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Revista Brasileira de Economia

Print version ISSN 0034-7140

Rev. Bras. Econ. vol.56 no.1 Rio de Janeiro Mar. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71402002000100005 

a05v56n1

Walras no Journal Des Économistes: 1860-65*

 

João Antonio de Paula**

 

 

Sumário: 1. Introdução; 2. O Journal des Économistes; 3. Walras no Journal des Économistes; 4. Walras na História da análise econômica; 5. Poinsot e Walras; 6. Nem luz nem calor.
Palavras-chave: história do pensamento econômico; Walras; pensamento neoclássico; Journal des Économistes.
Códigos JEL: B13 e B31.

Este texto pretende discutir certa parte da obra de Walras pouco conhecida. Trata-se de sua colaboração no Journal des Économistes entre os anos 1860 e 1865. Nestes trabalhos, que estão entre os primeiros publicados por Walras, já aparecem temas decisivos de sua obra da maturidade. No artigo que se vai ler busca-se discutir aspectos centrais da obra de Walras a partir de um diálogo com intérpretes importantes como Jaffé, Schumpeter e Mirowski.

This article examines a part of Walras' work: the papers published in the Journal des Économistes between 1860 and 1865. These papers are among the first ones published by Walras and are little known. They reveal some of the decisive subjects of his latter writings. In a dialog with the important interpretations of Jaffé, Schumpeter and Mirowski, the article seeks to provide a new perspective about central aspects of Walras' work.

 

 

1. Introdução

Não é possível enxergar a influência de Walras sobre o pensamento econômico comtemporâneo, tão grande ela é. Se durante algum tempo, depois da publicação de seu texto-chave, em 1874, foi escasso o reconhecimento de sua obra, limitado, basicamente, aos italianos – Barone, Pantaleoni e Pareto – e a uns poucos norte-americanos como Irving Fischer e Henri Moore, já por ocasião de sua morte, em 1910, sua audiência tinha-se ampliado, coisa que só fez crescer a partir daí, resultando hoje numa incontrastável hegemonia.

Marie Esprit Léon Walras (1834-1910), cuja obra, numa metáfora algo comprometedora, Schumpeter disse ser comparável a um transatlântico num mar de pequenas embarcações, (Schumpeter, 1964:100) é a referência central do pensamento econômico dominante hoje. Na verdade, sua influência transcende este campo conceitual. Seu método de abordagem dos problemas econômicos, o qual, afinal, é uma aplicação da mecânica clássica, penetrou também outras matrizes teóricas, até mesmo certo marxismo. Em volume recente, Alan Freeman e Guglielmo Carchedi reuniram textos que, explicitamente, buscam denunciar-superar a introjeção de perspectiva walrasiana, que se teria instalado no marxismo a partir da assimilação da solução de Bortkiewicz do chamado "problema da transformação". Veja-se o trecho: "Alan Freeman's opening chapter outlines the sequential and non-dualistic approach initiated by Bortkiewicz and popularised by Sweezy. Marx's theory has been assimilated to the General Competitive Equilibrium and replaced by 'walrasian maxism' - a theory which passes for Marx's but is in fact a variant of the general equilibrium theory" (Freeman e Carchedi, 1996:XXI).

Assim, escolher Walras como objeto de reflexão é considerar um aspecto central do pensamento econômico contemporâneo. Na História da análise econômica de Schumpeter há uma idéia-força e um herói: a idéia-força é a teoria do equilíbrio geral, tomada como a culminância da caminhada do pensamento econômico; o herói é Walras, o inventor da idéia-força.

Este artigo é, basicamente, um diálogo com a interpretação schumpeteriana de Walras, mediante o resgate de parte da obra walrasiana pouco conhecida: suas contribuições para o Journal des Économistes, no início de sua carreira profissional. Walras publicou seu primeiro trabalho – "De la proprieté intelectuelle; position de la question economique" – no Journal des Économistes de dezembro de 1859. Ao longo de sua carreira publicaria mais 11 artigos naquela revista: dois artigos em 1860, 1865, e 1874, e um em 1876, 1878, 1881, 1882 e 1885 (Jolink, 1996:187-91).

Neste artigo, sustenta-se que a discussão desta parte da obra de Walras lança luzes sobre aspectos centrais de sua teoria. Ao final, faz-se referência a um autor decisivo na obra de Walras – Louis Poinsot –, detectando sua influência, já em 1860, em um texto de Walras para Journal des Économistes. De resto, a discussão que se vai fazer aqui também tem incidência sobre alguns aspectos do pensamento econômico contemporâneo.

Não há qualquer exceção à regra básica do discurso historiográfico que interdita, por inaceitável, o anacronismo. Esta posição, geral e irrecorrível, costuma ser ignorada em certos campos do fazer historiográfico. Um exemplo recorrente disto é o que nos oferece a história do pensamento econômico. Certos cultores deste gênero, talvez impressionados com a pretensão de determinadas práticas no campo da economia de se verem como "ciências exatas", fazem de suas reflexões sobre o pensamento econômico uma exuberância de anacronismos, que se materializa, quase sempre, na desqualificação de autores e teorias que teriam a desdita de não se expressarem segundo métodos e procedimentos que, hegemônicos hoje, não poderiam ser usados no passado pelo simples fato de inexistirem então.

O exemplo mais conspícuo disto está na História da análise econômica de Schumpeter. A mais permanente das referências no campo da história do pensamento econômico é um eixo de anacronismos. Toda a argumentação do livro é marcada por uma espécie de expectação do surgimento da grande inovação, que seria representada pela incorporação definitiva dos métodos quantitativos à reflexão econômica, processo este que teria seu momento culminante com a teoria do equilíbrio geral. Todos os autores, todas as teorias que antecederam à teoria walrasiana são analisados e avaliados a partir do grau de proximidade que teriam deste "graal" da análise econômica – o equilíbrio geral.

Este procedimento é, de um lado, o máximo do anacronismo, e, de outro lado, tem algo de místico, porque hipostasia a caminhada do pensamento econômico como a trajetória das trevas à luz.

Neste exercício, que consiste em cobrar do passado o fato de ser passado, as reais contribuições de cada teoria-autor em particular ficam turvadas porque avaliadas por uma exigência absurda.

Tanto Schumpeter quanto praticantes contemporâneos da história do pensamento econômico teriam a ganhar ao se dispusessem a considerar o central da historiografia, que Huizinga (1980:92) definiu assim: "Se a História, como atividade do espírito, consiste em dar forma ao passado, podemos dizer que como produto é forma. Uma forma espiritual para compreender o mundo dentro dela, como o são também a filosofia, a literatura, o direito, as ciências naturais. A História se distingue destas outras formas do espírito em que se projeta sobre o passado e somente sobre o passado. Pretende conhecer o mundo no passado e através dele". Isto é, o que caracteriza a história é que a busca da compreensão do passado deve-se fazer recorrendo aos elementos do passado, sem a interocorrência de qualquer outro aspecto que não estava lá e não poderia estar.

Neste artigo busca-se compreender o início da obra de León Walras à luz das motivações, circunstâncias e idéias disponíveis àquela época. Para tanto montou-se estrutura analítica com quatro pontos:

a) num primeiro ponto apresentam-se e discutem-se quatro artigos de León Walras no Journal des Économistes, entre 1860 e 1865, que estão entre suas primeiras intervenções no campo da economia;

b) um segundo ponto discute a recepção de obras de Walras na História da análise econômica de Schumpeter;

c) um terceiro ponto surpreende uma importante e hoje aparentemente inusitada relação entre Walras e Proudhon;

d) finalmente, o quarto ponto explicita a importância da obra do matemático Louis Poinsot sobre o pensamento walrasiano desde a década de 1860.

Não é ocioso registrar, de pronto, a novidade do que se pesquisou e os resultados a que se chegou. O volume dedicado a Walras e organizado por Mark Blaug (Blaug, 1992) na coleção Pionners in economics, que conta com trabalhos de acreditados especialistas em Walras, como Jaffé, Donald Walker, entre outros, não tem qualquer menção aos seus artigos para o Journal des Économistes. Como se verá aqui, aspectos importantes da teoria walrasiana já estavam sendo elaborados desde a década de 1860 e apareceram em artigos naquela revista, bem como enunciam o essencial do projeto teórico e das motivações políticas de Walras, que são inseparáveis, ao contrário do que afirma Schumpeter, que buscou isolar a economia pura da economia aplicada e da economia social de Walras.

Em livro de 1996, Albert Jolink estabelece quatro correntes de intérpretes da obra de León Walras (Jolink, 1996:2-3):

a) uma primeira entende que o trabalho de Walras é constituído basicamente pela obra Elements d'économie politique pure ou théorie de la richesse sociale, de 1874, colocando, então, como programa teórico decorrente o detalhamento do modelo de equilíbrio geral – esta seria a posição de Blaug em Economic theory in retrospect;

b) uma segunda corrente reconhece a existência de uma parte da obra de Walras dedicada à temas de economia aplicada e economia social, e de uma busca de reforma social, mas entende esta parte da obra questionável e mesmo incoveniente – seria a esta a posição de Schumpeter, Hicks, Pantinkin e Morishisma;

c) uma terceira corrente faz movimento inverso e busca mostrar a centralidade da parte aplicada-social da obra de Walras em relação à parte pura de sua teoria – é a posição de Boson e Cirillo;

d) finalmente, a quarta posição busca mostrar a necessária interconexão entre as duas dimensões da obra de Walras – é o que defendem Jaffé, Donald Walker, por exemplo.

Este artigo sustenta uma posição próxima à do quarto grupo listado, trazendo como contribuição a análise de textos do início da carreira de Walras onde já aparecem fortemente dois traços essenciais de seu projeto teórico: a motivação política de seu esforço teórico, isto é, a busca de uma teoria da riqueza social que fosse ao mesmo tempo defensora do laissez-faire e capaz de oferecer uma resposta à demanda por reformas sociais rigorosamente burguesa; a centralidade que o paradigma da mecânica clássica estática tem em sua estrutura teórico-conceitual.

Também digno de registro preliminar é a omissão da obra de Louis Poinsot na formação da concepção walrasiana de equilíbrio geral, tanto no volume organizado por Blaug quanto no livro de Philip Mirowsky dedicado ao tema da presença da física nas concepções econômicas, More heat than light (Mirowsky, 1991).

Neste artigo há indicações da importância de Poinsot na consolidação da teoria walrasiana, um aspecto que tem sido negligenciado nos estudos sobre Walras.

 

2. O Journal Des Économistes

O Journal des Économistes, cujo primeiro número circulou em 1842, é das mais antigas publicações no campo da economia no mundo. Com o subtítulo de Revue Mensuelle de L'Économie Politique, des Questions Agricoles, Manufacturières et Commerciales, foi editada em Paris, chez Guillaumin, Libraire – Éditeur, Galerie de la Bourse, 5, Panoramas, até 1856, quando teve início a segunda fase da revista. Em 1866 há uma terceira fase, que se prolongou até as primeiras décadas do século XX. Em 1853, há alteração no título da revista que passou a se chamar Revue de la Science Économique, antecipando tendência que só dominaria na década de 1870, quando, com a chamada revolução jevoniana, a political economy passou a se chamar economics, numa operação que teve como objetivo fazer da economia uma ciência similar à physics, pelo rigor de sua metodologia, pela precisão de sua capacidade preditiva, pela "neutralidade" de seu objeto e pela objetividade científica de seus praticantes.

Esta operação, que consiste em situar a economia no campo das ciências positivas, sujeita às mesmas regras heurísticas que regem as ciências naturais, tem inspiração na tradição positivista, como se sabe. Já naquele tempo, segunda metade do século XIX, isto provocou disputas, controvérsias e contestações. Uma das alternativas mais fecundas surgidas para contestar o paradigma positivista é o decorrente das obras de Dilthey, Windelband e Rickert, que, a partir de Kant, buscaram estabelecer as especificidades do campo das ciências da natureza vis-à-vis o relativo às ciências do espírito.

Esta diferença entre ciências da natureza e ciências do espírito foi posta por Kant, na Crítica da razão pura, na terceira antinomia da razão pura: "A causalidade segundo as leis da natureza não é a única de onde podem ser derivados os fenômenos do mundo no seu conjunto. Há ainda uma causalidade pela liberdade que é necessário admitir para os explicar" (Kant, 1985:406).

É esta distinção que está na base das diferenças estabelecidas por Dilthey, e outros teóricos da escola de Baden, entre explicar e compreender, entre natureza e espírito, entre causalidade necessária e liberdade, entre a objetividade absoluta, que é possível quando o objeto é externo ao sujeito, e a intersubjetividade decorrente da situação do cientista social, que, sendo parte do objeto, ao tomá-lo para investigação, não pode evitar projetar nele seus "interesses", por mais "neutro" que o cientista social se queira. Este comprometimento do olhar do cientista social é visto por Schumpeter desde a escolha do objeto a ser estudado. Esta escolha resultaria de "visão analítica pré-cognitiva", neste sentido inteiramente não-científica.

Desse modo a pretensão de Comte e também a de Walras, de, terem construído símiles das ciências naturais no campo das ciências sociais – la sociologie, l'economie pure – é projeto atravessado por antinomias importantes.

As páginas do Journal des Économistes serão freqüentadas não só pelos maiores nomes das ciências sociais de então, mas também pelos temas econômicos, políticos e sociais mais candentes do século XIX. Nomes como os de Merivale, Bastiat, Proudhon, Louis Blanc, Fourier, Engels, Quételet (e sua teoria das probabilidades), Cherbuliez, Macculloch, John Stuart Mill, Carey, Juglar, Von Thünen, Courcelle-Seneuil, Roscher, Tooke, List, Leroy-Beaulieu, Levasseur, Gustave de Molinari, Yves Guyot, Maurice Blok, entre outros, são decisivos no debate econômico-político do século XIX. Temas como as revoluções de 1848, as reivindicações operárias, a marcha dos negócios, o comércio internacional e os interesses do empresariado fizeram do Journal des Économistes um sismógrafo de seu tempo, o órgão, por excelência, do pensamento liberal francês do século XIX.

Sobre esta revista, disse Schumpeter: "Assim, consideraremos primeiro os laissez-faire extremados que são conhecidos como o grupo de Paris, porque controlavam o Journal des Économistes, o novo dicionário, a organização profissional central em Paris, o Collège de France e outras instituições, além da maior parte da publicidade – e isto em grau tão elevado que a maioria dos seus oponentes científicos ou políticos começaram a sofrer de um complexo de perseguição" (Schumpeter, 1964:114).

Este virtual monopólio sobre o pensamento econômico francês exercido pelo journal só foi rompido em 1887, com a criação da Revue d'Économie Politique. Diz Schumpeter: "os novos homens, que se acreditaram novos em mais de um sentido, uniram-se, fundaram a heterodoxa Revue d'Économie Politique (1887), duvidaram (em sua maioria) da lei natural que é a raiz do laissez-faire, encararam com mais simpatia o protecionismo que, de qualquer forma, estava se tornando preponderante, e se permitiram a defesa de programas modestos de reforma social" (Schumpeter, 1964:115).

Nas páginas do Journal des Économistes desfilaram as grandes questões socioeconômicas francesas do século XIX, que a revista tratou com um indeclinável ponto de vista liberal-conservador, reagindo em toda a linha, e militantemente, ao desafio "socialista" representado pelas obras de Louis Blanc, Fourier, Proudhon, Engels e Marx. Trata-se em vários sentidos, de exemplar representante de postura que entendeu a centralidade da teoria econômica na disputa pela hegemonia política e cultural, diria Gramsci.

Foi nesta revista que León Walras iniciou sua carreira de economista, e isto tem vários significados: ele encarnou, talvez inexcedivelmente, o espírito da revista – suas contribuições buscaram combinar a análise dos problemas econômicos, a partir do "espírito geométrico", com um explícito engajamento político-ideológico cujo sentido é responder ao desafio socialista mediante reformas sociais compatíveis com o capitalismo.

Registre-se, também, que, paralelamente à suas intervenções no journal, Walras foi editor do jornal Le Travail, órgão do movimento cooperativista francês (Schumpeter, 1964:156).

O grande reconhecimento que a obra em "economia pura" de Walras alcançou, ao lado de tentativa posterior de apagamento do que era comum à época, a força das ligações entre teoria e ideologia, entre teoria e política, talvez explique o relativo desconhecimento de parte importante da obra de Walras relativa às questões sociais, e mesmo sua adesão a certa perspectiva de reforma social.

No que se vai sustentar neste artigo busca-se mostrar três pontos centrais das relações entre Walras e a questão social:

a) o caráter solidário da chamada trilogia teórica de Walras, isto é, a economia pura, a economia aplicada e a economia social estão articuladas por uma mesma base conceitual;

b) o núcleo de motivação destas teorias é buscar oferecer alternativa global de reforma social que conteste-interdite a influência crescente, então, do socialismo em suas variadas vertentes;

c) estas questões já aparecem nos primeiros trabalhos de Walras publicados no Journal des Économistes.

Reconhecer esta dimensão da obra de Walras não é incomum. Em trabalho constante do volume organizado por Mark Blaug, Renato Cirilo (Cirillo, 1992) apresenta interessante paralelo entre as teses de reforma social de Walras e as do reformador social norte-americano Henri George (1839-1897).

São vários os paralelos entre os dois. Dois se destacam: a centralidade que dão à nacionalização das terras, ao fim da renda da terra, como condição para a melhoria de salários e lucros; o fato de serem ambos firmes defensores do laissez-faire. Veja-se o trecho de Cole (1958:347, v. 2): "Se verá que George tenía una fe completa en los beneficios de la economía basada en la competencia, y que estaba muy lejos de desear que el Estado interviniese en la organización o direción de la producción. En realidade, más tarde se manifestó, em su obra Protection or Free trade? (1868), defensor decidido del libre-cambio a base de la doctrina más ortodoxa del laissez-faire".

Adeptos da reforma social, tanto Walras, quanto Henri George buscarão realizá-la a partir de uma firme recusa da perspectiva socialista, pela defesa da propriedade privada, do capital e do laissez-faire, identificando na propriedade privada da terra a raiz do mal a ser corrigido. Diz Cirillo sobre Walras: "He was not against the capitalist system. On the contrary, he insisted that it never be destroyed nor reformed entirely, and that it simply be modified according to the exigencies of history, political economy and all the other social sciences" (Cirillo, 1992:197).

Finalmente, não é ocioso reconhecer a forte presença fisiocrata tanto nas teses de Walras e George sobre a nacionalização da terra, quanto na tese do imposto único, que também é partilhada por eles (Cole, 1958:346 e 352, v. 2).

 

3. Walras no Journal Des Économistes

Para analisar a presença de Walras no journal, foram escolhidos quatro trabalhos, representativos de sua obra de então, publicados entre 1860 e 1865. São eles:

a) uma resenha do livro de Victor Bonnet, Le crédit et les finances, publicado no tomo 48, out./dez. 1865;

b) um artigo em que Walras propõe a constituição legal de organizações financeiras de associações populares, publicado no tomo 45, jan./mar. 1865;

c) um artigo doutrinário, em que, à moda de um diálogo, ele expõe sua compreensão da teoria econômica – "Paradoxes économiques" –, publicado no tomo 28, out./dez. 1860;

d) um resumo de seu livro L'économie politique et la justice, publicado no tomo 25, jan./mar. 1860.

É sobretudo como teórico da "economia pura" que Walras é conhecido. Muitos só o reconhecem aí e mesmo tomam como incompatíveis o cuidado com os aspectos teóricos abstratos da economia e a intervenção no mundo da política e na chamada economia aplicada. Walras desmente esta tese na medida em que sua obra combinou a teoria pura, a economia aplicada e, com destaque também, a busca da reforma social. Um dos pontos que se quer demonstrar aqui é que estes aspectos, antes de serem justaposições mecânicas, têm organicidade, imbricam-se em sua obra, do início ao fim.

Na resenha de 1865 sobre livro de Victor Bonnet sobre economia financeira Walras dá mostras de acompanhar a produção no campo da teoria econômica aplicada. Ao apontar os dois pontos fundamentais que o livro de Bonnet traria, Walras explicita sua ocupação com os temas de economia financeira que não é a do diletante. Diz Walras: "Deux points surtout, deux points fondamentaux de la théorie nouvelle, me paraissent avoir été supérieurement éclarcis par M. Bonnet. De ces deux points le premier consiste dans la limitation de la quantité de richesse annuellement capitalisable. Le fait de cette limitation est positif et inattaquable. (...) Un second point qui a été traité par M. Bonnet avec une patience et une sagacité rares, c'est la théorie des crises" (Walras, 1865a:482). Walras, ainda não nomeado professor em Lausanne, demonstra em seus comentários que não só acompanhava a produção teórica em economia em seus variados campos, como já parecia ter um ponto de vista claramente formulado sobre a economia. Diz ele: "Pour moi, je l'avoue, ce n'est pas ce côté d'opportunité, mais par son côté scientifique, qu'il m'a séduit" (Walras, 1865a:483). Em toda a resenha transparece um economista dotado de todos os meios para analisar as contribuições da nova obra à luz de uma visão completa sobre a vida econômica. Não é o texto de um curioso, de um amador, já é a manifestação de um estudioso seguro de suas idéias e instrumentos analíticos.

O segundo trabalho escolhido aqui – "De l'organisation financière et de la constitution légale des associations populaires", publicado no tomo 45, também de 1865 – denota uma ocupação permanente de Walras. Trata-se de sua explícita adesão à reforma social como instrumento decisivo na luta contra os socialistas, contra a revolução. É esta a motivação que o fez teórico e organizador do movimento cooperativista na França. No artigo em pauta, depois de discussão sobre a natureza jurídica das sociedades comerciais, baseada na tipologia do direito comercial francês, que distingue três tipos de sociedades (as de responsabilidade solidária, as de sociedade limitada e as comanditárias), há exposição de motivos que busca dar fundamentação jurídica a um outro tipo de sociedade – a de responsabilidade limitada –, base para um projeto de lei de criação de associações populares, sociedades de responsabilidade limitada. Em seus 12 artigos, o Projeto de Modificação do Código Comercial visava facilitar a criação e funcionamento de formas cooperativas de sociedades comerciais-industriais.

Sobre a experiência de Walras neste campo e sua explícita motivação anti-socialista, veja-se o trecho de William Jaffé, talvez o seu maior biógrafo: "Then, is 1864, he became managing director of a bank for cooperatives in which Léon Say was interested, but the bank was compelled to liquidate in 1868. While he was directing the bank, Walras wrote and lectured on the organization of cooperatives, which were looked upon in the 1860s as an antidote to the revolutionary threats of the working classes" (Jaffé, 1968:447).

O terceiro texto de Walras que se vai considerar aqui tem explícita intenção doutrinária no campo da economia pura. Chamado "Paradoxes économiques", e publicado no tomo 28, de 1860, o artigo, sob a forma de diálogo platônico, põe em confronto, "un industriel homme de sens", e "un philosophe économiste", que, no diálogo, é dito "un savant". Trata-se, no essencial, de um debate entre a defesa do protecionismo feita pelo "homem sensato", pelo industrial, que representa, com certa malícia, "o senso comum", e o sábio, o economista que, defendendo o laissez-faire enfrenta "Il choque le sentiment superficiel et irréfléchi de la multitude ignorante" (Walras, 1860:390).

Esse artigo, escrito para defender o ponto de vista da douta teoria econômica, isto é, para defender "le principe du laissez-faire, laissez passer, découvert par des hommes généreux et honnêts, qui étaient en même temps de véritables savants et de grands philosophes" (Walras, 1860:390) é, também, um ataque direto e agressivo às teses socialistas, às teses que vêem conflito entre as classes, contradições entre os interesses sociais. Diz Walras: "léconomie politique nous enseigne, entre autres vérités générales et supérieures, que les intérêts des peuples, comme ceux des individus, ne sont point antagoniques, mais harmoniques" (Walras, 1860:374).

Mas é, sobretudo, no quarto texto escolhido – "Philosophie des sciences économiques", publicado no tomo 25, de 1860 – que está o mais significativo da produção teórica de Walras no período considerado. Este texto, na verdade, é extrato do livro que apareceria naquele mesmo ano de 1860, L'économie politique et la justice, que buscou ser um "examen critique et réfutation des doctrines économiques de M. P. J. Proudhon" (Walras, 1860:198).

Antes de considerar este artigo, registre-se o aparentemente inusitado encontro entre Proudhon e Walras. Foi dito aparentemente inusitado porque, de fato, Walras empenhou-se seriamente no combate aos socialistas, às perspectivas radicais, assim, tomar Proudhon como objeto de seu primeiro livro, que é ao mesmo tempo de economia pura e de reforma social, é revelação de uma ligação inexpurgável destes aspectos em sua obra.

Pierre Jacques Proudhon (1809-1865) tem lugar de destaque nos primórdios da luta socialista européia. Seus livros, suas idéias, tiveram considerável influência sobre o movimento operário francês de meados do século XIX. É conhecida a relação inicialmente amistosa e cooperativa entre Proudhon e Marx e o ruidoso rompimento representado pela crítica de Marx contida no livro Miséria da filosofia, de 1847.

Bem menos conhecida é a relação entre Proudhon e Walras. Bem mais moço que Proudhon, Walras publicou seu livro de crítica a Proudhon em 1860, já no final da vida deste. Contudo, são muitos os paralelos entre os dois. Na verdade, eles são rivais na influência que procuraram exercer sobre o movimento social. Têm temas e preocupações comuns: Proudhon, diz Marx – queria criar o Banco do Povo, como forma de ofertar o crédito gratuito, como instrumento para a construção do socialismo (Marx, s.d.:158). Walras, por sua vez, vai-se empenhar em constituir e dirigir bancos para as cooperativas populares.

Para Walras, Proudhon representa o perigo da radicalização que precisa ser evitado. Walras combaterá este perigo de duas formas – na prática, mediante a organização de bancos para financiar cooperativas populares e, teoricamente, mediante a demonstração matemática dos equívocos das idéias de Proudhon. Estas duas providências de Walras estão articuladas organicamente.

Por outro lado, há que se registrar outra importante aproximação entre Walras e Proudhon, exatamente pela importância que dão ao crédito na reorganização da vida econômica do ponto de vista da reforma social.

Há, ainda, um outro paralelo, que não tem sido apontado, entre Walras e Proudhon. Ambos participaram de um concurso promovido pelo cantão de Vaud, cuja capital é Lausanne, sobre tributação. Diz J. Hampden Jackson, biógrafo de Proudhon: "o Cantão suiço de Vaud, vizinho do Franche-Comté, ofereceu um prêmio de 1550 francos a um ensaio sobre tributação, e Proudhon tinha certeza de que poderia conquistá-lo" (Jackson, 1963:103).

Sobre o mesmo episódio, a versão de Schumpeter é a seguinte: "Em 1860, compareceu ele [Walras] a um congresso internacional sobre tributação em Lausanne, onde leu um trabalho que foi bem recebido" (Schumpeter, 1964:101). Marx, em artigo sobre Proudhon, em 1865, refere-se assim ao caso: "Há alguns anos Proudhon escreveu uma tese sobre os impostos, num concurso, ao que suponho, promovido pelo Governo do Cantão de Vaud" (Marx, s.d.:159). Diz Jaffé no prefácio de sua tradução de Elements of pure economics: "There he read a paper in 1860 on taxation" (Jaffé, 1965:6). O fato concreto é que tanto Proudhon quanto Walras concorreram ao tal concurso com trabalhos sobre tributação e que a vitória coube a Proudhon. Diz Jackson: "O ano de 1861 trouxe uma certa popularização de seu nome. O cantão de Vaud concedeu-lhe o prêmio, o ensaio foi publicado em setembro com o título de La Théorie de l'I mpôt" (Jackson, 1963:104). Sobre este livro, disse Marx ser "o último clarão do gênio" (Marx, s.d.:159).

Albert Jolink refere-se ao caso dizendo que se tratou de fato de conferência: "During this conference, which featured a contest for the best essay, Walras presented a work entitled 'Theorie critique de l'impôt' (...) As it turned out, the contest was won by Proudhon and León Walras came fourth" (Jolink, 1996:27).

De qualquer modo, a participação de Walras na conferência lhe foi benéfica. Diz Schumpeter que seu trabalho foi bem recebido e que Louis Ruchnnet "mais tarde se tornou chefe do departamento da educação do Cantão de Vaud e, em 1870, fundou uma cadeira de Economia Política na Universidade de Lausanne, que foi oferecida a Walras" (Schumpeter, 1964:101). Na mesma direção é o registro de Jaffé: "and thanks to the remarkable impression he made on that occasion, he was invited ten years later as the first occupant of a newly founded chair in economics at the Faculty of Law of the Academy of Lausanne" (Jaffé, 1965:6).

Deste modo, e por mais de um motivo, talvez, não é de se estranhar que Walras tenha como objeto central de seu livro de estréia, de 1860, as idéias de Proudhon, e, talvez mais decisivo ainda para o futuro da obra de Walras, que esta "refutação das idéias básicas Proudhon" tenha sido apresentada a partir da "convicção de que a teoria econômica poderia ser estudada matematicamente" (Schumpeter, 1958:78).

 

4. Walras na História da Análise Econômica

Já se disse aqui que Walras é o herói da História da análise econômica de Joseph Schumpeter. Num livro que tem como urdidura a perspectiva evolucionista – a caminhada da análise econômica dos métodos analíticos rudimentares à sofisticação dos modelos matemáticos –, a teoria do equilíbrio geral, criação de Walras, é o termo da jornada, culminância do processo seletivo. Diz Schumpeter: "Entretanto, no que respeita à economia pura, Walras é, na minha opinião, o maior de todos os economistas. Seu sistema de equilíbrio econômico, unindo a qualidade de sua criação revolucionária com a qualidade de síntese clássica, é a única obra de um economista que pode ser comparada com as realizações da física teórica" (Schumpeter, 1964:100).

É esta exaltação do modelo da física teórica que fez Schumpeter repelir as outras dimensões da obra de Walras: "Infelizmente, Walras atribuía muita importância às suas questionáveis filosofias sobre justiça social, seu esquema de nacionalização da terra, seus projetos de controle monetário e outras que nada têm a ver com a sua magnífica obra em teoria pura" (Schumpeter, 1964:100).

Esta opinião trai um preconceito que ainda hoje tem certa circulação. Trata-se da tentativa de desvincular a teoria, tomada como ciência pura, de inconvenientes cangas ideológicas, desnecessárias e comprometedoras. No entanto, na época em que Walras escrevia, tanto ele quanto alguns de seus mais acreditados colegas de ofício não se furtavam a explicitar as inovações político-ideológicas de seus trabalhos em teoria pura. É isto que mostra Vincent Tarascio: "His trilogy, pure economics, applied economics, and social economics, takes on mean when it is viewed as an expression of a reformer whose aim was to integrate scientific and humanistic endeavors and to reconstitute society in a manner which would reconcile the contending doctrines of laissez-faire and socialism" (Tarascio, 1992:284-5).

O núcleo do artigo que se está lendo toma a interpretação de Walras feita por Schumpeter e a questiona em dois pontos centrais: de um lado, ao contrário do que Schumpeter afirma, é possível mostrar que a filosofia social de Walras, seus projetos e teses sobre reforma social são motivações centrais de sua "economia pura"; um segundo ponto de discordância, que também tem incidência sobre o anterior, refere-se ao período 1870-92, que Schumpeter diz ter sido "seu período criador" (Schumpeter, 1964:101). Vai-se sustentar aqui que a questão essencial da economia pura de Walras já estava colocada em 1860, portanto muito antes do período tido como "criativo" por Schumpeter e que, na verdade, coincide com o mais intenso da atividade política de Walras.

Para realizar este cotejo com as teses de Schumpeter tome-se o artigo "Philosophie des sciences économiques", publicado por Walras em 1860. Este artigo, como já foi dito, resume argumentos desenvolvidos no primeiro livro de Walras, também de 1860, L'économie politique et la justice, escrito para combater as idéias econômicas de Proudhon. O centro deste combate é a busca da demonstração matemática, rigorosa, da superioridade da ordem burguesa, da propriedade privada e do capital, sobre o programa socialista. Se este é o objetivo central do texto, a forma como Walras desenvolve isto não deixa dúvidas do quanto a motivação político-ideológica, a escolha interessada, tem importância em sua teoria.

O ponto de partida do texto de Walras é, ao definir a economia a política como ciência, buscar estabelecer o conceito de ciência. A tese de Walras sobre isto é: "Toute science est la théorie d'un fait général (...) Le fait général est universel et permanent" (Walras, 1860b:196). Se é assim, o passo seguinte é identificar o fato geral da economia política, e este fato geral é a riqueza social, que é "cet ensemble d'utilités non gratuites et susceptibles de participer du fait général de l'échange" (Walras, 1860b:197). Diz Walras: "l' économie politique et la théorie de la richesse sociale, ou la science du fait géneral de l'échange" (Walras, 1860b:197).

Desde logo, lembre-se que esta definição, de 1860, volta a aparecer no livro-chave de Walras, Elementos de economia pura, de 1874, que tem como subtítulo A teoria da riqueza social. Só por isto já seria conveniente considerar tanto a existência de continuidade teórica da obra de Walras, desde seus primeiros trabalhos, quanto a inextricável relação entre ciência e política que ela contempla.

Para combater Proudhon, Walras não tem dúvida em mobilizar um aparato teórico, em 1860, que antecipa no essencial algumas das principais características da "Revolução marginalista", que é de 1871. Veja-se a argumentação de Walras:

a) o fato geral da troca implica dois outros fatos gerais, o valor da troca e a propriedade;

b) o valor da troca, por sua vez, decorreria da utilidade e da raridade;

c) a utilidade seria função da demanda;

d) já a raridade seria resultado da oferta limitada;

e) tudo isto impõe a conclusão de que a utilidade seria a condição do valor, enquanto a raridade seria sua causa (Walras, 1860:197-8).

No referente à propriedadea tese de Walras é: "La propriété n'est pas simplement l'appropriation, c'est l'appropriation sanctionnée par la raison ou par la loi" (Walras, 1860b:199). No livro de E. K. Hunt, História do pensamento econômico, analisando a teoria da propriedade contida em Elementos de economia pura, há transcrição de definição de propriedade absolutamente coerente com a do texto de 1860. Diz Hunt citando Walras: "A propriedade consiste em apropriação justa e racional, uma apropriação certa" (Hunt, 1989:297).

Se é inequívoca a manutenção por Walras da mesma visão sobre propriedade entre 1860 e 1874, no referente à teoria do valor de troca, em 1860, ainda não aparece a palavra-chave utilidade marginal. As influências explicitamente admitidas por Walras para a constituição de seu pensamento, são seu pai, Auguste Walras, Cournot e Say. São estes autores, sobretudo, que teriam permitido, ainda que por caminhos diferentes tanto dos de Jevons quanto dos de Menger, que Walras tivesse chegado também ao conceito de utilidade marginal. Havia, neste sentido, no período pós-ricardiano, que Marx viu dominado pela economia vulgar, uma atmosfera cultural que fecundou a chamada "revolução jevoniana".

Não se deve omitir a importância do Gossen (1810-1858) como pioneiro da teoria neoclássica. Sobre ele Walras escreveu, em 1885, um artigo – "Un économiste inconnu, H. H. Gossen" – para o Journal des Économistes. No prefácio da quarta edição de Elementos de economia pura, de 1900, Walras reconhece a prioridade de Gossen na proposição da curva de utilidade, dizendo: "I readily acknowledge Gossen's priority with respect to the utility curve and Jevon's priority with respect to the equation of maximum utility in exchange, but these economists were not the source of my ideas" (Walras, 1965a:37).

Se faltou a Walras, em 1860, pronunciar a palavra-chave que teria feito dele o pioneiro da consolidação do pensamento chamado neoclássico, já naquele momento ele tinha visão global da teoria da riqueza social a partir do fato geral da troca. Walras derivaria, então, da teoria do valor de troca uma teoria da produção, da teoria da propriedade uma teoria da distribuição e uma teoria do consumo. Diz Walras: "C'est ainsi qu'on doit naturellement faire suivre la théorie de la valeur d'échange d'une théorie de la production, et la théorie de la propriété, qui n'est autre que celle de la distribution, d'une théorie de la consommation" (Walras, 1860b:202).

Todo este desenvolvimento conceitual era, para Walras, a base para a increpação que ele queria fazer das idéias econômicas de Proudhon. Este projeto tem como fundamento o uso da matemática, a transformação da economia política embebida da lógica e dos métodos das ciências naturais subordinando a justiça, as ciências morais. Diz Walras: "Et, la subordination des sciences morales aux sciences naturelles étant ainsi comprise, ce n'est point à faire miroiter de ridicules antinomies que le philosophe doit s'attacher, mais au contraire à faire resplendir dans leur simplicité logique des harmonies profondes, intimes, naturelles" (Walras, 1860b:206).

Assim, uma análise deste texto de Walras, de 1860, mostra tanto o já considerável avanço de seu pensamento teórico então quanto a íntima relação entre teoria econômica e interesses político-ideológicos em sua obra. Tudo isto em franca contestação à tese de Schumpeter na História da análise econômica.

 

5. Poinsot e Walras

A educação formal de Walras incluiu um bacharelado em letras, em 1851, e um outro em ciências, em 1853. São desta época seus estudos em matemática, que, ainda que sistemáticos, foram insuficientes para permitir seu acesso à École Polytechnique (Jaffé, 1968:447).

Em 1901 Walras confidenciou a um amigo que a descoberta de Poinsot e seu Éléments de statique, por volta de 1853, quando estava com 19 anos, foi decisiva para ele, tendo este livro o acompanhado por toda a vida. Diz Jaffé – "The true fons et origo of Walras multiequational formulation of general equilibrium was Louis Poinsot's once farmous text book in pure mechanics, Éléments de statique (1803), which as confided to a friend in 1901, he first read at the age of 19 and then kept by him as a companion book throughont his life. In Poinsot we find virtually the whole formal apparatus that Walras later employed in his Éléments d'économie politique pure" (Jaffé, 1968:450).

Walras, em sua autobiografia, escrita em 1909, admitiu como as grandes influências sobre seu pensamento as idéias de seu pai, também economista, Auguste Walras, de Cournot e de Say. Há uma menção de praxe à importância da obra de Adam Smith. Contudo, nada há de central em Walras derivado de Adam Smith. Walras, vai, na verdade, tomar como seu e realizar o programa teórico estabelecido por Say em seu Tratado de economia política, de 1803: "As leis gerais que regulam as ciências políticas e morais existem a despeito das disputas (...) Elas derivam da natureza das coisas, tão seguramente quanto as leis físicas do mundo (Say, citado por Löwy, 1987:24).

Se este é o programa de Say, formulado em 1803, também em 1803 surge o aparato metodológico-formal capaz de dar à economia roupagem formal semelhante à da física clássica: a obra de Poinsot, que Walras vai usar, sem o citar, para a construção de sua teoria do equilíbrio geral.

Sobre a influência de Poinsot sobre Walras, será sustentado aqui que não é apenas na formalização do sistema de equações da teoria do equilíbrio geral que esta influência se dá: as idéias de Poinsot são constitutivas do central da teoria econômica walrasiana.

Inicie-se lembrando esta figura, Poinsot, que, como no poema de Drummond, não havia aparecido na história e quando o faz rouba a cena.

Louis Poinsot é matemático em terra de grandes matemáticos – Fermat, Laplace, Lagrange, Cauchy, Poincaré, e os gênios de Descartes e Pascal –, de um certo estilo de matemática em que a sutileza e elegância são únicos. Trata-se de um grande matemático. Em 1872, J. Bertrand escreve uma "Notice sur Louis Poinsot'', para o Journal des Savants, em que está: "Quand Poinsot succéda à Lagrange dans la section de geométrie de l'Académie des Sciences, Ampère et Cauchy étaient ses concurrents. La distinction des travaux de Poinsot, non moins que la sagacité merveilheuse de son esprit, permittaient de le préférer sans injustice" (Bertrand, 1877:XXII).

Professor de primeira hora, 1795, da École Politechnique, engenheiro, inspetor geral da universidade, membro da Academia de Ciências, Louis Poinsot é um dos grandes nomes da matemática francesa. Em 1803 publica o livro que se vai considerar aqui: Éléments de statique, um tratado apresentado à Academia de Ciências em 29 de brumário do ano XII, em que "Tout, en effet, y était nouveau ou présenté d'une manière nouvelle" (Bertrand, 1877:XVI).

A obra consiste em um tratado de mecânica clássica, da parte da mecânica que considera a estática, isto é, como diz Poinsot, "la science de l'équilibre des forces" (Poinsot, 1877:3). Apresentado em quatro capítulos, 251 páginas, 242 parágrafos, e quatro pranchas, Éléments de statique é a fundamental inspiração de Éléments d'économie politique pure, de Walras. São tantas as semelhanças entre as formas de apresentar as idéias, o more geométrico utilizado, que não há como não reconhecer a decisiva influência de Poinsot sobre Walras e não ver o livro de Walras como uma aplicação, no campo da economia, da "science de l'équilibre des forces", a teoria do equilíbrio geral.

Esta é constatação forçosa. Contudo, o que não tem sido dito é que a influência de Poinsot sobre Walras não se limitou a seu livro de 1874. Já em 1860, no artigo antes discutido em que Walras combate Proudhon, se faz sentir a presença de Poinsot. Deste modo, o que se coloca é o reconhecimento de uma relação mais ampla e complexa entre Poinsot e Walras, com desdobramentos ainda não explicitados.

Para discutir isto, tomem-se as definições preliminares que abrem o livro Éléments de statique. A idéia central aí é a de força. Por força entenda-se "la force est donc une cause quelcon que de mouvement. (...) Sans connaitre la force en elle-méme, nous concevons encore trés clairement qu'elle agit suivant une certaine direction, et avec une certaine intensité" (Poinsot, 1877:1-2). Trata-se da afirmação da centralidade do conceito de força, o qual deve ser complementado pelos conceitos de direção e intensidade.

Neste ponto, ao se considerar o texto de Walras de 1860, contra Proudhon, tem-se uma quase simétrica aplicação da conceituação de Poinsot para o campo da economia. Neste texto o conceito central, similar ao de força, é o de utilidade, seus atributos: a intensidade, a extensão e a direção. Diz Walras: "De ces observations, il ressort avec une pleine évidence que le fait général de la valeur d'échange prend sa source dans la limitation en quantité des utilités qui les fait rares. Il y a cependant encore une remarque à faire. On pourrait analyser l'utilité, et la considérer successivement dans son intensité, suivant qu'elle est plus ou moins sérieuse ou médiocre; dans son extension, suivant qu'elle est plus ou moins repandue ou restreinte; dans sa direction, suivant qu'elle est plus ou moins médiate ou immédiate (Walras, 1860:199).

O que se tem aí é o enunciado de um problema – como estabelecer o valor de troca das mercadorias, a partir da idéia de utilidade – sem se contar com os recursos do cálculo diferencial. É a explicitação de um problema, o referente à intensidade, extensão e direção de uma variável, a utilidade, que só tem solução com o concurso do cálculo diferencial, isto é, com a introdução do conceito de utilidade marginal. Em 1860, Walras apresenta o problema nos termos do livro de Poinsot, de 1803. Em seu livro de 1874 Walras simplificará, de certo modo, o problema, pela redução da idéia de utilidade a um único atributo, a raridade, e pela adoção do princípio das "necessidades saciáveis" como o chamou Marshall, e que, atribuído a Gossen, estava, como se diz, "no ar", tendo sido desenvolvido paralelamente por Jevons, Menger e Walras. Diz Schumpeter: "à medida que vamos adquirindo incrementos sucessivos de cada bem, a intensidade de nosso desejo por uma 'unidade' adicional declina monotonicamente até que alcança zero – sendo concebível que caia abaixo de zero. Ou, substituindo os algarismos discretos de Menger, por uma curva ou função contínua, a frase 'desejo por uma unidade adicional', por 'utilidade marginal', temos: 'A utilidade marginal de algo para uma pessoa, diminui com qualquer aumento à quantidade que esta pessoa já tem'" (Schumpeter, 1964:190). A pedra fundamental da estrutura de Walras, disse Schumpeter, é o conceito de utilidade marginal (Schumpeter, 1958:81).

Foi este conceito, utilidade marginal, similar ao conceito de força na física newtoniana e apresentado por Poinsot em seu livro de 1803, que Walras usou para acabamento de sua teoria do equilíbrio geral, numa operação que, em última instância, é a reposição no campo da economia, mutatis mutandi, dos desdobramentos da mecânica newtoniana. Uma visão esquemática geral livro de Poinsot, de 1803 em cotejo com o de Walras, de 1874, é apresentada no quadro 1.

 

 

Mais que reconhecer a influência de Poinsot sobre a obra de Walras de 1874, o que se procurou mostrar aqui é que, desde 1860, desde o início de sua carreira, Walras, num texto claramente militante como "Philosophie des sciences économiques", que é excerto de L'économie politique et la justice, já cultivava a pretensão de oferecer uma alternativa científica, isto é, matemática, à economia política clássica e a seus desdobramentos socialistas.

Walras, na verdade, buscou, em seu livro de 1874, a solução de um desafio que se impunha desde seus primeiros trabalhos na década de 1860. Elementos de economia política pura é o primeiro volume de uma tríade que se completou com Études d'economie sociale, 1896, e Études d'economie apliquée, de 1898. Diz Walras, no Compêndio dos elementos de economia política pura, publicado por G. Leduc em 1938: "Da mesma forma, há uma Economia Política Pura que deve preceder à Economia Política Aplicada, e essa Economia Política Pura é uma ciência em tudo semelhante às ciências físico-matemáticas (...) Mas ver-se-á que essas verdades da Economia Política Pura fornecerão a solução dos mais importantes problemas, dos mais debatidos e dos menos claros, de Economia Política Aplicada e de Economa Social. (...) É a questão das relações entre a Moral e a Economia Política, notadamente polemizada por Proudhon, Bastiat por volta de 1848. Proudhon, nas Contradições Econômicas sustentava que há antinomia entre a justiça e o interesse; Bastiat, nas Harmonias Econômicas, sustentava a tese oposta. Penso, quanto a mim, que nem um nem outro conseguiu fazer sua demonstração e retomarei a tese de Bastiat, para defendê-la de outro lado" (Walras, 1986:23-4 e 30).

Esta defesa, iniciada em 1860, no livro L'économie politique et la justice, prolongou-se pelos livros de 1874, 1896 e 1898 e ainda são centrais no Compêndio publicado postumamente em 1938.

Todos estes trabalhos têm como ponto de partida, como substrato lógico-formal e como arcabouço teórico a mecânica clássica e seu fundamento – a teoria do equilíbrio de forças – exposta por Louis Poinsot em 1803, e desde 1853 a mais permanente companhia de Walras. Companhia omitida por Walras, que preferiu não citá-lo em sua obra-chave de 1874. De resto, a permanência das velhas questões, do debate entre justiça e interesse, em sua obra tardia vem reafirmar a centralidade destes temas no conjunto de sua economia política pura, o que, é certo, tem muitas implicações para a justa compreensão do desenvolvimento do pensamento econômico. Walras jamais negou, ao contrário, buscou todo o tempo explicitar que sua economia política pura era, basicamente, a busca da prova matemática da superioridade do capitalismo. Diz Hunt: "grande parte do livro Elementos, de Walras, consistia em uma defesa bem elaborada da tese de Bastiat, de que, na sociedade capitalista, a livre troca maximizava a utilidade total e que, por isso, o capitalismo laissez-faire oferecia o melhor mundo possível" (Hunt, 1989:311).

Este objetivo, perseguido desde o primeiro livro de Walras, de 1860, foi conduzido desde o início pela "mecânica" de Poinsot. Se em 1860 há o enunciado da questão mediante a aproximação dos conceitos de "equilíbrio de forças" e de "equilíbrio dos valores de troca", em 1874 a analogia se completa inteiramente com a constituição da teoria do equilíbrio geral, derivação para o campo da economia dos princípios da mecânica clássica expostos no livro de Poinsot.

Em 1909, em seu último curso em Lausanne, talvez um testamento intelectual, Walras desenvolveria um texto sobre as relações entre a economia e a mecânica, que publicou no mesmo ano com o título Economique et mécanique. Trata-se de velha freqüentação. Walras, desde pelo menos 1853, vinha estudando Louis Poisont e seu tratado de mecânica estática. Ele o confessa em 1901, mas isto parece não ter despertado maior atenção de seus estudiosos. Jaffé registra o fato dando a ele o devido significado. Em artigo para o livro organizado por Blaug (1992), "Leon Walras's mathematical economics and the mechanical analogies", cuja temática é, exatamente, a presença da física-matemática na obra de Walras, Albert Jolink e Jan Van Daal omitem o livro decisivo de Poinsot na formação da armadura conceitual-metodológica de Walras.

É também com surpresa que se constata a omissão de Poinsot na obra de síntese de Mirowsky sobre a influência dos paradigmas da física sobre o pensamento econômico, em particular sobre o paradigma do equilíbrio neoclássico (Mirowsky, 1991).

Neste sentido, registre-se, como nota final, que Walras perseguiu a aplicação dos princípios da mecânica de Poinsot à economia desde seus primeiros trabalhos até seu último texto, de 1909. Mais que isto, um exame do artigo de 1860 no Journal des Économistes – "Philosophies des sciences économiques" – revela que não é só como contribuição ao método que Walras usou o tratado de Poinsot. É o próprio núcleo conceitual de sua teoria que vai incorporar os princípios da mecânica estática, é o próprio conceito do valor da troca, objeto central da ciência econômica para Walras, que vai assumir – quase sem alterações – as propriedades do conceito de força, objeto central de mecânica estática. O quadro 2 ilustra isto.

 

 

Neste sentido não será demasiado concluir que os estudos sobre a presença de certos paradigmas da física clássica no pensamento walrasiano ainda carecem de maior esclarecimento no referente às decisivas implicações que a estática de Poinsot trouxe para a teoria de Walras em seu conjunto.

 

6. Nem Luz Nem Calor

No livro de Mirowsky More heat than light, o nome de Poinsot aparece na bibliografia com seu livro Éléments de statique, mas não é citado no texto. Isto é mais que uma simples omissão. Ter considerado a obra de Poinsot, sua influência sobre a obra de Walras, teria sido reconhecer que a física não deu à economia apenas uma metáfora-síntese, a energia, os princípios da termodinâmica, como argumenta Mirowsky, sendo indescartável a presença da estática da mecânica clássica no coração mesmo da mais ambiciosa tentativa de construção da teoria neoclássica, que é a teoria do equilíbrio geral.

Em outro livro organizado por Mirowsky, Natural images in economic thought, que exatamente discute a presença de metáforas derivadas da física e da biologia no pensamento econômico, também é escassa a presença de Louis Poinsot, aparecendo apenas às páginas 93 e 94 como membro da comunidade de matemáticos franceses que, no final do século XVIII e início do XIX, no contexto da revolução e seus desobramentos napoleônicos, buscaram desenvolver o cálculo e a mecânica (Grattan-Guinness, 1994:93-94).

Neste sentido, é importante registrar que o que marca a economia de Walras é, decisivamente, a mecânica a parte estática deste campo da física, estando ausente de sua obra os paradigmas-metáforas derivados da termodinâmica, mesmo da termodinâmica anterior à sua segunda lei.

Em sua pequena autobiografia, de 1909, Walras, referindo-se a seu texto Économique et mécanique, diz: "Et, de mon côté, je lui avais envoyé une note mathématique intitulée Économique et Mécanique établissant la parfaite similitude: De notre formule de satisfation maxime avec celle de l'équilibre de la romaine; de nos équations d'équilibre général avec celle de la gravitation universalle" (Walras, 1965:14).

Mirowsky, em seu Against mechanism, afirma que Walras, em relação a Jevons, estava longe de compreeender e de assumir as novas implicações do desenvolvimento da física da energia (Mirowsky, 1988:21). Mais instigante ainda é a sua tese de que, no fundamental, a teoria neoclássica austríaca – Menger, em particular – não é, de fato, neoclássica, por seu total alheamento das ciências exatas, pela ausência do conceito de equilíbrio e, sobretudo, pela radicalidade dos pressupostos subjetivos de sua teoria (Mirowsky, 1988:23).

Neste sentido, pode-se dizer que dos três fundadores da teoria neoclássica – Jevons, Menger e Walras – apenas o primeiro assumiu a metáfora energética em sua teoria, resultando, pois, que não se possa generalizar a importância da física da energia para a construção da teoria neoclássica, pelo menos em sua primeira fase. Mais ainda, considerar a obra de Walras de 1859, data de seu primeiro trabalho em economia, até 1909, época de Économique et mécanique, seu último trabalho, é constatar sua permanente adesão à mecânica estática. O que significa dizer que na economia walrasiana não há lugar nem para a luz, nem para o calor, como quer Mirowsky.

Sabe-se que discípulos de Walras – Pareto, Antonelli – avançaram no sentido de incorporar a física da energia ao arcabouço walrasiano. De qualquer modo, é importante registrar que não é desprovido de interesse considerar a indiferença de Walras com relação à física da energia e as implicações disto sobre o conjunto de sua visão sobre economia.

De resto, esta discussão aponta para pelo menos dois problemas de real interesse para a história do pensamento econômico: de um lado, para as consideráveis diferenças que existem entre as teorias de Jevons, Menger e Walras, quase sempre vistos como um trio xifópago; de outro, a importância dos "estilos-referências-metáforas" na estruturação de aspectos centrais das teorias, isto é, que a dimensão retórica na construção das teorias vai além do que certa perspectiva positivista quer admitir.

 

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* Artigo recebido em ago. 2000 e aprovado em maio 2001. O autor agradece a Hugo E. G. Cerqueira por suas valiosas sugestões.

** Professor do Cedeplar/Face/UFMG.