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Revista Brasileira de Enfermagem

Print version ISSN 0034-7167On-line version ISSN 1984-0446

Rev. Bras. Enferm. vol.32 no.3 Brasília  1979

http://dx.doi.org/10.1590/0034-716719790003000003 

Artigos

ASPECTOS EMOCIONAIS DÁ CRIANÇA

Cléa Alves F. Fernandes* 

*Docente da Universidade Federal Fluminense.

Há várias teorias sobre a infância e o ser humano em sua evolução, e em todas o aspecto emocional é inerente. De um lado temos as teorias geneticistas e no lado oposto o ambientalismo incluindo a teoria E-R (estímulo-reação).

Os geneticistas e os psicólogos biologístas vêem o ser humano, desde o seu início, como um organismo complexo que agirá sobre (não é um ser passivo) e reagirá ao mundo sobretudo e apesar do contexto, de acordo com o contingente genético que herdou. Esta teoria nos diz da predominância do biológico sem contudo negar que deste surge o "psiquismo"; este tem também iniciativas próprias, idéias autóctonas, independente do meio (aliás, esta última assertiva tem embasamento filosófico surgindo de Descartes e mais modernamente do próprio Kant: as idéias inatas.) Então para eles o aspecto emocional é, pois, herdado, e manifestado pelo temperamento. As manifestações emocionais surgem ao longo do intercâmbio com o meio. Realmente, há um consenso entre diferentes teorias de que o temperamento,isto é, o lado emocional é a parte mais expressiva da personalidade e é herdada, e de difícil modificação.

A criança logo ao nascer manifestará reações emotivas, ora sendo predominantemente tranqüila, ora predominantemente mais agitada, e nesses dois adjetivos inclui-se uma série de nuances; a medida que cresce será mais risonha ou mais chorosa independente da alimentação e do conforto que recebe. Este enfoque predominou na Europa. Tanto que caráter engloba o que nós chamamos de personalidade com predomínio da volição, do alto controle emocional daquilo que nos é dado pela natureza.

De outro lado os ambientalistas colocam a ênfase no social, no contexto, e repetem a velha história de Locke de que o ser humano, no seu psiquismo, é como uma tábula rasa: vai se formando ou vai aprendendo conforme o meio, sendo este o fator predominante do desenvolvimento da Personalidade, Skinner (atualmente) em passado recente Hull, Thorndike, em resumo, a psicologia anglo-americana defende hoje em dia, mas em termos, esta teoria. Para eles o lado emocional vai depender desde cedo do reunir contexto familiar especialmente da díade mãe e filho, que logo de início é condicionado às situações sócio-econômicas da família ampliando-se pouco a pouco para os contextos sociais de grupos maiores: bairro, escola, igreja, clube, partido, etc...

O aspecto emocional, então, terá uma tônica valorativa de acordo com a receptividade de cada criança ao seu ambiente: ótimo, bom, regular e péssimo. O contexto será a variável mais importante. O bebê amado, bem nutrido e que consiga um bom relacionamento isto é, seja aceito e receba elementos de "enriquecimento" psicológico com seus pais é a criança feliz ou sadia, é o futuro adolescente que emergirá da crise da adolescência sem grandes traumas.

Entre estes dois enfoques opostos temos, atualmente, que a maioria dos psicólogos colocam o desenvolvimento da criança como sendo o resultado da interação dos fatores herança e meio numa intimidade intensa, aqui e ali ressaltando-se os casos extremos do predomínio ou da herança ou do meio.

Entre estas teorias, a Psicanálise (mesmo deturpada por muitos) é a mais explícita, a mais rica e que abrange o desenvolvimento da criança e formação da personalidade como a tônica básica na emoção — que é herdada, mas simultaneamente condicionada. Como é sabido, Freud fala do desenvolvimento psíquico-emocional ao qual fica subjacente a máxima motivação que é a realização da vida sexual. Para ele esta começa com a fase oral (o infante pela sua oralidade satisfaz necessidades vitais, alimentares), mas desfruta do prazer sensual, por ele próprio, e que vem da sucção. A boca é a região erótica mais importante. Aqui um parêntese retrospectivo: Freud colocou a emoção e a motivação como aspectos quase simultâneos e complementares do comportamento humano. Chegou a esta conclusão através do seu labor terapêutico com neuróticos e na observação assistemática e sistemática do ser humano ao seu redor e pela sua auto-análise. Descobriu que o inconsciente era a parte básica do psiquismo e que deste através as experiências, a formação dos traços mnemônicos têm-se o pré-consciente; a consciência surge com a maturação, aprendizagem. Enriqueceu este seu 1º sistema topográfico, ao qual chamou "Aparelho Psíquico" com os construtos Id, Ego e Superego — A tríplice nomenclatura é a própria estrutura da personalidade em Freud.

No infante tudo é Id, que é inconsciente e refere-se à vida instintiva, manifestada por atos chamados instintivos e reflexos; estes atos são sempre acompanhados de uma tonalidade de prazer ou desprazer. A criança manifesta sua emoção pelo choro, grito — no caso de desprazer e dor; enquanto a expressão plácida, sono tranqüilo, o sorriso no caso de satisfação, de alegria, etc... tudo isto é a emotividade. O Ide rege-se pelo Princípio do Prazer. .

Vemos, desde cedo, que esta emotividade será tanto mais positiva, se idealmente um recém-nascido sadio — libera a mãe ou o primeiro ser significante, a atender em tempo ótimo as necessidades básicas do neném, isto é, suprir alimentos e não só isto — dar aconchego e conforto ao mesmo. Este aconchego não implica em excessos de carícias e ininterrupta atenção. Quer dizer uma dosagem ótima de quem realmente ama o infante, aceita-o como ele é. Esta atitude maternal conseqüente não se improvisa — ela deveria estar presente desde a concepção e perdurar pelos 9 meses de gestação através o cuidado da gestante com a própria saúde pelo seu bem-estar e por um bom desenvolvimento fetal, em resumo: a vontade de ter um filho sadio. Há teóricos que dizem e demonstram expressivamente que os bebês já nascem carentes quando são rejeitados pela mãe (mesmo que negue) estes não atingirão uma formação sadia mesmo obtendo dieta correta. Sobre o assunto temos Bald-wing, Spitz Montagu entre outros autores. Freud, nas obras relativas ao assunto, tinha a idéia que cada um nasce com uma estrutura básica psíquica própria (o id) uns tendendo a uma dificuldade maior para a formação egóica normal.

M. Klein uma discípula de Freud (mas radical que o mesmo) já coloca que o conflito inato do ser humano, desde cedo, apresenta manifestações típicas as quais ela chamou posições: a esquizoparanóide e a posição maníaca-depressiva. Tudo isto referente ao relacionamento parcial e total com o objeto erótico, ou seja, o seio e a mãe. A meu ver há um radicalismo no enfoque Kleiniano. Confesso, entretanto, que respeito os clínicos Kleinianos pela eficácia de sua terapia em crianças.

Continuando Freud, a formação do ego na criança vai surgindo ao longo de suas experiências com objetos no mundo exterior. É pela maturação do seu sistema nervoso, ou melhor, do organismo como um todo que o infante vai sendo capaz de ir memorizando experiências de insatisfações: fome, sede, frio, solidão e também memorizando experiências de satisfações como saciar fome, calor adequado, aceitação, etc... e assim capta e repete comportamentos adequados de ações e reações num mundo de objetos. Após algum tempo a criança é um ser que já se diferencia do que há ao seu redor (já percebe — não é só um organismo com sensações difusas de prazer e desprazer). O ego está pois em formação pela transformação do id; o ego é o sub-sistema que executa os impulsos da vida instintiva mas, agora, regida pelo Princípio de Realidade. Nesta época a criança em relações íntimas com o triângulo familiar (filho, mãe, pai) e porventura irmãos, começa a comunicar-se com outros (há o desenvolvimento da linguagem) e a descoberta, pela marcha, de uma mais larga porção do mundo exterior. Então a família é o próprio contexto essencial que dará os elementos para a formação de um ego vital, forte. A emotividade, nesta fase de formação egóica, manifesta-se pela satisfação da vida instintiva, via a sexualidade que se desloca da boca (não totalmente) para outras partes do corpo; o ânus e o falus; são as fases, anal e fálica que se apresentam por uma série de manifestações ativas e subjetivo-psíquicas na criança. Na chamada fase fálica, de modo geral, a criança domina a língua, e pela marcha é fisicamente independente; o seu relacionamento com os pais tende ainda ser espontâneo mas existe ainda uma dependência emocional maior com a mãe — uma atração que é conflitiva pois há o medo da autoridade paterna, a "censurar" o comportamento apetitivo; esta crise é chamada Complexo de Édipo (por volta dos 5-6 anos) é manifestada por diversos recursos emocionais: ataques de ciúmes; teimosia excessiva; negatividade; agressividade; e surtos de ternura; tudo isto revelando ambivalências de sentimentos, amor-ódio em relação ao progenitor preferido. É a idade crítica por excelência dos problemas emocionais da criança que não são, muitas vezes, compreendidos pelos pais; especialmente o pai fica sendo a figura da "autoridade enfática" — que mais tarde se projetará em qualquer autoridade. É claro que a mãe possessiva e dominante, é também o fator de relações negativas nesta fase. Quando a crise edipiana é ultrapassada com a tomada de consciência pela criança das limitações que sua vida pulsiva deve ter, forma-se estrutura de superego. Este elemento que vem de impressões de fora pela censura, tabus, pela moral vigente, completa o sistema da personalidade do ser humano ainda em desenvolvimento, e sempre sujeito às modificações. Nesta fase a integração social da criança terá um aumento decisivo — desde que haja identificação satisfatória com um dos pais. No caso do menino, com o pai; e no caso da menina, com a mãe. Este desenvolvimento em contínuo é sempre marcado pela emocionalidade. Após a fase fálica vem o período de lactância, no dizer de Freud — uma pausa de sexualidade explícita que se demonstra por interesses outros em grupos sociais mais amplos, fora da família. E o contexto familiar, o escolar e outros darão os elementos necessários ao crescimento mental-sócio-cultural-emocional da criança. O organismo infantil sendo saudável e o contexto não repressor — a criança lucra em aprendizagem de múltiplos assuntos as emoções da sexualidade básica e latente são demonstradas pelo prazer lúdico, a competitividade e aquisição da sublimação erotiva propriamente dita em sentimento de ternura e sentimento de amizade e o sentimento solidariedade este ainda que incipiente.

Em seguida, chega-se a puberdade — uma nova fase em que as modificações orgânicas especialmente a maturação hormonal faz do indivíduo um novo ser — é quase um novo nascimento pelo que se descobre no mundo com penetração, acuidade de espírito crítico etc. É dos períodos mais difíceis da vida humana. Nele o problema de identificação se direciona em definitivo. No mundo ocidental contemporâneo o fenômeno da adolescência está tomando uma tônica de agressividade extrema, temos a violência em grau máximo por diversos motivos econômicos-sociais-políticos. Este assunto é tão grande — e foge ao esquema dessa palestra. Aqui, é preciso dizer, que no enfoque freudiano a crise pubertária leva ao primado da sexualidade amadurecida — isto é, à genitalidade, que em termos mais comuns é a busca do amor heterosexual.

A meu ver tudo que Freud apresentou através seus construtos e dinâmica correlata da libido é válido, evitando-se naturalmente o radicalismo do fundador da Psicanálise. Hoje em dia, o culturalismo e outras correntes demonstram que o primado sexual como motivação psicanalítica é o símbolo da necessidade psicofísica mais premente do ser humano: o amor. Na expressão de Jasper: "o amor é o primeiro estímulo para o desenvolvimento emocional-social e há boas razões para crer que a carência de amor na infância produz como conseqüência uma personalidade dominada pela ansiedade". M. Klein coloca carência afetiva da díade filho e mãe como atitudes que fixam e aumentam a esquizodia e/ou a depressão própria do ser humano desde o seu início. Spitz coloca a carência extremada como causa de mortalidade, estudo comatoso e retardo mental do infante.

E a própria Sociologia moderna, na pessoa de um dos seus expoentes, Talcot Parsons, utiliza a teoria sistêmica freudiana e a interpreta como sendo o próprio Freud um pioneiro do sociologismo já que valorizou as relações humanas desde o mini-grupo — mãe-filho; o triângulo familiar filho-mãe-pai, a família nuclear e as projeções dessas relações nos grupos maiores do contexto social ,a comunidade, a sociedade civil. Nesses dois sistemas: 1) personalidade em desenvolvimento e 2) sistema social, a interrelação é tanto maior e melhor quando os aspectos emocionais nos dois sistemas se integraram formando uma síntese harmoniosa. Nessa síntese, isto é, segurança e afeto abrangendo todas as necessidades do indivíduo, faz com que cada indivíduo aprenda a amar e ser o futuro pai ou mãe que preservará a hominidade da espécie humana.

FERNANDES, C.A.F. - Aspectos emocionais da criança. Rev. Bras. Ent.; DF, 32.: 251-254, 1979.

*Trabalho apresentado na Semana de Enfermagem - ABEn - RJ. - Maio 1979.

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