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Revista Brasileira de Economia

Print version ISSN 0034-7140On-line version ISSN 1806-9134

Rev. Bras. Econ. vol.69 no.3 Rio de Janeiro July/Sept. 2015

http://dx.doi.org/10.5935/0034-7140.20150015 

Articles

Regiões e Especialização na Agricultura Cafeeira: São Paulo no Início do Século XX*

Renato Perim Colistete† 

†Departamento de Economia, Universidade de São Paulo. Rua Luciano Gualberto, 908, Cidade Universitária, São Paulo-SP. CEP 05508-010. E-mail: rcolistete@usp.br

RESUMO

Este artigo analisa a especialização da produção agrícola nas regiões e nas propriedades rurais do estado de São Paulo no início do século XX, após décadas de transformações causadas pela difusão da lavoura do café. O trabalho utiliza dados de mais de 40 mil propriedades rurais para examinar a estrutura de produção e a especialização produtiva em onze regiões que cobrem a totalidade do território do estado de São Paulo no auge da economia cafeeira. Além das regiões, o artigo aborda como as propriedades rurais distribuíram seus recursos produtivos entre produto de exportação (café) e produtos destinados ao consumo interno. A análise traz à luz novas evidências, corroborando parte da literatura, mas divergindo de outras ideias estabelecidas na historiografia. No início do século XX, virtualmente todas as regiões de São Paulo produziam café, mas quase todas elas se especializaram em mais de um produto agrícola, com a exceção da região da Mogiana. Além das grandes propriedades ressaltadas na literatura, as pequenas propriedades também foram atraídas para a produção de exportação e se especializaram na produção do café. Por sua vez, as grandes propriedades não só se especializaram na produção de alimentos (além do café), mas dominaram a oferta dos principais produtos destinados ao mercado doméstico.

Palavras-chave: Agricultura Cafeeira; Especialização Agrícola; São Paulo

ABSTRACT

This article deals with agricultural specialization in regions and farms of the state of São Paulo in the early twentieth century, after several decades of changes caused by the coffee boom. We use data from more than forty thousand farms to examine the agrarian structure and specialization in eleven regions which cover the whole state of São Paulo at the time. The article also shows how farms chose between export (coffee) and internal market crops. The results lend support to part of the literature but add new evidence which diverges from established notions among historians. In the early twentieth century, all regions of São Paulo cultivated coffee, but nearly all of them specialized in more than one agricultural product, except the Mogiana region. Besides the plantations highlighted by the literature, small farms were also drawn into export production and specialized in coffee. In turn, large properties not only specialized (apart from coffee) in food crops, but dominated the supply of the main products for internal markets.

1. INTRODUÇÃO

No início do século XX, São Paulo havia alcançado a posição de maior produtor de café no Brasil e no mundo, resultado da expansão da fronteira agrícola que ganhou novo impulso em meados do século anterior. Longe de homogênea e linear, a expansão da fronteira agrícola assumiu diferentes características de acordo com o momento em que as regiões foram incorporadas ao boom cafeeiro e as condições fisiográficas, demográficas e institucionais existentes. O deslocamento de sitiantes e fazendeiros em busca de novas terras, a entrada de imigrantes europeus e a chegada das ferrovias no interior de São Paulo refletiram as possibilidades criadas para a produção de exportação tanto em terras já há tempos exploradas com atividades agrícolas diversas e criação de animais quanto em áreas cobertas por florestas, campos e cerrados, habitadas por indígenas e por poucas famílias pioneiras, geralmente dispersas e isoladas (Pestana, 1923, cap.1–3; Monbeig, 1998).

Dois aspectos da diversidade da expansão agrícola em São Paulo foram ressaltados por geógrafos e historiadores já nas primeiras décadas do século XX. Primeiro, o fato do avanço do café ter sido desigual entre as diferentes áreas da província (e, depois, estado), com regiões e municípios empregando parcelas crescentes de suas terras cultivadas na agricultura de exportação enquanto outros o faziam apenas marginalmente ou de forma secundária. Na realidade, as regiões marginais da cafeicultura também iriam fazer parte do boom exportador, mas por meio da especialização em atividades que se beneficiaram com o aumento da renda interna e da demanda derivada do café. Segundo, a expansão cafeeira em diversas regiões do estado de São Paulo combinou-se com o crescimento simultâneo da produção agrícola destinada ao mercado doméstico. Produtos de exportação e produtos para o consumo interno foram cultivados lado a lado mesmo nas regiões em que o café mais se expandiu.1

Este artigo analisa a especialização da produção agrícola no estado de São Paulo no início do século XX, enfatizando a variedade da estrutura agrária encontrada em suas regiões e propriedades rurais. Os dados utilizados referem-se a mais de 40 mil propriedades rurais pesquisadas pela Secretaria de Agri cultura de São Paulo no ano agrícola de 1904–1905 (São Paulo, 1906-1907). Inicialmente, o artigo examina de que maneira diferentes regiões adaptaram suas estruturas agrárias à rápida expansão dos mercados no século XIX e qual foi o perfil de especialização produtiva daí resultante. A análise utiliza evidências e medidas quantitativas que demonstram que a especialização agrícola variou substancialmente entre as regiões do estado de São Paulo, inclusive entre as próprias zonas tipicamente cafeeiras, resultado que corrobora as pesquisas de historiadores e geógrafos mencionados antes. No início do século XX havia três zonas especializadas na produção cafeeira, mas apenas uma delas (a Mogiana) o era exclusivamente no café. As outras duas zonas cafeeiras (Araraquarense e Paulista) e as demais regiões de São Paulo especializavam-se em outros produtos além do café, geralmente voltados ao consumo doméstico.2

A outra questão tratada no artigo diz respeito à esfera das decisões das propriedades rurais: qual foi a combinação de culturas agrícolas adotada por produtores rurais sob diferentes circunstâncias geográficas e econômicas? Em que medida o domínio crescente do café levou também a uma especialização no nível microeconômico das propriedades rurais? Pequenas e grandes propriedades distinguiram-se em suas estratégias de produção? Como veremos, as evidências indicam que, no início do século XX, as grandes propriedades do estado de São Paulo tenderam a ser as mais especializadas no cultivo do café, mas as pequenas propriedades acompanharam essa tendência apresentando elevados níveis de especialização no produto de exportação nas zonas tipicamente cafeeiras. Esse resultado põe em xeque a noção de que a lavoura do café em São Paulo tenha sido uma atividade essencialmente vinculada a grandes fazendas e elevadas economias de escala.3 Por extensão, o resultado conflita também com a tese de que

o Brasil divergiria de outros países da América Latina, tais como Venezuela, Costa Rica e partes da Colômbia, cuja produção cafeeira contou com uma substancial, ou mesmo majoritária, presença de pequenas propriedades.4

Por outro lado, as grandes propriedades de São Paulo apresentaram maior flexibilidade nas suas decisões de produção do que geralmente é assumido: embora as pequenas unidades rurais em geral fossem mais especializadas nos produtos para consumo doméstico (tais como milho e feijão), as grandes propriedades apresentaram também alto grau de especialização nesse tipo de produção. Mais importante ainda, em termos de volume de produção, as grandes propriedades dominaram a oferta dos principais produtos agrícolas destinados ao consumo doméstico, contrariando a percepção comum de que as pequenas propriedades tenham tradicionalmente se especializado e se tornado as principais fornecedoras para o mercado interno.5 A produção de alimentos somente foi dominada por pequenas propriedades em certas regiões (a Capital e o Vale do Paraíba e Litoral Norte), mas não em uma escala suficiente para alterar o predomínio das grandes propriedades na oferta de mantimentos no conjunto do estado de São Paulo. Essas questões serão tratadas em detalhe nas seções seguintes.

2. REGIÕES E EXPANSÃO CAFEEIRA

Desde a primeira metade do século XIX, o crescimento do café incorporou rapidamente novas áreas à produção de exportação e, por volta de 1900, as regiões que cultivavam o produto eram substancialmente distintas da área - Vale do Paraíba e Litoral Norte - onde se iniciou a expansão cafeeira em São Paulo. Ao lado de regiões ocupadas nos primórdios da colonização, antigas produtoras de cana-de-açúcar, alimentos e gado (como a Capital, o Vale do Paraíba e Sorocaba) e outras na fronteira da expansão do café (Ribeirão Preto), havia áreas extensas que ainda no início do século XX eram pouco conhecidas e habitadas majoritariamente por populações indígenas e famílias pioneiras vivendo em áreas isoladas (como nas regiões dos rios do Peixe, Aguapeí e Paranapanema).6 As condições fisiográficas, o regime de propriedade da terra e o tipo de atividade econômica existentes influenciaram diretamente o modo com que a demanda internacional do café foi assimilada pelas estruturas de produção locais.

Não por acaso, os primeiros estudos sobre a expansão cafeeira em São Paulo deram atenção especial aos fatores que deveriam ser utilizados para classificar as regiões que constituíam a extensa e diversificada área agrícola do estado. Ainda na década de 1930, Pierre Deffontaines constatou a dificuldade de se estabelecer uma classificação coerente das regiões de São Paulo tendo em vista a instabilidade da exploração agrícola e da população, que rapidamente deslocava-se em busca de novas terras e oportunidades, enquanto novos produtos e atividades produtivas sucediam-se na mesma região. Considerando arbitrária a classificação já então convencional das áreas ocupadas pelas linhas ferroviárias, Deffontaines propôs uma tipologia baseada nas características geológicas e topográficas do estado de São Paulo, chegando a um total de 19 regiões fisiográficas (Deffontaines, 1936a, 1936b).

Apesar das qualificações de Deffontaines, outras tipologias continuaram enfatizando aspectos econômicos e populacionais de São Paulo no século XIX e início do século XX, deixando em segundo plano as características da geografia física. O estudo mais conhecido e influente nessa linha foi o de Sérgio Milliet (1939/1982b). Utilizando critérios relacionados à expansão da cultura do café, aos movimentos populacionais e às áreas de influência das ferrovias, Milliet dividiu o estado de São Paulo em sete regiões: zona Norte (inclusive litoral), Central e aquelas abrangendo municípios tributários das ferrovias Mogiana, Paulista, Araraquarense, Noroeste e Sorocabana (Milliet, 1939/1982b, pp.13–15). Em outro estudo, o autor incluiu três zonas adicionais à sua classificação anterior: Capital–Santos, Baixa Sorocabana e Litoral Sul (Milliet, 1939/1982a, pp.70–71).

Posteriormente, outros autores adotaram classificações com critérios alternativos. Pierre Monbeig (1945-1946), por exemplo, reelaborou a proposta original de Deffontaines, combinando elementos geográficos e econômicos em uma nova classificação com quatro regiões fisiográficas básicas, doze subregiões secundárias e trinta e cinco zonas definidas de acordo com características econômicas aproximadamente homogêneas dos municípios. Talvez pela complexidade das subdivisões ou pelo predomínio ainda de critérios fisiográficos, a classificação de Monbeig acabou recebendo pouca acolhida. Já a classificação de Milliet passou a ser amplamente utilizada nas décadas seguintes. O trabalho mais conhecido que empregou a divisão regional de Milliet foi o de José Francisco de Camargo sobre a população e a economia de São Paulo, já com a inclusão das três zonas às sete originais de Roteiros do Café e algumas adaptações marginais (Camargo, 1952, pp.23–48). Mais tarde, Joseph Love adotou a classificação de Milliet adaptada por Camargo (Love, 1982, 41–51). Thomas Holloway, por sua vez, também utilizou a tipologia de Milliet, mas com modificações em relação à adaptação de Camargo (Holloway, 1974, Appendix I).

Na análise a seguir, utilizaremos a divisão regional de Milliet na versão modificada de Holloway, por parecer mais adequada ao período aqui estudado. As principais diferenças da versão de Holloway em relação à de Camargo são a manutenção da zona da Paulista de acordo com a divisão original de Milliet (apenas integrando a Alta Paulista à zona Noroeste, em vez da divisão “Paulista”, “Alta Paulista” e “Baixa Paulista”) e a criação de uma nova região em torno de Sorocaba, desmembrada da zona da Capital (Holloway, 1974, Appendix I). As onze zonas e seus respectivos municípios são apresentados no Apêndice, com suas datas de fundação e nomes oficiais em 1905. Para facilitar a identificação, as denominações atuais dos municípios são incluídas entre parênteses. Ao todo, são 171 municípios em 1905 que produziam aproximadamente 70% do café exportado pelo Brasil.7

Na época, as áreas de produção de café mais antigas já estavam em pleno declínio, enquanto outras regiões ainda se encontravam no início da expansão cafeeira. Milliet demonstrou que a situação econômica dos municípios de São Paulo não estava associada apenas ao sucesso da cultura do café, que pela sua natureza extensiva tendia a ser efêmera, mas dependia em especial da capacidade das localidades diversificarem sua produção agrícola e suas atividades urbanas de produção de manufaturas, de comércio e financiamento. Assim, enquanto o Vale do Paraíba era caracterizado como “zona morta, que o café desbravou, povoou, enriqueceu e abandonou antes que criasse raízes para o progresso”, a Mogiana e a Paulista tiveram destino diferente, pois nelas “a decadência do café teve por conseqüência não o abandono das terras, como na zona norte, mas o ensaio de outras culturas substitutivas”, além da produção de manufaturas e serviços. Como observa Milliet, citando um município particular, “de como tais fatores podem modificar as condições do abandono cafeeiro, vê-se pelo aumento contínuo da população de Rio Claro em oposição à decadência da produção de café” (Milliet, 1939/1982b, pp.37 e 50–52).

O cenário de expansão e declínio identificado por Milliet pode ser resumido por meio da evolução da população das onze zonas tributárias descritas no Apêndice, considerando os anos de 1872, 1886, 1907 e 1920 (Tabela 1).8

Tabela 1 População por Regiões do Estado de São Paulo, 1872–1920 

Regiões 1872 % 1886 % 1907 % 1920 %
Capital 46.775 5,6 74.895 6,2 352.375 11,3 654.578 14,3
Vale do Paraíba e Litoral Norte 251.423 29,9 335.932 27,7 474.919 15,3 484.699 10,6
Sorocaba 78.763 9,4 103.789 8,6 150.532 4,8 190.423 4,2
Central 141.234 16,8 179.021 13,0 394.476 12,7 487.175 10,6
Mogiana 122.057 14,5 184.021 15,2 621.782 20,0 811.974 17,7
Paulista 69.614 8,3 133.733 11,0 362.109 11,7 530.257 11,6
Araraquarense 16.347 1,9 33.151 2,7 281.905 9,1 583.801 12,7
Noroeste - - - - 21.248 0,7 151.771 3,3
Alta Sorocabana 40.377 4,8 81.670 6,7 219.979 7,1 392.006 8,6
Baixa Sorocabana 42.131 5,0 64.847 5,4 114.748 3,7 134.227 2,9
Santos e Litoral Sul 32.300 3,8 42.434 3,5 113.468 3,7 161.950 3,5
Total Estado de São Paulo 841.021 100,0 1.233.493 100,0 3.107.541 100,0 4.582.861 100,0

Nota: Até 1887, o município de Bauru (Noroeste) pertencia a Lençóis.

Fontes: Brasil (1876), São Paulo (1888), Brasil (1917), Brasil (1926).

A Tabela 1 mostra que a zona do Vale do Paraíba e Litoral Norte sofreu acentuado declínio em sua par ticipação na população total do estado de São Paulo entre 1872 e 1920, resultado da decadência do café e da pequena expansão relativa das atividades que o substituíram na maior parte dos municípios. Outras regiões antigas - Central e Sorocaba - também tiveram reduções relativas da população, embora vários de seus municípios tenham sido capazes de diversificar suas atividades econômicas. A Mogiana e a Paulista, prolongamentos da região Central na expansão cafeeira do final do século XIX, já diminuíam o ritmo do crescimento populacional nas primeiras décadas do século XX diante das mais recentes fronteiras agrícolas - Araraquarense, Noroeste e Alta Sorocabana. A maior parte dessas três últimas zonas era ainda formada, em 1907, por extensas áreas que seriam colonizadas nos anos seguintes. A estrutura da produção agrícola de todas as regiões é analisada a seguir.

3. A ESTRUTURA DA PRODUÇÃO AGRÍCOLA

As informações quantitativas sobre a atividade agrícola no início do século XX demonstram de forma clara as diferentes situações das regiões de São Paulo após décadas de expansão cafeeira. Os dados utilizados nesta e nas seções seguintes foram extraídos da Estatística Agrícola e Zootécnica do Estado de São Paulo, elaborada pela Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de São Paulo e que coletou informações detalhadas das propriedades rurais de 171 municípios e mais de 50 mil propriedades rurais em 1904–1905 (São Paulo, 1906-1907).9 A Tabela 2 apresenta o número de municípios e propriedades com informações disponíveis para cada uma das regiões descritas no Apêndice e no estado de São Paulo como um todo.10

Tabela 2 Municípios e Propriedades Rurais, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Nº de municípios Nº de propriedades
Capital 7 2.524
Vale do Paraíba e Litoral Norte 35 10.921
Sorocaba 13 2.570
Central 18 7.344
Mogiana 27 8.086
Paulista 17 4.563
Araraquarense 16 5.597
Noroeste 1 341
Alta Sorocabana 16 4.015
Baixa Sorocabana 11 2.553
Santos e Litoral Sul 4 758
Total Estado de São Paulo 165 49.272

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Conforme mostra a Tabela 3, a zona da Mogiana possuía a maior extensão de terras particulares, com cerca de 17,8% da área total ocupada por propriedades rurais no estado de São Paulo (coluna “Área Total”). Não por coincidência, as outras zonas tributárias das ferrovias também se destacavam em termos de área das propriedades rurais: Alta Sorocabana (14,1%), Araraquarense (12,6%) e Paulista (12,1%). As menores áreas de propriedades rurais no conjunto do estado encontravam-se, como esperado, nas regiões de Santos e Litoral Sul (1,8%) e Capital (1,8%).

Tabela 3 Participação das Regiões na Área Agrícola das Propriedades Rurais, São Paulo, 1904-1905 (em %). 

Regiões Área Cultivada Área em Mata Área em Capoeira Área em Campos e Pastos Área em Brejos e Terra Imprestável Área Total
Capital 1,1 1,2 2,2 2,3 1,8 1,8
Vale do Paraíba e Litoral Norte 12,4 10,6 17,0 5,7 27,1 11,0
Sorocaba 2,9 1,7 12,4 7,4 5,0 6,3
Central 15,8 4,5 12,7 8,2 7,1 8,8
Mogiana 24,9 12,0 9,6 28,0 4,4 17,8
Paulista 16,1 9,7 6,4 17,2 11,4 12,1
Araraquarense 13,4 19,6 7,0 8,4 8,0 12,6
Noroeste 0,4 12,9 0,4 0,4 0,6 4,7
Alta Sorocabana 7,6 17,2 12,1 14,7 14,8 14,1
Baixa Sorocabana 4,8 6,9 18,2 7,7 17,9 9,5
Santos e Litoral Sul 0,6 3,6 2,0 0,0 2,2 1,8
Total Estado de São Paulo 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Notas: Dados originais em alqueire paulista, daqui em diante citado apenas como alqueire. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados. Dados agregados de 49.272 propriedades agrícolas, conforme Tabela 2.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Um quadro distinto é obtido quando se considera a área efetivamente empregada na produção agrícola. Novamente a Mogiana aparece com a maior área cultivada (24,9%) do total do estado de São Paulo, mas após a Paulista (16,1%) a antiga região Central (15,8%) aparece com destaque, seguida pela Araraquarense (13,4%) e outra zona antiga na expansão agrícola paulista, o Vale do Paraíba e Litoral Norte (12,4%). Alta Sorocabana (7,6%), Baixa Sorocabana (4,8%) e Noroeste (0,4%) apresentavam uma proporção de área cultivada substancialmente menor do que suas participações no total da área ocupada, o que indica que em tais regiões a produção agrícola mais intensiva ainda se encontrava em seus primórdios (Tabela 3).

De fato, a intensidade da exploração da terra variou significativamente entre as regiões do estado de São Paulo, conforme é possível constatar na Tabela 4. No conjunto do estado, apenas 12,4% da área das propriedades rurais eram cultivados. A Central era a região com a maior área cultivada (22,2%), da mesma forma que a sua área com mata ocupava uma das menores parcelas (17,5%) das propriedades, indicando a expansão pioneira do café na região e a destruição acelerada das matas nativas (Dean, 1997, cap.5). As outras zonas que possuíam participações relativamente altas (considerando a média do estado) da área cultivada incluíam Mogiana (17,4%), Paulista (16,4%), Vale do Paraíba e Litoral Norte (14,0%) e Araraquarense (13,2%). Destas, apenas a região da Araraquarense conservava uma proporção ainda significativa de matas nativas (53,5%), situação que seria transformada nas décadas seguintes com o rápido crescimento demográfico e a ocupação agrícola (Monbeig, 1998, pp.181–95).

Tabela 4 Distribuição da Área Agrícola das Propriedades Rurais por Regiões, São Paulo, 1904-1905 (em %). 

Regiões Área Cultivada Área em Mata Área em Capoeira Área em Campos e Pastos Área em Brejos e Terra Imprestável Área Total
Capital 7,9 24,3 26,5 39,5 1,9 100,0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 14,0 33,0 33,1 15,8 4,1 100,0
Sorocaba 5,4 14,0 42,7 36,3 1,6 100,0
Central 22,2 17,5 30,6 28,2 1,4 100,0
Mogiana 17,4 23,1 11,6 47,6 0,5 100,0
Paulista 16,4 27,5 11,4 43,0 1,7 100,0
Araraquarense 13,2 53,5 12,0 20,2 1,2 100,0
Noroeste 1,2 94,1 1,7 2,9 0,2 100,0
Alta Sorocabana 6,8 41,1 18,2 32,0 1,9 100,0
Baixa Sorocabana 6,2 25,0 40,9 24,6 3,4 100,0
Santos e Litoral Sul 4,3 69,5 23,8 0,1 2,2 100,0
Total Estado de São Paulo 12,4 34,3 21,3 30,3 1,8 100,0

Fonte: São Paulo (1906-1907).

A agricultura de São Paulo no início do século XX foi dominada pelo principal produto de exportação: nada menos do que 55,3% da área cultivada eram utilizados na lavoura do café. Do ponto de vista das regiões, porém, as diferenças eram enormes. Enquanto a Mogiana (69,0%), Araraquarense (63,8%), Paulista (61,9%) e Alta Sorocabana (55,2%) registravam bem mais da metade de suas terras cultivadas produzindo café, outras regiões apresentavam participações ínfimas, tais como a zona da Capital (1,1%), a Baixa Sorocabana (4,8%) e a região de Sorocaba (8,7%) (Tabela 5).

Tabela 5 Participação da Área Plantada com Produtos na Área Cultivada, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Café Cana-de-Açúcar Algodão Arroz Milho Feijão Diversas
Capital 1,1 4,0 0,7 2,0 42,5 23,1 26,7
Vale do Paraíba e Litoral Norte 43,8 6,2 0,2 3,9 24,3 16,6 5,0
Sorocaba 8,7 2,5 12,0 4,8 54,3 15,0 2,7
Central 49,8 4,7 0,5 2,3 28,3 11,1 3,3
Mogiana 69 1,9 0,0 3,4 16,9 8,6 0,2
Paulista 61,9 1,9 0,0 2,9 22,9 10,1 0,3
Araraquarense 63,8 2,5 0,1 6,0 22,4 4,6 0,5
Noroeste 44,7 1,5 0,0 5,5 41,1 7,0 0,2
Alta Sorocabana 55,2 2,0 0,5 4,1 31,6 5,5 1,2
Baixa Sorocabana 4,8 1,6 1,5 8,3 68,1 9,3 6,3
Santos e Litoral Sul 12,9 1,3 0,0 35,9 7,6 4,3 38,0
Total Estado de São Paulo 55,3 2,9 0,5 3,9 25,5 9,8 2,1

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Outros produtos de destaque eram destinados ao mercado interno, em especial milho e feijão, com 25,5% e 9,8% da área cultivada, respectivamente, no total do estado de São Paulo. Esses eram produtos de amplo consumo, podendo ser cultivados intercalados entre as fileiras dos cafeeiros ou em áreas separadas.11Também nesses casos a variação regional era expressiva. Baixa Sorocabana (77,4%), Sorocaba (69,3%) e Capital (65,6%) ocupavam mais da metade de sua área cultivada com milho e feijão. As regiões em que predominava o café também possuíam uma área substancial plantada com milho e feijão. Outros produtos para consumo doméstico reunidos na categoria Diversas - tais como mandioca, batata, frutas, hortaliças, fumo e alfafa - tinham um peso significativo particularmente na área cultivada de regiões com pouca expressão na produção de café, como Santos e Litoral Sul (38,0%) e Capital (26,7%). A cana-de-açúcar era comum em praticamente todas as regiões, enquanto algodão e arroz ocupavam a maior área das propriedades de algumas zonas específicas -Sorocaba (algodão) e Baixa Sorocabana e Santos e Litoral Sul (arroz) (Tabela 5).

Também na Tabela 5 é possível notar que as regiões que empregavam maiores parcelas da terra no produto de exportação eram distintas daquelas que ocupavam maiores extensões de sua área cultivada com produtos típicos do mercado interno. Esse é um ponto que será analisado detalhadamente na próxima seção, mas aqui já é possível identificar algumas tendências gerais. A observação dessa tendência pode ser auxiliada por uma análise de correlação entre a área cultivada com café e a área com produtos destinados ao mercado doméstico nas diferentes regiões de São Paulo. Os coeficientes da Tabela 6 mostram que a maior presença do café era associada com menor participação da área cultivada com produtos do mercado interno. Todos os coeficientes relacionando café e tais produtos são negativos (conforme a primeira coluna da Tabela 6), com exceção da cana-de-açúcar, cujo coeficiente é positivo mas bastante baixo (0,0109). Vale lembrar que tais resultados referem-se à participação relativa dos produtos na área cultivada dentro de cada região, ou seja, os coeficientes refletem o resultado agregado das decisões dos proprietários rurais quanto à distribuição da área plantada entre diferentes lavouras. Naturalmente, regiões com áreas cultivadas mais extensas - a Mogiana, por exemplo - tiveram influência bem maior nos resultados da área cultivada total dos produtos (como visto na Tabela 3).

Tabela 6 Correlação da Área Cultivada nas Regiões, São Paulo, 1904-1905 

Produtos Café Milho Feijão Arroz Cana-de-Açúcar Algodão Diversas
Café 1 - - - - - -
Milho -0,5743 1 - - - - -
Feijão -0,4631 0,3479 1 - - - -
Arroz -0,3549 -0,3724 -0,4317 1 - - -
Cana-de-açúcar 0,0109 -0,0745 0,6528 -0,3838 1 - -
Algodão -0,4431 0,5053 0,2932 -0,1036 -0,0434 1 -
Diversas -0,6423 -0,2176 0,1787 0,7466 -0,033 -0,1237 1

Nota: Correlações de Pearson com os dados da Tabela 5.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Realmente, considerando agora os produtos específicos, as zonas da Mogiana (33,4%), Paulista (21,7%), Araraquarense (13,9%) e Central (13,3%) possuíam as maiores participações na área cultivada com café, totalizando 82,3% do estado de São Paulo em 1904-1905 (ver Tabela 7). Além disso, o que chama a atenção é que essas mesmas zonas estavam também entre as que possuíam as maiores áreas dos principais produtos destinados ao abastecimento interno - milho, feijão e arroz. Ou seja, mesmo com menos alqueires de sua área cultivada destinados a alimentos do que ao café, como foi visto antes, o tamanho absoluto da área cultivada com produtos para o mercado doméstico garantia um lugar proeminente às zonas cafeeiras também na lavoura de mantimentos em São Paulo. Por exemplo, Mogiana (17,8%), Paulista (17,4%) e Central (16,4) somavam as maiores áreas de produção de milho, seguidas pela antiga zona cafeeira do Vale do Paraíba e Litoral Norte (11,1%) e a Araraquarense (10,6%). Mogiana (23,5%) e Paulista (19,9%) também concentravam as maiores áreas com lavouras de feijão, embora aqui a zona do Vale do Paraíba e Litoral Norte (19,8%) tivesse uma posição de destaque, acompanhada pela região Central (16,7%).

Tabela 7 Participação das Regiões na Área Cultivada, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Café Cana-de-Açúcar Algodão Arroz Milho Feijão Diversas
Capital 0,02 1,4 1,6 0,5 1,7 2,4 13,4
Vale do Paraíba e Litoral Norte 9,2 24,5 4,0 11,7 11,1 19,8 28,5
Sorocaba 0,5 2,4 55,8 3,1 5,9 4,0 3,7
Central 13,3 24,0 15,5 9,0 16,4 16,7 23,9
Mogiana 33,4 17,7 0,3 23,3 17,8 23,5 3,0
Paulista 21,7 12,3 0,7 14,4 17,4 19,9 2,9
Araraquarense 13,9 10,4 2,7 18,6 10,6 5,7 3,0
Noroeste 0,4 0,2 0,0 0,7 0,8 0,4 0,1
Alta Sorocabana 7,3 5,0 7,7 7,9 8,9 4,1 4,3
Baixa Sorocabana 0,3 1,9 11,7 7,3 9,2 3,3 10,5
Santos e Litoral Sul 0,1 0,2 0,0 3,4 0,1 0,2 6,8
Total Estado de São Paulo 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Da mesma forma, a Mogiana (23,3%) concentrava a maior área de cultivo de arroz, acompanhada pela Araraquarense (18,6%), Paulista (14,4%) e o Vale do Paraíba e Litoral Norte (11,7%). Um perfil similar pode ser identificado em relação à área cultivada com cana-de-açúcar. Apenas no caso de algodão e de produtos diversos é que outras regiões ganhavam destaque: Sorocaba possuía 55,8% da área cultivada com algodão, enquanto Vale do Paraíba e Litoral Norte (28,5%), Central (23,9%) e a Capital (13,4%) somavam as maiores áreas de culturas diversas, boa parte formada por alimentos, o que indica a importância dessas zonas para o abastecimento dos mercados locais.

Esses resultados revelam características importantes da estrutura produtiva agrícola de São Paulo no início do século XX. Se, de um lado, o café destacava-se como produto principal, por outro lado, outros produtos agrícolas ocupavam uma parcela significativa da terra cultivada. As variações regionais foram grandes, com algumas zonas concentrando-se em produtos não destinados à exportação. Mas as regiões cafeeiras também eram aquelas com as maiores áreas absolutas dedicadas a produtos tipicamente do mercado interno, a exemplo do milho, feijão e arroz. Ainda assim, outros produtos importantes para o abastecimento local tinham a sua maior área de cultivo localizada nas zonas que não se destacavam na produção de café na época. Essas características aparentemente contraditórias serão analisadas com mais detalhe na próxima seção.

4. ESPECIALIZAÇÃO REGIONAL

A especialização produtiva na agricultura de São Paulo no início do século XX pode ser medida por um índice que relacione a área destinada a uma lavoura específica em um região e a área ocupada por essa lavoura no estado como um todo. Um índice maior do que 1 indica que a região é especializada no cultivo de um determinado produto.12 Formalmente, o índice de especialização é definido como

onde esp é o índice de especialização agrícola, ei é a área cultivada com o produto i na região, e éa área cultivada total na região, Ei é a área cultivada com o produto i no estado de São Paulo, e E é a área cultivada total no estado de São Paulo.

A Tabela 8 traz estimativas do índice de especialização agrícola regional de São Paulo no início do século XX. É possível ver inicialmente que as zonas da Mogiana, Paulista e Araraquarense distinguiamse pela especialização na produção de café. A Mogiana, que possuía a maior área cultivada com café do estado, era na época a única região que se especializava exclusivamente na produção cafeeira, enquanto a Paulista também se especializava na produção de milho e feijão e a Araraquarense no cultivo de arroz, além de café.

Tabela 8 Especialização Agrícola por Região segundo a Área Cultivada, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Café Cana-de-Açúcar Algodão Arroz Milho Feijão Diversas
Capital 0,01843 1,24404 1,39216 0,46583 1,53946 2,1721 11,975
Vale do Paraíba e Litoral Norte 0,73761 1,95995 0,31684 0,93649 0,89207 1,58553 2,27988
Sorocaba 0,17162 0,87546 20,42268 1,11997 2,15287 1,4608 1,33732
Central 0,83155 1,49808 0,97197 0,56152 1,02757 1,04645 1,49506
Mogiana 1,32513 0,70382 0,01203 0,92659 0,70772 0,93362 0,11998
Paulista 1,33459 0,75894 0,04506 0,88942 1,07534 1,22854 0,1779
Araraquarense 1,02537 0,76836 0,19563 1,37526 0,78465 0,41941 0,22148
Noroeste 0,87909 0,54188 0 1,55265 1,75734 0,78018 0,11484
Alta Sorocabana 0,97011 0,66758 1,02063 1,0492 1,17511 0,55017 0,55983
Baixa Sorocabana 0,06195 0,39433 2,43673 1,52031 1,90469 0,67588 2,18537
Santos e Litoral Sul 0,13749 0,25738 0 5,4934 0,1763 0,25956 10,93256

Nota: Especialização da produção agrícola medida pelo índice definido no texto. Um índice maior do que 1,0 indica especialização na produção do bem.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

As demais regiões especializaram-se em outros produtos, ainda que todas elas também produzissem café. Mesmo sendo a quarta região com a maior área plantada com cafeeiros, conforme visto anteriormente, a zona Central não era na época especializada na cafeicultura, devido à diversificação de sua área cultivada com produtos como cana-de-açúcar, milho, feijão e diversos. A mais antiga região do café, o Vale do Paraíba e Litoral Norte, também já destinava relativamente mais terras para as lavouras de cana-de-açúcar, feijão e diversas, da mesma forma que a Capital prosseguiu em sua tradicional especialização na agricultura não-exportadora e, sobretudo, em produtos como batata, mandioca, hortaliças e forragem para animais, classificados como diversas. Outra região antiga, Santos e Litoral Sul, apresentou altos índices de especialização no cultivo de arroz e produtos diversos, igualmente reproduzindo um perfil já estabelecido no século anterior. Sorocaba, por sua vez, era a região mais especializada no cultivo do algodão, ao lado de produtos tradicionais (milho, arroz, feijão e diversos). As demais zonas, Noroeste, Alta Sorocabana e Baixa Sorocabana, as duas primeiras ainda em um estágio inicial de entrada de imigrantes e expansão da fronteira agrícola, apresentavam um perfil próximo ao das zonas antigas no que diz respeito à especialização agrícola, com destaque para a produção de algodão, arroz, milho e diversos (Tabela 8).

O fato de apenas a região da Mogiana ter sido exclusivamente especializada em café no início do século XX sugere que a diversificação agrícola era muito maior do que tende a ser reconhecida pelas análises agregadas da economia de São Paulo durante a expansão cafeeira. A maior parte das regiões cultivava uma variedade de produtos ao lado do café. Ainda assim, em que medida a convivência do café com culturas diversas era de fato expressiva? E mais ainda, seria correto assumir que a presença do café estava associada a uma menor diversificação da produção agrícola? Analogamente à especialização, o grau de diversificação da área cultivada nas regiões de São Paulo pode ser estimado com um índice específico, conforme a seguinte equação (Singh & Dhillon, 1984, pp.220–21):

onde “produtos n” correspondem àqueles com 5% ou mais de área cultivada na região.

A Tabela 9 reproduz os índices de diversificação agrícola das regiões de São Paulo no início do sé culo XX. As regiões com os maiores índices e, portanto, com a maior diversificação da produção agrícola eram a Capital, Santos e Litoral Sul e Sorocaba. Nenhuma delas era especializada no cultivo do café, embora todas apresentassem áreas plantadas com cafeeiros. As zonas com menor diversificação da produção agrícola compreendiam as três com especialização na lavoura cafeeira - Paulista, Mogiana e Araraquarense. Assim, o índice sugere que, de fato, a maior importância do cultivo do café era associada com menor diversificação agrícola nas regiões.

Tabela 9 Diversificação Agrícola, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Índice de diversificação agrícola
Capital 0,827
Vale do Paraíba e Litoral Norte 0,773
Sorocaba 0,811
Central 0,765
Mogiana 0,685
Paulista 0,684
Araraquarense 0,693
Noroeste 0,754
Alta Sorocabana 0,693
Baixa Sorocabana 0,770
Santos e Litoral Sul 0,813

Nota: Índice de diversificação agrícola conforme definido na equação (2).

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Esse resultado fica mais claro ao compararmos a área plantada com café e o índice de diversificação agrícola das regiões, como mostra a Figura 1. Há uma nítida relação entre aumento da participação da lavoura de café no total da área cultivada e diminuição do índice de diversificação agrícola nas regiões, inclusive naquelas que não eram especializadas na produção cafeeira, como por exemplo a zona Noroeste. As regiões com os maiores índices de diversificação (Capital, Santos e Sorocaba) especializavam-se em produtos como milho, arroz e feijão.

Fonte: Ver Tabela 2. Índice de diversificação definido na equação (2).

Figura 1 Área Cultivada com Café e Diversificação Agrícola, São Paulo, 1904-1905. 

É preciso observar, porém, que a queda da diversificação agrícola com o aumento da área plantada com café não implicava que a produção de outros produtos fosse inexpressiva nas regiões cafeeiras. Ao contrário, como foi visto antes, as zonas especializadas em café eram também as que possuíam as maiores áreas cultivadas no estado de São Paulo com os principais produtos para abastecimento interno, isto é, arroz, feijão e milho (ver Tabela 7). Há indícios inclusive de que as propriedades rurais nas zonas cafeeiras típicas tenham produzido mantimentos em quantidade suficiente para atender seus moradores e comercializar parte do produto nas localidades urbanas próximas. Na ausência de dados sobre o comércio entre municípios, uma estimativa da importância relativa da produção de alimentos pode ser feita comparando-a com a população residente em cada região.

A Figura 2 mostra que a área cultivada com alimentos em relação à população residente nas regiões aumenta conforme cresce a proporção da área ocupada com café no total da área cultivada. Essa relação pode ser interpretada como um indicador da capacidade de sustentação da população local com a produção de mantimentos, de forma que quanto maior for a razão café/área cultivada, maior a tendência de que os alimentos produzidos possam ter sido utilizados para autoconsumo e, eventualmente, para venda fora da propriedade rural. Tanto os proprietários das terras quanto os colonos imigrantes e nacionais podem ter sido responsáveis por essas lavouras. A única exceção à tendência verificada nas regiões foi a Baixa Sorocabana, que apresentou uma reduzida proporção de terras ocupadas com o café mas uma elevada área de produção de alimentos em relação à sua população, o que sugere que essa região pode ter produzido um excedente substancial para o mercado.

Fonte: Ver Tabela 2. Dados de população referentes ao ano de 1907.

Figura 2 Importância da Produção de Alimentos, São Paulo, 1904-1905. 

A análise agregada da produção agrícola revela, assim, um quadro variado de especialização produtiva entre as diferentes regiões do estado de São Paulo no início do século XX. A especialização exclusiva no cultivo do café limitou-se à maior região exportadora na época. Outras zonas cafeeiras novas, assim como as antigas, possuíam estruturas agrárias mais diversificadas, apesar da importância central do café nas suas economias. Não por coincidência, portanto, a maior área cultivada com produtos-chave para os mercados locais localizava-se com frequência justamente nas regiões que eram também especializadas na produção de café. Resta saber, porém, como se dava a alocação das terras cultivadas no âmbito das propriedades rurais individuais.

5. ESPECIALIZAÇÃO DAS PROPRIEDADES RURAIS

Um outro aspecto da especialização agrícola na economia cafeeira diz respeito às decisões das propriedades rurais - o que e quanto cultivar, dadas a situação dos mercados e as condições de solo, oferta de trabalho, transporte, entre outros fatores. Quais foram as estratégias de produção dos proprietários rurais nas regiões cafeeiras e nas zonas especializadas em outros produtos? Em particular, de que forma pequenas e grandes unidades produtivas distribuíam suas terras entre produtos de exportação e mercado interno?

Um passo inicial para responder a essas perguntas consiste em estabelecer critérios para a divisão das unidades produtivas em pequenas e grandes propriedades rurais. Adotaremos aqui a classificação utilizada por Prado Jr. (1945a, p.693), em que as propriedades até 25 alqueires foram definidas como pequenas, as maiores que 25 a 100 alqueires como médias e as maiores que 100 alqueires como grandes propriedades. Alguns anos depois, Sérgio Milliet acrescentou mais uma categoria à classificação de Caio Prado Jr. a fim de contemplar diferenças entre as grandes propriedades. Milliet definiu as grandes propriedades como aquelas maiores que 100 até 500 alqueires e uma nova classe - latifúndio - para as unidades maiores que 500 alqueires, critério que também é adotado a seguir (Milliet, 1939/1982a, p.70).13 Apesar da arbitrariedade implícita no critério, a classificação torna possível organizar as informações das propriedades rurais sob um princípio uniforme, permitindo compará-las entre as regiões.14

A Tabela 10 apresenta a participação da área plantada com café no total da área cultivada das pro priedades rurais em São Paulo no início do século XX, segundo as classes de tamanho das propriedades agrícolas definidas por Caio Prado Jr. e Sérgio Milliet.

Tabela 10 Participação do Café na Área Cultivada por Tamanho da Propriedade, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Pequena Propriedade Média Propriedade Grande Propriedade Latifúndio
Capital 1,7 0,6 1,1 0,0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 22,6 45,1 58,6 58,7
Sorocaba 7,3 7,7 9,0 11,8
Central 27,5 43,9 64,3 41,4
Mogiana 58,3 70,0 73,9 64,7
Paulista 43,1 55,0 66,0 66,5
Araraquarense 52,1 64,2 20,6 46,5
Noroeste 24,3 30,2 48,1 63,8
Alta Sorocabana 44,0 56,8 68,9 59,8
Baixa Sorocabana 4,8 6,7 7,1 2,6
Santos e Litoral Sul 2,0 6,7 12,6 58,3
Estado de São Paulo 36,1 52,6 51,3 55,3

Notas: Cálculo baseado nos dados individuais de 48.013 propriedades rurais do estado de São Paulo. Tamanhos das propriedades de acordo com a classificação de Prado Jr. (1945a) e Milliet (1939/1982a): i) pequenas propriedades: de 0 a 25 alqueires; ii) médias propriedades: de 25 a 100 alqueires; iii) grandes propriedades: de 101 e 500 alqueires, e iv) latifúndios: maiores que 500 alqueires. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Os dados referem-se a informações individuais de 48.013 propriedades rurais pesquisadas pela Estatística Agrícola de 1904-1905. Os ajustes realizados nos dados originais consistiram principalmente em excluir as propriedades cujas informações sobre área e produção eram incompletas ou inexistentes.

Os dados da tabela indicam que, em São Paulo, propriedades maiores tendiam a possuir áreas relativamente mais extensas de terras cultivadas com café, principalmente quando as pequenas propriedades são comparadas com as outras classes de tamanho. No conjunto do estado, as pequenas propriedades destinavam 36,1% de sua área cultivada para a produção de café, contra 52,6% das médias propriedades, 51,3% das grandes propriedades e 55,3% dos latifúndios. A exceção notável a essa tendência ocorreu na região da Araraquarense, em que as pequenas propriedades dedicaram mais terras ao café (52,1%) do que as grandes propriedades rurais e latifúndios (20,6% e 46,5%, respectivamente).15 A alocação de terras para o café também era elevada (em relação à média estadual) entre as pequenas propriedades de outras duas regiões tipicamente cafeeiras (Mogiana, 58,3%; Paulista, 43,1%), além da Alta Sorocabana (44%). Esses números demonstram que o produto de exportação típico da época era atraente também para os pequenos proprietários e que a concentração no cultivo do café nas maiores regiões produtoras abrangia todas as classes de produtores rurais.

Já as médias propriedades (52,6%) tinham uma participação marginalmente mais alta do café na área cultivada do que as grandes propriedades (51,3%) no total do estado de São Paulo (Tabela 10). Esse resul tado geral foi determinado pela elevada participação do café nas médias propriedades da Araraquarense (64,2%), muito superior à das grandes propriedades (20,6%) e dos latifúndios (46,5%). Considerando o estado como um todo, os latifúndios possuíam a maior área relativa plantada com cafeeiros (55,3%), embora a diferença com relação às médias (52,6%) e grandes (51,3%) propriedades tenha sido marginal. Além disso, em quatro regiões - inclusive a maior produtora, a Mogiana, além da Central, Capital e Alta Sorocabana - os latifúndios possuíam relativamente menos terras dedicadas ao café do que as grandes propriedades; e em outras três (Central, Araraquarense e Capital), menos área cultivada com café do que as médias ou pequenas propriedades. Essas figuras são uma clara evidência de que o cultivo do café não se expandiu linearmente com o tamanho da propriedade e que houve variações regionais significativas em comparação com os resultados agregados do conjunto do estado de São Paulo.

É possível também medir a atração que o café exercia para um amplo espectro de produtores agrícolas estimando o grau de especialização de cada propriedade individual segundo sua classificação por tamanho. Para tanto, utilizamos o mesmo índice de especialização calculado na seção anterior (conf. Tabela 8), mas agora aplicado às propriedades individuais. A Tabela 11 atesta que, na média do estado de São Paulo, os maiores índices de especialização na produção cafeeira eram encontrados nas grandes propriedades, seguidas pelos latifúndios. Em três zonas específicas, os latifúndios apareciam como as unidades mais especializadas no café - Mogiana com 71,1% e Noroeste com 43,8%, além de um produtor marginal, Santos e Litoral Sul, com 9,1%. No entanto, as maiores diferenças na especialização das grandes propriedades em relação às médias e pequenas ocorriam nas antigas regiões do café, o Vale do Paraíba e a Central. Nelas, grandes propriedades e latifúndios tinham um percentual de especialização igual ou superior à média do estado, enquanto as pequenas e médias apresentavam percentuais signifi cativamente menores que os registrados para o estado como um todo (ver Tabela 11). Na ausência de dados comparativos para décadas anteriores, o domínio das propriedades maiores possui duas explicações possíveis: seja porque, na sua época áurea, as grandes propriedades e os latifúndios das antigas regiões eram mais especializados do que os seus similares nas novas zonas do café ou, o que parece mais provável, o declínio da cafeicultura nas regiões antigas levou a uma maior diversificação produtiva das pequenas e médias propriedades.

Tabela 11 Propriedades Especializadas em Café segundo Classes de Tamanho, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Pequena Propriedade Média Propriedade Grande Propriedade Latifúndio
Capital 0,1 0,3 1,1 0,0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 14,7 31,4 47,1 43,9
Sorocaba 4,4 2,7 4,8 4,8
Central 23,5 25,5 56,4 39,6
Mogiana 51,3 66,1 68,7 71,1
Paulista 31,6 46,6 60,3 49,5
Araraquarense 38,0 45,9 43,6 43,8
Noroeste 13,9 20,0 31,0 43,8
Alta Sorocabana 31,8 42,4 50,7 38,9
Baixa Sorocabana 2,7 2,9 4,4 1,9
Santos e Litoral Sul 1,1 1,2 3,6 9,1
Estado de São Paulo 24,9 35,8 47,4 40,3

Notas: Especialização da produção agrícola medida pelo índice definido no texto (ver equação na página 396). Cálculo baseado nos dados individuais de 22.051 propriedades rurais com área cultivada com café no estado de São Paulo. Tamanhos das propriedades de acordo com a classificação de Prado Jr. (1945a) e Milliet (1939/1982a): i) pequenas propriedades: de 0 a 25 alqueires; ii) médias propriedades: de 25 a 100 alqueires; iii) grandes propriedades: de 101 e 500 alqueires, e iv) latifúndios: maiores que 500 alqueires. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

No que diz respeito às outras classes de tamanho, mais uma vez a Araraquarense se distinguiu pelo maior peso relativo (45,9%) das médias propriedades especializadas em café do que as grandes propriedades (43,6%) e os latifúndios (43,8%), da mesma forma que ocorria com as médias propriedades (42,4%) da Alta Sorocabana em relação aos latifúndios (38,9%). Por sua vez, 24,9% das pequenas propriedades eram especializadas na produção de café no estado. Acompanhando a tendência das outras classes de propriedades, esse percentual subia acentuadamente entre as pequenas unidades agrícolas das regiões tipicamente cafeeiras: 31,6% no caso da Paulista, 38,0% na Araraquarense e 51,3% na Mogiana, a maior zona produtora no início do século XX (Tabela 11).

Assim, embora as grandes propriedades tendessem a ser mais especializadas na produção de café, as pequenas propriedades também apresentavam elevados níveis de especialização na produção cafeeira, sobretudo nas zonas de expansão do café. Tal fato não é surpreendente dada a capacidade da lavoura do café adaptar-se a diferentes tamanhos de propriedade e regimes de trabalho (Gudmundson, 1989, p.221; Roseberry, 1995, pp.5–7; Topik & Clarence-Smith, 2003, pp.386–94). Uma implicação é que a ideia amplamente difundida de que a produção de café em São Paulo foi realizada basicamente em grandes fazendas, com alta capitalização e elevadas economias de escala - antítese do que ocorria, por exemplo, na Venezuela, Costa Rica e em partes da Colômbia -, deve ser qualificada.16 O mesmo se aplica às análises que associam pequenas unidades produtivas no Brasil fundamentalmente ao mercado interno, constituindo um mundo oposto ao domínio da exportação e das grandes propriedades.17 As pequenas e médias propriedades acompanharam a tendência de especialização regional e também foram atraídas para a produção de exportação, tendo em algumas zonas produtoras superado as grandes propriedades ou os latifúndios em seu grau de especialização na produção do café.

Uma questão complementar é saber qual era o perfil daquelas unidades que produziam bens tradicio nalmente destinados ao consumo interno. A Tabela 12 apresenta a participação relativa das propriedades (por classes de tamanho) especializadas na produção de um produto típico de consumo interno, o milho, que era utilizado como alimento da população humana e dos animais de criação.

Tabela 12 Propriedades Especializadas em Milho segundo Classes de Tamanho, São Paulo, 1904-1905 

Regiões Pequena Propriedade Média Propriedade Grande Propriedade Latifúndio
Capital 54,5 87,3 84,9 66,7
Vale do Paraíba e Litoral Norte 63,2 53,4 41,8 46,7
Sorocaba 85,9 94,9 95,5 92,1
Central 78,1 77,7 58,1 64,4
Mogiana 56,4 40,3 38,8 37,4
Paulista 65,8 58,8 50,2 58,6
Araraquarense 64,4 59,5 61,1 62,5
Noroeste 87,1 84,0 81,0 68,8
Alta Sorocabana 72,7 67,0 60,4 64,6
Baixa Sorocabana 75,5 83,7 86,7 92,4
Santos e Litoral Sul 3,4 16,1 1,2 18,2
Estado de São Paulo 65,9 62,4 55,6 61,5

Notas: Especialização da produção agrícola medida pelo índice definido no texto (ver equação na página 396). Cálculo baseado nos dados individuais de 36.266 propriedades rurais com área cultivada com milho no estado de São Paulo. Tamanhos das propriedades de acordo com a classificação de Prado Jr. (1945a) e Milliet (1939/1982a): i) pequenas propriedades: de 0 a 25 alqueires; ii) médias propriedades: de 25 a 100 alqueires; iii) grandes propriedades: de 101 e 500 alqueires, e iv) latifúndios: maiores que 500 alqueires. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Como é possível ver na tabela, as pequenas propriedades apresentavam um número relativo (65,9%) de unidades especializadas em milho superior ao das demais classificações de propriedades por tamanho no estado de São Paulo - tanto as médias (62,4%) e grandes propriedades (55,6%) como os latifúndios (61,5%). Esses dados demonstram que as pequenas propriedades possuíam uma tendência maior de especializarem-se em produtos voltados ao mercado interno, bastando comparar com o percentual visto anteriormente de pequenas propriedades (24,7%) especializadas em café. Os menores índices de especialização das pequenas propriedades - em relação à média do estado - foram registrados nas zonas tipicamente cafeeiras (Mogiana, Paulista e Araraquarense), Capital, Vale do Paraíba e Santos e Litoral Sul, essa última tradicionalmente especializada em arroz e produtos diversos.18 Ainda assim, os números acima também indicam que um elevado percentual de grandes propriedades especializava-se na produção de alimentos - 55,6% das grandes propriedades e 61,5% dos latifúndios. No caso das regiões do café, a proporção de latifúndios e grandes propriedades especializados em milho variou entre 37 e 63% do total. Nas regiões de Sorocaba e Baixa Sorocabana os percentuais foram ainda mais elevados, com cerca de 87% a 96% dos latifúndios e grandes propriedades especializando-se na lavoura de milho (Tabela 12).

Estas evidências complementam o que foi visto anteriormente a respeito do café, demonstrando que generalizações comuns sobre a posição de pequenas e grandes propriedades não são consistentes com o observado na economia agrária de São Paulo no início do século XX. Embora um maior número relativo de pequenas propriedades tenha se especializado na produção de mantimentos, sobretudo nas zonas com menor presença de café, a parcela de grandes propriedades e latifúndios especializada em milho e outros alimentos foi também substancial, provavelmente contribuindo para o atendimento ao consumo doméstico desses bens, conforme será visto a seguir.

6. PEQUENAS E GRANDES PROPRIEDADES NA OFERTA AGRÍCOLA

Embora um grande número de pequenas propriedades tenha se especializado em café, e um número ainda maior em alimentos, uma questão diferente é o peso relativo de sua produção no total da oferta dos bens agrícolas. A produção de café por parte das pequenas propriedades possuía alguma expressão quantitativa, como parecem sugerir os indicadores de área cultivada e especialização produtiva vistos anteriormente? Da mesma forma, qual era o peso da produção de café e alimentos nas grandes propriedades? A produção de alimentos era dominada por pequenas propriedades, como dá a entender boa parte da historiografia?

Conforme mostra a Tabela 13, no início do século XX a produção de café concentrava-se nas três zonas especializadas nesse produto: Mogiana (33,8%), Paulista (21,2%) e Araraquarense (15,8%). A antiga região Central (12,1%) e a nova área de expansão na Alta Sorocabana (10,4%) também exibiam uma participação expressiva na produção cafeeira. A zona pioneira do café no início do século XIX, constituída pelo Vale do Paraíba e Litoral Norte, já havia declinado para uma produção marginal (5,4%), enquanto as regiões restantes tinham participação negligível.

Tabela 13 Produção de Café por Regiões, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Produção de Café
Capital 0,03
Vale do Paraíba e Litoral Norte 5,4
Sorocaba 0,69
Central 12,1
Mogiana 33,8
Paulista 21,2
Araraquarense 15,8
Noroeste 0,29
Alta Sorocabana 10,4
Baixa Sorocabana 0,31
Santos e Litoral Sul 0,08
Estado de São Paulo 100

Fonte: São Paulo (1906-1907).

A distribuição da produção do café segundo o tamanho das propriedades agrícolas é resumida na Tabela 14. As grandes propriedades (46,6%) concentravam a maior parte da produção cafeeira em São Paulo, seguidas por médias propriedades (23,5%) e latifúndios (22,3%), ficando as pequenas unidades em posição marginal (7,6%) no total da produção do estado. Considerando as zonas cafeeiras principais, as grandes propriedades e os latifúndios somados produziam 59% do total do café na Araraquarense, 72% na Mogiana e 77% na Paulista. As médias propriedades respondiam por uma parcela substantiva do café sobretudo na Araraquarense (com 32,6% do total), superando inclusive os latifúndios (15,0%). As propriedades médias também produziam mais café do que os latifúndios nas regiões produtoras secundárias: a Central (24,8% contra 11,1%) e Alta Sorocabana (24,3% contra 17,7%), além do Vale do Paraíba e Litoral Norte (30,7% contra 12,8%).

Tabela 14 Produção de Café por Classes de Tamanho das Propriedades, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Pequena Propriedade Média Propriedade Grande Propriedade Latifúndio Total
Capital 63,9 26,5 9,6 0,0 100,0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 16,3 30,7 40,1 12,8 100,0
Sorocaba 11,9 30,2 41,5 16,5 100,0
Central 9,1 24,8 55,1 11,1 100,0
Mogiana 7,2 20,8 44,5 27,6 100,0
Paulista 4,9 18,0 47,3 29,7 100,0
Araraquarense 8,6 32,6 43,8 15,0 100,0
Noroeste 3,6 11,8 22,5 62,1 100,0
Alta Sorocabana 6,8 24,3 51,3 17,7 100,0
Baixa Sorocabana 13,3 29,3 35,1 22,3 100,0
Santos e Litoral Sul 2,3 22,9 18,5 56,3 100,0
Estado de São Paulo 7,6 23,5 46,6 22,3 100,0

Notas: Cálculo baseado nos dados individuais de 21.010 propriedades rurais com produção registrada de café no estado de São Paulo. Tamanhos das propriedades de acordo com a classificação de Prado Jr. (1945a) e Milliet (1939/1982a): i) pequenas propriedades: de 0 a 25 alqueires; ii) médias propriedades: de 25 a 100 alqueires; iii) grandes propriedades: de 101 e 500 alqueires, e iv) latifúndios: maiores que 500 alqueires. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Uma explicação para os percentuais relativamente altos dos latifúndios na produção cafeeira da Mogiana e Paulista pode ter sido o fato dessas regiões estarem, na época, entre as zonas mais novas e dinâmicas na produção do café. Sérgio Milliet (1939/1982b), por exemplo, argumentou que o declínio do café nas regiões mais antigas (Vale do Paraíba e Central) levou à diversificação agrícola e à repartição de terras, aumentando a presença das pequenas e médias lavouras. Contudo, diante da ausência de dados comparáveis de períodos anteriores, não é possível afirmar se a proeminência do latifúndio frente à média propriedade na Mogiana e na Paulista deveu-se ao dinamismo da lavoura cafeeira nessas regiões de expansão recente ou a características institucionais locais de posse da terra.19 Além disso, as médias propriedades na Alta Sorocabana, por exemplo, produziam relativamente mais café (24,3%) do que os latifúndios (17,7%), mesmo sendo essa região, na época, uma área de fronteira da cafeicultura (Tabela 14).

No caso de um produto típico destinado ao mercado doméstico, o milho, a produção revela-se menos concentrada e com uma distribuição distinta daquela do café entre as regiões do estado de São Paulo, de acordo com a Tabela 15.20 A antiga zona Central aparece como a maior região produtora (19,1%), acompanhada pelas regiões cafeeiras da Paulista (16,9%), Mogiana (15,6%) e Araraquarense (14,0%). Novamente contrastando com o cultivo de café, outras regiões não cafeeiras registraram produção expressiva: Vale do Paraíba (10,4%), Baixa Sorocabana (7,4%) e Sorocaba (6,5%), além da Alta Sorocabana (8,6%).

Tabela 15 Produção de Milho por Regiões, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Produção de Milho
Capital 0,99
Vale do Paraíba e Litoral Norte 10,4
Sorocaba 6,5
Central 19,1
Mogiana 15,6
Paulista 16,9
Araraquarense 14
Noroeste 0,59
Alta Sorocabana 8,6
Baixa Sorocabana 7,4
Santos e Litoral Sul 0,06
Estado de São Paulo 100

Fonte: São Paulo (1906-1907).

Tal como ocorria com o café, contudo, a maior produção de milho teve lugar nas grandes propriedades, com 33,9% da colheita no estado de São Paulo (Tabela 16). As médias propriedades também vinham em segundo lugar com 27,8%, seguidas pelos latifúndios, que chegavam a 20,5% da produção estadual. As pequenas propriedades apresentavaram a menor contribuição relativa (17,8%) na oferta de milho, mas sua participação era, ainda assim, mais de duas vezes superior à observada no caso do café (17,8% contra 7,6%).21 O cultivo do milho era uma atividade majoritariamente de pequenas propriedades apenas em duas regiões, a Capital e o Vale do Paraíba e Litoral Norte, onde alcançavam 46,9% e 33,8% do total produzido, respectivamente. Em outras duas zonas, Central e Araraquarense, as pequenas propriedades produziam mais do que os latifúndios, algo que não ocorria nas demais regiões. Já na Baixa Sorocabana a maior produção relativa era encontrada nos latifúndios, uma característica que não se observa em qualquer outra região de São Paulo na época. Esses resultados díspares tornam difícil generalizar as características da produção de milho (e feijão) de uma região para o conjunto do estado de São Paulo.

Tabela 16 Produção de Milho por Classes de Tamanho das Propriedades, São Paulo, 1904-1905 (em %) 

Regiões Pequena Propriedade Média Propriedade Grande Propriedade Latifúndio Total
Capital 46,9 31,0 19,1 3,0 100,0
Vale do Paraíba e Litoral Norte 33,8 29,3 27,4 9,6 100,0
Sorocaba 10,4 33,2 38,0 18,2 100,0
Central 19,6 30,7 32,7 17,1 100,0
Mogiana 16,1 24,4 38,8 20,7 100,0
Paulista 11,7 21,1 38,5 28,6 100,0
Araraquarense 20,1 34,0 32,8 13,1 100,0
Noroeste 13,0 33,6 23,6 29,7 100,0
Alta Sorocabana 17,2 30,0 34,4 18,5 100,0
Baixa Sorocabana 8,3 20,1 26,1 45,5 100,0
Santos e Litoral Sul 9,2 52,2 25,7 13,0 100,0
Estado de São Paulo 17,8 27,8 33,9 20,5 100,0

Notas: Cálculo baseado nos dados individuais de 37.163 propriedades rurais com produção registrada de milho no estado de São Paulo. Tamanhos das propriedades de acordo com a classificação de Prado Jr. (1945a) e Milliet (1939/1982a): i) pequenas propriedades: de 0 a 25 alqueires; ii) médias propriedades: de 25 a 100 alqueires; iii) grandes propriedades: de 101 e 500 alqueires, e iv) latifúndios: maiores que 500 alqueires. 1 alqueire = 2,42 hectares ou 24.200 metros quadrados.

Fonte: São Paulo (1906-1907).

De uma maneira geral, portanto, a produção de um bem tipicamente destinado ao mercado doméstico como o milho apresentava uma distribuição regional distinta da produção cafeeira, mas não se distinguia de forma apreciável da lavoura do café no que diz respeito à contribuição das grandes propriedades à oferta agrícola.

7. CONCLUSÕES

Duas conclusões gerais podem ser extraídas da análise realizada nas seções anteriores. Essas conclusões corroboram os estudos de geógrafos e historiadores das primeiras décadas do século XX que retrataram um quadro diversificado de especializações agrícolas no estado de São Paulo em meio à grande expansão cafeeira, mas ao mesmo tempo adicionam novas evidências e dimensões que complementam tais estudos. Em primeiro lugar, a especialização exclusiva no cultivo do café no início do século XX restringiu-se àquela que era então a maior região exportadora do mundo - a Mogiana. Outras zonas cafeeiras especializadas no café (Araraquarense e Paulista) possuíam estruturas agrárias mais diversificadas, o que determinou o fato aparentemente paradoxal de que as três regiões especializadas em café estavam entre aquelas com a maior área cultivada com os principais produtos (arroz, milho e feijão) destinados ao mercado doméstico.

As demais regiões especializaram-se em produtos do mercado interno, mesmo que o café cultivado em zonas como a Central, o Vale do Paraíba e a Alta Sorocabana tenha ocupado uma parcela significativa da área plantada do produto no conjunto do estado. Deste modo, uma análise mais sensível às variações regionais possibilita identificar características importantes da estrutura e dos mercados agrários que em geral são suprimidas por análises agregadas da economia de São Paulo durante a expansão cafeeira.

A segunda conclusão geral diz respeito às propriedades rurais individuais. As grandes propriedades foram aquelas por excelência especializadas na produção do café, mas as pequenas propriedades também apresentaram altos índices de especialização no produto, particularmente nas zonas cafeeiras, indicando que a produção de exportação era atraente para proprietários de todos os tamanhos. Por consequência, a noção de que o cultivo do café era tipicamente o domínio das grandes propriedades, com elevadas economias de escala e capitalização, deve ser pelo menos qualificada tanto nas comparações tradicionais do café na América Latina (Brasil em contraste com Venezuela, Costa Rica e partes da Colômbia) como nas análises específicas sobre o Brasil. De forma análoga, a despeito da tendência de maior especialização das pequenas propriedades nos produtos de consumo doméstico, as grandes propriedades apresentaram altos índices de especialização no cultivo de produtos típicos do mercado interno, como arroz, feijão e milho.

As informações relativas ao volume de produção agrícola reforçam essa última conclusão. Os dados de produção mostram que as grandes propriedades ocupavam um lugar central tanto no cultivo do produto de exportação quanto em alguns dos mais importantes produtos do mercado interno no estado de São Paulo do início do século XX. Os latifúndios também detinham uma participação significativa da oferta de ambos tipos de produtos, embora estivessem em uma posição secundária em relação às médias propriedades. Na época, a oferta desses produtos para o mercado interno só foi dominada por pequenas propriedades em regiões específicas, a Capital e o Vale do Paraíba e Litoral Norte. Em outras, a produção de mantimentos podia ser majoritariamente realizada em grandes propriedades ou até latifúndios, como na Baixa Sorocabana.

Estes resultados demonstram que a generalização para o estado de São Paulo ou para o Brasil de evidências encontradas em localidades ou regiões específicas pode levar a uma imagem distorcida da posição ocupada por pequenas e grandes propriedades do século XIX e início do século XX. E que é preciso revisar noções arraigadas - inclusive em trabalhos recentes - sobre a natureza das estruturas agrárias dos produtos de exportação e do mercado interno na história brasileira.

1Entre os principais trabalhos do início do século XX com essa perspectiva, ver Deffontaines (1936a, 1936b); Denis (1909); James (1932); Milliet (1939/1982b); Monbeig (1937); Platt (1935); Prado Jr. (1945b); Sampaio (1900–1901).

2Ver o Apêndice para a classificação das regiões de São Paulo e seus municípios.

3Uma formulação clássica da visão dual que opõe grandes e pequenas propriedades na economia de exportação é a de Prado Jr. (1945/1969, pp.163–4 e 248–52). Ver também Camargo (1952, p.191) e Costa (1966/1998, pp.75 e 522). Críticos de Caio Prado Jr. também compartilham da mesma visão: ver uma análise explícita (para o Rio de Janeiro) nesses termos em Castro (1987, pp.22–61) e de Castro (1988).

5Para essa interpretação no período aqui tratado, ver: Cano (1981, pp.60–61) e Font (1990, pp.18–21).

7Calculado com dados de exportação para 1910, extraídos de Brasil (1917, p.117).

8Milliet (1939/1982b) utilizou dados de 1836, 1854, 1886, 1920 e 1935.

9Os dados foram extraídos da edição crítica da Estatística Agrícola realizada por Bassanezi & Francisco (2003).

10Seis municípios não tiveram suas informações publicadas (conf. Bassanezi & Francisco, 2003): Apiaí, Iguape, Itú, Mogi das Cruzes, Santa Isabel e Tietê. Por esse motivo, a Tabela 2 totaliza os dados disponíveis de 165 municípios e suas propriedades.

11Von Delden Laerne (1885), pp.241 e 246–7. Sobre o amplo consumo de milho no planalto paulista, Holanda (1956/1994).

12O índice de especialização corresponde ao coeficiente de localização usado em várias disciplinas. Ver Nakamura & Paul (2009, pp.306–7).

13A classificação de Caio Prado Jr. é apresentada e discutida com mais detalhe em Colistete & Lamounier (2014, pp.12–13).

14Como observou José Francisco Camargo, “No caso do Estado de São Paulo, por exemplo, uma propriedade de 100 alqueires pode, conforme a zona em que se situe, representar uma propriedade pequena, média ou grande”; mesmo assim, argumenta o autor adiante, tal tipo de classificação é “ordinariamente a base de medida mais usual e compreensiva.” (Camargo, 1952, pp.189–90).

15As pequenas propriedades da região da Capital também tiveram maior participação de café na área cultivada, mas essa proporção era ínfima (1,7%, conf. Tabela 10).

16Exemplos deste tipo de comparação para a América Latina: Yarrington (1997, p.64); Solbrig (2008, p.508). Para a visão clássica da grande propriedade como domínio exclusivo do café no Brasil, Prado Jr. (1945/1969, pp.163-4 e 248-52); Costa (1966/1998, pp.75 e 522).

18Os dados desses produtos relativos a Santos e Litoral Sul não são apresentados no texto.

19Para o efeito de características institucionais locais sobre a concentração da propriedade em parte da região da Mogiana, ver Bacellar (1999).

20Os resultados descritos a seguir para a produção de milho são semelhantes aos do feijão, cujos dados não são apresentados aqui por razões de espaço.

21Esses resultados conflitam com o que Font (1995) afirma que seria a estrutura agrária de São Paulo alguns anos depois: segundo o autor, os pequenos proprietários rurais dominavam a produção para o mercado interno em São Paulo na década de 1920. Ver também Font (1990, cap.1).

*Agradeço aos participantes do 10º Congresso Brasileiro de História Econômica, em Juiz de Fora; do 42º Encontro Nacional de Economia, em Natal; e especialmente a Maria Lúcia Lamounier e Pedro Garcia Duarte pelos comentários e sugestões a uma versão preliminar deste trabalho.

APÊNDICE. CLASSIFICAÇÃO DAS REGIÕES DE SÃO PAULO E SEUS MUNICÍPIOS

Zona Municípios
Capital Capital (1558), Conceição dos Guarulhos (Guarulhos, 1880), Cotia (1856), Itapecerica (1877), Juqueri (Mairiporã, 1889), Santo Amaro (1832), São Bernardo (São Bernardo do Campo, 1889)
Vale do Paraíba e Litoral Norte Areias (1816), Bananal (1832), Santo Antônio da Bocaina (Cachoeira Paulista, 1880), Buquira (Monteiro Lobato, 1880), Caçapava (1855), Cruzeiro (1871), Cunha (1785), Guararema (1898), Guarantiguetá (1651), Jacareí (1656), Jambeiro (1876), Jataí (1887), Lagoinha (1880), Lorena (1788), Mogi das Cruzes (1611), Natividade (Natividade da Serra, 1863), Paraibuna (1832), Patrocínio de Santa Izabel (Igaratá, 1873), Pindamonhangaba (1705), Pinheiros (Lavrinhas, 1881), Queluz (1842), Redenção (Redenção da Serra, 1877), São José do Barreiro (1859), São José dos Campos (1767), Salesópolis (1857), Santa Branca (1856), Santa Isabel (1832), São Bento do Sapucaí (1858), São Luis do Paraitinga (1773), Silveiras (1864), Taubaté (1645), Tremembé (1896), Vila Vieira do Piquete (Piquete, 1891), Caraguatatuba (1857), São Sebastião (1636), Ubatuba (1637), Vila Bela (Ilhabela, 1806)
Sorocaba Araçariguama (1874), Campo Largo de Sorocaba (Araçoiaba da Serra, 1857), Espírito Santo da Boa Vista (Angatuba, 1885), Guareí (1880), Itapetininga (1771), Parnaíba (Santana de Parnaíba, 1625), Piedade (1857), Pilar (Pilar do Sul, 1891), São Roque (1832), Sarapuí (1872), Sorocaba (1661), Tatuí (1844), Una (Ibiúna, 1857)
Central Atibaia (1769), Bragança (Bragança Paulista, 1797), Cabreúva (1859), Campinas (1797), Capivari (1832), Indaiatuba (1859), Itatiba (1857), Itú (1654), Jundiaí (1655), Monte Mor (1871), Nazaré (Nazaré Paulista, 1850), Piracaia (1859), Piracicaba (1821), Porto Feliz (1797), Rio das Pedras (1894), Salto de Itú (Salto, 1889), Santa Bárbara (Santa Bárbara d’Oeste, 1869), SãoJoão do Curralinho (Joanópolis, 1895), São Pedro (1881)
Mogiana Amparo (1857), Batatais (1839), Caconde (1864), Cajurú (1865), Casa Branca (1841), Cravinhos (1897), Espírito Santo do Pinhal (1877), Franca (1821), Itapira (1858), Ituverava (1885), Jardinópolis (1898), Mococa (1871), Mogi-Guaçu (1877), Mogi-Mirim (1769), Nuporanga (1885), Patrocínio do Sapucaí (Patrocínio Paulista, 1885), Pedreiras (Pedreira, 1896), Ribeirão Preto (1871), Santa Rita do Paraíso (Igarapava, 1873), Santo Antônio da Alegria (1885), São João da Boa Vista (1859), SãoJosé do Rio Pardo (1885), São Simão (1865), Serra Negra (1859), Sertãozinho (1896), Socorro (1871),Tambaú (1898)
Paulista Anápolis (Analândia, 1897), Araraquara (1832), Araras (1871), Barretos (1885), Bebedouro (1894), Belém do Descalvado (Descalvado, 1865), Jaboticabal (1867), Leme (1895), Limeira (1842), Pirassununga (1865), Pitangueiras (1893), Porto Ferreira (1896), Rio Claro (1845), Santa Cruz da Conceição (1898), Santa Cruz das Palmeiras (1885), Santa Rita do Passa Quatro (1885), São Carlos do Pinhal (1865)
Araraquarense Bariri (1890), Boa Esperança (1898), Boa Vista das Pedras (Itápolis, 1891), Brotas (1859), Dois Córregos (1874), Dourados (Dourado, 1897), Ibitinga (1890), Jaú (1866), Matão (1898), Mineiros (Mineiros do Tietê, 1898), Monte Alto (1895), Pederneiras (1891), Ribeirão Bonito (1890), Ribeirãozinho (Taquaritinga, 1892), São João da Bocaina (Bocaina, 1891), São José do Rio Preto (1894)
Noroeste Bauru (1887)
Alta Sorocabana Avaré (1875), Botucatu (1855), Campos Novos do Paranapanema (Campos Novos Paulista, 1885), Espírito Santo do Turvo (1885), Fartura (1891), Lençóis (Lençóis Paulista, 1865), Pereiras (1889), Piraju (1880), Remédios do Tietê (Anhembi, 1891), Rio Bonito (Bofete, 1880), Santa Bárbara do Rio Pardo (Águas de Santa Bárbara, 1876), Santa Cruz do Rio Pardo (1876), São João de Itatinga (Itatinga, 1896), São Manoel do Paraíso (São Manuel, 1885), São Paulo dos Agudos (Agudos, 1898), São Pedro do Turvo (1891), Tietê (1842)
Baixa Sorocabana Apiaí (1771), Bom Sucesso (1885), Capão Bonito do Paranapanema (Capão Bonito, 1857 e 1868), Faxina (Itapeva, 1769), Iporanga (1873 e 1936), Itaporanga (1871), Itararé (1896), Lavrinhas da Faxina (Itaberá, 1891), Ribeirão Branco (1892), São Miguel Arcanjo (1889), Santo Antonio da Boa Vista (Itaí, 1891), Xiririca (Eldorado, 1842)
Santos e Litoral Sul Cananéia (1587), Conceição de Itanhaém (Itanhaém, 1549 ou 1579), Iguape (1635 ou 1638), Santos (1545), São Vicente (1700)

Nota: os anos de fundação referem-se às datas em que foram publicadas as leis de criação das vilas, que não necessariamente coincidem com as suas datas de instalação.

Fontes: Camargo (1952); Holloway (1974); Milliet (1939/1982b). Informações sobre datas de fundação de acordo com São Paulo (1888) e Seade, “Histórico da Formação dos Municípios de São Paulo” (http://www.seade.gov.br/produtos/500anos).

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