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Revista Brasileira de Economia

Print version ISSN 0034-7140On-line version ISSN 1806-9134

Rev. Bras. Econ. vol.57 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71402003000300003 

Raça e nacionalidade no mercado de trabalho carioca na Primeira República: o caso da cervejaria Brahma

 

 

Hildete Pereira de MeloI; João Lizardo de AraújoII; Teresa Cristina de Novaes MarquesIII

IProfessora Doutora da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF)
IIProfessor Doutor Titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
IIIDoutora em História Social pela Universidade de Brasília (UNB)

 

 


RESUMO

Sumário: 1. Introdução; 2. As grandes questões históricas; 3. A empresa; 4. A metodologia empregada; 5. O perfil dos trabalhadores; 6. Conclusões.

Este artigo analisa as oportunidades de trabalho e os níveis de remuneração oferecidos a trabalhadores brancos e negros em uma grande indústria carioca: a Companhia Cervejaria Brahma. Trata-se de um estudo de caso que busca respostas para um conjunto de questões sobre a absorção da mão-de-obra negra e imigrante no mercado de trabalho da indústria do antigo Distrito Federal. Com esse fio ordenador, o artigo está estruturado da seguinte forma: em primeiro lugar, são arroladas questões recorrentes na historiografia brasileira acerca do mercado de trabalho industrial e da imigração estrangeira na Primeira República; em segundo lugar, faz-se uma breve síntese da trajetória da cervejaria Brahma, desde a sua fundação até os anos 1930; em terceiro, a metodologia de tratamento dos arquivos da empresa é explicitada para então, em quarto lugar, elaborar-se uma análise do perfil de seus trabalhadores, empregando-se os indicadores de nacionalidade, de cor da pele, de instrução, de tipo de ocupações e de rendimentos. Finalmente, analisaram-se esses indicadores com o propósito de identificar possíveis discriminações de raça ou nacionalidade dos trabalhadores. Um resultado inesperado foi a existência de discriminação contra brasileiros, mas não contra afro-descendentes in se.

Palavras-chave: mercado de trabalho; imigração portuguesa; raça.
Código JEL: N360.


ABSTRACT

This article analyses the job opportunities and the levels of salaries offered to white and black workers in a large industrial enterprise in Rio de Janeiro: the Brahma Brewing Co. It is a case study that attempts to answer to a number of questions on how black and immigrant working forces were inserted in the industrial working market of the Brazilian former federal capital. Taking these as a guide the article is structured in the following way: first of all, there is a discussion of a number of recurrent questions of historiography about the origins of industrial labor market and foreign immigration in First Republic; second, there is a brief summary of the origins and the first three decades of existence of Brahma Brewery; third, the methodological assumptions of data treatment are exposed, so that, in the fourth place, the profile of the company's labors is analyzed by using the indicators of nationality, skin color, educational level, job and wage levels. Finally, indicators were analyzed in order to identify possible discriminations among workers due to race or nationality. An unexpected finding was the presence of discrimination against Brazilians, but not against African-Brazilians as such.


 

 

1 Introdução

Há décadas historiadores vêm estudando a população operária da antiga capital federal sob diversos enfoques. O período da Primeira República, em particular, recebeu a maior atenção dos estudiosos, que empregaram abordagens variadas para compreender as condições de vida dos trabalhadores residentes na cidade no que diz respeito à sua participação política, suas manifestações culturais, seus hábitos de lazer, suas relações familiares e de gênero.

Apesar da sua elevada qualidade, a produção recente sobre as classes populares cariocas não avançou no conhecimento da estrutura do mercado de trabalho industrial vigente na capital federal, a despeito da importante contribuição de Eulália Lobo nesse campo.1 Igualmente lacunar é a nossa compreensão acerca da inserção de trabalhadores nacionais, negros e brancos, e de imigrantes europeus no mercado de trabalho industrial da cidade.2

As razões para a permanência dessa grave falha no conhecimento histórico se devem a deficiências de fontes, como argumenta Carlos Hasenbalg. Como apenas os censos de 1890 e de 1940 contiveram informações sobre cor da pele da população, a maior parte dos estudos que pretende elucidar a questão da inserção dos negros no mercado de trabalho nas primeiras décadas do século XX extrapola conclusões a partir das informações do censo de 1890. Outra opção metodológica é projetar para o tempo passado a situação da composição étnica do operariado existente nos censos de 1940 e 1950.

Qualquer que seja o artifício metodológico, a verdade é que permanecem mal compreendidos os anos da formação do mercado capitalista no Brasil, decisivos para a absorção dos ex-escravos e seus descendentes nas oportunidades oferecidas no mercado de trabalho.

Este artigo visa contribuir para o preenchimento dessa lacuna na historiografia, ao discutir as oportunidades de trabalho e os níveis de remuneração oferecidos a trabalhadores brancos e negros em uma grande indústria carioca: a Companhia Cervejaria Brahma. Desse modo, pretende contribuir para a resposta a um conjunto de questões sobre a absorção da mão-de-obra negra e imigrante no mercado de trabalho da indústria do antigo Distrito Federal a partir de um estudo de caso.

A escolha do objeto se justifica pela importância do tema para a compreensão dos canais de ascensão social oferecidos à população afro-brasileira, dentro de uma concepção ampliada do que seja segregação social, isto é, levando-se em conta os tipos de ocupações exercidas por essa população. Nesse particular, estudos sobre a questão étnica na história do mercado de trabalho norte-americano, cuja sociedade viveu situação semelhante à brasileira no que diz respeito à traumática transição do trabalho escravo para o livre, apontam a necessidade de se reformular o que se entende por segregação. Nos EUA, a forte segregação dos negros no mercado de trabalho se desdobrou em duas formas de exclusão: a total, com nítida separação entre os empregos destinados apenas a trabalhadores brancos e aqueles poucos permitidos aos negros, e outra mais sutil, referente à qualidade dos postos de trabalho oferecidos aos afro-americanos. Ao serem restringidos, sistematicamente em quase todas as regiões daquele país, a empregos braçais, mal remunerados e de menor importância nas linhas de produção das indústrias, os trabalhadores negros norte-americanos viram suas oportunidades de ascensão social limitadas ao longo do século XX3, uma situação que foi amenizada somente à custa de intensa mobilização política a partir dos anos 1960.

O caso brasileiro é examinado sob essa mesma problemática: as estratégias sutis de segregação social. Não cabe, no entanto, paralelo metodológico entre a historiografia norte-americana e a produção brasileira, uma vez que existem falhas insuperáveis de dados censitários entre nós. Ainda assim, estudos monográficos como este que ora apresentamos oferecem a aproximação possível ao tema da segregação racial e de nacionalidade, no mercado de trabalho, tendo em vista a escassez de dados agregados.

O artigo está estruturado da seguinte forma: primeiro é apresentado um conjunto de questões recorrentes na historiografia sobre mercado de trabalho industrial e imigração relativamente ao período em exame; segundo, é feita uma breve análise da trajetória da Brahma nas primeiras décadas do século XX; terceiro, é apresentada a metodologia adotada para o tratamento dos arquivos de operários da Brahma para, em seguida, estabelecer o perfil de seus trabalhadores, conforme nacionalidade, cor da pele, grau de instrução, ocupações e salários. Finalmente, fez-se uma análise multivariada dos indicadores, com vistas a identificar possíveis discriminações de raça ou nacionalidade dos trabalhadores. Um resultado notável, e surpreendente, foi encontrar evidências de discriminação contra brasileiros em geral, e não especial contra afro-descendentes.

 

2 As Grandes Questões Históricas

Ao se discutir a inserção do negro na sociedade capitalista no Brasil a referência à obra de Florestan Fernandes é inevitável.4 Tomando o caso de São Paulo como paradigma, Fernandes inaugurou uma corrente interpretativa sobre a posição do negro e do imigrante no mercado de trabalho de profunda influência entre cientistas sociais brasileiros. E as conclusões desse autor foram, ao nosso ver, equivocadamente generalizadas para todo o restante do Sudeste.5 Ao explicar a segregação dos negros no mercado de trabalho industrial, Fernandes afirmou que essa população foi incapaz de se adaptar à disciplina do trabalho industrial. Os imigrantes, por sua vez, seriam dotados de qualidades superiores aos nacionais, em termos de qualificação profissional e de escolaridade. Sustentou ainda aquele autor que a desagregação familiar entre os negros exerceu papel negativo na superação da miséria desse grupo social, contribuindo para o absenteísmo e o baixo nível de dedicação ao trabalho formal entre os afro-descendentes. Embora influentes, a verdade é que os trabalhos de Fernandes têm recebido críticas de numerosos estudiosos desde as suas primeiras edições.6

Certamente, os problemas de fontes complicam a compreensão da estrutura étnica do mercado de trabalho industrial no antigo Distrito Federal. Mas há outras questões envolvidas. Essa tarefa exige o exame combinado de outros fatores, como a inserção dos imigrantes europeus nesse mercado, além das interpretações oferecidas pelos historiadores acerca do desenvolvimento da indústria carioca, em face do cenário econômico nacional.

Para o caso do Distrito Federal, o debate em torno da situação do negro no mercado de trabalho regional se confunde com o próprio debate em torno da posição da indústria carioca no cenário nacional, considerando-se o impacto dos níveis de salários regionais sobre os custos das empresas. Inserida na questão dos salários está a especificidade do fenômeno imigratório para o Rio de Janeiro, que difere substancialmente do caso paulista.

Quando se discute imigração no Brasil, a historiografia volta seus olhos exclusivamente para o caso paulista, onde predominaram os imigrantes italianos, desconsiderando que a cidade do Rio de Janeiro foi o maior centro industrial do país até, ao menos, 1920, e que o operariado residente na cidade era fortemente composto por imigrantes portugueses. Daí porque estender para o Rio de Janeiro as proposições de Fernandes se revela inadequado, por seu alcance limitado à experiência histórica paulista e, ainda assim, pela situação insustentável de algumas de suas hipóteses.

Desse modo, a estrutura do mercado de trabalho e a trajetória de declínio da indústria carioca são temas interligados, pois, diante da constatação da perda da liderança da indústria do Distrito Federal no cenário nacional, os historiadores buscaram explicar o fenômeno recorrendo, também, ao custo da mão-de-obra como ponto nevrálgico da economia regional. Uma corrente de autores, como Versiani (1993) e Villela e Suzigan (1975), sustenta que o Rio recebeu menor fluxo de imigrantes do que São Paulo, resultando no desequilíbrio na oferta e demanda de mão-de-obra na indústria. Em conseqüência, a economia local se ressentiu da pressão altista dos salários, fator este que contribuiu decisivamente para a perda da liderança da indústria carioca.

Outra corrente argumenta que os níveis salariais mais elevados no Rio resultavam do custo de vida mais alto no Distrito Federal, quando comparado com o de São Paulo. Para Lobo (1978), não havia falta de mão-de-obra na cidade, logo, a explicação para a tendência de crescimento dos salários deveria ser buscada em outros fatores, como o sistema de abastecimento de gêneros para a cidade. Arrolam-se os preços dos alimentos, da moradia e da energia elétrica como os vilões da história.7

Que os salários eram mais altos no Distrito Federal parece estar fora de controvérsia, mas a razão para o fenômeno permanece mal esclarecida. Isso acontece porque a imigração portuguesa para o Distrito Federal nem sempre recebeu o mesmo tratamento acadêmico dado à imigração italiana para São Paulo, de forma compatível com sua importância demográfica e social, como mostra a tabela 1.

 

 

A pouca atenção dada por muitos historiadores à imigração portuguesa talvez se deva à pouca expressão desses imigrantes para a economia cafeeira, ou mesmo porque eles acabaram se diluindo no conjunto da população. Alguns autores, como Graham e Merrick (1981), compreenderam a imigração portuguesa pós-1872 como a continuidade do tradicional fluxo migratório entre Portugal e Brasil desde o período colonial. Já os estudiosos portugueses Pereira (1981) e Leite (2000) demarcam nitidamente uma diferença no padrão migratório entre os dois países antes e depois de 1870. Ainda sobre a imigração portuguesa para o Brasil, Lobo concluiu que a dinâmica do mercado de trabalho industrial do Rio foi diferente da de São Paulo, uma vez que, na Capital Federal, os imigrantes disputaram postos de trabalho lado a lado com negros e pardos, ao passo que, em São Paulo, os imigrantes deslocaram a mão-de-obra afro-brasileira para a marginalidade.

O censo de 1920 mostra a importância da imigração portuguesa para a cidade do Rio de Janeiro: dos 433.577 imigrantes portugueses que viviam no Brasil por ocasião do censo, 39,74%, ou cerca de 172 mil pessoas, habitavam a cidade do Rio de Janeiro. Em uma comparação similar, a cidade de São Paulo abrigava 14,91% da colônia portuguesa.8 Além de sua importância numérica, o fenômeno da imigração portuguesa para o Rio de Janeiro, desde os anos 1880 até 1930, apresenta características distintas do caso italiano em São Paulo. A principal delas é a elevada fixação dos indivíduos e o fluxo de homens jovens e solteiros, oriundos do norte de Portugal.9 Os italianos, por sua vez, chegaram ao Brasil acompanhados de suas famílias e, já na primeira década do século XX, muitos buscaram outros destinos, como a Argentina.10

A vinda dos portugueses para o Rio de Janeiro seguia uma vasta rede de recrutamento de mão-de-obra, com origem nos párocos das comunidades rurais portuguesas, e que conduzia os trabalhadores até as casas comerciais e indústrias do Distrito Federal. Uma vez fixados na cidade, os imigrantes se inseriam no mercado de trabalho carioca de forma similar aos brasileiros, isto é, recebiam salários aviltados e se submetiam a longas jornadas de trabalho. A maneira como os portugueses foram atraídos para o Brasil na virada do século XX revela outra importante característica distinta do caso italiano. Enquanto no Rio a imigração portuguesa foi um fenômeno privado, em São Paulo o transporte dos italianos foi parcialmente subsidiado pelo governo estadual. O poder público, portanto, não contribuiu para a questão da mão-de-obra na gênese do mercado de trabalho industrial carioca, ao passo que o governo de São Paulo manteve a política de subvencionar a imigração desde finais da década de 1880 até o ano de 1927.11

Se, no plano macroeconômico, o Estado transferiu renda para os produtores paulistas, no plano individual o ato de emigrar implicou custos pessoais pesados para os migrantes, onde quer que fosse. Os portugueses chegavam quase sempre solteiros e duplamente endividados: com os contratadores e com a família, os pais e irmãos deixados em Portugal.12 Os italianos também contraíam dívidas na viagem, mas traziam consigo a família, e quando chegavam ao Brasil todos se engajavam no mercado de trabalho para garantir o sustento do núcleo familiar. Não por acaso o comportamento dos imigrantes portugueses chamou a atenção do cônsul norte-americano em 1922, que comentou: os trabalhadores portugueses, em particular, fazem qualquer coisa para preservar o seu emprego.13 Em outros termos, os imigrantes portugueses não contavam com outros membros da família para garantir o nível de renda pessoal. Eis aí uma razão possível para que se tivesse fixado entre os contemporâneos a imagem desses imigrantes como trabalhadores incansáveis.

 

3 A Empresa

A primeira notícia que se tem da empresa remonta à edição de abril de 1888 do jornal Auxiliador da Indústria Nacional, quando foi anunciado o surgimento no Rio de Janeiro da firma Villiger & Cia., uma pequena fábrica de cerveja de alta fermentação, chamada Brahma, situada na rua Marquês de Sapucaí, na Praça XI.14 Tratava-se de firma individual, cujo sócio principal era Joseph Villiger, um engenheiro suíço chegado ao Brasil em 1879.15 Em 1894, Villiger vendeu a fábrica para o cervejeiro alemão Georg Maschke, com equipamentos e o registro da marca Brahma - um nome comercial até hoje insatisfatoriamente explicado.16

Maschke entrou em sociedade com o comerciante alemão J. Baptist Friedderizi, que representava no Brasil a cerveja Spätenbrauerei, mais conhecida entre os freqüentadores do restaurante de Friedderizi como cerveja Pá. O restaurante se chamava Stadt München e estava estrategicamente localizado na Praça Tiradentes, então o centro nervoso da noite carioca, repleto de teatros, restaurantes e boêmios. Maschke e Friedderizi formaram a sociedade Georg Maschke & Cia., que controlava a Brahma.

Naqueles dias, o mercado de cervejas no Rio de Janeiro apresentava sinais promissores de expansão, segundo descreveu o cônsul inglês na cidade.17 Com intensa vida noturna e temperaturas elevadas, os cariocas se habituaram a consumir cerveja, fosse a importada e, portanto, cara e inacessível à maioria, fossem as cervejas de alta fermentação, mais baratas e fabricadas em numerosos pontos da cidade. A Brahma se propunha a fabricar cerveja leve, segundo o processo de produção bávaro, resultando em bebida de paladar similar às marcas importadas alemãs que já eram conhecidas do público consumidor de alta renda. Para realizar o projeto com sucesso, poder produzir em escala industrial e, principalmente, dispor de capacidade de estocagem do produto de modo a regular a oferta de cerveja conforme a demanda, Maschke promoveu a conversão tecnológica dos equipamentos da fábrica. Buscou convertê-la de uma cervejaria de alta fermentação para uma de baixa fermentação, o que requereu elevados investimentos em equipamentos de refrigeração, tubulações, tanques e geradores. Dessa forma, passou a ser possível produzir a bebida e estocá-la por até seis meses, aproveitando potenciais situações favoráveis do câmbio e dos preços internacionais da matéria-prima.

Os planos de expansão da capacidade de produção foram mantidos na década que se seguiu à compra da firma por Maschke, em complexas operações de financiamento. De início, a Brahma contraiu empréstimos junto ao sócio Friedderizi, a outros capitalistas de origem alemã e à empresa de navegação Hermann Stoltz & Cia., para a qual devia 278 mil marcos em 1896. 18 Nos anos seguintes, a Brahma também fez sucessivos lançamentos de debêntures, fosse para ampliar a capacidade de produção, fosse para adquirir concorrentes endividados, como foi o caso da Cervejaria Bavária-Rio, em 1899, e da Teutônia, de Mendes, em 1904.19 Tantas operações de financiamento acabaram aproximando a empresa do banco Brasilianische Bank für Deutschland, fruto do consórcio entre o banco Disconto Gesellschaft, de Berlin, e o Norddeutsche Bank, de Hamburgo. Em poucos anos, o Brasilianische passou da condição de agente financeiro privilegiado, negociando os títulos de debêntures da empresa na praça, para a condição de importante acionista e membro do Conselho Fiscal da Brahma.20

Essas operações financeiras foram instrumentos utilizados pelos contemporâneos para fazer circular capital entre investidores e produtores, os quais acabaram estreitando os laços entre os capitais industriais, mercantis e financeiros. Elas permitiram à Brahma passar do patamar de 900 contos de réis de capital realizado, em 1896, para 5 mil contos de réis em 1905 e, finalmente, a 10 mil contos em 1912. Todas essas operações fizeram com que a Brahma superasse, em curto espaço de tempo, a condição de pequena cervejaria de alta fermentação, tornando-se a maior cervejaria do Brasil. Essa posição foi confirmada pelo inquérito industrial de 1907, que mostrou que o valor declarado da produção da Brahma ultrapassava o da Antárctica em 57,5%, o número de operários era 62% maior e a força motriz era 42,3% superior à do concorrente paulista, ainda que a Antárctica apresentasse 40% mais capital realizado do que a Brahma na ocasião (Marques, 2000). No espaço econômico do Rio de Janeiro não havia concorrente em condições similares.21 O Inquérito de 1912 mostrou que só havia duas fábricas de bebidas no Brasil com mais de 500 operários, duas cervejarias industriais: Brahma e Antárctica. Se tomarmos o valor do capital aplicado em bebidas por sociedades anônimas no Distrito Federal, em 1912, a Cia. Brahma respondia por 69,34% do total.22 Trata-se, portanto, de um setor da indústria brasileira que revelou tendência de concentração econômica desde seus primórdios.

Os planos de expansão da capacidade prosseguiram na mesma medida do sucesso das vendas, até que o início da Guerra, em 1914, levou a direção da empresa a reduzir o ritmo dos investimentos. Mas, passado o período do conflito, a década de 1920 viu a retomada das operações de compras de equipamentos, de terrenos e da construção de novas instalações para produção. É nesse quadro de capacidade plena de produção da empresa que situamos o contingente de operários da Brahma.

Uma questão importante diz respeito ao nível de ocupação da companhia, pois o consumo de cerveja era sensível às alterações de temperatura na cidade. Desse modo, a contratação de pessoal na fábrica era marcada pela sazonalidade. As fontes disponíveis para recompor o nível de produção da Brahma mostram que, de modo geral, o emprego de operários se elevava a partir do mês de outubro e atingia o ponto máximo nos meses do verão, em resposta à demanda gerada pelo Carnaval. Nos meses mais frescos, a partir de abril, caía a oferta de empregos, conforme a produção era desacelerada.

A tendência de contratação pode ser observada na figura 1, que mostra o número médio de operários empregados por dia, com base nos relatórios mensais de produção do mestre cervejeiro à diretoria da empresa no ano de 1913.23 Como a amostra de registros de trabalhadores, sobre a qual se baseia este artigo, enfatiza o período entre 1925 e 1935, o objetivo da apresentação dos dados de emprego de 1913 não é levantar o número absoluto de operários empregados por dia na empresa, mas revelar o padrão cíclico de contratação de mão-de-obra na cervejaria. Esse padrão se evidencia na curva de contratação de 1913 e também na tabela 2, que mostra a produção de doze meses, no período de 1912 a 1913, e 1927 a 1928, embora mostrando padrões distintos de sazonalidade. Isso implica numa contratação de trabalhadores temporários para postos de trabalho menos qualificados, provavelmente os setores que mais empregavam negros.

 

 

 

 

4 A Metodologia Empregada

Considerando os problemas que foram discutidos até aqui, passamos agora ao exame do banco de dados, visando a responder ao seguinte conjunto de questões:

  • Existe relação entre a nacionalidade ou cor da pele do trabalhador e seu salário?

  • Qual a posição ocupada pelos trabalhadores imigrantes na Brahma? Recebem maiores salários? São mais numerosos? Que ofício é mais habitualmente exercido por esses trabalhadores?

  • Que ocupações e salários são mais freqüentes entre os negros?

  • Existe relação entre o grau de instrução, a nacionalidade e a cor da pele?

4.1 O tamanho da amostra

Para responder às questões mencionadas, baseamo-nos em uma amostra de 567 registros de empregados da Brahma, contratados entre 1900 e 1947, ressalvando que a maior parte dos registros de funcionários selecionados se refere ao período compreendido de 1925 a 1935 (aproximadamente 81%).24 Esses registros estão contidos em um fichário alfabético de funcionários, preservado no Acervo Brahma - o arquivo histórico da empresa, o qual, durante a coleta de dados, estava localizado no Rio de Janeiro.25

De modo a definir a amostra, fez-se uma estimativa do total de fichas de operários existentes no fichário rosa da Brahma a partir da dimensão linear do conjunto. Cada centímetro de fichas agrupadas corresponde a cerca de 20 fichas. Desse modo, a letra J corresponde a 19 cm, ou algo como 450 fichas. Como, no total, o fichário se estende por 89 cm, há cerca de 2.100 fichas. Admite-se, portanto, que tenha sido este o número aproximado de pessoas empregadas pela empresa no período catalogado pelo fichário. Desse modo, a amostra recortada - 567 casos, expurgadas as readmissões - representa 27% de todas as admissões na Brahma no período. A proporção era de fato maior porque, como havia readmissões, há fichas repetidas para alguns operários. Tomando-se o caso da letra J, que foi integralmente pesquisada, foram encontrados 69 trabalhadores readmitidos.

Por opção metodológica, os registros de reingressos posteriores ao ato de contratação foram desprezados, definindo-se as pessoas como unidade de análise, e não os registros de contratação. Em resumo, a amostra de 567 casos é composta por 385 indivíduos com nomes iniciados com a letra J, 49 nomes com a letra O, 53 nomes com a letra A, 35 nomes com letra G e 45 nomes com a letra H. Com exceção da letra J, que foi escolhida pelo critério de maior representatividade no total de fichas catalogadas, as demais letras foram sorteadas e, depois, em cada letra, foram sorteados os indivíduos, um para cada duas fichas com fotos.

4.2 Método de análise

Cada uma das fichas contém uma foto do empregado,26 suas datas de admissão e de nascimento, sua filiação, estado civil, o tipo de cargo, valores do ordenado mensal ou da diária, de gratificações ou porcentagens.27

Como indicativo do grau de instrução adotamos o exame da caligrafia das assinaturas dos trabalhadores. Observa-se, dada a homogeneidade das letras, que as fichas eram preenchidas, em sua grande maioria, pelo empregador, cabendo ao empregado somente assinar a ficha, caso fosse capaz disso. Por vezes, o administrador fazia constar da ficha que o empregado era analfabeto, referindo-se àqueles que nem sequer conseguiam assinar o próprio nome, e indicava que estava assinando no seu lugar.28 A partir do exame da qualidade da letra das assinaturas - a firmeza da escrita, o desenho das letras - pudemos inferir o grau de escolaridade do trabalhador. Essa medida, ainda que sujeita a controvérsia, é adotada por historiadores do porte de E.P. Thompson, quando se deparam com lacunas na documentação.29 Particularmente no caso brasileiro, quando as fontes censitárias do início do século XX são imprecisas em relação ao nível de escolaridade da população, o exame da qualidade das assinaturas do universo dos trabalhadores nos permitiu contornar o problema do falseamento da informação quanto à escolaridade, por parte do empregado. Isso porque há casos gritantes de analfabetismo, mesmo entre aqueles que conseguiam assinar, ou escrevinhar, o próprio nome. Esse problema do falseamento dos dados de escolaridade foi observado, também, por George Andrews com relação aos operários da Cia. Jafet, de São Paulo, onde 94% dos operários, brancos e negros, declararam-se alfabetizados.30 Certamente, essa era uma porcentagem irreal.

O critério de classificação da cor da pele também requer comentários. A partir do exame visual das fotos, estabelecemos a classificação dos grupos em brancos e afro-descendentes (negros e pardos), levando em conta traços fisionômicos que pudessem identificar origem africana (cabelo, formato de nariz, lábios).31

O item nacionalidade foi composto a partir da indicação do local de nascimento dos operários. Consideramos como europeus todos os originários daquele continente, mas a forte presença dos portugueses entre os trabalhadores da Brahma nos levou a distinguir este grupo dos demais imigrantes europeus.

Outra informação preciosa das fichas se refere à política salarial praticada pela companhia. Quanto à forma de pagamento, havia os trabalhadores mensalistas e os diaristas. Para estabelecer alguma medida de comparação entre os dois tipos de contratação, projetamos os rendimentos dos trabalhadores diaristas para um mês. Fez-se isso multiplicando o valor das diárias por 23,3 dias por mês, os dias úteis.32 Entretanto, como veremos, esse número aparentemente subestima os dias trabalhados por diaristas.

Quanto às modalidades de ocupação entre os operários da Brahma, foram encontradas 64 ocupações ou funções que foram agregadas em 17 ofícios mais recorrentemente mencionados nas fichas. A lista das ocupações registradas nas fichas pode ser consultada nos Anexos I e II e na nota 36.

 

5 O Perfil dos Trabalhadores

5.1 Sexo, nacionalidade e cor da pele

A primeira observação da análise das fichas da Brahma diz respeito ao sexo dos trabalhadores. Na amostra, não foi encontrada nenhuma ficha feminina, o que é compatível com a baixa participação das mulheres no setor de alimentos do Distrito Federal, descrito no censo de 1920. Quanto à nacionalidade, os trabalhadores se distribuíam como mostra a tabela 3. Os brasileiros representavam 49,38% do contingente pesquisado, os portugueses 42,50% e os europeus 7,23%. Portanto, brasileiros e portugueses significavam 91,88% da nossa amostra, mas se agregarmos portugueses e europeus temos uma taxa de participação de 49,55% no total da amostra sendo, portanto, uma taxa ligeiramente superior à participação dos brasileiros. Esse dado corrobora a hipótese de que os imigrantes tiveram um papel significativo no desenvolvimento industrial do Sudeste brasileiro.

 

 

Entre as fichas de operários da Brahma, dos 280 brasileiros encontramos 159 trabalhadores negros e pardos (afro-descendentes), o que representa 56,8% do contingente nacional e cerca de 28% do total dos trabalhadores admitidos no período considerado. Esse dado corrobora a hipótese de integração da população negra no mercado de trabalho industrial da cidade do Rio de Janeiro, colidindo com a tese de Florestan Fernandes acerca da exclusão total dos negros dos empregos na indústria.33 O que voltaremos a comentar mais adiante é a qualidade dessa integração, considerando-a como o principal indicador da segregação da população negra das oportunidades de ascensão social.

5.2 Situação familiar

O censo de 1920 chamou atenção para a predominância de homens na colônia portuguesa do Distrito Federal.34 Buscamos saber se os dados revelavam alguma diferença quanto a estado civil entre os trabalhadores brancos e negros na Brahma, de modo a verificar a hipótese de Fernandes com relação à estrutura familiar da população negra.

A nacionalidade cruzada pelo estado civil está expressa na tabela 4, a qual revela que os solteiros são maioria (56,8%). Mas atribuímos essa participação, sobretudo, ao peso dos brasileiros, uma vez que 74,6% entre eles eram solteiros, enquanto os imigrantes, tanto europeus como portugueses, apresentavam uma taxa de participação de praticamente metade da taxa dos brasileiros, isto é 36,6% e 33,3%, respectivamente.

 

 

Para esclarecer melhor o caso dos trabalhadores brasileiros foi feito o cruzamento de duas variáveis: cor e estado civil (tabela 5). Observou-se, então, que o peso dos solteiros é explicado pela taxa de participação dos negros e pardos, pois aproximadamente 80% desse grupo eram solteiros, ao passo que os brancos se dividiam, quase que na mesma proporção, entre chefes de família e solteiros. Os casados eram mais velhos que os solteiros, sendo que os europeus tinham uma diferença maior, de cerca de 12 anos entre os solteiros e os casados. Os portugueses e brasileiros brancos solteiros, comparativamente aos casados, eram em média 10 anos mais jovens na data de admissão. Entre os negros, os solteiros eram em média sete anos mais jovens que os casados. Aparentemente estes últimos se casavam mais jovens do que os demais trabalhadores.

 

 

5.3 Grau de instrução

As tabelas que se seguem oferecem indicadores do grau de instrução do grupo de empregados da Brahma. Vê-se na tabela 6 que era bastante alta a taxa de analfabetos entre os portugueses, 64,3% do grupo, mas entre os brasileiros, surpreendentemente, 60% dos presentes na amostra eram alfabetizados, quase a situação inversa do grupo estrangeiro predominante, isto devido à participação dos portugueses, com a mais baixa taxa de participação de alfabetizados na amostra. Ainda sobre grau de instrução, o mais significativo está na tabela 8, em que os negros e pardos apresentam a mais alta taxa de participação de letrados da amostra total. Provavelmente, a prevalência do analfabetismo nas regiões de origem dos imigrantes portugueses seja a explicação.35

 

 

 

 

 

 

5.4 Quais as ocupações dos trabalhadores?

Como já foi discutido na metodologia do tratamento do fichário rosa da Brahma, há 64 ocupações diferentes na amostra. Para avaliar a distribuição das ocupações entre os grupos de operários foram organizadas duas tabelas diferentes: uma relaciona as ocupações com as nacionalidades e a outra com a cor da pele. Definimos ocupações pelo conjunto de 17 ofícios mais recorrentemente mencionados nas fichas, mesmo sabendo que o agrupamento de categorias funcionais pode levar à perda de informação histórica, uma vez que a realidade da linha de produção da fábrica não é plenamente conhecida. Essas ocupações representavam cerca de 86,8% dos trabalhadores admitidos na empresa no período considerado.36

Como uma aproximação à realidade da atividade de produção de cerveja no Brasil, no início do século XX, recorremos a fontes qualitativas: relatórios de produção da empresa, além de entrevistas com antigos funcionários da empresa. Essa abordagem do assunto nos revelou que em uma indústria de cerveja, dentro do paradigma tecnológico da época, os setores que mais empregavam eram aqueles ligados à produção, ao transporte e à distribuição da mercadoria.

Já mostramos que o setor de produção era marcado pela contratação sazonal de empregados, conforme as oscilações da demanda, sensível à temperatura reinante na cidade. A produção de cerveja em escala industrial seguia, portanto, várias etapas sucessivas: 1) recepção e armazenamento da matéria-prima importada; 2) moagem e cozimento da mistura de grãos; 3) fermentação controlada; 4) filtragem; 5) engarrafamento; 6) pasteurização; 7) rotulagem; 8) aplicação do selo do imposto de consumo; 9) colocação das garrafas nas caixas; 10) expedição e distribuição nos pontos de venda.37 Da segunda à quarta fase do processo de produção a empresa empregava trabalhadores qualificados, ou pelo menos treinava-os e os procurava manter nos seus quadros. Empregados temporários eram usados em serviços braçais, especialmente na limpeza do equipamento e dos tanques de fermentação, feita com produtos tóxicos. Esse serviço de limpeza era fundamental para manter a fábrica em plena produção, 24 horas por dia, nos meses de pico do verão. Os contratados para limpeza também eram importantes para garantir o envasamento dos produtos nas garrafas e barris, os quais precisavam retornar ao circuito de comercialização rapidamente.

As etapas 5 a 9 correspondiam às linhas de produção onde o trabalho era braçal, contínuo e esquematizado. Dentro dessas etapas se encontravam os chamados ''operários'', que representavam a categoria mais vulnerável aos ciclos sazonais de contratação. A última etapa, a distribuição, representava o momento mais delicado para a fábrica, que necessitava de eficiência na entrega do produto, seja porque o chope precisa ser consumido em até 72 horas, seja porque da agilidade na distribuição da cerveja dependia a receita das vendas de verão, fundamental para o equilíbrio financeiro da cervejaria no resto do ano.38

Com essas linhas gerais sobre o processo de produção de cerveja à época, passemos ao exame da distribuição das ocupações entre os grupos de trabalhadores da Brahma. Em primeiro lugar, percebe-se que as ocupações que requeriam treinamento prévio, como os mecânicos, tanoeiros, carpinteiros, eletricistas, limadores e apontadores, e aquelas com algum grau de organização dos trabalhadores para atuar em equipe, eram exercidas, em sua maioria, por trabalhadores brancos. Entre as ocupações que envolviam atividade em grupo estavam os motoristas de caminhão, dos quais 66,7% eram portugueses, assim como os ajudantes de caminhão, com uma taxa de participação de 79% de trabalhadores portugueses. Também eram basicamente portugueses os cocheiros, com uma taxa de participação de 87% dos postos de trabalho. Por sua vez, também era branca a ocupação de caixoteiro, exercida por brasileiros e portugueses (71% ). O cervejeiro, o empregado mais qualificado da linha de produção, como era de se esperar, era europeu não português. Justifica-se porque essa ocupação era vital para a fábrica e exigia longos anos de aprendizado em escolas técnicas superiores européias, ainda sem similares no Brasil.39

Em segundo lugar, havia as ocupações braçais que eram exercidas, em sua maioria, por brasileiros. Destaca-se a categoria dos operários, numerosa (49% da amostra) e composta por brasileiros (63%), portugueses (31,5%) e uma minoria de europeus (5,5%). Portanto, 37% dos operários eram portugueses ou outros europeus. Levando-se em conta os brasileiros, os operários brancos eram 62% da amostra, e 38% eram negros e pardos. Como essa era uma ocupação sem especificação e, provavelmente, influenciada pela sazonalidade da produção, nota-se que a taxa de participação dos negros e pardos é superior à sua participação no conjunto dos trabalhadores da Brahma (28%), o que está de acordo com a hipótese de que aos afro-descendentes estavam destinados os piores postos de trabalho.

Terceiro, havia trabalhadores portugueses exercendo funções braçais e mal remuneradas, mas a tendência desse grupo era buscar associar-se para ocupar funções mais bem remuneradas, ligadas à distribuição do produto, como os cocheiros, motoristas e seus ajudantes. Quarto, percebe-se que havia para os brasileiros um caminho de acesso a ocupações mais bem remuneradas, caso tivessem oportunidade de receber treinamento para dominar processos tecnológicos, como era o caso dos eletricistas, ferreiros e dos postos de xaropeiro e chefe de caldeira. Também poderiam melhorar o nível de remuneração se conseguissem furar o bloqueio dos portugueses à atuação no setor de distribuição.

5.5 Os salários na Brahma

Para examinar a questão salarial na Brahma é preciso se ter em mente que os salários médios dos trabalhadores na cidade do Rio de Janeiro eram maiores do que em São Paulo e mais altos do que a média no Brasil.40 Entre mensalistas e diaristas, o exame da amostra mostrou que 86,4% dos trabalhadores eram contratados como diaristas, como mostra a tabela 11. Seguramente era esta, por excelência, a modalidade de contratação na companhia, assim como no setor industrial. Mas, de forma muito interessante, observa-se que as ocupações onde havia mensalistas eram aquelas ligadas à distribuição: motoristas, cocheiros e ajudantes de caminhão; a exceção é um condutor de carrocinha, cuja função não é clara, mas que era bem remunerada (320$000 mensal), embora saibamos que esse trabalhador era analfabeto.

 

 

 

 

 

 

Quanto à nacionalidade, os dados de salário contidos na tabela 12 mostram uma discriminação aparente entre os trabalhadores. Em qualquer forma de cálculo, seja salário médio ou mediano, os rendimentos dos brasileiros eram menores do que os dos portugueses e demais europeus. Nota-se, inclusive, uma hierarquia entre os imigrantes: os portugueses ocupam um nível salarial inferior às demais nacionalidades européias. Mas, ao se destacar o menor salário e o máximo, observa-se que tanto o mínimo quanto o máximo pertencem aos portugueses. Provavelmente, isso se explica pelas funções para as quais o imigrante português era contratado. De toda forma, fica a evidência de que os demais europeus, mesmo não recebendo o maior salário, recebiam rendimentos superiores aos dos outros trabalhadores, portugueses e brasileiros. Até o piso dos europeus não-portugueses era significativamente maior do que o dos demais empregados.

 

 

A relação entre a cor da pele do trabalhador e o nível salarial está examinada na tabela 13. Os dados apresentados ali comprovam que os brancos apresentavam maiores níveis salariais, exceção feita ao menor salário, uma vez que há na amostra um português que fora contratado com a pior remuneração da fábrica. A análise dos registros mostrou que havia muito poucos homens negros entre aqueles que recebiam os maiores salários, embora a presença de indivíduos afro-brasileiros entre os trabalhadores que recebiam mais de 311 mil réis/mês se explique pela existência de alguns homens negros que exerciam ocupações ligadas à distribuição da bebida. Logo, a participação dos trabalhadores negros em níveis de renda mais elevados dependia da oportunidade de pertencer a um grupo mais organizado, como era o dos cocheiros e, depois, a partir de 1932, com a aquisição da frota de caminhões, o dos motoristas e seus ajudantes.

 

 

Examinando-se o nível da ocupação da companhia encontramos 17 ocupações que empregavam 86,814). Metade dessas funções estava classificada genericamente como operários, com um salário médio mensal de 170,635 mil-réis, e a mediana em torno de 163,100 mil-réis. Seguramente, os operários eram trabalhadores sem qualificação nem treinamento, uma vez que, com tantas funções encontradas na fábrica (64), um conjunto tão expressivo de trabalhadores como o dos operários indica uma não-especialização. No grupo dos operários, 63% eram brasileiros e, nesse percentual, o subconjunto dos afro-descendentes (negros e pardos) representava 60,22%. Esses dados indicam uma grande concentração de negros entre os operários, muito maior que sua taxa de participação de 28% no total da amostra.

A ocupação com a melhor remuneração na tabela 14 é a de motorista, a qual, para aqueles anos, representava uma especialização importante. Dos treze contratados, oito eram portugueses e quatro brasileiros, dos quais dois eram negros. A presença de negros no conjunto de motoristas brasileiros agrega um fato novo à historiografia que consagra a idéia de que os negros ocupavam sempre os lugares subalternos no trabalho industrial.41 O fato de os motoristas e ajudantes de caminhão terem rendimentos mais elevados do que trabalhadores qualificados, como maquinistas e tanoeiros, reforça a idéia da chegada do ''novo'', com a penetração econômica da indústria automobilística no comando do processo de distribuição das mercadorias, já observável na virada dos anos 1930.

 

 

Em 1918, os cocheiros se queixaram que a Brahma pagava de 170$000 a 190$000 à sua categoria.42 Se cotejarmos essa informação com a tabela 12, que arrola, sobretudo, dados para o período 1925/35, encontramos o salário mínimo dos cocheiros em 163$100, mas com os valores médio e mediano de 334$569 e 350$000, respectivamente. Isso demonstra o poder de organização alcançado por esses trabalhadores na década de 1920, perdido com a mudança tecnológica implementada na empresa a partir de 1932.

5.6 Fontes de diferenciação dos salários e testes de discriminação

As análises da seção anterior, embora importantes, não permitem responder à questão central quanto à existência de discriminação contra afro-descendentes: os perfis de ocupação e de instrução variam fortemente entre os trabalhadores segundo sua origem e cor. Como as ocupações têm salários muito diferentes entre si, não está excluída a hipótese de que a assignação das ocupações seja a principal responsável pelas diferenças salariais. Por outro lado, não está excluída a existência de discriminações na própria atribuição de ocupações.

Em face dessas considerações, a abordagem mais adequada para investigar a existência de discriminação é a análise multivariada,43 separando os itens de cor e origem dos itens de instrução e ocupação. Retiramos três fichas sem informação quanto à idade, uma sem informação sobre salário e dois empregados que formavam uma categoria à parte (um peruano, um africano). A amostra ficou assim reduzida a 561 empregados, divididos da seguinte forma quanto à cor: 156 afro-descendentes e 405 brancos; quanto à origem: 280 brasileiros, 241 portugueses e 40 outros europeus.

O grande número de ocupações ofereceu uma dificuldade especial; muitas delas continham um ou poucos empregados, o que poria em risco a validade das conclusões, caso fossem mantidas desagregadas. Na falta de um critério claro de agregação, optamos por classificá-las em três grandes categorias, segundo o salário médio:

Categoria 0: atividades não valorizadas (salário médio mensal inferior a 200 mil réis), (352 empregados, dos quais 223 são brasileiros - 94 brancos e 129 negros e pardos).

Categoria 1: atividades medianamente valorizadas (salário médio de 200 a menos de 300 mil réis) (144 empregados, dos quais 40 brasileiros - 22 brancos e 18 negros e pardos).

Categoria 2: atividades valorizadas (salário médio igual ou superior a 300 mil réis), (64 empregados, dos quais 17 são brasileiros - 9 brancos e 8 negros e pardos).

Analogamente, a instrução foi classificada em dois níveis: analfabeto (272 empregados) e escolarizado (289 empregados). Tentou-se incluir uma terceira categoria (primário completo), mas apenas dois empregados escolarizados podiam ser assim classificados a partir das fichas.

Outro ponto a considerar é o possível efeito da inflação ao longo do tempo. Embora 74% das fichas correspondam ao período 1926 a 1935, 23% têm data entre 1916 e 1925 e 3% são anteriores a 1916. Para verificar se houve alterações significativas, construímos dois dummies: ''entrada até 1915'' e ''entrada de 1916 a 1925''.

Finalmente, embora os salários tenham sido traduzidos em termos mensais, 86% dos empregados anotados nas ''fichas rosas'' eram diaristas. A conversão para salários mensais pode ter um viés pela hipótese de número de dias trabalhados, que é necessário estimar através de um dummy (diarista). 44

Criando dummies para cor (Negro), origem (Brasileiro, Português), instrução (Escolarizado) e ocupação (O. Média, O. Valorizada), testamos o seguinte modelo exploratório, seguindo uma formalização Minceriana45, para investigar se além da alocação em atividades menos ou mais valorizadas (esperamos que os dummies de ocupação fossem dominantes, o que se confirmou) haveria sinais de discriminação:

Aplicando-se esse modelo, a regressão explicou 73% da variação dos salários, com F=137,5 (P = 0,0000). Os coeficientes e sua significância foram:

Aqui, faz-se necessária uma observação: a análise dos resíduos mostrou desvio significativo da normalidade, especialmente na cauda à esquerda, muito pesada. Isso ocorre em alguns casos de trabalhadores em ocupações medianamente valorizadas mas com baixos salários. Uma regressão robusta 46 MM foi ensaiada para reduzir os efeitos desses outliers; a principal mudança foi que os termos da idade deixaram de ser significativos. Entretanto, há um viés altamente significativo nos coeficientes finais, e não retivemos esses resultados.

Como se esperava, o tipo de ocupação é o fator mais importante na determinação do salário. A idade (com o termo quadrático) é muito significativa, representando mais de 30% adicionais entre 28 e 54 anos (chegando a mais de 33% entre 37 e 45 anos). Existe discriminação (-11,1% no salário) contra brasileiros, altamente significativa (P=0,06%). Há pequena discriminação (-3,4%) contra afro-descendentes, significativa a 10%, e diaristas tendem a receber menos (-9,7% do salário) - indicando que na conversão para salários mensais subestimou-se o número de dias trabalhados. Quanto a entradas antes de 1926, apenas aquelas de 1916 a 1925 são significativas, embora com sinal oposto ao esperado pela hipótese de inflação.

O elevado peso do tipo de ocupação (que já era esperado por construção) leva, por sua vez, à investigação da existência de discriminação na escolha de empregados para as diversas atividades.

Após essa regressão exploratória, investigamos o peso dos diversos fatores na determinação dos salários dentro de cada categoria de atividades. O modelo básico, para cada categoria, é:

Aplicando esse modelo às três categorias de atividades, obtemos o quadro seguinte:

A regressão é altamente significativa (embora respondendo por apenas 26% da variação salarial na categoria) para ocupações não-valorizadas, com discriminação forte (-15,4% por mês) e altamente significativa contra brasileiros; a idade é altamente significativa, indivíduos entre 27 e 46 anos ganhando cerca de 10% a mais que empregados muito jovens (13 anos) ou muito velhos (60 anos); a instrução é significativa, mas seu impacto é de apenas 3% nessas ocupações, e as dummies de entrada e diaristas não são significativas47. Para ocupações intermediárias, o modelo tem ainda menos peso (menos de 13% da variação salarial na categoria, embora F seja significativo a 5%). Nessa categoria, a discriminação contra brasileiros é significativa a 10% (-15,7%), e contra portugueses (-16,8%), significativa a 5%; das variáveis restantes, apenas diaristas mostram redução de 12,5% significativa a 0,1%48. Finalmente, para ocupações valorizadas, a regressão responde por 33% da variação salarial na categoria, com F significativo a menos de 1%. Entretanto, apenas idade (refletindo experiência?) mostra-se significativa, privilegiando empregados entre 23 e 44 anos, e o dummy para diaristas que mostra redução de 11,6% significativa a 10%, confirmando a subestimação dos dias trabalhados. Os demais coeficientes são positivos, mas não significativos. Isso era de se esperar, já que essas ocupações tendem a requerer habilidades específicas, que não constam da ficha rosa49.

Essas análises multivariadas permitem algumas conclusões. Do modelo (1), exploratório, o nível da ocupação é o fator determinante do salário, o que não chega a constituir surpresa, mas nota-se uma discriminação forte e significativa contra os brasileiros. Os modelos (2) parecem indicar que, em termos salariais, a discriminação contra brasileiros é visível principalmente nas categorias baixa e intermediária, sendo que nesta última aparece também discriminação contra portugueses. Apenas no modelo (1) aparece pequena discriminação (significativa a 10%) de 3% do salário contra afro-descendentes. Efeitos de instrução sobre o salário pesam apenas nas ocupações menos valorizadas; entretanto, como a informação sobre escolaridade reduz-se apenas a ser ou não alfabetizado, esse indicador tem necessariamente menor valor. Outra conclusão é que, durante o período coberto pelas fichas rosas, o processo inflacionário teve pouca importância. Adicionalmente, a conversão de salários diários em mensais subestimou o número de horas trabalhadas por diaristas, mas isso não altera as demais conclusões.

Em resumo, pode-se afirmar que existia na Brahma uma discriminação pela nacionalidade na atribuição de empregos e de salários contra os brasileiros, e em menor grau contra os portugueses. Não parece ter existido uma discriminação adicional significativa em termos salariais contra afro-descendentes. A instrução (medida aqui apenas através de uma variável binária) pesava sobretudo na determinação do nível ocupacional, embora não fosse a variável mais importante para isso. Mais relevante pareceria ser a experiência, aqui representada pela idade à falta de melhor informação.

 

6 Conclusões

O caso da Cervejaria Brahma ilumina a estrutura do mercado de trabalho industrial na cidade do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Revela que, assim como em São Paulo, no Rio de Janeiro não se verifica a hipótese de Fernandes sobre a superioridade dos imigrantes com relação aos trabalhadores nacionais em termos de qualificação e de capacidade de se adaptar à disciplina do trabalho nas fábricas. Como outros estudos já mostraram, os imigrantes competiram com os brasileiros em condições similares de treinamento e escolaridade.50 No caso da Brahma, a investigação empírica demonstrou que os negros apresentavam níveis mais elevados de alfabetização, comparativamente aos trabalhadores estrangeiros.51

Se os imigrantes brancos fixados no Rio de Janeiro se assemelhavam aos trabalhadores negros na precária formação escolar e tampouco sofreram treinamento prévio em atividades fabris, uma vez que a imensa maioria deles provinha de regiões rurais, por que razão ocupavam as atividades mais bem remuneradas e mais estáveis entre os operários da Brahma? Uma resposta a essa questão pode estar contida nos laços de solidariedade que parecem ter unido os imigrantes portugueses, presentes na amostra de trabalhadores analisada. Esse traço característico desse grupo de trabalhadores evidencia-se na presença majoritária de portugueses na atividade de distribuição de cerveja pela cidade do Rio - os cocheiros e os motoristas - o grupo detentor da maior média salarial entre os empregados da Brahma, afora o pessoal administrativo. Essa era uma atividade vital para a realização dos lucros da empresa, especialmente nos períodos de pique de consumo durante o verão. Sabedores de sua força, os cocheiros lideraram greves que paralisaram a Brahma em pelo menos duas ocasiões: em maio de 1918 52 - contrários à jornada de 12 horas - e na véspera do Natal de 1928, dessa vez reivindicando aumento salarial. Concedido, aliás.53

Outra linha explicativa para a situação predominante dos europeus, portugueses ou não, em termos de renda e acesso a ocupações valorizadas diz respeito à ideologia da superioridade dos imigrantes, sua maior confiabilidade e eficiência frente aos trabalhadores nacionais. Esse pensamento, partilhado pelos homens de indústria no início do século XX, parece ter eco até mesmo na produção historiográfica recente.

O estudo econométrico feito a partir das fichas da Brahma tende a confirmar essa hipótese, apontando uma discriminação altamente significativa contra brasileiros e, em menor grau, contra portugueses. Não aparece discriminação contra afro-descendentes (negros e pardos); a nacionalidade parece mais importante. Efeitos de instrução sobre o salário pesam (pouco) apenas nas ocupações menos valorizadas.

O exercício que fizemos sugere que, no Rio de Janeiro, o racismo velado não foi suficiente para excluir os negros do mercado de trabalho urbano industrial. No caso da Brahma, ou esse racismo inexistiu, ou foi assimilado ao racismo contra brasileiros em geral, o que é mais provável, dada a ideologia vigente. Como resultado, brasileiros brancos e negros foram relegados às ocupações menos prestigiadas, mais braçais e aos piores salários.

Por outro lado, o caso examinado abre espaço para a discussão da possibilidade de se terem formado vínculos solidários no interior dos grupos de trabalhadores, úteis na competição por melhores empregos. Essa estratégia se mostrou eficiente para elevar a renda do grupo dos portugueses até, ao menos, a direção da empresa decidir alterar radicalmente o sistema de distribuição das mercadorias pela cidade do Rio. Após a greve de dezembro de 1928, a direção da Brahma pôs em curso um plano de gradual substituição das carroças por caminhões na entrega dos produtos. Assim, já no ano de 1932 todo o sistema de distribuição havia sido convertido para o de transporte por caminhões, os quais a Brahma mostrava ao público, orgulhosamente, como exemplo de seu dinamismo e modernidade. Aos antigos cocheiros, em sua maioria, foi oferecida a possibilidade de reaproveitamento como motoristas da frota. Mas houve negros entre os novos motoristas: aqueles poucos que souberam aproveitar o momento de desarticulação dos imigrantes.

 

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Artigo recebido em ago. 2001 e aprovado em jul. 2002

 

 

1 Lobo (1978, 1991), Lobo, E. M. L. (coord.) (1992), Lobo (1994) detém uma vasta produção sobre questões relacionadas à economia e à sociedade do Rio de Janeiro.
2 Sobre a questão dos negros no mercado de trabalho carioca existe ainda a tese doutoral de Adamo (1983) e o estudo de Hasenbalg (1979).
3 Sundstrom (1994), The Color Line: Racial Norms and Discrimination in Urban Labor Markets, 1910-1950.
4 Fernandes (1978), A integração do negro na sociedade de classes.
5 Ver Hasenbalg (1979), p. 158.
6 As proposições de Fernandes e de seus críticos são resenhadas por Andrews (1991). Hall (1969) esteve entre seus críticos, particularmente refutando o argumento de Fernandes com respeito à qualificação superior dos imigrantes. Sustentou Hall que os imigrantes não dispunham de qualquer treinamento prévio que os melhor qualificasse para o trabalho nas indústrias de São Paulo, e mais, os artesãos italianos que emigraram preferiram os destinos da Alemanha, ou da Bélgica, e sua presença em São Paulo foi irrelevante para o conjunto da população imigrante ingressada no estado. Andrews (1991) explica a exclusão dos negros do mercado de trabalho formal em São Paulo em função da maciça imigração de europeus, subsidiada pelo governo paulista na passagem do século XIX para o XX. Para esse autor, a presença de abundante mão-de-obra imigrante reduziu o poder de barganha dos negros no mercado de trabalho paulista.
7 Numerosos estudos convergem para essa visão do problema, a exemplo dos trabalhos de Cano (1977), Lobo (1978), Lobo, E. M. L. (coord.) (1992), Levy (1994), Guarita (1986) e Cunha (1987).
8 Recenseamento Geral do Brasil, 1920, vol. II, 1a parte, p. L e LVII.
9 Pereira (1981), A política de emigração.
10 O ano de 1903 registrou saldo negativo de imigrantes, saídos de São Paulo com destino à Argentina, Itália e Estados Unidos. Essa situação se repetiu nos anos seguintes. [Villela e Suzigan (1975), Política do Governo, p. 254.]
11 Segundo dados de Villela e Suzigan (1975), as subvenções públicas foram responsáveis pelo ingresso de 63,4% dos imigrantes entre 1888 e 1890; 79,9% dos imigrantes entre 1891 e 1900; caindo para 36% dos ingressos no período entre 1911 e 1915. Mesmo reduzida no pós-guerra, a política pública de subvenção à imigração persistiu até o ano de 1927. [Política do governo e crescimento da economia brasileira; tabela B.10, p. 249.] e Marques, 1998.
12 Pereira (1981), A política portuguesa de emigração.
13 Cônsul dos EUA em São Paulo, relatório de 1922. Citado por Andrews (1991), p. 85. [Apud, Hall, M. and Pinheiro, P. S. (eds.), A classe operária no Brasil, 1880-1930. Documentos. 2 vols. São Paulo, 1979, 1981.]
14 Suzigan, W. Indústria Brasileira: origem e desenvolvimento. São Paulo: Brasiliense,1986. [p. 219, nota 312.]
15 Alguns detalhes para os apontamentos desde 1894. (1a versão) [Acervo Brahma, cx. 95, port.]
16 Entrevista com Hans Künning, em 23-3 e 27-7-2000.
17 Relatório do Cônsul Ch. F. Ancell, de 1894. [Ancell, Report on the Trade, Commerce & Navigation of Rio de Janeiro, 1894; Account & Papers, Foreign Office]
18 Balanço anual da Cervejaria Brahma, 31/12/1896. [Deutsche Bank, Historisches Institut, KI/146.]
19 Acervo Brahma: cx. 82, port.; Livro de Atas de Assembléias de Acionistas, 16-11-1905.
20 A condição do banco como agente financeiro intermediário na transação de compra da Teutônia é revelada na escritura do negócio, datada de 3-10-1904; já a condição de agente autorizado a negociar debêntures é revelada na assembléia de acionistas, de 16-11-1905. Todos são documentos preservados no Acervo Brahma.
A participação no quadro acionário e na direção da empresa é demonstrada na ata da AGE, de 25-10-1906. [Coleção de Leis do Brasil. Atos do Poder Executivo, dec. 6 362, 7-2-1907.] Também é evidenciada na ata da AGE, de 27-9-1912, publicada no Diário Oficial de 27-10-1912. [AB, cx.93]
21 Centro Industrial do Brasil. O Brasil: suas riquezas naturais, suas indústrias (...) (1907). Vol III.
22 Levando-se em conta o reajuste do capital da empresa para 10 mil contos, ocorrido em setembro de 1912. Esse valor representa 69,34% do capital apurado em bebidas no Distrito Federal, que somava 14 mil e 421 contos de réis. [Recenseamento das indústrias sujeitas ao imposto de consumo, 1912; p. 188.]
23 Monats Berichten, relatórios mensais de produção, 1910, 1911 e 1913. [Acervo Brahma, cx. 1 e 3, docs. em alemão.]
24 Respeitamos os limites temporais existentes na amostra. Ainda que ela se estenda até 1947, percebe-se que, a partir do ano de 1935, houve o gradual abandono do registro de dados de empregados em fichas em favor de alguma outra sistemática de controle de pessoal.
25 Infelizmente, desde 1º de agosto de 1999 esse acervo está lacrado, fora do alcance de pesquisadores e destituído de pessoal técnico para sua conservação. Sabe-se que, recentemente, o acervo foi deslocado para o interior de São Paulo.
26 Desprezamos os registros sem fotos.
27 O registro de salário se refere à remuneração inicial, pois são raros os registros de aumentos, embora saibamos que ocorreram.
28 Então o campo ficava assim preenchido: p. José da Silva.
29 Na obra de Thompson (1987), o rigoroso trabalho de exame de fontes documentais é complementado com o recurso explícito à imaginação histórica. Isso significa explorar as fontes em todos os significados, no limite do plausível. Thompson exorta os historiadores a inferirem informações adicionais do material que examinam, pois os dados quantitativos não esgotam as possibilidades de significados e, mesmo, podem levar a conclusões enganosas. Assim, em um trecho do seu livro, um bilhete escrito por um prisioneiro revela sua condição de semiletrado, em outro, a assinatura de um réu revela a precariedade do seu domínio da linguagem escrita. Esses elementos são usados para traçar o perfil social dos personagens históricos. [Thompson (1987), cap. III.]
30 Andrews (1991), p. 259 a 262.
31 Claro que o registro da nacionalidade serviu de guia para a definição da cor, uma vez que apenas dois indivíduos não-brasileiros, em toda a amostra, eram negros: um operário de Cabo Verde e outro português, os quais, quando não indicados nas tabelas, foram desprezados na análise. Da mesma forma, não se considerou o registro de um único operário peruano.
32 O número de 23,3 dias úteis por mês foi obtido a partir da discussão dos empresários industriais sobre a proposta de lei de férias, expressa no relatório do Centro Industrial Brasileiro (1926-1928). No documento, os empregadores alegaram que, dos 365 dias de um ano, 85 eram tomados por domingos, feriados, dias santos e Carnaval. Restavam, portanto, 280 dias úteis. [Citado por Lobo (1978), p. 543.]
33 Os dados de operários da Brahma reforçam a idéia de que o caso de São Paulo não pode ser generalizado para o Rio de Janeiro.
34 "É notável a influência do elemento masculino entre os estrangeiros. Em 1906 representavam cerca de 72% contra cerca de 65% em 1920. Na colônia portuguesa, a mais numerosa, a diferença a favor dos homens é de 68% em 1920, contra o coeficiente mais elevado ainda de 76%, em 1906". [Recenseamento Geral do Brasil, 1920, vol. II, 1a parte, p. L.]. Esse dado nos faz pensar que os imigrantes não disputavam apenas empregos com os brasileiros, mas também com mulheres.
35 Leite (2000).
36 As demais ocupações eram: abridor de caixas, adegas, ajudante de caldeira de cobre, de eletricista, de ferreiro, de limadores, de mecânico, de pedreiros, de tanoeiro, aprendiz de limador e de eletricista, auxiliar de escritório, bombeiro, caldeireiro, carimbador, carregador, cervejeiro, chefe de caldeira, condutor de carrocinha, empilhador, encaixotador, encanador, engarrafador, escrevente, escriturário, faxineiro, foguista, funileiro, laboratório, lavador de garrafas, de tonéis, limpeza, marcador, mestre pedreiro, modelador, moinho, pedreiro, porteiro, pregador, selador, serralheiro, servente, servente de pedreiro, tirador de gelo, torneiro, vigia, xaropeiro.
37 Entrevista com Luiz Quintera Zoega e Alberto Thielen, em 29-8-1999. Zoega e Thielen são funcionários aposentados da Brahma e exerceram, respectivamente, as funções de mestre cervejeiro na filial de Curitiba e chefe de laboratório da matriz no Rio. Zoega ingressou na Brahma em 1937.
38 Por simplicidade, vamos tomar apenas a produção e a distribuição da Brahma no âmbito do Distrito Federal, mesmo sabendo que desde 1916 a empresa mantinha uma filial em São Paulo – a antiga fábrica Germânia, rebatizada de Guanabara – e que sempre buscou vender seus produtos no interior, por via férrea, e no litoral, do Rio Grande do Sul aos estados do Norte, por cabotagem.
39 O cervejeiro não é parâmetro para os demais empregados da empresa, porque normalmente havia apenas um indivíduo em cada planta industrial.
40 Conforme concluiu Cano (1977) para os trabalhadores da indústria têxtil, de alimentos e vestuário, baseando-se nos dados do Censo de 1920. Lobo (1978) chegou a conclusão semelhante ao recompor o perfil de renda do operário da cidade e sua distribuição entre os setores industriais, baseando-se em dados dos censos de 1907 e 1920, além de cadastros de operários de indústrias do DF. Lobo concluiu que os níveis salariais do Distrito Federal apresentaram tendência a se elevar no pós-guerra em taxas superiores ao custo da alimentação, mantendo-se assim até a grande crise do início da década de 1930. [Lobo, Op.Cit, p. 548, vol. II.]
41 Os ajudantes de caminhão eram a segunda atividade em termos de nível de ocupação. Novamente, era uma atividade de portugueses, 79%; os brasileiros representavam 19,75%. Considerado só este último grupo, os ajudantes de caminhão brasileiros eram em 62,5% homens negros e pardos.
42 Informações prestadas pela Sociedade de Resistência dos Cocheiros, Rio de Janeiro. [Gazeta de Notícias, 17-5-1918.]
43 Agradecemos as sugestões de dois pareceristas anônimos.
44 O terceiro parecerista nos chamou a atenção para os temas da inflação e dos diaristas. Agradecemos sua valiosa colaboração.
45 A rigor, a formulação de Mincer, ligada à teoria do capital humano, trabalha com anos de treinamento. Estamos usando a idade como substituto imperfeito. Ver Cain (1986), assim como Angrist e Krueger (1999). Não seguimos a abordagem de Oaxaca, discutida em Leme e Wajnman (2001), pela forte disparidade numérica entre grupos nacionais na amostra, particularmente pelo pequeno número de europeus não-portugueses. Outro ponto mencionado por Leme & Wajnman sobre o viés de seleção não pôde ser seguido por faltarem informações para a população brasileira quanto à cor da pele no período estudado.
46 Regressões robustas procuram reduzir os efeitos de outliers, que podem distorcer os resultados de uma regressão por mínimos quadrados ordinários (MQO). A regressão MM trabalha com uma função de perda limitada (portanto não convexa), e usa um procedimento iterativo para determinar uma solução (como a função de perda não é convexa, pode haver diversos ótimos) que minimize a soma das perdas pelos desvios, normalizados por estimativa do desvio-padrão dos resíduos. A solução final retida é aquela mais próxima da estimativa inicial. Esse procedimento pode levar a vieses significativos das estimativas, e deve, pois, ser usado com cautela. Optamos, neste trabalho, por mencionar as mudanças qualitativas, mas não apresentar os resultados no texto. Fazemos isso por três razões: primeiro, trata-se de técnica recente e pouco difundida, que para a maioria dos leitores acrescentaria pouco. Segundo, porque pelo menos na primeira regressão apareceu forte viés (que não apareceu nas demais). Terceiro, porque nas demais regressões os resultados não acrescentaram grandes novidades com relação ao MQO. Para mais detalhes, ver Yohai et alii (1991).
47 Praticamente os mesmos resultados aparecem ao se fazer uma regressão robusta MM; apenas os diaristas tornam-se significativos, mas com sinal trocado, o que não parece razoável.
48 Uma regressão robusta MM mostra discriminação ainda maior contra brasileiros e portugueses (-31% e -34%), altamente significativa, e diaristas com redução de 12,1%. Nada mais é significativo.
49 Numa regressão robusta, nenhuma variável é significativa.
50 Ver os comentários de Andrews (1991) e as críticas de Hall (1969) às teses de Fernandes.
51 Essa tendência foi confirmada por Adamo, acerca do perfil dos trabalhadores portuários no Rio.[Adamo (1983), Op.Cit., cap. II, tabela 17.]
52 "Mais greve. Os cocheiros da Brahma abandonam o trabalho. Ontem muito cedo, por volta das 5 horas, um aviso alarmante foi dado à polícia do 9º distrito.... A Brahma, ali da rua Visconde de Sapucaí, está pegando fogo! – Como diz? Interrompeu o comissário Brandão – que os cocheiros declararam greve. A greve acontece porque a direção houve por bem suspender por alguns dias um dos carroceiros. Os demais abandonaram o trabalho" (entrevista com o gerente). [Gazeta de Notícias, 17-5-1918.]
53 Sobre as jornadas de greve entre os trabalhadores da Brahma, ver: cxs. 54 e 8, Acervo Brahma; O Paíz, 6-5-1918; Gazeta de Notícias, 7-5-18, 9-5-18, 12-5-18, 17-5-18, 19-5-18, 24-5-18, 25-5-18; O Imparcial, 23-12-1928, 25-12-28, 27-12-28; A Noite, 28-12-28; O Globo, 27 e 28-12-1928.

 

 

Anexo A

 

 

Anexo B

 

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