 no.3 Campinas May/June 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-70942013000300004 

ARTIGO CIENTÍFICO

 

Estudo de lidocaína a 0,5% e combinação de lidocaína a 0,25% com fentanil e vecurônio em anestesia regional intravenosa para cirurgias de membros superiores

 

 

Santhosh MCBI; Rohini Bhat PaiII; Roopa SIII; Raghavendra P RaoIV

IMédico; Professor Assistente, Departamento de Anestesiologia, SDM College of Medical Sciences and Hospital, Dharwad, Karnataka, India
IIMédico; Professor Adjunto, Departamento de Anestesiologia, SDM College of Medical Sciences and Hospital, Dharwad, Karnataka, India
IIIMédico, Pós-doutorado*; Professor Assistente, Departamento de Anestesiologia, SDM College of Medical Sciences and Hospital, Dharwad, Karnataka, India
IVMédico; Professor, Departamento de Anestesiologia, SDM College of Medical Sciences and Hospital, Dharwad, Karnataka, India

Correspondência para

 

 


RESUMO

JUSTIFICATIVA E OBJETIVOS: A anestesia regional intravenosa (ARIV) para cirurgias de membros superiores com a tradicional alta dose de lidocaína pode levar a efeitos colaterais potencialmente letais. A fim de evitar esses efeitos, muitas técnicas modificadas de ARIV foram experimentadas com o uso de uma dose baixa de lidocaína, relaxante muscular e opioide.
MÉTODOS: O presente estudo foi feito com 60 pacientes não medicados previamente, com classificação ASA 1-2, para comparar as características sensoriais e motoras, os parâmetros cardiorrespiratórios e os efeitos colaterais durante o período intraoperatório e de deflação pós-torniquete entre os pacientes que receberam 40 mL de lidocaína a 0,5% (n = 30) e aqueles que receberam uma combinação de 40 mL de lidocaína a 0,25% com 0,05 mg de fentanil e 0,5 mg de vecurônio (n = 30) em ARIV para cirurgias ortopédicas de membros superiores. Os resultados foram analisados com o uso do teste t de Student pareado para identificar a significância estatística.
RESULTADO: A diferença entre os dois grupos em relação ao tempo médio de início e completo bloqueio sensitivo e motor foi estatisticamente significante. Porém, houve completo bloqueio sensitivo e motor em ambos os grupos 15 minutos após a injeção da solução anestésica.
CONCLUSÃO: Embora a pequena demora observada no início e na obtenção completa dos bloqueios sensitivo e motor possa, teoricamente, atrasar o início da cirurgia em 10-15 minutos, clinicamente esse tempo seria gasto na preparação do campo cirúrgico. Portanto, essa combinação pode ser usada com segurança e eficácia em anestesia regional intravenosa para cirurgias ortopédicas de membros superiores com menor possibilidade de toxicidade anestésica local.

Unitermos: ANESTÉSICOS, Local, lidocaína; ANALGÉSICOS, Opioides, fentanil; BLOQUEADOR MUSCULAR, Vecurônio; EQUIPAMENTOS, Torniquete; TÉCNICAS ANESTÉSICAS, Regional, intravenosa regional.


 

 

Introdução

Neste mundo cada vez mais veloz, observa-se um aumento no número de acidentes de trânsito e de pacientes com trauma de membros superiores levados para centros cirúrgicos para procedimentos ortopédicos diversos. Esses pacientes, com frequência, se apresentam com o estômago cheio e podem ter doenças coexistentes, o que torna a anestesia geral arriscada. O bloqueio do plexo braquial pode ser usado para tais cirurgias ortopédicas de membros superiores, mas requer habilidade técnica e complicações como pneumotórax, injeção intravascular acidental ou lesão de nervos podem ocorrer. Além disso, a técnica tem outros problemas, como o consumo de tempo, o início tardio da analgesia e a possibilidade de analgesia incompleta. Portanto, uma técnica simples e eficaz como a anestesia regional intravenosa (ARIV) ou o bloqueio de Bier pode ser uma opção para cirurgias de membros superiores1.

Tradicionalmente, a lidocaína é usada como solução a 0,5% em dose de 3 mg.kg-1 em ARIV para analgesia eficaz durante intervenções cirúrgicas de membros superiores2. No entanto, com essa dose elevada, o risco de efeitos colaterais, tais como convulsões, coma, depressão cardiorrespiratória e parada cardíaca pode ocorrer, por causa da libertação acidental do torniquete durante o procedimento ou da libertação deliberada do torniquete no término do procedimento. Com o objetivo de evitar esses efeitos colaterais potencialmente ameaçadores, muitas técnicas modificadas de ARIV foram experimentadas, com o uso de uma dose baixa de lidocaína, relaxante muscular e opioide.

Nesse cenário, o presente estudo foi feito para avaliar a utilidade da adição de fentanil (0,05 mg) e vecurônio (0,5 mg) à lidocaína a 0,25% e compará-la com 0,5% de lidocaína sozinha em anestesia regional intravenosa para cirurgias ortopédicas de membros superiores.

 

Métodos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da instituição e consentimento informado assinado foi obtido de todos os pacientes.

Este foi um estudo randomizado, prospectivo e comparativo. A população do estudo consistiu em 60 pacientes com idades entre 18-60 anos, classificados como ASA 1-2 e agendados para cirurgias ortopédicas eletivas de membro superior. Os pacientes com história de alergia a anestésicos locais, muito nervosos e não cooperativos, com lesão por esmagamento, feridas abertas, infecção e celulite do membro a ser operado, aqueles com história de epilepsia, doença arterial periférica, doença falciforme, malformação arteriovenosa e gravidez foram excluídos deste estudo. Os pacientes foram randomicamente alocados em dois grupos: o Grupo A (n = 30) recebeu 40 mL de lidocaína a 0,5%; o Grupo B (n = 30) recebeu 40 mL de lidocaína a 0,25% com 0,05 mg de fentanil e 0,5 mg de vecurônio.

Uma avaliação pré-operatória completa foi feita e os pacientes foram mantidos em jejum durante a noite. Os pacientes receberam informações sobre o procedimento para assegurar uma boa cooperação. Na medida do possível, os casos foram escolhidos na expectativa de que o término da cirurgia não superasse o tempo máximo de torniquete no membro superior (abaixo de 90 minutos). Nenhum dos pacientes neste estudo recebeu qualquer pré-medicação.

Os pacientes foram posicionados em decúbito dorsal sobre uma mesa cirúrgica inclinável. O acesso intravenoso foi feito no membro superior não operado com uma cânula intravenosa de calibre 20 para infusão de líquidos intravenosos. Os pacientes foram conectados a monitores padrão que incluíam eletrocardiografia, oxímetro de pulso e monitor não invasivo de pressão arterial. Os valores basais foram registrados. Todos os equipamentos necessários e medicamentos de emergência foram mantidos prontos para a reanimação, no caso de eventuais reações tóxicas que pudessem ocorrer durante o procedimento.

A punção venosa foi feita com cânula intravenosa de calibre 20 no membro a ser operado. Exsanguinação do membro a ser operado foi feita após a punção venosa, elevando-se o membro superior acima do corpo durante 2-3 minutos e com faixa de Esmarch colocada desde a ponta dos dedos até a parte superior do braço, onde um torniquete foi aplicado com o devido cuidado à cânula intravenosa. Oclusão vascular foi obtida com a aplicação de torniquete pneumático duplo. O tempo de inflação do torniquete proximal foi registrado. Antes de inflar o torniquete distal, o anestésico local foi injetado no membro a ser operado via cânula intravenosa de calibre 20. O medicamento foi injetado lentamente durante 45 segundos para evitar seu vazamento para além do torniquete. O torniquete distal foi inflado 2-3 minutos após a injeção do medicamento. Após a inflação de torniquete distal, o torniquete proximal foi desinflado.

Durante o período intraoperatório e após a deflação do torniquete as características sensoriais e motoras foram avaliadas com base na seguinte escala:

a) Perda sensorial: avaliada com o uso da escala de 0 a 2.
 

0 = Sensitivo

  1 = Apenas toque (não pôde sentir a picada de agulha)
  2 = Não sentiu o toque

 

b) Perda motora: avaliada com o uso da escala de 0 a 3.
  0 = Capaz de mover o pulso contra a resistência
  1 = Incapacidade de mover o pulso contra a resistência
 

2 = Incapacidade de mover o pulso e o cotovelo contra a resistência

  3 = Incapacidade de mover o braço

O momento no qual os pacientes foram incapazes de sentir a picada de agulha (isto é, escore = 1 para perda sensorial) após a injeção do fármaco foi considerado como o tempo de início da perda sensorial. O momento no qual os pacientes foram incapazes de sentir o toque (isto é, escore = 2 para perda sensorial) após a injeção foi considerado como o tempo de perda completa da sensação. O momento no qual os pacientes foram incapazes de mover o pulso contra a resistência (isto é, escore = 1 para perda motora) após a injeção do fármaco foi considerado como o tempo de início da perda motora. O momento no qual os pacientes foram incapazes de mover o braço (isto é, escore = 3 para perda motora) após a injeção do fármaco foi considerado como o tempo de perda total da potência motora. O torniquete foi liberado após a cirurgia, mas se a cirurgia foi concluída em menos de 20 minutos após a injeção do fármaco, o torniquete foi mantido por um período mínimo de 20 minutos. Antes de liberar o torniquete distal, os tempos de cirurgia e de torniquete foram registrados. As características sensoriais e motoras foram avaliadas no período pós-deflação do torniquete distal. O tempo de retorno da sensação completa (período de analgesia pós-operatória) e a potência motora total foram registrados. O tempo de libertação do torniquete distal até o aparecimento de uma forte dor no local cirúrgico foi considerado como o tempo de retorno da sensibilidade máxima. O tempo de libertação do torniquete distal até o tempo em que os pacientes foram capazes de mover o pulso contra a resistência (isto é, escore = 0 para perda motora) foi considerado como o tempo de retorno da potência motora total.

Os pacientes foram observados para identificar alterações na frequência de pulso, pressão arterial (sistólica e diastólica), frequência respiratória, saturação de oxigênio e eletrocardiograma, além de efeitos colaterais, como náuseas, tontura, diplopia e dor no local do torniquete, durante o período intraoperatório e durante 30 minutos após a liberação do torniquete distal.

O tamanho da amostra para o estudo teve como base um estudo piloto de 10 pacientes. O resultado do estudo piloto indicou que um tamanho de amostra com 30 indivíduos em cada grupo teria um poder suficiente superior a 85%. No entanto, os resultados do estudo piloto não foram incluídos nos resultados do estudo principal. Os resultados foram expressos como média ± DP, exceto quando indicados de outra forma. A análise de significância estatística foi feita com o teste t de Student pareado. As diferenças foram consideradas estatisticamente significantes para o valor de p < 0,05.

 

Resultado

Ambos os grupos foram estatisticamente comparáveis no que diz respeito a variáveis demográficas, como idade, sexo e peso (Tabela 1). O tempo médio de torniquete foi comparável entre os grupos A e B (54 ± 4 min e 55 ± 3 min, respectivamente) (Tabela 2). O tempo médio para o início da perda sensorial no Grupo B (6,14 ± 0,78 minutos) foi significativamente maior do que no Grupo A (2,22 ± 0,75 minutos) (Tabela 2); e para perda completa da sensação foi significativamente maior no Grupo B (12,25 ± 0,92 minutos) do que no Grupo A (7,12 ± 0,75 minutos) (Tabela 2). O tempo médio de instalação do bloqueio motor no Grupo B (8,35 ± 1,16 minutos) foi maior do que no Grupo A (4,17 ± 0,74 minutos) (Tabela 2); e completo bloqueio motor no Grupo B (15,65 ± 0,94 minutos) foi maior do que no Grupo A (10,57 ± 0,81 minutos) (Tabela 2). Não houve diferença estatisticamente significante entre os dois grupos em relação ao tempo para o retorno total da potência motora e o tempo para o retorno da sensação completa após a deflação de torniquete distal (Tabela 2).

 

 

 

 

Não houve relato de efeito colateral durante o período intraoperatório em ambos os grupos, exceto pelo relato de dor ao torniquete por dois pacientes do Grupo A e nenhum do Grupo B, mas sem significância estatística (Tabela 3). No período após deflação do torniquete, vertigem ocorreu em 10 pacientes do Grupo A e em nenhum do Grupo B (p < 0,05, significante) e náusea ocorreu em um paciente do Grupo B e em nenhum do Grupo A (estatisticamente insignificante) (Tabela 3). Não houve alterações significativas nos parâmetros cardiorrespiratórios em ambos os grupos.

 

 

Discussão

Neste estudo, a diferença entre os grupos em relação ao tempo médio de início e o total bloqueio sensorial e motor foi estatisticamente significante (p < 0,05). Contudo, houve completo bloqueio sensitivo e motor em ambos os grupos dentro de 15 minutos da aplicação do anestésico. Desse modo, a qualidade da anestesia foi comparável nos dois grupos em 15 minutos após a aplicação da solução anestésica. Isso coincide mais ou menos com o horário habitual de início da cirurgia após anestesiar o paciente. Um estudo semelhante conduzido por Sztark et al.2, no qual pancurônio foi usado em vez de vecurônio, também mostrou diferença significativa no tempo de início e de completo bloqueio sensorial e motor entre os dois grupos, mas não houve diferença entre os grupos em 20 minutos após a injeção da solução anestésica2. Abdulla e Fadhil conduziram um estudo comparando lidocaína (100 mg) com uma combinação de lidocaína (100 mg) e fentanil (50 ug) e uma combinação de lidocaína (100 mg), fentanil (50 ug) e pancurônio (0,5 mg) em ARIV3. Os autores relataram analgesia bem-sucedida em 100% dos casos com a combinação de lidocaína, fentanil e pancurônio, comparada com apenas 27% de sucesso com a combinação de lidocaína e fentanil e apenas 13% com lidocaína3. Em nosso estudo, comparamos a combinação de fentanil (0,05 mg), vecurônio (0,5 mg) e lidocaína a 0,25% (100 mg) com lidocaína a 0,5% (200 mg) e observamos 100% de anestesia bem-sucedida em ambos os grupos. Portanto, a mesma qualidade de anestesia obtida com a dose tradicional elevada de lidocaína foi obtida com o uso da combinação de uma dose não tóxica de lidocaína e uma dose baixa de vecurônio e fentanil. Semelhantemente ao método convencional, a duração da analgesia pós-operatória foi muito menor, mesmo com a adição de fentanil.

Não houve efeitos colaterais significativos em ambos os grupos durante o período intraoperatório. No período após a deflação do torniquete, os pacientes do grupo que recebeu apenas lidocaína a 0,5% apresentaram incidência significativa de vertigem, o que não foi observado no outro grupo. Isso mostra que a combinação de relaxantes musculares e opioides com uma dose baixa de lidocaína reduz significativamente a potencial incidência de toxicidade anestésica local. Além disso, Abdulla e Fadhil confirmaram a segurança da combinação de lidocaína (100 mg), fentanil (0,05 mg) e pancurônio (0,5 mg) pela ausência de qualquer efeito colateral ao liberarem a pressão do torniquete logo após a administração da solução mencionada acima3.

O papel exato do opioide ou relaxante muscular na ARIV ainda não está definido. Possivelmente, os opioides podem produzir um determinado grau de supressão da condução neural e isso pode potencializar o efeito de um anestésico local na ARIV3. Os relaxantes musculares podem potencializar o anestésico local ao bloquear a atividade do fuso muscular e reduzir, assim, o tônus muscular e o espasmo2,4,5.

Em conclusão, ambas as soluções podem ser usadas com segurança e eficácia em anestesia regional intravenosa para cirurgia ortopédica de membros superiores. A adição de fentanil e vecurônio à lidocaína ajuda a reduzir a dose de lidocaína e, portanto, diminui o potencial de toxicidade anestésica local em ARIV. A solução combinada de fentanil, vecurônio e lidocaína a 0,25% tem um início mais lento de bloqueio sensorial e motor, mas não atrasará clinicamente o tempo de início da cirurgia.

 

Contribuição dos autores

Dr. Santhosh MCB - projeto do estudo, condução da coleta e análise dos dados, preparação do manuscrito.

Dr. Rohini Bhat - preparação do manuscrito, edição.

Dr. Roopa S - preparação do manuscrito, edição.

Dr. Raghavendra P Rao - edição.

 

Referências

1. Bier A - Ueber enien neuen weg lokalanasthesie an den gliedmassen zuErzueugen. Verh Dtsch Ges Chir. 1908;37:204-214.         [ Links ]

2. Sztark F, Thicoipe M, Favarel-Garrigues JF, Lassie P, Petitjean ME, Dabadie P - The use of 0.25% lidocaine with fentanyl and pancuronium for intravenous regional anesthesia. Anesth Analg. 1997;84:777-779.         [ Links ]

3. Abdulla WY, Fadhil NM - A new approach to intravenous regional anesthesia. Anesth Analg. 1992;75:597-601.         [ Links ]

4. McGlone R, Heyes F, Harris P - The use of a muscle relaxant to supplement local anaesthetics for Bier's blocks. Arch Emerg Med. 1988;5:79-85.         [ Links ]

5. Elhakim M, Sadek RA - Addition of atracurium to lidocaine for intravenous regional anaesthesia. Acta Anaesthesiol Scand. 1994;38:542-544.         [ Links ]

 

 

Correspondência para:
Santhosh MCB
Assistant Professor
Department of Anesthesiology
SDM College of Medical Sciences and Hospital, Dharwad
Karnataka, Índia. 580009
Telefone: +919886811263
E-mail: mcbsanthu@gmail.com

Recebido do Departamento de Anestesiologia, Mysore Medical College and Research Centre, Mysore, Karnataka, India.
Submetido em 9 de abril de 2012.
Aprovado para publicação em 7 de maio de 2012.

 

 

* Diplomate of National Board Examinations, Índia

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