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Revista Brasileira de Enfermagem

versão impressa ISSN 0034-7167

Rev. bras. enferm. vol.56 no.5 Brasília set/out. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0034-71672003000500005 

Distúrbios osteomusculares e qualidade de vida em trabalhadores envolvidos com transporte de pacientes1

 

Disturbios osteomusculares y calidad de vida en trabajadores encargados dei transporte de pacientes

 

Musculoskeletal disorders and qua/ity of life from health care providers working with patient transfer

 

 

Rita de Cássia Rodrigues da Silva CéliaI; Neusa Maria Costa AlexandreII

IEnfermeira, Mestre do Programa de Pós-graduação do Departamento de Enfermagem da FCM da UNICAMP, docente na Fundação de Ensino Otávio Bastos (FEOB)
IIEnfermeira, Professor Associado do Departamento de Enfermagem da FCM da UNICAMP, Coordenadora do Grupo de Pesquisa: Saúde do Trabalhador e Ergonomia-CNPq, Pós-Doutorado New York University. E-mail do autor:neusalex@fcm.unicamp.br

 

 


RESUMO

O estudo teve por objetivo avaliar os sintomas osteomusculares, a qualidade de vida e as tarefas percebidas como mais fatigantes em trabalhadores de um Serviço de Transporte de Pacientes da Prefeitura de uma cidade do interior de São Paulo. Para coleta de dados utilizou-se um questionário composto por dados demográficos e ocupacionais; um instrumento adaptado do "Nordic Questionnaire"; um questionário de avaliação da qualidade de vida (SF 36) e a escala de BORG. Dos participantes, 82% referiram algum tipo de dor osteomuscular nos últimos 12 meses. A qualidade de vida apresentou-se comprometida nos aspectos dor, aspectàs sociais e vitalidade. Os trabalhadores sentem que todas as atividades relacionadas ao transporte de pacientes exigem grandes esforços em relação ao comprometimento do sistema osteomuscular.

Descritores: distúrbios osteomusculares; qualidade de vida; ergonomia


RESUMEN

El estudio tuvo por objetivo evaluar los sintomas osteomusculares, la calidad de vida y las tareas percibidas como las más fatigosas para los trabajadores de un Servicio de Transporte de Pacientes dei Ayuntamiento de una ciudad dei interior de São Paulo. Para la recolección de datos se utilizó un cuestionario compuesto por datos demográficos y ocupacionales; un instrumento adaptado dei "Nordic Questionnaire"; un cuestionario de evaluación de la calidad de vida (SF 36) y la escala de BORG. De los participantes, el 82% refirió algún tipo de dolor osteomuscular en los últimos 12 meses. La calidad de vida se presentó comprometida en los aspectos dolor, aspectos sociales y vitalidad. Los trabajadores creen que todas las actividades relacionadas ai transporte de pacientes exigen grandes esfuerzos en 10 que se refiere a comprometer el sistema osteomuscular.

Descriptores: disturbios osteomusculares, calidad de vida. ergonomia


ABSTRACT

The aim of this study was to evaluate muscoskeletal symptoms, quality of life and tasks perceived as most tiring by health care workers performing a patient transfer service for a city hall administration in the countryside of São Paulo state. A questionnaire was used for collecting demographic and occupational data; an instrument derived from the "Nordic Questionnaire"; a questionnaire to evaluate quality of life (SF 36) and the BORG scale. In this study, 82% workers reported at least one musculoskeletal symptom over the twelve previous months. Quality of life was affected in the following aspects: pain, social aspects, and vitality. Workers felt that ali tasks related to patient transfer required intense physical effort which compromised their musculoskeletal system.

Descriptors: musculoskeletal disorders, quality of life, ergonomics


 

 

1 Introdução

No Brasil, a preocupação com a saúde do trabalhador, manifestou-se com maior intensidade na década de 60 e alcançou maior repercussão em 1972 quando o país foi considerado campeão mundial de acidentes de trabalho(1). Particularmente, as lesões músculo-esqueléticas representam um sério problema humano e econômico, podendo afetar a qualidade de vida de milhões de trabalhadores, temporária ou definitivamente(2). Entende-se por lesões músculo-esqueléticas relacionadas a fatores ocupacionais as afecções que envolvem nervos, tendões, músculos e estruturas de suporte do corpo. Não são tipicamente resultados de alguma atividade eventual, são causadas por processo crônico influenciado pela atividade do trabalho. O elevado índice de absenteísmo ao trabalho, motivado por lesões músculo­esqueléticas, ocasiona significativo prejuízo à instituição e ao trabalhador aumentando a insatisfação com o trabalho, gerando muitas vezes invalidez crônica e problemas psicológicos nos trabalhadores. É elevada a ocorrência dessas lesões, em trabalhadores da indústria, construção civil, coletores de lixo e trabalhadores de enfermagem(2,3).

A literatura tem destacado os trabalhadores da área de saúde como um grupo de risco em relação ao desenvolvimento de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho, particularmente as algias vertebrais(4). Sabe-se que os problemas na coluna nesses trabalhadores são originados por inúmeros fatores interrelacionados, destacando-se o transporte de pacientes(5,6).

O Ministério da Saúde, em seu Protocolo de Investigação, Diagnóstico, Tratamento e Prevenção de Lesões por Esforço Repetitivo, estabelece que, o diagnóstico clínico-ocupacional dessas lesões deve ser efetuado por uma equipe com profissionais de saúde obedecendo a um protocolo onde investiga-se, a história da moléstia atual, os equipamentos com os quais a pessoa trabalha (avaliação ergonômica), comportamentos e hábitos relevantes, antecedentes pessoais, história ocupacional, exame físico detalhado e exames complementares se necessário(7).

Neste contexto, considera-se de primordial importância avaliar os sintomas músculo-esqueléticos e os riscos ocupacionais em trabalhadores da área de saúde particularmente, os envolvidos com transporte de pacientes, tendo-se em vista que, a literatura nacional pouco tem discutido sobre o tema. O presente trabalho teve por objetivo avaliar os sintomas osteomusculares, a qualidade de vida e as atividades que exigem mais esforço para o sistema músculo-esquelético em trabalhadores que atuam no transporte de pacientes.

 

2 Metodologia

2.1 Campo da pesquisa

Foi estudado o Serviço de Transporte de pacientes da prefeitura de uma cidade do interior do estado de São Paulo que realiza transportes intermunicipais (de um municipio para outro ), e intramunicipal (que transporta pacientes de um local para outro dentro do município). Esse Serviço de Transporte funciona junto ao Pronto Socorro Municipal. A planta física não é favorável. As salas são distantes umas das outras, e a saída das ambulâncias é próximo da sala de emergência. O hospital (Santa Casa ), que dá suporte avançado para o Pronto Socorro, funciona em um local a 6 quilômetros de distância.

Os equipamentos disponíveis para realização de transporte dentro da instituição são; cadeiras de rodas e macas. Para o transporte externo, o serviço conta com 07 ambulâncias. Essas ambulâncias são de diferentes marcas e apresentam características diferentes em relação aos equipamentos de transporte de pacientes. Mas de uma forma geral, as macas não são do tipo retrátil. Dessa forma, para serem movidas apresentam um sistema de trilhos e exigem utilização de força física para transporte de pacientes. Apresentam ainda, alturas de suas macas diferentes em relação à altura da maca de transporte interno, o que também aumenta o esforço físico empregado na remoção dos pacientes. Somente uma ambulância é do tipo UTI, totalmente equipada.

2.2 Descrição dos sujeitos

Foram incluídos neste estudo auxiliares de enfermagem, atendentes de enfermagem, escriturários, guardas e motoristas que compõem o Serviço de Transporte. Foram excluídos os trabalhadores que estavam de licença saúde ou outro tipo de afastamento durante o período de coleta de dados.

Os atendentes, escriturários e os guardas exercem funções burocráticas como preenchimento de impressos e atendimento ao público em geral e, quando necessário, são solicitados para auxiliar na remoção de pacientes. Porém, os atendentes de enfermagem já trabalharam com transporte e movimentação de pacientes. Os motoristas não exercem apenas a função de dirigir, mas também participam ativamente dos procedimentos relacionados à transporte de pacientes. A carga horária a ser cumprida por esses trabalhadores é de 36 horas semanais, com turnos de 12 horas de trabalho e 36 horas de descanso, com direito a duas folgas mensais.

2.3 Coleta de dados

Optou-se por utilização de entrevista devido à complexidade dos dados e à baixa escolaridade de alguns dos trabalhadores envolvidos na pesquisa.

2.4 Instrumentos para coleta de dados

Foram utilizados quatro instrumentos abordando: questões sobre caracteristicas gerais e ocupacionais dos sujeitos; sintomas osteomusculares; qualidade de vida e atividades percebidas como mais fatigantes.

2.4.1 Dados gerais e ocupacionais

Contém questões com dados demográficos e aspectos ocupacionais compreendendo: nome, idade, escolaridade, peso e altura, sexo, ocupação, estado conjugal, carga horária de trabalho, turno de trabalho, tempo que trabalha na ocupação e a ocorrência, ou não, de outra atividade profissional. Este instrumento foi desenvolvido tendo como suporte teórico outras investigações. Foi também submetido à apreciação de seis especialistas que avaliaram sua objetividade e clareza(8-12).

2.4.2 Sintomas músculo-esqueléticos

Para avaliar as queixas músculo-esqueléticas foi utilizado um instrumento derivado do Questionário Nórdico, que foi adaptado para a língua portuguesa(13). Esse instrumento é respeitado internacionalmente, e tem como objetivo avaliar problemas músculo-esqueléticos dentro de uma abordagem ergonõmica(14-16). Contém uma figura humana, vista pela região posterior, que foi dividida em nove regiões anatõmicas ( 03 de membros superiores, 03 de membros inferiores e 03 de tronco). Compreende questões relativas à presença de dores músculo­esqueléticas, nos últimos 12 meses e nos últimos 7 dias, a ocorrência de incapacidade funcional em cada uma das nove regiões, e se houve procura por auxílio profissional área de saúde nos últimos 12 meses.

2.4.3 Qualidade de vida

Para verificar a qualidade de vida foi utilizado o questionário SF 36 (The Medical Outcomes Study 36-item Short­Form Health Survey)(17). Esse instrumento foi desenvolvido como um indicador genérico da avaliação do estado de saúde, podendo ser utilizado em pesquisas, na prática clínica e em avaliações de programas de saúde. Tem sido usado em estudos da população geral e em pacientes com diabetes, doenças pulmonares, problemas cardíacos, entre outros(18). Seu desenvolvimento teve como suporte teórico a definição multidimensional de saúde estabelecida pela Organização Mundial de Saúde. Ele aborda conceitos físicos e mentais e inclui escalas para avaliar as seguintes oito dimensões: capacidade funcional, aspectos físicos, dor, aspectos sociais, saúde mental, aspectos emocionais: vitalidade e aspecto geral de saúde(19). Cada uma dessas dimensões pode receber um escore de O a 100, sendo que O indica o pior estado de saúde possível e 100 o melhor. Deve-se avaliar cada dimensão em separado. A opção por esse questionário deve-se ao fato de já ter sido validado na cultura brasileira e também por ser considerado um instrumento simples, com questões diretas de fácil compreensão. Apresenta também propriedades psicométricas confiáveis(19,20).

2.4.4 Atividades que exigem mais esforço para o sistema músculo-esquelético em sua totalidade

A última parte do instrumento verificou as atividades de trabalho percebidas como mais fatigantes em relação ao comprometimento do sistema músculo-esquelético. A avaliação dos níveis dos esforços que os trabalhadores sentem durante a execução de atividades laborais tem se mostrado um método efetivo para identificar e priorizar tensões músculo-esqueléticas(12). Borg(21) desenvolveu as escalas mais usadas para determinar esforços percebidos durante o trabalho físico, No presente estudo foi utilizada a escala de RPE (Rating of Perceived Exertion), escala para determinação de esforço percebido(22).

Inicialmente foi construída uma lista descrevendo todas as atividades que exigem mais esforço do sistema músculo­esquelético, realizadas por esse grupo ocupacional, no que diz respeito a transporte de pacientes, durante a realização de seu trabalho. Estas atividades foram apresentadas a um grupo de 10 funcionários para que classificassem as tarefas que considerassem de maior para as de menor esforço físico/ muscular. Os sujeitos foram instruídos previamente sobre a escala e classificaram o esforço sentido segundo o indicador numérico, avaliando o esforço sentido em sua totalidade. A ordem das perguntas foi estabelecida de acordo com as respostas dos participantes do pré-teste. No presente estudo, todos os participantes estimaram o esforço sentido durante a realização de tarefas relacionadas ao transporte de pacientes, utilizando a escala de Borg(22), a qual apresenta escores de 06 a 20, sendo 06 considerado para tarefas sem nenhum esforço e 20 para os de máximo esforço.

2.5 Análise dos dados

Os dados foram inseridos no programa Microsoft Excel, versão 2000. A análise foi realizada com auxílio do Setor de Estatística da Comissão de Pesquisa da Instituição. Realizou­se uma análise descritiva dos dados que estão apresentados na forma de tabelas e analisados quantativamente. Para a análise estatística, comparou-se os grupos sem e com sintomas osteomusculares, nos últimos 12 meses, independentemente da região corporal afetada em relação aos dados gerais e ocupacionais, utilizando-se o teste exato de Fisher e o teste de Mann-Whitney. Consolidou-se que os grupos seriam estatisticamente diferentes quando o p-valor fosse menor ou igual a 0.05.

2.6 Aspectos Éticos

O protocolo da pesquisa recebeu o n. 203/2001 e obteve o parecer favorável do Comitê de Ética da Instituição. Os trabalhadores foram convidados a participar do estudo e os que concordaram em participar espontaneamente assinaram um termo de consentimento. Foi garantido o sigilo da identificação profissional.

 

3 Resultados

3.1 Dados gerais e ocupacionais

Entrevistou-se um total de 61 funcionários, que representou 96,8% de participação na pesquisa. Desses, 50,8% eram auxiliares de enfermagem, 34.5% motoristas, 6,5% atendentes de enfermagem, 3,3% escriturários e 4,9% guardas. A idade média foi de 41,2 anos (D.P. 8.9 e idades entre 21 e 58 anos). O peso médio foi de 75,17 kg (D.P. 16,12 e variando entre, 44 e 120 kg). A altura foi em média 1.68m (D.P. 0.09 e entre 1.50 e 1.80m), obtendo um fndice de Massa Corpórea médio de 26.6 (D.P.4.76, com mínimo de 18,31 e máximo de 41). Considerou­se que 40,9% apresentaram obesidade leve, 31,1 % normopeso, 118,1% obesidade moderada, 8,2% sobrepeso e 1,7% obesidade grave. Quanto ao sexo, 45,9% eram do sexo feminino e 54,1% do masculino. Quanto ao estado conjugal, 59,02% compartilhavam de uma união estável, 39,4% viviam só, e 1,6% não respondeu. Em média os entrevistados trabalham à 12,7 anos com transporte de pacientes (D.P. 6.84 variando de 0.90 à 26 anos). Quanto à carga horária de trabalho, os trabalhadores se ocupavam, em média, por 45,75 horas semanais ( D.P. 14.43 e mínimo de 36 e máximo de 76hs semanais).

3.2 Sintomas músculo-esqueléticos

Ao analisar os trabalhadores que apresentaram sintomas osteomusculares nos últimos 12 meses, independentemente da região corporal, obteve-se um resultado de 82%,sendo que as regiões mais atingidas estão relacionadas com a coluna vertebral. Os participantes apresentaram as mais elevadas taxas de sintomas músculo­esqueléticos, nos últimos 12 meses, nas regiões lombar (59%) e torácica (49,2%), seguidas pelas regiões tornozelo/pé (29,5%), cervical (27,9%) e quadril/coxa (21 ,3%). Com relação aos últimos sete dias, a região lombar continuou sendo a mais citada (11,5%), seguida da região cervical (9,8%), quadril/coxa e tornozelo/pé ambas com ( 8,2%). Com relação ao impedimento de realizar atividades normais devido os sintomas, a região lombar apresentou a maior taxa (26,2%), seguida das regiões torácica (11,5%), região cervical, punhos/mãos, quadril/coxa todas com (8,2%). Como justificativa para a procura por auxílio profissional da área de saúde, a dor região lombar foi a mais citada (26,2%), seguida da região torácica (11,5%), região cervical, punhos e mãos ambas (8,2%).

Em relação aos fatores de risco relacionados aos dados gerais e ocupacionais, foram encontrados uma associação estatisticamente significante entre as variáveis sexo (feminino), onde p=0,0046 e estado conjugal (união estável), p=0,0200.

3.3 Qualidade de vida

A qualidade de vida foi analisada através das oito dimensões que fazem parte do questionário da SF-36 e a Tabela 1 mostra a média e a mediana dos participantes com sintomas osteomusculares nos últimos 12 meses em cada uma destas dimensões.

 

 

Pode-se observar que o item referente à dor foi o de menor pontuação (41,5), seguido dos itens: aspectos sociais, com 45,5 pontos e vitalidade, 46.9 pontos. Como preocupantes observa-se os itens: estado geral de saúde com 51,7 pontos e saúde mental com 54,6 pontos.

3.4 Atividades que exigem mais esforço para o sistema músculo-esquelético em sua totalidade:

Para avaliar o esforço sentido para a realização de cada tarefa utilizou-se a escala de 8org, como observa-se na Tabela 2.

 

 

Segundo a percepção dos trabalhadores, as tarefas que requerem maior esforço para o sistema músculo­esquelético é segurar paciente agitado e transportar paciente do chão para a maca, com escore de 16,8, seguida pelas tarefas de transportar pacientes da maca da ambulância até a cama do paciente com escore de 16,2 e transportar pacientes da cama do paciente até a maca da ambulância, com um escore de 16,1. De uma forma geral, os trabalhadores sentem que todas as atividades relacionadas ao transporte de pacientes exigem grandes esforços em relação ao comprometimento do sistema osteomuscular com escores variando de 16,8 a 13,8.

 

4 Discussão

Na literatura, normalmente encontram-se estudos voltados para o transporte e movimentação de pacientes em instituições de saúde. Predominantemente, aqueles que fazem esta tarefa são os profissionais de enfermagem e do sexo feminino(11,23,24). Porém, a ocupação dos trabalhadores desta pesquisa foi basicamente de auxiliares de enfermagem, seguida de motoristas. Em relação ao sexo, houve uma pequena predominância do sexo masculino (54,1 %). A Portaria n.O 824 do Ministério da Saúde que dispõe sobre a Normatização dos Serviços de Atendimento Pré- Hospitalar Móvel de Urgência e o COREN (Conselho Regional de Enfermagem), em sua decisão COREN-SP-DIR/01/2001, determinam que cabe aos condutores de veículos, a função apenas de conduzir os veículos que executam este atendimento. A função e responsabilidade do transporte cabe à equipe de enfermagem e médica de acordo com a complexidade do casot(25,26).

Conforme os dados dos resultados, a idade média dos participantes foi 41 anos. Sabe-se que a idade para surgirem os sintomas osteomusculares, varia de 35 a 55 anos(3). Os resultados obtidos permitem afirmar que a média da população estudada se encontra dentro da faixa de risco. Com relação ao estado conjugal, 59% de participantes apresentaram união estável, e para as mulheres este fator representou risco para os sintomas osteomusculares, Também afirmam que mulheres que trabalham na saúde e somam as atividades do lar e cuidados prestados aos filhos, representam um grupo de risco para os sintomas osteomusculares pois há um acúmulo de tarefas que requerem esforço para o sistema músculo­esquelético(27) .

Já a carga horária de trabalho parece ser uma questão preocupante para os sintomas osteomusculares, pois, 38% dos trabalhadores trabalham mais de 40 horas semanais que é o máximo permitido pelas leis trabalhistas vigentes no país. O Protocolo de Investigação, Diagnóstico, Tratamento e Prevenção de Lesões por Esforço Repetitivo, avalia comportamentos e hábitos relevantes que o trabalhador possa ter e que influenciam na ocorrência de lesões músculo-esqueléticas(7).

Os resultados mostraram que os trabalhadores relataram uma elevada ocorrência de sintomas músculo­esqueléticos, sendo 82% nos últimos 12 meses independentemente da área afetada, Procurou-se comparar os resultados desta pesquisa com outras nas quais também foi avaliado a prevalência de sintomas osteomusculares nos últimos 12 meses e verificou-se que, em um estudo, 93% das trabalhadoras de enfermagem, e em outro, 92,7% dos dentistas avaliados apresentaram sintomas, no referido período(28,29). Esses dados mostram que os resultados apresentados nesta pesquisa estão próximos dos encontrados com trabalhadores da saúde em geral.

O grupo pesquisado apresentou uma ocorrência elevada de participantes com sintomas músculo-esqueléticos nas diversas regiões corporais, principalmente na coluna vertebral, sendo que a região lombar ficou em primeiro lugar, tanto ao avaliar-se os últimos 12 meses, como os últimos sete dias. Estes dados correspondem aos apresentados em pesquisas sobre prevalência de sintomas osteomusculares na enfermagem e, particularmente relacionadas a transporte de pacientes(3,6,30). A presença de sintomas na região lombar também demonstrou ser a maior causa de incapacidade funcional e procura por auxílio de profissionais da área da saúde.

Em relação a qualidade de vida, o presente estudo procurou mostrar essa questão em trabalhadores com sintomas osteomusculares. A dor foi apontada como o aspecto que mais influencia na qualidade de vida dos participantes, obtendo uma pontuação média de 41,5. No questionário SF 36 avalia-se a dor com relação à presença , intensidade e sua interferência nas atividades da vida diária(31). A dimensão denominada "aspectos sociais", analisa a integração do indivíduo em atividades sociais(31). Nos trabalhadores da presente pesquisa, também estão comprometidos, obtendo uma média de 45,5 pontos, A "vitalidade" que considera os níveis de energia e de fadiga(31), apresentou-se com uma pontuação média de 46.9, ficando em terceiro lugar. Em uma pesquisa na qual se utilizou o mesmo questionário em pacientes com fibromialgia, verificou-se que estes também relatavam muitas dificuldades em suas habilidades físicas e em sua saúde global, ficando assim com a vitalidade comprometida.

Sabe-se que as atividades relativas a transporte e movimentação de pacientes requerem muito esforço para a coluna, exigindo posturas inadequadas. Para o grupo de trabalhadores estudados, segurar paciente agitado, foi uma das tarefas que mais exige esforço para o sistema músculo­esquelético(23) . O serviço não dispõe de pessoal treinado para estas situações, não se conta também com equipamentos adequados, utilizando-se sempre de força física em espaços imprevisíveis e improvisados até que se consiga fazer a contenção com ataduras e lençóis.

Ao se transportar o paciente do chão para a maca, situação esta que ocorre quando o paciente encontra-se caído em algum local, dois trabalhadores realizam esta tarefa, retirando a maca da ambulância (esta não apresenta sistema retrátil de rodas), e colocando-a no chão. O paciente é colocado manualmente pelos dois trabalhadores na maca e esta é colocada novamente na ambulância, sem auxílio de nenhum recurso material para minimizar o esforço a ser exigido nesta tarefa. Salienta-se que esta atividade também foi considerada uma das tarefas mais penosas para o sistema osteomuscular.

O transporte de pacientes da ambulância para a cama da residência do paciente também apresentou-se como um problema. Há falta de equipamentos adequados e dificuldades com relação à planta física, visto que na maioria das casas as portas são estreitas, os corredores não permitem a passagem da maca e muitas vezes há escadas .. O espaço físico restrito limita os movimentos e é apontado como um dos fatores de risco para os sintoma osteomusculares em trabalhadores da saúde(32). Além disso, as camas geralmente são muito baixas. Autores recomendam a utilização de camas e macas com alturas ajustáveis, pois isto minimiza o esforço durante a manipulação de pacientes(33).

Transportar pacientes do carro da família para a maca ou cadeira de rodas também é uma atividade difícil. A falta de equipamentos auxiliares, treinamento e o fato das cadeiras de rodas não possuírem braços removíveis dificultam esses procedimentos. A utilização de equipamentos mecânicos e materiais auxiliares podem minimizar as forças compressiva na coluna vertebral(11,34). A questão do treinamento com uma abordagem ergonômica também deve ser destacado visto que a implementação de treinamentos e reciclagem é parte obrigatória de programas de prevenção de lesões osteomusculares(34).

Dessa forma, os dados apresentados sugerem que os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho de transportar pacientes representam um sério risco ocupacional para os trabalhadores, confirmando a necessidade de ampliar­se os estudos ergonômicos com relação ao transporte de pacientes para que se possa diminuir os fatores de risco.

 

5 Conclusão

Os resultados demonstraram que os trabalhadores apresentam uma ocorrência elevada de sintomas osteomusculares em diversas regiões corporais, afetando particularmente a coluna vertebral na região lombar. A dor lombar foi também uma das maiores causas de incapacidade funcional e procura por auxílio de profissional da área de saúde. Observou­se também que vários aspectos da qualidade de vida de trabalhadores .estão comprometidos, particularmente a dor, os aspectos sociais e a vitalidade.

Os trabalhadores sentem que todas as atividades relacionadas ao transporte de pacientes exigem grandes esforços para o sistema músculo-esquelético. Fatores ergonômicos como, diferenças na altura das camas com relação as macas e cadeiras de rodas; camas sem sistemas de alturas ajustáveis; falta de equipamentos auxiliares; planta física de residência imprevisíveis; equipamentos sem manutenção e inadequados e a falta de treinamento da equipe, podem estar contribuindo para o desenvolvimento de distúrbios osteomusculares nesse grupo ocupacional.

 

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Data de recebimento: 26/07/2003
Data de aprovação: 22/12/2003

 

 

1Parte da Dissertação de Mestrado do Curso de Pós-graduação da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)

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